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Bolcheviques

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Os bolcheviques iniciam a mudança do sistema político e econômico da Rússia.

Já em novembro de 1917 o governo nacionaliza as terras – 40% do solo era de propriedade da nobreza – e cede aos camponeses o direito exclusivo de sua exploração.

O controle das fábricas é transferido aos operários, os estabelecimentos industriais são expropriados pelo governo e os bancos nacionalizados.

Moscou passa a ser a capital do país.

Em março do ano seguinte os bolcheviques assinam a paz em separado com a Alemanha, em Brest-Litovsk, aceitando entregar a Polônia, a Ucrânia e a Finlândia.

Guerra Civil

Em 1918, após a assinatura da paz com a Alemanha, a Rússia vê-se tomada por uma sangrenta guerra civil.

Capitalistas e proprietários de terras, auxiliados por generais czaristas, políticos liberais, social-revolucionários, mencheviques e setores do campesinato, tentam retomar o poder dos bolcheviques.

Os contra-revolucionários são chamados de Brancos e os bolcheviques de Vermelhos. É uma oportunidade para o Reino Unido, França e Japão e, mais tarde, a Polônia tentarem derrubar o governo russo e colocar o país novamente na guerra contra a Alemanha. Para tanto, ajudam os contra-revolucionários Brancos com tropas, armas, munições e provisões.

Fuzilamento da família imperial

A conseqüência da vitória bolchevique é a instituição do Terror, com o fuzilamento sumário de milhares de pessoas.

O czar Nicolau II e sua família são executados pelos bolcheviques em Ekaterinburgo.

Ainda em 1918, uma socialista-revolucionária de direita, Fany Kaplan, comete um atentado contra Lenin, provocando um massacre em Petrogrado por parte da polícia bolchevique.

O processo revolucionário já não pode mais ser contido, as dissidências são esmagadas e a ameaça da contra-revolução afastada.

Formação da URSS

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas é criada em 1924 com a adoção de nova Constituição.

A criação de uma União é a fórmula encontrada pelos bolcheviques para conseguir manter unidos nacionalidades, etnias e territórios que pouco têm em comum. Segundo a Constituição de 1924, as repúblicas têm autonomia, proposta que nunca saiu do papel.

O poder é mantido por alguns líderes do Comitê Central por intermédio do Partido Comunista.

Fonte: www.geocities.com

Bolcheviques

Primórdios Bolcheviques

Teu espinhaço foi esmagado,
Minha época bela e lastimável,
E, com sorriso inane,
Olhas para trás, cruel e fraca,
Tal qual bicho que já passou do apogeu,
Para as marcas de suas patas. Osip Mandelstam, “Vek”

Um de meus objetivos é destruir o mito de que a fase mais cruel da
repressão começou em 1936-7. Penso que, no futuro, as estatísticas
mostrarão que a onda de prisões, condenações e degredos já se ini-
ciara no começo de 1918, antes mesmo da declaração oficial,
naquele outono, do “Terror Vermelho”. A partir daquele momento,
a onda simplesmente ficou cada vez maior, até a morte de Stalin. Dmitrii Likhachev, Vospominaniya

No ano de 1917, duas ondas revolucionárias cobriram a Rússia, varrendo a sociedade imperial como se esta fosse um castelo de cartas.

Depois que o czar Nicolau abdicou (em fevereiro), tornou-se extremamente difícil que alguém conseguisse deter ou controlar os acontecimentos.

Alexander Kerensky, o líder do primeiro governo provisório pós-revolucionário, escreveria que, no vácuo subseqüente ao colapso do antigo regime, “todos os programas políticos e táticos existentes, não importando quão ousados e bem concebidos, pareciam flutuar no espaço, sem rumo e sem utilidade”.

Mas, embora o governo provisório fosse fraco, embora o descontentamento popular fosse generalizado, embora a raiva com a carnificina causada pela Primeira Guerra Mundial fosse grande, poucos contavam que o poder caísse nas mãos dos bolcheviques, um dos vários partidos socialistas radicais que agitavam a favor de mudanças ainda mais rápidas. Fora do país, eles eram muito pouco conhecidos.

Uma narrativa apócrifa ilustra muito bem a atitude estrangeira: consta que, em 1917, um burocrata entrou às pressas no gabinete do ministro do Exterior austríaco, gritando: “Excelência, houve uma revolução na Rússia!”.

O ministro riu com desdém: “Quem conseguiria fazer uma revolução lá? Com certeza não esse inofensivo herr Trotski, lá no Café Central?”.

Se o caráter dos bolcheviques era um mistério, seu líder,Vladimir Iliich Ulianov (o homem que o mundo viria a conhecer pelo pseudônimo revolucionário “Lenin”), o era ainda mais. Durante seus muitos anos de revolucionário refugiado no exterior, Lenin fora reconhecido por conta de seu brilhantismo, mas também antipatizado por causa de sua imoderação e seu sectarismo. Vivia arrumando briga com outros líderes socialistas e tinha o pendor de transformar em grandes polêmicas as discordâncias menores sobre questões dogmáticas aparentemente irrelevantes.

Nos primeiros meses após a Revolução de Fevereiro, Lenin esteve muito longe de ocupar uma posição de autoridade inconteste, mesmo dentro de seu próprio partido. Ainda em meados de outubro de 1917, um punhado de lideranças bolcheviques se opunha a seu plano de desfechar um golpe de Estado contra o governo provisório; argumentavam que o Partido não estava pronto para tomar o poder e nem sequer tinha apoio popular. Lenin, porém, ganhou a discussão, e, em 25 de outubro, ocorreu o golpe. Sob a influência da agitação promovida por Lenin, uma turba saqueou o Palácio de Inverno. Os bolcheviques prenderam os ministros do governo provisório. Num período de horas, Lenin se tornara o líder do país, que ele rebatizou de Rússia Soviética.

