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REVOLUÇÃO SANDINISTA
( 1979 )

Em 1978 o assassinato do jornalista liberal Pedro Joaquín Chamorro, diretor do diário La Prensa, é o estopim de uma insurreição nacional contra o somozismo, liderada pelos sandinistas. Os guerrilheiros derrotam a Guarda Nacional e tomam o poder em julho de 1979; uma junta formada por sandinistas e setores liberais assume o poder. O novo governo expropria todos os bens da família Somoza, nacionaliza bancos e companhias de seguros e passa grande parte da economia para o controle do Estado.

Em 1980 Violeta Chamorro (mulher de Pedro) e Alfonso Robelo, os dois liberais da junta, rompem com o governo e passam para a oposição; no mesmo ano, Somoza é assassinado no Paraguai. Em 1981 os EUA suspendem a ajuda econômica à Nicarágua, acusando os sandinistas de apoiar a guerrilha esquerdista de El Salvador. As relações com os EUA se deterioram rapidamente depois que Washington passa a financiar os "contras", guerrilheiros anti-sandinistas formados da extinta Guarda Nacional somozista. Em 1983 os EUA impõem sanções econômicas contra a Nicarágua e enviam uma frota para patrulhar a costa nicaragüense. O governo sandinista decreta o estado de emergência.

O líder sandinista Daniel Ortega vence as primeiras eleições pós-revolução, em 1984; no ano seguinte os EUA rejeitam proposta de paz dos sandinistas e decretam embargo total. Em 1986 o jornal oposicionista La Prensa, da família Chamorro, é fechado temporariamente pelos sandinistas; em represália, o Congresso dos EUA aprova um pacote de ajuda de US$ 100 milhões para os "contras". O primeiro passo para a paz é dado em 1987, com a assinatura do Tratado Esquipulas II; os "contras" concordam em negociar com os sandinistas no ano seguinte. A trégua entre o governo e os rebeldes é assinada em 1988 em Sapoá. O esforço de guerra agrava a crise econômica: a inflação atinge 33.000% ao ano em 1988. Em março de 1990 Violeta Chamorro, da União Nacional Opositora (UNO), obtém uma vitória inesperada sobre a FSLN na eleição presidencial. Os EUA cancelam o embargo e os "contras" suspendem as hostilidades.

Chamorro toma posse em abril de 1990 mas mantém o general Humberto Ortega no comando do exército, que permanece sob controle dos sandinistas.

Fonte: br.share.geocities.com

REVOLUÇÃO SANDINISTA
( 1979 )

SONHOS E DESILUSÕES

Segundo a historiadora Marisa Marega, Augusto César Sandino é o general-guerrilheiro mais famoso da América Latina. Sua origem é humilde: filho de lavrador, não chegou a terminar o curso primário.


Sandino guerrilheiro em 1927

Em 1923, Sandino foi ao México. O país se encontrava em efervescência social na luta contra o imperialismo estadunidense e greves de cunho nacionalista aconteciam. Tudo aquilo, entre outros fatores, contribuiu para ensiná-lo sobre o que é defender uma Nação. Além disso, os mexicanos o lembravam que o governo da Nicarágua colaborava com os EUA. A estratégica posição geográfica de seu país fê-lo tornar-se alvo de conflitos políticos, sobretudo envolvendo os EUA, por propiciar a construção de um canal que permitia a passagem de embarcações comerciais do Atlântico para o Pacífico, mesmo depois de aberto o canal do Panamá em 1914.

Ele voltou em 1926 para seu país e foi trabalhar na mina de ouro San Albino – propriedade de uma família estadunidense. Foi lá que ele começou a reunir companheiros para planejar uma revolta.

“(...) meu coração de patriota (...) minha espada defenderá a honra nacional e que será redenção para os oprimidos (...) Poderá morrer o último dos meus soldados, mas, antes, mais de um batalhão de vossos, invasor loiro, terá mordido o pó das minhas agrestes montanhas (..) Pátria e Liberdade”

As duas bandeiras levantadas por Sandino foram a defesa da soberania da Nicarágua (com a expulsão dos marines estadunidenses) e a divisão das terras e riquezas entre todos os nicaragüenses.

