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Cultura Urbana

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Cidade e Culturas Urbanas – Definição

Cultura Urbana, qualquer um dos padrões de comportamento dos vários tipos de cidades e áreas urbanas, tanto do passado como do presente.

A pesquisa sobre culturas urbanas concentra-se naturalmente em sua instituição definidora, a cidade, e os modos de vida, ou formas culturais, que crescem dentro das cidades.

A bolsa de estudos urbana tem progredido continuamente em direção a uma concepção de cidades e culturas urbanas que é livre de etnocentrismo, com ampla validade transcultural e histórica.

Já no início do século 20, as concepções da cidade muitas vezes procediam como se houvesse apenas uma forma autêntica ou típica.

A partir de sua pesquisa sobre a cidade na Idade Média europeia, Henri Pirenne, por exemplo, argumentou em Cidades Medievais (1925) que duas características foram fundamentais para o desenvolvimento de uma cultura urbana: uma burguesia, ou classe média, que depende do comércio para ambas riqueza e autonomia política dos detentores do poder feudal não urbano; e uma organização comunal da cidadania urbana que cria a integração municipal necessária para libertar a cidade do controle dos senhores feudais locais ou autoridades religiosas.

Embora muitas vezes tenha sido tomada como uma definição geral da cidade e da cultura urbana (daí a noção de senso comum de que as cidades devem cumprir funções comerciais), a formulação de Pirenne foi deficiente porque apenas a cidade medieval europeia e sua cultura burguesa foram tidas como típicas do “ verdadeira ”cidade.

Max Weber em The City (1921) forneceu outra definição de cidade, semelhante à de Pirenne, quando comparou o urbanismo “ocidental” com o “oriental”.

De acordo com Weber, cinco atributos definem uma comunidade urbana: ela deve possuir uma fortificação, um mercado, um código de leis e sistema judicial próprio, uma associação de cidadãos urbanos criando um sentido de corporatividade municipal, e autonomia política suficiente para os cidadãos urbanos escolherem os governadores da cidade.

Weber acreditava que as cidades orientais raramente alcançavam essas características essenciais porque as identidades familiares, tribais ou sectárias impediam os residentes urbanos de formar uma cidadania urbana unificada capaz de resistir ao controle do Estado. Mesmo no que diz respeito à definição do Ocidente, Weber excluiria quase todas as cidades pré-modernas, pois a autonomia urbana que ele exigia existia apenas no norte da Europa e na Itália e, mesmo lá, por períodos muito curtos de tempo no final da Idade Média.

O resultado foi uma concepção excessivamente limitada de culturas urbanas, a partir da qual foi extremamente difícil gerar uma compreensão transculturalmente válida.

Na década de 1940, Robert Redfield, fortemente influenciado por Louis Wirth e outros membros da escola de ecologia urbana de Chicago, concebeu o urbano como invariavelmente impessoal, heterogêneo, secular e desorganizador. No modelo urbano-popular, conforme exposto em seu artigo “The Folk Society” (A Sociedade Folclórica), Redfield contrastou essa imagem da vida na cidade com uma imagem da comunidade popular, que ele caracterizou como pequena, sagrada, altamente personalista e homogênea. Ele presumiu que, à medida que os indivíduos se mudassem da comunidade folclórica para a cidade, ou à medida que uma sociedade inteira se movesse em direção a uma cultura mais urbanizada, haveria um colapso nas tradições culturais.

A urbanização de indivíduos e sociedades sofreria de desorganização cultural e teria maior incidência de patologias sociais como divórcio, alcoolismo, crime e solidão.

A concepção de Redfield sobre a cidade dependia da pesquisa urbana realizada por sociólogos em cidades industriais americanas, predominantemente Chicago.

Ele presumiu etnocentricamente que suas descobertas poderiam ser generalizadas para todas as culturas urbanas. Pesquisas subsequentes indicaram que essa concepção estava errada em muitos aspectos, mesmo para as cidades industriais americanas. Apesar de ser geralmente etnocêntrica e especificamente inadequada para as cidades americanas, essa concepção ainda prevalece sobre muito do pensamento popular, que concebe as cidades, em todas as culturas e em todos os tempos, como centros de boemia, experimentação social, dissidência, anomia, crime e condições semelhantes – sejam boas ou más – criadas pelo colapso social.

Gideon Sjoberg (The Preindustrial City, Past and Present, 1960), na próxima etapa em direção a uma compreensão transculturalmente válida das cidades, desafiou essa concepção de cultura urbana como etnocêntrica e historicamente limitada. Ele dividiu os centros urbanos do mundo em dois tipos, a cidade pré-industrial e a cidade industrial, que ele distinguiu com base nas diferenças no nível tecnológico da sociedade. As cidades pré-industriais, de acordo com Sjoberg, podem ser encontradas em sociedades sem tecnologia sofisticada de máquinas, onde o trabalho humano e animal é a base da produção econômica. As cidades industriais predominam nas nações modernizadas da Europa Ocidental e da América, onde fontes de energia de combustíveis fósseis e energia atômica expandem fenomenalmente a produtividade econômica.

Para Sjoberg, a cultura urbana pré-industrial diferia acentuadamente de sua contraparte industrial: os bairros da cidade pré-industrial eram fortemente integrados por laços personalistas de etnia e lealdade sectária; mantinha fortes conexões familiares, e a desorganização social era pouco evidente; igrejas ou outras instituições sagradas dominavam o horizonte, bem como as crenças culturais do lugar urbano; e a principal função urbana era a administração imperial, e não a produção industrial.