No entanto, embora Lenin houvesse logrado tomar o poder, seus críticos bolcheviques não estavam de todo errados. Os bolcheviques estavam mesmo muitíssimo despreparados. Em conseqüência, a maioria das decisões iniciais deles, aí incluída a criação do Estado unipartidário, foi tomada para atender às necessidades do momento. O apoio popular aos bolcheviques era realmente fraco, e quase de imediato eles começaram a travar uma sangrenta Guerra Civil, apenas para que pudessem permanecer no poder. A partir de 1918, quando o Exército Branco (dos partidários do antigo regime) se reagrupou para combater o recém-criado Exército Vermelho (liderado pelo “herr Trotski” do “Café Central”), ocorreram nas regiões rurais da Rússia alguns dos combates mais brutais e encarniçados já vistos na Europa. E nem toda a violência se limitava aos campos de batalha. Os bolcheviques se desdobravam para suprimir todo tipo de oposição intelectual e política, atacando não apenas os representantes do antigo regime, mas também outros socialistas — mencheviques, anarquistas, social-revolucionários. Só em 1921 o novo Estado soviético conheceria relativa paz.

Nesse contexto de improvisação e violência, nasceram os primeiros campos soviéticos de trabalhos forçados. Assim como muitas outras instituições da URSS, foram criados de modo contingencial, às pressas, como medida de emergência no calor da Guerra Civil. Isso não significa que a idéia já não se mostrara atraente.

Três semanas antes da Revolução de Outubro, o próprio Lenin esboçava um plano (vago, é verdade) para organizar um “serviço laboral obrigatório”, destinado a capitalistas ricos. Em janeiro de 1918, irado com a intensidade da resistência antibolchevique, ele foi ainda mais veemente, escrevendo que veria com bons olhos “a prisão desses sabotadores bilionários que viajam em vagões de primeira classe. Sugiro sentenciá-los a seis meses de trabalhos forçados nas minas”.

A visão de Lenin dos campos de trabalhos forçados como forma especial de punição para certo tipo de “inimigo” burguês se coadunava com outras crenças suas sobre o crime e os criminosos. Por um lado, o primeiro líder soviético era ambivalente no que se referia ao encarceramento e punição dos criminosos tradicionais (ladrões, punguistas, homicidas), os quais considerava aliados em potencial. Na perspectiva de Lenin, a causa básica dos “excessos sociais”, ou seja, da criminalidade, era “a exploração das massas”. A eliminação dessa causa, acreditava ele, “levará ao esvanecimento dos excessos”.

Assim, não era necessário impor nenhuma punição especial para deter os criminosos: com o tempo, a própria Revolução os faria desaparecer. Por isso, parte da linguagem no primeiro Código Penal bolchevique teria reconfortado os reformadores penais mais radicais e progressistas do Ocidente. Entre outras coisas, o Código estabelecia que “não existe culpa individual” e que a punição “não deve ser encarada como vingança”.

Por outro lado, Lenin — assim como os teóricos jurídicos bolcheviques que o seguiram — também supunha que a criação do Estado soviético daria origem a um novo tipo de inimigo: o “inimigo de classe”.

Este se opunha à Revolução e trabalhava às claras (ou, mais freqüentemente, às escondidas) para destruí-la. O inimigo de classe era mais difícil de identificar que o inimigo comum, e muito mais difícil de regenerar. Diferentemente do que acontecia com o criminoso comum, nunca se podia confiar no inimigo de classe para cooperar com o regime soviético, e ele exigia punição mais severa que a dada ao homicida ou ladrão comum.

Em maio de 1918, por conseguinte, o primeiro “decreto da propina” promulgado pelos bolcheviques determinava:

Se o culpado de receber ou oferecer propina pertencer às classes ricas e usá-la para conservar ou adquirir privilégios relacionados aos direitos de propriedade, ele deverá ser condenado aos trabalhos forçados mais severos e rudes, e todas as suas posses deverão ser confiscadas.

Em outras palavras, desde os primeiros dias do Estado soviético, as pessoas seriam condenadas a cumprir pena não pelo que fizessem, mas pelo que fossem.

Infelizmente, ninguém jamais forneceu uma explicação clara do que exatamente era um “inimigo de classe”. Como conseqüência, o número de detenções de todo tipo aumentou em grau enorme após o golpe bolchevique.A partir de novembro de 1917, tribunais revolucionários, compostos de “partidários” da Revolução escolhidos de modo aleatório, começaram a condenar de maneira também aleatória “inimigos” da Revolução. Penas de prisão, de trabalhos forçados e até de morte se aplicavam arbitrariamente a banqueiros, esposas de comerciantes, “especuladores” (com o que se referiam a qualquer pessoa dedicada à atividade econômica independente), ex-carcereiros czaristas e todo o mundo que parecesse suspeito.

A definição do que e de quem não era “inimigo” também variava de um lugar para outro, às vezes coincidindo com a de “prisioneiro de guerra”. Ao ocupar uma cidade, o Exército Vermelho, de Trotski, freqüentemente fazia reféns burgueses, que poderiam ser fuzilados caso o Exército Branco voltasse, como muitas vezes acontecia ao longo das linhas cambiantes da frente de batalha. Nesse ínterim, tais reféns podiam ser postos para fazer trabalhos forçados, com freqüência abrindo trincheiras e construindo barricadas.A distinção entre presos políticos e criminosos comuns era igualmente arbitrária. Membros sem instrução das comissões e tribunais revolucionários temporários poderiam, por exemplo, resolver de súbito que um homem que fora apanhado ao viajar de trem sem ter pago passagem cometera delito contra a sociedade e condená-lo por crimes políticos.11 No fim das contas, muitas de tais decisões eram deixadas aos policiais ou soldados que faziam as prisões. Feliks Dzerzhinsky, fundador da Cheka (a polícia secreta de Lenin, antecessora da KGB), mantinha um caderninho preto no qual anotava os nomes e endereços de “inimigos” com os quais deparava aleatoriamente ao fazer seu trabalho.

Essas distinções continuariam vagas até o próprio colapso da URSS, oitenta anos depois. No entanto, a existência de duas categorias de presos — “político” e “comum” — teve profundo efeito sobre a formação do sistema penal soviético. Durante a primeira década de domínio bolchevique, as penitenciárias soviéticas até se cindiram em dois tipos, um para cada categoria. A divisão surgiu espontaneamente, como resposta ao caos do sistema prisional existente. Logo nos primeiros dias da Revolução, todos os prisioneiros eram encarcerados sob a jurisdição de alguma autoridade “tradicional” (primeiro o Comissariado da Justiça, depois o Comissariado do Interior) e colocados no sistema prisional “comum”. Ou seja, eram jogados nos remanescentes do sistema czarista, em geral nas prisões de pedra, sujas e sombrias, que ocupavam localização central em todos os grandes centros. Nos anos revolucionários de 1917 a 1920, essas instituições ficaram em total confusão.Turbas tinham invadido as cadeias, comissários autodesignados haviam demitido os guardas, prisioneiros tinham recebido amplas anistias ou simplesmente ido embora.