Enveredou numa guerrilha de movimento com base nas montanhas, resistindo ao ataque das forças estadunidenses, que, finalmente, concordaram em sair do país mediante rearranjos no poder político. Sua luta teve reconhecimento em várias partes do mundo (inclusive, com a construção de comitês pró-sandinistas) e vai ser resgatada ao longo da história nicaragüense até os dias atuais.

Em 1933, com a saída dos marines estadunidenses, foi montada a Guarda Nacional treinada pelos mesmos. Sob o pretexto de “manter a ordem”, esta Guarda sempre perseguiria os homens de Sandino e os movimentos que se seguiram. O chefe da Guarda, Anastácio Somoza, acabou por mandar assassinar Sandino em 1934, numa emboscada.

Em 1936, Anastácio Somoza deu um golpe de Estado e assumiu um governo pró-EUA que duraria 46 anos - contando com a sucessão de seu filho, após seu assassinato em 1956.


Frente Sandinista de Libertação

A Frente Sandinista de Libertação Nacional/FSLN foi fundada em 1960, segundo Marega, tentando reacender a chama da guerrilha camponesa de Sandino, mobilizando e organizando todos os que lutavam contra o imperialismo e seus aliados nicaragüenses (os Somoza), agregando diversas tendências ao longo do tempo. Surge claramente influenciada pela Revolução Cubana de 1959, defendendo a luta armada, apoiada pelas massas populares. Seria preciso deter a “força capitalista de oposição” (Partido Conservador), também apoiado no imperialismo estadunidense e que, no caso de uma forte luta guerrilheira, poderia tentar chegar ao poder. Neste sentido, a FSLN afirma-se como uma instituição de caráter político, militar e ideológico, querendo representar as verdadeiras intenções do povo nicaragüense, cansado da exploração perpetrada pelo “Império do dólar”.

Abaixo, o juramento dos sandinistas, segundo Carlos Fonseca Amador (um dos fundadores da FSLN):

“Ante a imagem de Augusto César Sandino e Ernesto Che Guevara, ante a recordação dos heróis e mártires da Nicarágua, da América Latina e de toda a humanidade, ante a história, coloco minha mão sobre a bandeira vermelha e preta que significa Pátria Livre ou Morrer e juro defender com as armas na mão o decoro nacional e combater pela redenção dos oprimidos e explorados da Nicarágua e do mundo. Se cumpro este juramento, a libertação da Nicarágua e de todos os povos será um prêmio. Se o traio, a morte vergonhosa e a ignomínia serão meu castigo”

Devemos entender que essa etapa de ascensão revolucionária se iniciou a partir da década de 1950, com a decomposição política da ditadura, além da constante repressão e corrupção na administração pública. Movimentos de contestação tomaram as cidades e os campos, numa “formação de certa consciência classista contra o sistema de exploração vigente”, segundo Humberto Ortega Saavedra, um dos dirigentes da Frente. O assassinato de Somoza Garcia, em 1956, pelo poeta Rigoberto Lopez Peres, seria o marco do reinício da luta, interrompida com a morte de Sandino em 1934. A partir deste justiçamento e de numerosas ações armadas na década de 50, houve uma rearticulação do movimento sandinista revolucionário. A conjuntura foi marcada pelo crescimento dos sindicatos, da organização dos estudantes, que se reuniam na Juventude Patriótica Nicaragüense (JPN), e pela movimentação de revolucionários e intelectuais exilados que se articulavam no exterior do país.

Entre a criação da Frente e 1967, o trabalho interno das vanguardas esteve voltado para a criação de estruturas clandestinas político-militares, obtendo um contato direto com setores populares, promovendo-se a criação de Comitês Cívicos Populares e a Frente Estudantil Revolucionária. Formularam-se ainda um programa reivindicativo, os estatutos da organização de vanguarda, e um conjunto de documentos políticos e estratégicos, além de estudos sobre a realidade nicaragüense. Grupos de estudo, folhas soltas, volantes e a propaganda armada, tanto no campo quanto nas cidades, divulgavam os principais pontos defendidos pela FSLN que consideraria ainda “o político e militar como uma unidade, no qual o militar se subordina ao político” . Em 1967, a Frente se tornou o principal canal do povo na luta armada contra o somozismo.