Embora a concepção de Sjoberg de um tipo urbano pré-industrial tenha sido uma grande melhoria em relação às definições urbanas anteriores, também sofreu com a generalização excessiva.

Sjoberg colapsou culturas urbanas de tipos notavelmente diferentes em um único tipo de cidade pré-industrial indiferenciada – por exemplo, as cidades de impérios antigos foram confundidas com locais urbanos atuais no Terceiro Mundo. As culturas urbanas do passado que não se encaixavam prontamente na concepção de Sjoberg, como as cidades autocéfalos (autogovernadas) do início da Europa moderna, foram descartadas como variantes temporárias e incomuns de seu tipo pré-industrial, em vez de variedades importantes de cultura urbana.

Em “The Cultural Role of Cities”, Robert Redfield e Milton Singer tentaram melhorar todas as concepções anteriores da cidade, incluindo aquela que o próprio Redfield usou em seu modelo urbano-popular, enfatizando os papéis culturais variáveis desempenhados pelas cidades nas sociedades. Redfield e Singer delinearam dois papéis culturais para as cidades que todos os lugares urbanos desempenham, embora com graus variados de intensidade e elaboração. As cidades cujo papel cultural predominante é a construção e codificação das tradições da sociedade desempenham funções “ortogenéticas”.

Em tais culturas urbanas, os quadros de literatos racionalizam uma “Grande Tradição” de cultura para a sociedade em geral. A mensagem cultural que emana de Delhi, Paris, Washington, D.C. e outras capitais de impérios clássicos ou estados-nação modernos funciona para elaborar e salvaguardar a tradição cultural. Em contraste, as cidades cujo papel cultural primário é “heterogenético”, como Redfield e Singer definiram, são centros de mudança técnica e econômica e funcionam para criar e introduzir novas ideias, cosmologias e práticas sociais na sociedade. Em cidades como Londres, Marselha ou Nova York, a intelectualidade desafia métodos antigos, questiona tradições estabelecidas e ajuda a tornar essas cidades centros culturais inovadores.

Continuando a preocupação de Redfield e Singer com o papel cultural das cidades em suas sociedades, Paul Wheatley em The Pivot of the Four Quarters (1971) considerou a forma mais antiga de cultura urbana um centro cerimonial ou de culto que organizou e dominou uma região rural circundante através de suas práticas sagradas e autoridade. De acordo com Wheatley, só mais tarde a proeminência econômica e o poder político foram adicionados a esse papel cultural urbano original. Wheatley, seguindo Redfield e Singer, estabeleceu que qualquer concepção de uma cultura urbana tinha de se basear no papel cultural das cidades em suas sociedades; a pesquisa deve abordar especificamente como o papel cultural urbano organiza crenças e práticas na cultura mais ampla além dos recintos urbanos e, conseqüentemente, como esse papel cultural urbano necessita de certos modos de vida e agrupamentos sociais (formas culturais) na cidade.

A partir da década de 1970, David Harvey (Social Justice and the City, 1973), Manuel Castells (The Urban Question, 1977) e outros estudiosos influenciados pelo marxismo causaram uma grande mudança na concepção dos papéis culturais urbanos. Embora eles trabalhassem principalmente em cidades em culturas capitalistas avançadas, sua abordagem teve grande relevância. Em vez de olhar para fora da cidade para a cultura urbana como um todo, a nova bolsa concebeu a cidade como um término para papéis culturais que emanam da cultura mais ampla ou mesmo do sistema mundial.

Harvey, por exemplo, vinculou as principais mudanças nos modos de vida urbanos americanos à cultura urbana do capitalismo avançado: para ele, o crescimento dos subúrbios se desenvolveu a partir da promoção do capitalismo de novos padrões de consumo no interesse do lucro. Castells via a cidade como uma arena para conflitos sociais que, em última análise, emanavam das divisões de classe dentro da sociedade capitalista.

Essa erudição marxista não contradiz a ênfase anterior na cidade como fonte de papéis culturais, tanto quanto a complementa.

O estudo dos papéis culturais das cidades deve incluir não apenas as crenças e práticas culturais que emanam das cidades, mas também as formas culturais que se desenvolvem dentro da cidade como resultado do impacto da cultura urbana sobre ela. Dessa forma, a bolsa de estudos pode apresentar uma concepção transcultural e historicamente válida das cidades, suas formas culturais e as culturas urbanas nas quais estão inseridas.

Culturas urbanas e desafios à cooperação cultural

Nesta sessão sobre culturas urbanas vou recuperar alguns pontos gerais sobre a cidade e a questão urbana como forma de me centrar numa dimensão particular – a prioridade do tempo instantâneo e o modo como torna difícil a cooperação cultural entre cidades que, a meu ver, se revela hoje, talvez inesperadamente, uma variável determinante da cultura urbana e do exercício da cidadania na cidade. O meu objetivo é sustentar que talvez tenhamos que equacionar melhor e de forma mais criativa o potencial que, apesar dos obstáculos culturais que enfrenta,  a cooperação cultural pode trazer para a melhoria das condições de existência urbana e a construção de uma cidade feita de diversidade, justa e solidária.