Quando os bolcheviques assumiram o controle, as poucas prisões que continuavam funcionando eram superlotadas e inadequadas. Já algumas semanas após a Revolução, o próprio Lenin exigia “medidas extremas para melhoria imediata do abastecimento de alimentos às prisões de Petrogrado”.Alguns meses depois, um integrante da Cheka de Moscou visitou a prisão Taganskaya e relatou “um frio e uma sujeira terríveis”, assim como tifo e fome.A maioria dos detentos não podia cumprir suas penas de trabalhos forçados porque não tinha roupas. Uma matéria de jornal alegava que a prisão Batyrka, também em Moscou, projetada para abrigar mil presos, já tinha 2.500. Outro jornal se queixava de que os Guardas Vermelhos “prendem assistematicamente centenas de pessoas todos os dias e não sabem o que fazer com elas”.

A superlotação suscitava soluções “criativas”. Na falta de coisa melhor, as novas autoridades encarceravam presos em porões, sótãos, palácios vazios e velhas igrejas.

Um sobrevivente recordaria que foi colocado no porão de uma casa abandonada, num único cômodo com cinqüenta pessoas, nenhuma mobília e pouca comida: quem não recebia alimento das próprias famílias simplesmente morria de inanição.

Em dezembro de 1917, uma comissão da Cheka discutiu o destino de 56 presos diversos (“ladrões, bêbados e ‘políticos’ variados”) que estavam sendo mantidos no porão do Instituto Smolny, o quartel-general de Lenin em Petrogrado.

Nem todos sofriam com as condições caóticas. Em 1918, Robert Bruce Lockhart, diplomata britânico acusado de espionagem (com justiça, aliás), foi aprisionado num porão do Kremlin. Ele se ocupava jogando paciência e lendo Tucídides e Carlyle. De tempos em tempos, um ex-serviçal imperial lhe trazia chá quente e jornais.

Mas, mesmo nas cadeias tradicionais remanescentes, o regime prisional era imprevisível, e os carcereiros, inexperientes. Na cidade de Vyborg, no norte da Rússia, um preso descobriu que, no bagunçado mundo pós-revolucionário, seu antigo motorista se tornara guarda de prisão. O homem ficou encantado em ajudar o ex-patrão a ir para uma cela melhor (mais seca) e, por fim, a escapar.Um coronel do Exército Branco também lembraria que, em dezembro de 1917, na prisão de Petrogrado, os detentos entravam e saíam à vontade e os sem-teto dormiam nas celas durante a noite. Recordando aquele tempo, um alto funcionário soviético diria que “só os muito preguiçosos não fugiam”.

A confusão obrigou a Cheka a apresentar soluções novas — os bolcheviques não podiam permitir que seus “verdadeiros” inimigos ficassem no sistema prisional comum. Cadeias caóticas e guardas indolentes podiam servir para punguistas e delinqüentes juvenis; mas, para os sabotadores, parasitas, especuladores, oficiais do Exército Branco, padres, capitalistas burgueses e outros que tanto assomavam na imaginação bolchevique, eram necessárias soluções mais criativas.

Uma delas foi encontrada já em 4 de junho de 1918, quando Trotski requereu que um grupo de prisioneiros tchecos refratários fosse pacificado, desarmado e colocado num konstlager — campo de concentração. Doze dias depois, num memorando endereçado ao governo soviético, Trotski tornou a falar em campos de concentração, prisões ao ar livre nas quais

a burguesia das cidades e vilarejos […] deverá ser mobilizada e organizada em batalhões de retaguarda para fazer serviço braçal — limpar casernas, acampamentos e ruas, cavar trincheiras etc. Quem se recusar deverá ser multado e mantido na cadeia até pagar a multa.

Em agosto, Lenin também se utilizou do termo konstlager. Num telegrama aos comissários de Penza (local de um levante antibolchevique), ele demandou que se empregasse “terror em massa contra os kulaks, padres e Guardas Brancos” e que os “elementos indignos de confiança” fossem “aprisionados num campo de concentração fora da cidade”.

As instalações já existiam: durante o verão de 1918 — na seqüência do Tratado de Brest-Litovsk, que pôs fim à participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial —, o regime libertou 2 milhões de prisioneiros de guerra, e os campos vazios foram de imediato transferidos para a Cheka.

Na época, a Cheka certamente pareceu a entidade ideal para assumir a tarefa de encarcerar “inimigos” em “campos” especiais. Organização totalmente nova, foi concebida para ser “a espada e o escudo” do Partido Comunista, não se subordinando ao governo soviético oficial nem a nenhum departamento deste. Não tinha nenhuma tradição de legalidade, nenhuma obrigação de respeitar o Estado de direito, nenhuma necessidade de consultar a polícia, os tribunais ou o comissário da Justiça.

O próprio nome indicava sua condição especial: a Comissão Extraordinária de Combate à Contra-revolução e à Sabotagem, ou (usando as iniciais russas de “Comissão Extraordinária”) Ch-K, Cheka. Era “extraordinária” justamente porque existia fora da legalidade “ordinária”.

Quase tão logo foi criada, a Cheka recebeu uma dessas tarefas extraordinárias. Em 5 de setembro de 1918, Dzerzhinsky foi instruído a implementar a política do Terror Vermelho, de Lenin. Lançada após um atentado contra a vida desse último, era uma onda de terror (detenções, encarceramentos, assassínios) mais organizada que o terror aleatório dos meses anteriores. Na realidade, tratava-se de um componente importante da Guerra Civil, sendo dirigido contra os suspeitos de atuarem para destruir a Revolução na “frente interna”. O Terror Vermelho foi sangrento, impiedoso e cruel — tal qual pretendiam seus perpetradores.

A Krasnaya Gazeta, órgão do Exército Vermelho, o descreveu:

Sem piedade, sem moderação, mataremos nossos inimigos às centenas e mais centenas. Ou melhor, aos milhares — deixemos que se afoguem no próprio sangue. Pelo sangue de Lenin […], deixemos que corram rios de sangue da burguesia — o máximo possível […].