Em 1975, houve uma divisão da FSLN em três tendências: Tendência Proletária, que considerava primordial concentrar o trabalho na classe operária, considerada a força social hegemônica na luta revolucionária; Guerra Popular Prolongada (GPP), adaptando a teoria política e militar maoísta às propostas de Sandino; Tendência Insurrecional ou Terceirista, comandada pelos irmãos Ortega Saavedra e majoritária na Frente, que via como ameaçador o projeto reformista proposto pela ditadura e procurava manter constante diálogo com o povo, recrutando-o para a alternativa da luta armada contra as forças da ditadura. Em 1978, estas tendências se unificaram, ao mesmo tempo em que o movimento popular se intensificava. Vale dizer que a Revolução contou com amplo apoio de setores da Igreja Progressista participando, inclusive, da luta armada. Foi então criada uma plataforma comum destas tendências: o Movimento Povo Unido. Ações como a invasão do Palácio Nacional, sob a liderança do Comandante Zero, são exemplos desta unidade de luta.

O governo Somoza enfraquecia-se progressivamente. Com o tempo, seu principal apoio era mesmo a força da potência estadunidense. Quando, em 1978, o jornalista liberal Pedro Chamorro, que comandava o maior jornal de oposição ao regime, La Prensa, foi assassinado, gerou-se grande polêmica nacional e internacional, obrigando os EUA a retirarem seu apoio. Neste ínterim, deu-se início a uma insurreição popular que levou uma Junta


Vitória da FSLN

Provisória ao poder, contando com a participação, além dos sandinistas, de Violeta Chamorro, viúva do jornalista assassinado, e que, em 1990, venceria a FSLN nas eleições, e Alfonso Robelo, representante do Conselho Superior de Empresa Privada (Cosep), isto é, a burguesia antisomozista.

Em 1984 foram feitas as primeiras eleições livres depois da vitória da revolução, vencendo Daniel Ortega, líder da FSLN.

Entretanto, os diferentes grupos ideológicos e sociais que até então estavam unidos contra um inimigo comum, quando, finalmente, conseguiram derrubar o regime, tenderam a evidenciar diferenças que, anteriormente, eram deixadas num segundo plano, e agora, passaram a incomodar.

A Nicarágua no fim da guerra revolucionária estava completamente devastada. Recuperá-la seria tarefa difícil, sobretudo quando se considera o bloqueio econômico dos EUA e uma administração Reagan que motivou, a partir de 1983, a guerra contra-revolucionária (os Contras) “que com suas seqüelas de 17 bilhões de dólares em perdas – o custo de 50 anos de exportações na Nicarágua naquele momento – e mais de 50 mil vítimas, desgastou o sandinismo e o conduziu à derrota eleitoral 11 anos depois do triunfo”, em 1990.

CRONOLOGIA:

1926: Sandino retorna à Nicarágua para iniciar a luta anti-imperialista

1933: Saída dos marines estadunidenses e criação da Guarda Nacional

1934: Sandino assassinado pela Guarda Nacional chefiada por Somoza

1936: Anastácio Somoza dá um golpe de Estado e constitui um governo pró-EUA

1956: Assassinato de Anastácio Somoza e ascensão de seu filho, Luis Somoza Debayle

1960: Fundação da Frente Sandinista de Libertação Nacional/FSLN

1978: Assassinato do jornalista Joaquim Chamorro, do La Prensa. União da oposição em Frente Ampla

1979: Vitória da revolução, queda de Somoza e instalação da Junta Provisória

1984: Primeiras eleições livres na Nicarágua. Vitória sandinista.

1990: Vitória de Violeta Chamorro nas eleições, derrotando Daniel Ortega, líder sandinista.