Desejo começar por assinalar o enorme e tão diverso conhecimento de que dispomos hoje sobre a cidade e a condição urbana.  Podemos dizer, que sabemos tudo ou quase tudo sobre a cidade contemporânea…

Conhecemos bem, isto é, está hoje ao nosso dispor, uma bateria enorme de conhecimento acerca das principais variáveis urbanas, sejam socio-econômicas e demográficas, sejam ambientais e arquitetônicas, sejam políticas e de governação, sejam mesmo estéticas e culturais. Dominamos um conjunto de instrumentos e técnicas de gestão e planeamento urbano, a começar sobre a história da cidade que parece dar garantias da qualidade futura da existência humana na cidade. Estamos, por isso, muito capacitados para saber quais os limites e quais as contradições da cidade de hoje.

Além disso não tem faltado saber e imaginação na descoberta de facetas novas que as cidades vão revelando a cada passo.

Apesar deste incessante aumento do capital de conhecimento e de criatividade urbana, estamos longe de admitir que vivemos ou alcançaremos em breve o patamar de uma cidade idealizada como cidade justa, democrática, inclusiva, inteligível e, enfim, bela. Não admira, portanto, que apesar ou por causa do estádio avançado do conhecimento alcançado sobre a cidade e a sociedade, a questão que mais nos inquieta é a generalizada suspeita sobre se seremos ou não capazes de construir aquela cidade idealizada.

Algo de essencial está em falta e admito que o que está em falta seja precisamente uma visão clara das condições em que podemos instaurar uma ação política efetiva e democrática de cooperação cultural intra e inter cidades.

Em vez de mobilizarmos todas as capacidades necessárias à construção da cidade justa e democrática do futuro, tornou-se fácil acusar a cidade de muitas insuficiências e malefícios sistémicos e civilizacionais.

Ora nesta espécie de acusação da vítima, perdemos de vista muitos dos mecanismos que tornam a cidade objeto de perversas incoerências e incompletudes do projeto e das promessas da modernidade.

Permitam que assinale muito sinteticamente alguns dos processos de transformação global recente que exercem poderosos efeitos sobre a cidade.

Assinalemos sumariamente apenas dois destes efeitos:

O primeiro diz respeito ao reconhecimento da cidade como entidade socio-política de escala intermédia (algures entre o estado-nação e a região, de um lado, e o local, ou a pequena comunidade, de outro lado)

Começaria, portanto por chamar a vossa atenção para um conjunto de aspectos que sintetizam os principais traços da evolução econômica que afetam os modos como a cidade é percepcionada e a vida urbana se modifica.

O que parece mais interessante fazer ressaltar deste enunciado é o fato de as cidades constituírem uma arena política intermédia de governação (um perímetro político algures entre o estado-nação e a localidade). Esta situação torna a cidade um terreno disputado politicamente, ao mesmo tempo que revela potenciais para o exercício da ação e da governação política que tem dado origem a experiências inovadoras de participação democrática.

O segundo efeito é o de a cidade estar hoje sujeita a influências socio-culturais radicalmente novas que contribuem elas próprias para a renovação do nosso entendimento do que é a cultura urbana dos nossos dias.

É  escusado afirmar que estas transformações, decorrentes da globalização do mundo e da economia atuais, provocam alterações profundas nos padrões de cultura e nos comportamentos dos indivíduos e grupos, nos diversos contextos urbanos.

No espaço desta comunicação darei uma atenção muito particular aos efeitos da cultura da velocidade que me parece condicionar muito particularmente todos os restantes fatores enunciados, com destaque particular para a retração do espaço público urbano.

Esta ideia de cultura de velocidade, remete-nos para uma noção de tempo instantâneo que é uma sugestiva (ou provocatória) hipótese de o futuro se estar a dissolver no presente.

Esta lógica imediatismo não permite refletir sobre a cidade e a cultura do futuro, pois que sublinha o desejo de alcançar o futuro já e de o transformarmos numa mera sucessão de agoras. Esta cultura da instantaneidade e da velocidade  tem vários efeitos, alguns dos quais se prendem diretamente com a nossa reflexão sobre a cidade.

Uma primeira consequência é que o tempo objetivo e social da modernidade está dando lugar a temporalidades subjetivas e personalizadas. A segunda grande consequência trazida pelo tempo instantâneo é a desconfiança no futuro que significa que ninguém tem tempo para esperar e todos buscam a gratificação imediata dos seus atos.

A terceira consequência é que os trajetos espacio-temporais dos sujeitos deixaram de estar sincronizados e articulados entre si, dando origem a uma acentuada variação entre os diferentes tempos individuais, na medida em que estes são cada vez menos organizados de forma coletiva, social, ou familiar.

Em termos gerais, esta fragmentação dos tempos dos sujeitos e dos seus trajetos é uma condicionante muito forte da ação de cooperação cultural que é preciso estimular como forma de promover a construção da cidade idealizada do futuro, tão diversa como solidária. Permitam-me que me detenha brevemente sobre três efeitos decorrentes desta cultura da instantaneidade sobre a lógica da cooperação cultural das cidades.

Em primeiro lugar, perante a globalização dos mercados, a cultura da instantaneidade e da velocidade agudiza a concorrência entre cidades em vez de alimentar a cooperação entre elas. Em vez de redes organizadas de cidades em cooperação, esta cultura acentua e premeia a ação isolada e autónoma de cada cidade, em como meio de captação de recursos (investimentos, equipamentos e serviços) e de inserção em fluxos internacionais (mercadorias, pessoas) que organizam a economia globalizada. A ideia de uma marca ou imagem individual de cidade, com os benefícios que a retórica do marketing de cidades anuncia, pode ser determinante para o sucesso das cidades na concorrência econômica, mas não o será para a construção de uma cidade inclusiva.