A política do Terror Vermelho foi crucial na luta de Lenin pelo poder. Os campos de concentração, os chamados “campos especiais”, foram cruciais para o Exército Vermelho. Eram mencionados já no primeiro decreto do Terror Vermelho, que determinava não apenas a captura e encarceramento de “representantes importantes da burguesia, proprietários de terras, industriais, comerciantes, padres contra-revolucionários, oficiais anti-soviéticos”, mas também o “isolamento deles em campos de concentração”.

Embora não existam dados confiáveis sobre o número de prisioneiros, havia 21 campos registrados na Rússia no final de 1919.

No fim do ano seguinte, eram 107 — cinco vezes mais.

Naquele estágio, contudo, o objetivo dos campos permanecia ambíguo. Os prisioneiros deveriam trabalhar — mas com que propósito?

O trabalho se destinava a reabilitá-los? A humilhá-los? Ou a ajudar a construir o Estado soviético?

Diferentes líderes e instituições tinham diferentes respostas. Em fevereiro de 1919, o próprio Dzerzhinsky fez um discurso eloqüente para defender o papel dos campos na reabilitação ideológica da burguesia. Os novos campos

utilizarão a mão-de-obra dos detidos; dos senhores que vivem sem ter ocupação; e dos que só trabalham quando forçados.Tal punição deveria ser aplicada àqueles que atuam em instituições soviéticas e demonstram atitudes inconscienciosas no que se refere ao trabalho, à pontualidade etc. […] Dessa maneira, criaremos escolas de trabalho.

Mas na primavera de 1919, quando se publicaram os primeiros decretos sobre os campos especiais, prioridades ligeiramente diferentes pareceram assumir a precedência.

Os decretos (uma lista surpreendentemente longa de normas e recomendações) sugeriam que cada capital regional estabelecesse um campo, para não menos que trezentas pessoas, “no limite da cidade, ou em construções próximas como mosteiros, grandes propriedades, fazendas etc.”. Estipulavam uma jornada de trabalho de oito horas; horas extras e atividade noturna só seriam autorizadas quando “seguissem a lei trabalhista”. Os presos ficavam proibidos de receber comida de fora. Permitiam-se visitas de familiares imediatos, mas só nos domingos e feriados. Os presos que tentassem fugir uma vez teriam as penas multiplicadas por dez; os que tentassem de novo seriam punidos com a morte — procedimentos extremamente severos se comparados com a leniente legislação czarista, que os bolcheviques conheciam tão bem.

O mais importante: os decretos também deixavam claro que o trabalho dos presos se destinava não apenas a reabilitá- los, mas também a pagar pela manutenção dos campos. Presos com alguma incapacidade física deveriam ser mandados para outro lugar. Os campos deveriam ser auto-sustentáveis. De maneira otimista, os fundadores do sistema acreditavam que ele se pagaria.

Graças ao fluxo irregular de fundos estatais, quem administrava os campos logo se interessou pela idéia de autofinancia-se ou, pelo menos, fazer algum uso prático dos prisioneiros.

Em setembro de 1919, um relatório secreto apresentado a Dzerzhinsky se queixava de que as condições sanitárias num campo de trânsito estavam “abaixo da crítica”, em grande parte porque deixavam tanta gente doente e incapaz para o trabalho: “Na umidade do outono, não serão lugares para reunir pessoas e empregar sua mão-de-obra, mas viveiros de epidemias e outras enfermidades”. Entre outras coisas, o autor propunha que os incapacitados de trabalhar deveriam ser enviados para outro local, assim tornando o campo mais eficiente — tática que depois seria muitas vezes utilizada pela liderança do Gulag.

Já naquela época, os responsáveis pelos campos se preocupavam com a doença e a fome só na medida em que presos doentes e famintos não eram presos úteis.

A dignidade e a humanidade deles, para nem falar de sua sobrevivência, praticamente não interessavam aos encarregados.

Na prática, aliás, nem todos os comandantes se preocupavam com a reabilitação ou o autofinanciamento. Preferiam, isto sim, punir os ex-abonados, humilhando-os, dando-lhes um gostinho do sofrimento dos trabalhadores. Um relatório da cidade ucraniana de Poltava, redigido por uma comissão de inquérito do Exército Branco após a recaptura temporária do lugar, observava que os burgueses aprisionados durante a ocupação bolchevique haviam recebido tarefas que

se destinavam a escarnecer deles, tentando aviltá-los. Um detento, por exemplo […], foi obrigado a limpar com as mãos uma grossa crosta de terra num chão imundo. Mandaram outro limpar um sanitário e […] lhe deram uma toalha de mesa para fazer o serviço.

É bem verdade que essas sutis diferenças de intenção provavelmente faziam pouca diferença para as muitas dezenas de milhares de presos, muitos dos quais consideravam humilhação suficiente o simples fato de terem sido aprisionados por nenhum motivo. Elas provavelmente também não afetavam as condições de vida dos detentos, as quais eram horrorosas em toda a parte. Um padre enviado para um campo na Sibéria se recordaria da sopa de tripa, dos alojamentos sem eletricidade e do aquecimento praticamente inexistente no inverno.

Aleksandr Izgoev, político de destaque no período czarista, foi mandado para um campo ao norte de Petrogrado. No caminho, seu grupo de prisioneiros parou na cidade de Vologda. Em vez de encontrarem a comida quente e as acomodações aquecidas que lhes haviam sido prometidas, os presos foram conduzidos a pé de um lugar para outro, em busca de abrigo. Não se preparara nenhum campo de trânsito para eles. Por fim, foram alojados no que fora uma escola, “com bancos compridos e paredes nuas”. Quem tinha dinheiro acabou comprando a própria comida na cidade.

Todavia, esses tipos de maus-tratos caóticos não eram reservados apenas aos prisioneiros. Em momentos decisivos da Guerra Civil, as necessidades emergenciais do Exército Vermelho e do Estado soviético se sobrepunham a tudo o mais, da reabilitação à vingança, passando pelas considerações referentes ao que fosse justo ou injusto. Em outubro de 1918, o comandante da frente setentrional solicitou à comissão militar de Petrogrado oitocentos trabalhadores, urgentemente necessários para abrir estradas e trincheiras. Como conseqüência, “vários cidadãos das antigas classes mercantis foram convidados a comparecer ao quartel-general soviético, supostamente para serem registrados para possíveis funções de trabalho em alguma data futura.

Quando esses cidadãos apareceram para fazer tal registro, foram presos e mandados ao quartel Semenovsky, onde esperariam até ser despachados para a frente de batalha”. Quando nem isso resultou em número suficiente de trabalhadores, o soviete (conselho governante local) de Petrogrado simplesmente cercou parte da Nevsky Prospekt (a principal rua comercial da cidade), prendeu todos os que não tinham carteirinha do Partido nem atestado de que trabalhavam para uma instituição do governo e os fez marchar para um quartel ali perto. Mais tarde, liberaram-se as mulheres, mas os homens foram despachados para o norte; “nenhum dos que foram mobilizados dessa maneira estranha pôde antes resolver seus assuntos de família, despedir-se dos parentes ou obter trajes e calçados adequados”.

Embora certamente horrível para os pedestres assim detidos, esse episódio pareceria menos esquisito aos trabalhadores de Petrogrado — porque, mesmo naquele estágio inicial da história soviética, a distinção entre “trabalhos forçados” e trabalho comum era pouco clara.

Trotski falava abertamente em transformar o país inteiro num “exército de trabalhadores” ao estilo do Exército Vermelho. Desde cedo, os trabalhadores foram obrigados a registrar-se em repartições centrais do trabalho, de onde podiam ser enviados para qualquer parte do país.

Aprovaram-se decretos especiais que proibiam certos tipos de trabalhador (os mineiros, por exemplo) de largar seus empregos. Nesse período de caos revolucionário, os trabalhadores livres tampouco desfrutavam condições de vida muito melhores que as dos presos. Olhando de fora, nem sempre teria sido fácil dizer qual era o local de trabalho e qual era o campo de concentração.

Mas também isso era um prenúncio: durante a maior parte da década seguinte, as definições de “prisão”, “campo” e “trabalhos forçados” estariam permeadas de confusão. O controle das instituições penais continuaria mudando constantemente de mãos. Os departamentos responsáveis seriam rebatizados e reorganizados sem cessar, à medida que diferentes comissários e outros burocratas tentavam assumir o controle do sistema.

No entanto, evidencia-se que, no final da Guerra Civil, já se estabelecera um padrão. A URSS desenvolvera dois sistemas prisionais, com regras, tradições e ideologias distintas. O Comissariado da Justiça (e depois o Comissariado do Interior) administrava o sistema “regular”, que lidava principalmente com o que o regime soviético denominava “criminosos”.

Ainda que esse sistema também fosse caótico na prática, seus presos eram mantidos em prisões tradicionais, e os objetivos declarados de seus administradores, conforme apresentados num memorando interno, seriam perfeitamente compreensíveis em países “burgueses”: regenerar os criminosos pelo trabalho correcional — “os presos devem trabalhar para aprender habilidades que possam utilizar a fim de levar vida honesta” — e impedir que cometessem mais crimes.

Ao mesmo tempo, a Cheka (depois rebatizada GPU,OGPU,NKVD, MGB e, por fim, KGB) controlava outro sistema prisional, que de início era conhecido como sistema de “campos especiais”, ou “campos extraordinários”. Embora a Cheka usasse neles parte da mesma retórica de “reabilitação” e “regeneração”, esses campos não se destinavam mesmo a parecer instituições penais comuns. Estavam fora da jurisdição das outras instituições soviéticas e não eram visíveis ao público.Tinham normas especiais, penalidades mais duras para quem tentava fugir, regimes mais severos. Seus presos não haviam necessariamente sido condenados por tribunais comuns — se é que algum tribunal os condenara.Tais campos, estabelecidos como medida emergencial, acabaram por tornar-se maiores e mais poderosos, à medida que se ampliava a definição de “inimigo” e aumentava o poder da Cheka. E, quando os dois sistemas penais, o ordinário e o extraordinário, enfim se juntaram, eles o fizeram sob as regras do segundo.A Cheka devorou seus rivais.

Desde o início, o sistema prisional “especial” se destinava a lidar com prisioneiros especiais: padres, antigos altos funcionários czaristas, especuladores burgueses, inimigos da nova ordem. Mas uma categoria de presos políticos em particular interessava às autoridades mais que as outras. Tratava-se de membros dos partidos socialistas revolucionários não-bolcheviques, sobretudo os anarquistas, a esquerda e a direita social-revolucionárias, os mencheviques e todos os outros que haviam lutado pela Revolução,mas que não tiveram o tino de unir-se à facção bolchevique, de Lenin, e não tomaram parte por completo no golpe de outubro de 1917. Como ex-aliados no combate revolucionário contra o regime czarista, mereciam tratamento especial. O Comitê Central do Partido Comunista debateria repetidas vezes o destino deles, até o final dos anos 1930, quando a maioria dos que continuavam vivos foi presa ou fuzilada.

Em parte, essa categoria específica de prisioneiro incomodava Lenin porque, assim como todos os líderes de seitas exclusivistas, ele reservava aos apóstatas o maior ódio de que era capaz. Durante um colóquio típico, chamou um de seus críticos socialistas de “escroque”, “cãozinho cego”, “adulador da burguesia” e “lacaio de sanguessugas e canalhas”, que só servia para o “esgoto dos renegados”.

Aliás, muito antes da Revolução, Lenin já sabia o que faria com aqueles correligionários socialistas que se opunham a ele.

Um de seus companheiros revolucionários recordou uma conversa sobre o assunto:

Eu lhe disse: “Vladimir Iliich, se você chegar ao poder, vai começar a enforcar os mencheviques no mesmo dia”. Ele me deu uma olhadela e respondeu: “Só depois que tivermos enforcado o último social-revolucionário”. Aí, franziu as sobrancelhas e deu uma risada.

Contudo, os presos que pertenciam a essa categoria especial também eram bem mais difíceis de controlar. Muitos haviam passado anos em prisões czaristas e sabiam como montar greves de fome, como pressionar seus carcereiros, como estabelecer comunicação entre as celas para trocar informações, como organizar protestos em conjunto.

O mais importante: sabiam como contatar o exterior — e quem contatar por lá. A maior parte dos partidos socialistas russos não-bolcheviques ainda tinha diretórios de exilados (geralmente em Berlim ou Paris) cujos membros podiam causar grandes prejuízos à imagem mundial dos bolcheviques.