Nesta linha de ideias, há um segundo sentido em que a cultura da velocidade e a fragmentação dos tempos dos sujeitos prejudica a cooperação cultural. Para o enunciarmos devemos ter em conta que a cooperação cultural da cidade não pode ser entendida apenas na relação de exterioridade de uma cidade com outra ou outras, mas é essencial que saiba promover da cooperação cultural endógena num quadro de diversidade sociocultural. Por outras palavras, promover da cooperação da cidade consigo mesma e com os seus diversos grupos e culturas.

Quero dizer com isto que a lógica da concorrência inter-cidades que conduz à opção pela construção de uma imagem e uma identidade singular que seja competitiva no mercado global, é sempre construída a partir dos recursos e patrimónios locais mais atrativos e vendáveis, segundo uma lógica de mercado e não uma lógica de comunidade de interesses e patrimónios diversos. Ora na cidade da diversidade cultural como tendem a ser todas as cidades de hoje, a escolha de um património, ou recurso, ou grupo étnico, como emblemático, é sempre uma escolha política e culturalmente seletiva e, no limite, tende a produzir ou a reforçar a subalternização e a exclusão de outros grupos, patrimónios ou culturas alternativos. Em vez de solidária e inclusiva a cidade pode, por este via, tornar-se particularmente excludente e fragmentária.

Por fim, o terceiro sentido em que é indiscutível a dificuldade da relação da cultura da instantaneidade com a cooperação cultural, tem a ver com a já referida desconfiança no futuro. Esta difícil relação resulta do paradoxal apelo que o tempo instantâneo faz ao passado e o respectivo culto da nostalgia que está hoje em todo o lado e não se confina a artefatos concretos, territórios específicos ou experiências ou acontecimentos localizados, como antes sucedia. A nostalgia de hoje está relacionada com todo e qualquer acontecimento, lugar ou artefato antigo. Podem mesmo ser bairros e cidades inteiras que pretendem ser  tratadas como históricas ou patrimoniais e antigas, como forma de serem reconhecidas e se modernizarem. Basta que pensemos que nunca as ruínas milenares ou os vestígios de uma velha fábrica estiveram tão na moda  e receberam tanta atenção por parte das políticas patrimonialistas nacionais ou regionais, ou dos agentes do ?espetáculo de luz e som? e da esteticização urbana. Nunca os monumentos do passado foram tão cativantes e estilizados, nem os museus tão interativos e publicitados.

Esta situação tem dado origem a um crescimento inusitado de uma espécie de indústria ou manufatura institucionalizada da produção/preservação de património. Alguns países, regiões ou prefeituras investem recursos avultados na patrimonialização dos seus vestígios da história e mostram-se desejosos de os verem transformados em símbolos da humanidade e/ou também artefatos turísticos. Sem contestar esta política de consagração do objeto patrimonial, muitas vezes seletiva e elitista, gostaria de assinalar a necessidade de se promover uma outra ação alter-patrimonialista do património sociocultural e histórico das cidades.

Desejo sustentar que uma cooperação cultural para a cidade do futuro deve ser capaz de consagrar o património, seja na forma de ?anti-monumento ou  anti-museu, que resulta da ação social e da história popular que não representa nem celebra o poder hegemónico instituído, mas que, ao contrário, representa, materializa e preserva o quotidiano popular dos grupos sociais subalternizados.

Aproximo-me, assim, do final desta comunicação.

Com a referência aos três sentidos que acabo de enunciar da relação entre tempo instantâneo e cooperação cultural procurei sintetizar alguns dos desafios que teremos que enfrentar para a construção cultural e politicamente sustentada de uma cidade justa e democrática.

Esses desafios decorrem da ação da globalização que fomenta a concorrência e não a cooperação entre cidades. Prolonga-se, depois, pela política de radicalização das diferenças no seio da própria cidade, em vez de promover a inclusão da e na diversidade. Por fim, estende-se pela patrimonialização hegemónica da cultura e do tempo histórico, a que é necessário contrapor uma alternativa.

Insisto, a terminar, portanto, na necessidade de se admitir que talvez seja a política e a ação da cooperação cultural aquilo que nos falta ensaiar com mais ousadia e criatividade de modo a sustentar uma condição humana renovada nas cidades de hoje e de amanhã.

Muito de nós, e ouvimos isso ser dito por diversas vezes neste Encontro, não temos ainda uma ideia sólida e definitiva de como forjar e instituir esta cooperação. Parece que afinal sabemos muito sobre as cidades, mas pouco sobre a cooperação cultural. Quando é assim, não é no saber que temos que nos refugiar em busca de respostas e soluções. É, ao contrário, na ousadia, na criatividade e na imaginação da ação (de cooperação).

O cotidiano urbano e as práticas culturais

Cultura Urbana

A Cidade Cosmopolita

É fato que as cidades sempre existiram embora não apresentassem no passado a configuração das grandes cidades capitalistas.

Já abordamos também o conceito de urbano e a mudança na sociedade urbana que deixou de ser rural e passou a organizar-se no contexto urbano, ou seja, nas cidades.