Em 1921, no III Congresso da Internacional Comunista, representantes do diretório externo dos social-revolucionários, o partido ideologicamente mais próximo dos bolcheviques (durante breve período, alguns de seus membros até chegaram a trabalhar em coalizão com esses últimos), leram em voz alta uma carta de seus camaradas encarcerados na Rússia. A carta provocou sensação no congresso, em grande parte porque afirmava que as condições prisionais na Rússia revolucionária eram piores que nos tempos do czar.

“Nossos camaradas estão semimortos de fome”, proclamava. “Muitos deles se encontram presos há meses, sem visita de parentes, sem correspondência, sem exercício físico.”

Os socialistas exilados tinham condições de agitar em favor dos prisioneiros, e o faziam, tal qual antes da Revolução. Imediatamente após o golpe bolchevique, vários revolucionários célebres, aí incluídas Vera Figner (autora de memórias sobre a vida em prisões czaristas) e Ekaterina Peshkova (mulher do escritor Máximo Gorki), ajudaram a restabelecer a Cruz Vermelha Política, uma organização de auxílio a presos que atuara clandestinamente antes da Revolução. Ekaterina conhecia bem Dzerzhinsky e se correspondia com ele de modo regular e cordial.

Graças aos contatos e ao prestígio dela, a Cruz Vermelha Política recebeu o direito de visitar locais de encarceramento, falar com presos políticos, enviar-lhes remessas e até requerer a soltura daqueles que estavam enfermos — privilégios que a organização manteve durante boa parte da década de 1920.

Posteriormente, essas atividades pareceriam tão inverossímeis ao escritor Lev Razgon, aprisionado em 1937, que ele ouvia as histórias da Cruz Vermelha Política contadas pela esposa (o pai dela fora um dos presos socialistas) como se fossem “contos de fadas”.

A má publicidade gerada pelos socialistas ocidentais e pela Cruz Vermelha Política incomodava um bocado os bolcheviques. Muitos tinham vivido anos no exílio e, por conseguinte, eram sensíveis às opiniões de seus antigos camaradas internacionais. Muitos também ainda acreditavam que a Revolução poderia propagar-se para o Ocidente a qualquer momento e não queriam que o progresso do comunismo fosse retardado pelas notícias negativas. Em 1922, as matérias da imprensa ocidental já os preocupavam o bastante para lançarem a primeira do que seriam muitas tentativas de disfarçar o terror comunista atacando o “terror capitalista”.

Com esse propósito, criaram uma associação “alternativa” de auxílio a prisioneiros: a Sociedade Internacional de Ajuda às Vítimas da Revolução (MOPR, conforme seu acrônimo russo), que supostamente trabalharia para assistir aos “100 mil presos do capitalismo”.

Embora a seção berlinense da Cruz Vermelha Política tenha de imediato atacado a MOPR por tentar “silenciar os gemidos daqueles que estão morrendo nas prisões, campos de concentração e locais de degredo da Rússia”, outros engoliram a história. Em 1924, a MOPR afirmava ter 4 milhões de membros e até organizou sua primeira conferência internacional, com representantes do mundo inteiro.

A propaganda deixou sua marca.

Quando pediram ao escritor francês Romain Rolland que comentasse a publicação de uma coletânea de cartas de socialistas encarcerados na Rússia, ele respondeu afirmando o seguinte:

Há coisas quase idênticas acontecendo nas prisões da Polônia; nós as temos nas prisões da Califórnia, onde estão martirizando os trabalhadores da IWW;* nós as temos nos calabouços ingleses das ilhas Andaman […].

Industrial Workers of the World [Trabalhadores Industriais do Mundo], o mais organizado movimento operário revolucionário dos Estados Unidos, fundado em 1905 e influente até o final dos anos 10. (N.T.)

A Cheka também procurou amenizar as notícias negativas, mandando os socialistas encrenqueiros para mais longe de seus contatos.

Alguns foram enviados por decreto administrativo para o degredo em regiões longínquas, tal qual o regime czarista fizera. Outros foram mandados para campos remotos perto da cidade boreal de Arcangel e, em especial, para um campo estabelecido no antigo mosteiro de Kholmogory, centenas de quilômetros ao norte de Petrogrado, próximo ao mar Branco. Todavia, mesmo os desterrados para os locais mais distantes acabavam achando meios de comunicar-se. De Narim, longínqua região da Sibéria, um pequeno grupo de presos políticos num minúsculo campo de concentração conseguiu mandar carta para um jornal socialista no exílio, queixando-se de que estavam “tão categoricamente isolados do resto do mundo que apenas cartas referentes à saúde de parentes ou à nossa própria podem ter a esperança de chegar aos destinatários. Nenhum outro tipo de mensagem […] nos chega”. Esses presos assinalavam que, entre eles, encontrava-se Olga Romanova, anarquista de dezoito anos que fora despachada para um lugar particularmente remoto da região, “onde a fizeram passar três meses a pão e água”.

Tampouco o degredo distante garantia sossego para os carcereiros.

Em quase toda a parte, os presos socialistas, acostumados ao tratamento privilegiado outrora dado aos prisioneiros políticos nas cadeias czaristas, exigiam jornais, livros, caminhadas, o direito ilimitado a correspondência e, sobretudo, o direito de escolherem os próprios portavozes ao lidarem com as autoridades.

Quando os agentes locais da Cheka não entendiam e se negavam a conceder essas coisas (eles decerto não sabiam a diferença entre anarquista e baderneiro), os socialistas protestavam, às vezes com violência. Segundo uma descrição do campo de Kholmogory, um grupo de prisioneiros descobriu que

era necessário travar uma luta pelas coisas mais elementares, como a concessão aos socialistas e anarquistas dos direitos comuns dos presos políticos. Nessa luta, eram submetidos a todos os castigos conhecidos, como confinamento solitário, espancamento, fome, disparos concertados do destacamento militar contra o edifício etc. Basta dizer que, no final do ano, a maioria dos detentos de Kholmogory podia acrescentar a seu histórico greves de fome que duravam de trinta a 35 dias […].

Esse mesmo grupo de presos acabou sendo transferido de Kholmogory para outro campo, em Petrominsk, também um mosteiro.