Com todos os elementos que vimos até aqui, ficou claro que as cidades concentram uma verdadeira mistura de diferentes referências culturais.

A formação e crescimento das cidades estão associados ao seu poder de atração e pessoas de diversas partes afluem para as cidades por diferentes motivos. São pessoas do entorno da cidade, da região, de outras regiões e até mesmo de outros países, como é o caso das metrópoles mundiais.

O fluxo contínuo de pessoas das mais diferentes culturas transformou a cidade em um espaço cosmopolita no qual as diferenças convivem e se expressam das formas diferenciadas. Neste aspecto, a compreensão do cotidiano da cidade, suas práticas, referências e signos, são elementos essenciais para a nossa compreensão da cultura urbana, cultura esta que não está presa às raízes do passado, mas sim, uma cultura em constante transformação. A cultura urbana não influencia e transforma apenas o migrante recém-chegado ou o turista; é uma cultura que exerce forte influência, mas também é influenciada por cada um dos seus habitantes permanentes ou temporários.

Um bom exemplo é a existência de espaços da cultura nordestina em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, onde é possível comprar produtos típicos do Nordeste, (queijo coalho, tapioca, bode) e dançar um legítimo forró pé de serra em pleno centro da cidade.

Na cultura urbana existe aspectos do cotidiano que são consolidados pelo próprio modo de vida da cidade moderna. È preciso ter pressa na cidade, já que as distâncias são grandes, os transportes de massa e o trânsito flui lentamente. Não é o espaço da cortesia, da lentidão, da contemplação, dos grandes espaços. Na cidade encontramos o ritmo nervoso, arisco, da corrida para entrar primeiro no transporte, dos restaurantes lotados, das filas intermináveis, e da violência. Para um habitante de uma cidade pacata, adaptar-se ao ritmo de uma grande cidade pode ser uma tarefa árdua que nunca é finalizada.

Uma das características marcantes da cidade é a oferta de serviços, especializados e em quantidades surpreendentes. A cultura é um dos serviços que mais atraem nas cidades, pois é o ponto de efervescência do que é novo, moderno, atua e de vanguarda. É possível nas grandes cidades assistir grandes espetáculo com a ópera Aída, concertos de rock de bandas internacionais, filmes alternativos, exposição de grandes artistas ou obras inestimáveis como obras do faraó egípcio. Ou seja, nas cidades não está disponível apenas a cultura local, mas a cultura da humanidade de todas as polis do mundo, representadas em um só local.

Apesar do papel de cidade espetáculo que oportuniza diferentes experiências, o cotidiano das grandes cidades provoca também a sensação de solidão, inadequação e inconstância que resulta no surgimento de grupos que expressam a sua insatisfação com a violência, com o ritmo acelerado e com as dificuldades encontradas em uma caracterização de roupas, músicas, modo de andar, consumir e viver diferenciados do resto da sociedade. São as tribos urbanas, como os góticos, grunges, punks, roqueiros, technos etc que encontram em seus estilos de vida um espaço singular no universo homogêneo das cidades. É a busca da identidade e da identifi cação para uma melhor compreensão e mobilidade nos espaços urbanos.

Da Figura do Flaneur de Baudellaire ao Filme Koyaanisqatsi: Life out of balance (Vida fora de equilíbrio)

Um dos primeiros relatos do cotidiano das cidades foi realizado por Baudellaire através da figura do flaneur que ficava observando os transeuntes das ruas da cidade, registrando os seus hábitos e costumes. Flanear virou sinônimo de andar de forma despreocupada pelas ruas das cidades observando o comportamento local. Para o flaneur, uma grande cidade é um território rico em sujeitos e atitudes que pode retratar o perfil de todo um grupo social como legítimos representantes da cultura urbana.

É preciso contextualizar o olhar de Baudellaire que estava testemunhando o surgimento da cidade capitalista moderna, em plena transição do modo de vida rural predominante para o modo de vida urbano.

O poeta francês Charles Baudelaire procurou, na imensidão das grandes cidades, a efemeridade que caracterizou sua época. Viveu na Paris oitocentista em seu momento de reforma urbana, sob o governo de Napoleão III. Da reforma, nasceu um modelo de modernidade urbana, em que a construção de grandes vias para a rápida circulação de cargas e de transporte de passageiros passa a ser privilegiada. Paris, à época de Baudelaire, era a capital da utilidade fútil. Seus cafés, bulevares, salões e passagens foram freqüentados por uma sociedade esquálida, desejosa em ver seu rosto refletido em tudo o que construía ou podia comprar (MENEZES, 2009, p.64).

No seu próprio texto, Baudellaire defi ne o papel do flaneur como um admirador de uma nova ordem social que registra as suas observações e refle xões, consciente da importância histórica do seu registro.

Para o perfeito Flâneur, para o observador apaixonado, é um imenso júbilo fixar residência no numeroso, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa, e contudo sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto no mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes, apaixonados, imparciais, que a linguagem não pode definir senão toscamente. O observador é um príncipe que frui por toda parte do fato de estar incógnito. O amador da vida faz do mundo a sua família, tal como o amador do belo sexo compõe sua família, com todas as belezas encontradas e encontráveis ou inencontráveis; tal como o amador de quadros vive numa sociedade encantada de sonhos pintados. Assim o apaixonado pela vida universal entra na multidão como se isso lhe aparecesse como um reservatório de eletricidade (BAUDELLAIRE, 1988, P.170).

O autor não foi o único a lançar um olhar perspicaz sobre a nova organização da sociedade em complexas cidades. Outros autores também buscaram captar os fragmentos da realidade para os seus romances, como Edgard Allan Poe, Emilé Zola, Charles Dickens, Honoré de Balzac e Victor Hugo trouxeram relatos interessantes do panorama urbano da época. O livro Londres e Paris no Século XIX, o espetáculo da pobreza da historiadora, Maria Stella Martins Bresciani, aborda a perplexidade dos habitantes diante de condições de vida sub humanas, muito parecidas com a realidade que encontramos nas favelas e regiões periféricas hoje.

Não é por acaso que várias cidades passaram por reformas e ações higienistas com o objetivo de livrar as cidades das doenças provocadas pela aglomeração de pessoas em condições insalubres.

É um período complexo da conformação das cidades, no qual foram criados vários processos e códigos para se viver nas cidades, como por exemplo, a necessidade da vacina e o controle da saúde dos seus habitantes.

A forma de viver foi modificada, os costumes da vida rural não podiam ser reproduzidos nos grandes centros urbanos.

O modo de vida da cidade exige um comportamento urbano condicionado em uma série de procedimentos que implicam não apenas a forma de organização e orientação no espaço, mas também o deslocamento e o modo de viver.

Os apartamentos, por exemplo, exigem não apenas uma adaptação ao estilo de moradia (quartos menores, banheiros e cozinhas minúsculos), como também afetam outras áreas do estilo de vida: elevadores que exigem tempo de espera, uso comum da água, distinção entre espaços comuns e privados, regras de convivência registradas em cartório civil etc.

São regras que condicionam não apenas os espaços comuns públicos, mas também os espaços privados (proibição de animais, roupas penduradas nas janelas, barulho em determinados horários etc.).

Todas estas questões, embora subjetivas, condicionam a forma de viver das pessoas que precisam se conformar com as regras para viver em determinados espaços.

E não é apenas no espaço de habitação que os critérios são estabelecidos, praticamente em todos os espaços urbanos sejam eles museus, cinemas, transporte público, praças etc, existe um código de conduta pré-estabelecido.

Na peça de teatro chamada Fulaninha e Dona Coisa, as relações entre uma empregada doméstica e sua patroa são exploradas na perspectiva da condição de Fulaninha, uma moça recém chegada do interior para trabalhar na cidade que não compreende os códigos de conduta.

Em uma das cenas, a personagem lava as roupas da patroa na piscina do prédio e ao ser repreendida afi rma com evidente surpresa: Imagina, Dona Coisa, um açude cheio d?água só para tomar banho!

Existem várias crônicas que exploram as contradições e os problemas da cidade, como O Homem Nude Fernando Sabino, mas a transição da vida rural para o homem urbano foi retratado de forma magistral no filme

A Marvada Carne, sobre um matuto cujo maior desejo era comer carne de boi. As peripécias terminam com a migração da família para uma grande cidade, único local onde ele consegue realizar o seu desejo.

Cabe aqui um referência ao enorme poder de atração que as grandes cidades exercem sobre os habitantes das mais diversas localidades.

A sociedade capitalista moderna consolidou a ideia de que as cidades são locais associados a modernidade, com todas as facilidades de uma vida de consumo e sucesso.

A dicotomia campo-cidade vem sendo retratada no imaginário de todos como um contraponto entre o antigo e o moderno, o atrasado e o atual, o imóvel e o dinâmico, seja através das novelas, livros, contos, peças e jornais. Existe a imagem da cidade que oferece mais empregos, mais condições de mobilidade social e econômica, mais possibilidade de sucesso e uma diversidade de serviços.

É na cidade que encontramos os grandes médicos, as maiores lojas, ou seja, mais acesso ao consumo. Não é colocado em momento algum que esta acessibilidade está relacionada com o consumo, e, consequentemente, ao capital financeiro. Atraídos pelas possibilidades de melhores oportunidades nas cidades, milhares de pessoas migram nas suas próprias regiões ou intra-regiões em busca de realizar o sonho de uma realidade melhor.

Por outro lado, para os que vivem nas cidades, os problemas são muitos e reside em cada habitante o imaginário de uma qualidade de vida melhor, em cidades de pequeno e médio porte, sem o estresse do cotidiano causado pelo barulho, pelo trânsito e pela violência. Este panorama caótico das cidades modernas levou vários artistas a criarem suas obras, a partir de suas inquietações com o estilo de vida urbano e suas contradições.

Um trabalho que exemplifica bem a preocupação com o modo de vida urbano é o documentário Koyaanisqatsi: Life out of balance, dirigido por Godfrey Reggio em 1983.

O filme mostra através de um olhar muito particular, cenas da cidade aceleradas, apontando para a irracionalidade em nosso modo de viver.

O título complicado do fi lme é uma palavra utilizada por tribos indígenas que significa vida louca e tem uma função importante na narrativa. Considerado uma obra prima visual com excelente trilha sonora, o filme nos leva a uma refl exão profunda sobre ações aparentemente banais do cotidiano das cidades.

Uma questão interessante é que o modo de vida urbano não altera apenas as estruturas físicas como a moradia, deslocamento, transporte, trabalho etc. As relações de tempo também são alteradas, e os minutos e segundos do relógio costumam fazer diferença, principalmente quando se perde um ônibus ou se chega atrasado para bater o ponto na fábrica. No modo de vida rural, as horas possuem um significado importante relacionado com elementos pontuais como a hora das refeições, por exemplo, mas o principal relógio ainda é a luz solar e as referências da natureza (tal evento aconteceu antes ou depois da colheita ou da seca).