De acordo com a petição que enviariam às autoridades, foram recebidos ali com “gritos e ameaças grosseiras”, trancafiados seis de uma vez em minúsculas celas de monge e proibidos de praticar exercício ou ter acesso a livros ou material de escrita. O camarada Bachulis, comandante de Petrominsk, tentou quebrar o ânimo dos presos privando-os de luz e calor — e, de tempos em tempos, atirando contra as janelas deles.

Os presos reagiram lançando outra rodada interminável de greves de fome e cartas de protesto. No fim das contas, exigiram ser tirados do próprio campo, o qual afirmavam ser malárico.

Outros chefes de campo também reclamavam de tais prisioneiros.

Em carta a Dzerzhinsky, um deles escreveu que em seu campo “os Guardas Brancos que se julgam presos políticos” se organizaram numa “turma enérgica”, impossibilitando que os guardas trabalhassem: “eles difamam a administração, caluniam-lhe o nome […] desprezam o nome bom e honesto do trabalhador soviético”.

Alguns guardas resolviam as coisas eles mesmos. Em abril de 1921, um grupo de prisioneiros de Petrominsk se recusou a trabalhar e exigiu mais rações de comida. Fartas dessa insubordinação, as autoridades de Arcangel ordenaram que todos os 540 fossem condenados à morte. Foram devidamente fuzilados.

Em outros lugares, as autoridades tentavam manter a paz pelo caminho oposto, atendendo a todas as reivindicações dos socialistas.

Berta Babina, membro dos social-revolucionários, recordaria sua chegada à “ala socialista” da prisão de Butyrka (em Moscou) como um reencontro jubiloso com amigos, gente “da clandestinidade em São Petersburgo, dos meus anos de estudante e das muitas cidades e lugares menores onde morei durante minhas erranças”. Os presos podiam fazer o que quisessem na prisão. Organizavam sessões matinais de ginástica, fundaram uma orquestra e um coro, criaram um “grêmio” que dispunha de periódicos estrangeiros e boa biblioteca. Conforme a tradição (remontando aos tempos pré-revolucionários), todo preso deixava seus livros quando era solto. Um conselho dos prisioneiros designava celas para todos, algumas das quais eram muitíssimo bem supridas de tapetes no chão e tapeçarias nas paredes. Outro preso lembraria que “flanávamos pelos corredores como se fossem bulevares”.

Para Berta, a vida na prisão parecia inverossímil: “Será que eles não conseguem nos prender a sério?”

A liderança da Cheka se fazia a mesma pergunta. Num relatório a Dzerzhinsky datado de janeiro de 1921, um irado fiscal das prisões se queixou de que, na Butyrka, “homens e mulheres caminham juntos, e slogans anarquistas e contra-revolucionários ficam expostos nas paredes das celas”.

Dzerzhinsky recomendou regime mais severo — mas, quando este foi instituído, os presos tornaram a protestar.

O idílio da Butyrka terminou logo depois. Em abril de 1921, segundo carta que um grupo de social-revolucionários escreveu às autoridades, “entre três e quatro horas da manhã, um grupo de homens armados entrou nas celas e começou o ataque […] mulheres foram arrastadas pelos braços, pernas e cabelos para fora das celas; outras foram espancadas”. A Cheka, em seus relatórios posteriores, descreveu esse “incidente” como uma rebelião que ficara fora de controle — e ela resolveu que nunca mais deixaria tantos presos políticos se acumularem em Moscou.

Em fevereiro de 1922, a “ala socialista” da prisão de Butyrka já fora dissolvida.

A repressão não funcionara. As concessões não haviam funcionado. Mesmo em seus campos especiais, a Cheka não conseguia controlar os presos especiais.Tampouco conseguia impedir que notícias deles chegassem ao exterior. Era evidente que outra solução se fazia necessária, tanto para eles quanto para todos os outros contra-revolucionários insubordinados que haviam sido reunidos no sistema prisional especial.

Na primavera de 1923, já se encontrara a solução: Solovetsky.

Fonte: veja.abril.com.br

Bolcheviques

Bolcheviques contra o racismo

Infelizmente, é verdade.

Grande parte dos partidos que se assumem socialistas ou comunistas consideram esse combate como algo menor e “divisionista”. Talvez, uma herança do desprezo dos primeiros marxistas em relação aos povos não brancos.

Bolcheviques
Bolcheviques

Não foi o caso dos bolcheviques. Os revolucionários russos que tomaram o poder em 1917 eram grandes defensores das lutas anticoloniais. Por isso, conquistaram o apoio dos povos do antigo império russo. Em 1920, o 2º congresso da Internacional Comunista aprovou as “Teses sobre a questão colonial”.

O documento dizia que a “revolução proletária e a revolução nas colônias são complementares para a vitória de nossa da luta”. E que a “Internacional Comunista” deveria trabalhar “pela destruição do imperialismo nos países economicamente e politicamente dominados.” Lênin foi duro com seus antecessores. Ele dizia que para a Segunda Internacional o “mundo só existia dentro dos limites da Europa”. Desse modo, “tornaram-se eles próprios imperialistas.”

Em 1922, ocorreu o último congresso da Internacional antes de Stalin assumir o controle do partido russo. Nele, aprovaram-se as “Teses sobre a Questão Negra”. Era a primeira vez que o tema seria discutido no movimento socialista mundial.

Entre suas resoluções, estava “a necessidade de apoiar qualquer forma de resistência dos negros que busque minar e enfraquecer o capitalismo ou o imperialismo, ou barrar a sua expansão”. Além disso, lutar para “assegurar aos negros a igualdade de raça e a igualdade política e social.”

Como se vê, a luta contra o racismo faz parte da tradição revolucionária dos socialistas.

Fonte: www.diarioliberdade.org

Bolcheviques

Brancos X Vermelhos

A Guerra Civil na Rússia dos Bolcheviques (1917-1920)

A posse do governo provisório de Lênin em novembro de 1917, com o apoio do Conselho dos Comissários do Povo e dos Sovietes, colocou os bolcheviques no poder na primeira grande experiência socialista do planeta.

Apoiado por alguns de seus principais aliados na guerra contra o czarismo e o menchevismo, como Leon Trotsky (relações exteriores) e Joseph Stalin (Nacionalidades), Lênin tinha ainda que se confrontar com uma iminente guerra civil entre os burgueses e os seus comandados.