O ritmo de tempo diferenciado é mais um elemento que caracteriza o cotidiano urbano e sempre é importante lembrar que as duas categorias mais importantes para o ser humano é o tempo e o espaço e suas constantes alterações provocam inquietações e perplexidade que costumam ser encontradas em expressões do senso comum como: o tempo está passando muito rápido, o dia está mais curto, o tempo voa, o dia com 24 horas não é mais suficiente etc.

Obviamente, do ponto de vista físico não existe nenhuma mudança no tempo, mas a percepção individual está relacionada com o tempo social. Harvey (1999) tece algumas considerações interessantes sobre o assunto.

Em primeiro lugar, as comunicações contemporâneas derrubaram as fronteiras usuais do espaço e do tempo, produzindo tanto um novo internacionalismo como fortes diferenciações internas em cidades e sociedades baseadas no lugar, na função e no interesse social. Essa fragmentação produzida? existe num contexto com tecnologias de comunicação e transportes capazes de lidar com a interação social no espaço de maneira bem diferenciada. A arquitetura e o projeto urbano viram-se, portanto, diante de oportunidades novas e mais amplias de diversifi car a forma espacial do que ocorrera no período pós-guerra imediato. Formas urbanas dispersas, descentralizadas e desconcentradas são hoje mais factíveis tecnologicamente do que antes. (HARVEY, 2001, p.77).

Assim, verifi camos que as estruturas da organização espacial também afetam as relações do tempo nas grandes cidades, modifi cando as duas categorias essenciais para o ser humano, que são concretizadas nas ações do cotidiano. O cotidiano, principalmente nas grandes cidades, é um retrato da estrutura da sociedade e autores como Lefebvre (1991) o consideram tão importante que afirma que quando as pessoas não podem mais a viver sua cotidianidade, então começa uma revolução. Só então. Enquanto puderem viver o cotidiano, as antigas relações se reconstituem (LEFEBVRE, 1991, p.39).

Investigar o cotidiano e a sua importância na vida moderna é essencial para compreendermos a lógica da vida urbana e seus impactos em nossa sociedade.

As Identidades e a busca de espaços para a expressão da cultura

A organização dos espaços na cidade e as modificações nas estruturas temporais e espaciais provocam inquietações em seus moradores que convivem cotidianamente com questões relacionadas com a violência, solidão, indiferença, entre outros elementos.

Diante da opressão e da solidão imposta pela cidade, são formados grupos que buscam a sua inserção no ambiente urbano através de uma refl exão e crítica sobre o modo de vida da cidade.

O sociólogo francês Michel Mafesoli foi o primeiro autor a utilizar a expressão tribos urbanas em seus artigos, a partir de 1985.

Segundo o autor, as tribos urbanas podem ser definidas como:

Diversas redes, grupos de afinidades e de interesse, laços de vizinhança que estruturam nossas megalópoles. Seja ele qual for, o que está em jogo é a potência contra o poder, mesmo que aquela não possa avançar senão mascarada para não ser esmagada por este (MAFESOLI, 1998, p.70).

Segundo Frehse (2006), o uso da noção era metafórico, para dar conta de formas supostamente novas de associação entre os indivíduos na ?sociedade pós-moderna: o autor fala em neotribalismo. Seriam essencialmente micro-grupos que, forjados em meio à massificação das relações sociais baseadas no individualismo e marcados pela unissexualização da aparência física, dos usos do corpo e do vestuário, acabariam, mediante sua sociabilidade, por contestar o próprio individualismo vigente no mundo contemporâneo.

Podemos citar como exemplos de tribos urbanas os punks, nerds, clubbers, góticos, emos, rappers, surfi stas etc. Cada tribo apresenta um visual próprio, uma linguagem específica que poder expressada em arte ou em músicas e práticas cotidianas específicas. É interessante ressaltar que os grupo não são fechados, ao mesmo tempo em que buscam uma diferenciação da sociedade, não existe critérios que definem quem pode pertencer aos grupos. Também é possível transitar entre os diversos grupos. Dependendo do momento, uma pessoa pode passar por um período gótico e posteriormente tornar-se punk ou clubber, por exemplo.

É uma ideia de identidade flexível ou da existência de identidades múltiplas, conceito definido por Hall (2006) como um descentramento da identidade fixa e estável, resultando nas identidades abertas, contraditórias, inacabadas, fragmentadas do sujeito pós-moderno.

O deslocamento ou descentramento da identidade é uma excelente abordagem para analisar a existência das diversas tribos urbanas e as possibilidades de classificações flexíveis dos seus grupos.

Em 1991, um grupo Inglês chamado Stomp recriou através da dança, movimentos e sons específicos das grandes cidades, tornando-se rapidamente um sucesso mundial.

A força do grupo está justamente em retratar o caos das grandes cidades em pequenos recortes do cotidiano (o barulho de uma chave, o andar nas ruas, o movimento de vassouras, os latões de lixo), em arte.

Um exemplo nacional que expressa a busca da identidade e espaço na cultura das grandes cidades é o funk, uma mistura de vários ritmos que mobiliza grandes bailes na periferia e nas favelas do Rio de Janeiro.