Bolcheviques
A guerra civil na Rússia ocasionou a morte de 800 mil soldados dos exércitos Vermelho e Branco. Socialistas e
Capitalistas lutavam pelo comando de um dos maiores países do mundo

Kerensky, que havia liderado o governo menchevique (os socialistas moderados) e que buscara apoio entre os burgueses para efetivar uma transição lenta e gradual para uma nova ordem sócio-política, havia conseguido escapar e arregimentou tropas leais no norte do país. Apesar disso, as vitórias bolcheviques ampliavam o território sob o comando dos revolucionários com conquistas na Rússia central e na Sibéria.

As forças lideradas pelos antigos donos do poder não desistiam e, em janeiro de 1918 organizavam novas milícias que atingiam inicialmente um contingente de aproximadamente três mil homens. O ingresso de mais pessoas relacionadas aos interesses da burguesia levou a formação do Exército Branco.

Entre os integrantes dos Brancos encontravam-se os Kadetts, partidários do grupo político de mesmo nome que tinham ideais liberais. A mistura de forças nessa nova milícia juntava aos liberais os socialistas moderados e, até mesmo, dissidentes dos socialistas revolucionários, descontentes com a centralização política e o governo de linhas ditatoriais que acreditavam ter se instalado em Moscou.

Bolcheviques
As rivalidades entre brancos e vermelhos eram acirradas pelos princípios políticos e pela disputa sobre as terras e recursos da Rússia.
Isso levava os soldados a executar os oponentes, como na imagem acima em que soldados do
exército branco se preparam para atirar contra um prisioneiro dos vermelhos

Aos grupamentos políticos que deram origem aos exércitos brancos também se associaram todas as pessoas que tiveram suas posses expropriadas pelo novo governo socialista. A nacionalização das terras, indústrias, bancos, pontos comerciais e a impossibilidade de continuar com atividades relacionadas aos empreendimentos particulares em busca de lucro levaram milhares de ex-proprietários a investir pesadamente nos exércitos brancos. O ateísmo dos socialistas revolucionários também serviu como justificativa para que a Igreja Ortodoxa Russa apoiasse os Brancos.

Com o apoio da população local, os Brancos obtiveram algum sucesso em sua campanha na Ucrânia. Essas vitórias foram, entretanto, extemporâneas e, a reorganização dos bolcheviques e de seu exército vermelho permitiram que a Ucrânia fosse retomada em fevereiro de 1918. Não existia, nesse momento, nenhuma grande área no território russo dominada pelos Brancos.

Paralelamente aos embates internos, o novo governo socialista tinha ainda que se preocupar com o avanço de tropas alemãs, no esforço da 1ª Guerra Mundial, em terras russas. Por esse motivo Lênin se viu instado a assinar o tratado de Brest-Litovsky em março de 1918 em que também a Ucrânia, a Finlândia, o Cáucaso, a Polônia e as províncias Bálticas se rendiam aos alemães. Essas decisões do governo socialista aumentaram as hostilidades contra os bolcheviques e ocasionaram a sublevação na Tchecoslováquia contra os Vermelhos que resultou em quatro meses de domínio Tcheco sobre a região leste do Rio Volga.

Bolcheviques
Charge do período da Guerra Civil na Rússia mostra o envolvimento do capital internacional no conflito.
Americanos, ingleses, franceses e japoneses enviaram tropas e investiram nos exércitos brancos para derrotar os socialistas revolucionários russos liderados por Lênin e Trotsky

A nomeação de Trotsky para o posto de comissário de guerra levou os russos a retomarem o comando sobre o Volga. Sua liderança e comando também ocasionaram vitórias sobre as forças brancas nas regiões russas de Kazan e Simbirsk.

A maior ameaça dos Brancos aos Vermelhos aconteceu em outubro de 1918 quando as tropas do general Yudenich passaram a controlar Gatchina, distante apenas 50 quilômetros da capital do país naquele período, a cidade de Petrogrado.

Isso levou o próprio Trotsky a Petrogrado com a finalidade de organizar a defesa da capital russa. Ocorreu um alistamento em massa na cidade e um grande número de trabalhadores das indústrias locais reuniu-se para formar novas unidades do exército vermelho. Os grandes contingentes de tropas russas levaram a retirada das tropas brancas para a Estonia.

Os Brancos criaram então bases em Omsk, na região oriental da Sibéria. Passaram então a contar com o apoio do capital internacional, interessado em desmantelar o primeiro governo socialista da história. No final do ano de 1918, britânicos, franceses, japoneses e norte-americanos já haviam enviado aproximadamente 200 mil homens para dar apoio às forças anti-bolcheviques.

Aos exércitos vermelhos juntaram-se soldados que anteriormente eram fiéis servidores do czarismo. Isso motivou descontentamento e desconfiança entre os bolcheviques que passaram a temer golpes e traições. Apesar disso o contingente de militares vermelhos atingiu a marca de 500 mil soldados. E, em vista dos temores de deslealdade entre os Vermelhos, Trotsky definiu um rigoroso sistema de punições aos que traíssem a causa socialista nas forças armadas.

Bolcheviques
O Saldo mais trágico da guerra civil na Rússia foi à morte de aproximadamente oito milhões de pessoas vitimadas pela fome e pelas doenças. Desabastecidos e abandonados em zonas de guerra os habitantes das regiões em conflito não tinham alimentos, lenha para o inverno e remédios para as doenças…

O embate entre as forças se prolongou ainda durante os anos de 1919 e 1920, com os Vermelhos obtendo, gradualmente, o controle sobre as regiões dominadas pelos Brancos.

Em 1919 a região de Omsk foi retomada pelos bolcheviques e, em 1920 o Turquestão foi reconduzido ao comando de Lênin pelos exércitos vermelhos.

Em novembro de 1920 os últimos remanescentes que lutavam pelos Brancos abandonavam a Criméia e, finalmente a guerra civil russa chegava ao fim.

O saldo trágico de 800 mil soldados mortos durante os três anos de guerra civil na Rússia tornava-se ainda pior ao se adicionarem as vítimas dos embates aproximadamente oito milhões de pessoas que pereceram em virtude da fome e das doenças surgidas em virtude da guerra…

Fonte: www.planetaeducacao.com.br

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