O surgimento de um estilo de música relacionado com espaços da cidade onde se concentra a pobreza gerou alusões à existência de uma cidade partida e nas próprias músicas é possível encontrar referências ao conflito de culturas diferenciadas como na letra da música Som de Preto de Amilcka e Chocolate que cantam em seu refrão É som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado.

O Hip

Hop e o Rap também são expressões que traduzem em suas letras a violência do tráfico, as questões relacionadas com a sexualidade e as refl exões sobre a organização das cidades, como o refrão de um rap de sucesso:

Eu só quero é ser feliz
Andar tranquilamente
Na favela onde eu nasci
E poder me orgulhar
E ter a consciência
Que o pobre tem o seu lugar
Rap da Felicidade (Cidinho e Doca)

Todas estas manifestações apontam para os conflitos gerados a partir da própria organização das cidades que nos interessam justamente por refl etir a busca da identidade diante de uma tentativa de homogeneização do ser humano nos grandes centros.

Este é um dos aspectos mais complexos na organização das cidades, ao mesmo tempo em que promove o isolamento dos indivíduos e perda da individualidade no meio da multidão.

Surge a oportunidade de diferenciação através dos estilos das tribos, identificação e inserção através da diferença. É o movimento e a resistência diante de um modelo opressor de organização social.

Diante de tantas diferenças, a cidade se apresenta como um verdadeiro caldeirão cultural em constante ebulição, oferecendo inúmeras possibilidades de acesso ao patrimônio cultural da humanidade, sem fronteiras.

A variedade cultural nas cidades

As cidades se caracterizam por uma imensa diversidade e quantidade de opções culturais que abarcam desde museus antigos com sólidas coleções da história até manifestações modernas de arte nas praças e nas ruas.

A multiplicidade de opções culturais é que tornam as práticas culturais das cidades tão interessantes. O velho e o novo convivem nos espaços, possibilitando ao morador ou visitante optar por experimentar e assistir diversos espetáculos e exposições. Em uma grande cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, é possível encontrar uma exposição com artefatos do Egito antigo, assistir um espetáculo de ballet clássico no Teatro Municipal, participar de um ensaio de Escola de Samba da Mangueira e visitar um baile Funk na periferia. A existência de diversos museus, teatro e casas de shows, promove uma verdadeira babel cultural na qual cabe a cada um escolher o que deseja experimentar.

Além das opções de arte formal, existem as opções ao ar livre que estão expostas, seja as esculturas e fachadas nas praças e ruas, ou espetáculos mambembes que acontecem nos espaços públicos a todo instante.

Muitas opções culturais são gratuitas e abertas ao público em geral.

Mas a existência de diversas opções culturais não é exclusividade do Rio de Janeiro.

Todas as grandes cidades apresentam a mesma quantidade e diversidade de opções e os principais museus do mundo estão localizados nas grandes cidades mundiais (Museu do Louvre em Paris, Museu do Prado em Madri, Moma em Nova York, entre outros). Outras cidades de porte médio também já começam a investir na construção de grandes museus e teatros, assim como outros espaços culturais como forma de atrair turistas e investimentos. É o caso do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, projetado por Oscar Niemayer que colocou a cidade no roteiro da cultura e a Estação Ciência em João Pessoa, com projeto arquitetônico do mesmo autor.

Além do investimento na estrutura física existe também o estímulo aos festivais de teatro, dança, música, além do apoio aos expoentes das manifestações culturais locais.

A efervescência cultural nas cidades nos lembra a função das cidades na Idade Média como espaços para representações e divertimentos variados.

Conclusão

O cotidiano urbano retrata as mudanças no modo de vida das cidades e suas implicações para as categorias tempo e espaço tão importantes para o ser humano.

Os códigos, a estrutura, a forma de morar, deslocar e trabalhar, enfi m o modo de vida urbana produz também novas tribos que buscam nos grupos e nos estilos de vida se contrapor ao caos da massifi cação das grandes cidades.

Surgem os espaços para práticas culturais distintas que agregam os espaços formais com seus museus, teatros e cinemas e os informais que acontecem na rua, na praça, na avenida, nas periferias.

É justamente a combinação de tantas manifestações distintas que mantém em ebulição o caldeirão cultural das cidades.

Resumo

Os aspectos do cotidiano urbano e as práticas culturais das grandes cidades, provocam transformações nas categorias tempo e espaço que podem ser identificadas no modo de vida urbano.

A construção das identidades e as práticas culturais apresentam uma estrutura específica nas grandes cidades, que foi observada e utilizada por grandes escritores e artistas em busca de respostas sobre o ritmo de vida frenético e as manifestações culturais em constante ebulição. A organização dos espaços na cidade e as modifi cações nas estruturas temporais e espaciais provocam inquietações em seus moradores que convivem cotidianamente com inúmeras questões e diante da opressão e da solidão imposta pela cidade, são formados grupos que buscam a sua inserção no ambiente urbano através de uma refl exão e crítica sobre o modo de vida da cidade.

As cidades se caracterizam por uma imensa diversidade e quantidade de opções culturais que abarcam desde museus antigos com sólidas coleções da história até manifestações modernas de arte nas praças e nas ruas, sendo justamente a multiplicidade de opções culturais é que tornam as práticas culturais das cidades tão interessantes.

Fonte: Regina Celly Nogueira/Ana Beatriz Gomes Carvalho/Carlos Fortuna

 

 

 

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