Fonte: www.historia.uff.br

REVOLUÇÃO SANDINISTA

Nicarágua: uma nova etapa

Em 1979, no centro da América, a história registra o triunfo de um processo revolucionário encabeçado pela Frente Sandinista de Liberação Nacional (FSLN). Na época, a simpatia dos democratas e progressistas do mundo foi evidente. Expedições internacionalistas, intercâmbios e as mais variadas formas de solidariedade foram levadas a cabo na idéia de fortalecer e consolidar as mudanças que sepultaram a velha ditadura da família Somoza, amparada desde sempre pelas tropas dos Estados Unidos.

Entretanto, é bom lembrar que a luta dos sandinistas começou muito antes de 1979. Parece-nos oportuno, após o triunfo de Daniel Ortega - que retorna ao governo após 16 anos -, retomar alguns elementos históricos de análise, para assim distinguir as razões de um contundente triunfo eleitoral de hoje e, modestamente, manifestar alguma opinião sobre o que é possível projetar em termos de agenda doméstica, à luz das novas realidades, em benefício da imensa maioria do povo nicaragüense, bem como quais podem ser os elementos centrais da política externa do novo governo.

Da Nicarágua livre à dinastia dos Somoza

Prudentemente, há que reconhecer que outra é a conjuntura. Não há como esquecer que, certamente, Ortega e seu governo deverão se movimentar tendo pela frente oposições internas fortes, em particular a de uma oligarquia ligada ao capital financeiro. Torna-se imperioso um diálogo construtivo com o Movimento de Renovação Sandinista (MRS), que apoiou o candidato Edmundo Jarquín e do qual fazem parte figuras como a do ex-presidente Sérgio Ramirez. Mas - e talvez seja o mais determinante - é preciso uma atitude firme diante da atitude ingerencista dos Estados Unidos.

Há que recordar que o Grande Irmão do Norte tem uma histórica e nefasta presença no país. Com efeito, no começo do século XX, quando a velha estrutura econômica na Nicarágua começou a ser reorientada por novos produtores opostos a latifundiários tradicionais, criou-se uma tensão entre esses setores, resolvida quando o governo liberal de Santos Zelaya sucumbiu - não diante da força dos mais conservadores, mas diante de uma invasão dos marines imperiais em 1912. As tropas norte-americanas permaneceram até 1933, apoderando-se dos recursos econômicos e controlando militarmente o país. A resistência popular foi encabeçada pelo general Augusto César Sandino, que levantou a bandeira da dignidade nacional contra os Estados Unidos e a oligarquia conservadora, vencendo heroicamente em 1933.

No entanto, o projeto de uma Nicarágua livre foi frustrado pela reação. O covarde assassinato em 1934 do general Sandino pela Guarda Nacional da Nicarágua - o novo exército que atuou sob as ordens de Anastácio Somoza Garcia, ex-funcionário das companhias dos Estados Unidos que passou a controlar o país - é o golpe criminal que abre a dinastia dos Somoza, que permaneceria no poder durante 45 anos, até o triunfo da Revolução Sandinista.

Nesses anos, a Nicarágua foi convertida em base militar para as agressões ao governo democrático de Jacobo Arbenz na Guatemala e à Baía dos Porcos em Cuba. Também, ao igual que o restante de países da América Central, foi incorporada à divisão internacional do trabalho como economia primária exportadora. Formou-se uma burguesia agrária ligada à expansão do cultivo do café entre 1920 e 1940 e, após a Segunda Guerra Mundial, ao cultivo do algodão. A maioria das pessoas sobrevivia economicamente, havendo uma estrutura produtiva semifeudal.

O esquema agro-exportador foi sempre dependente das necessidades da economia dos Estados Unidos e das camadas de meio e alto poder aquisitivo dos demais países da América Central, em virtude dos tratados de integração. O comércio era mediado pelo esquema de preços internacionais e sustentado pelas leis da troca desigual, especialmente entre 1960 e 1978, quando, em pleno Estado somocista, a abertura externa chegou a mais do 60% do PIB e a dívida externa superava os 900 milhões de dólares.

A esse quadro temos que somar o tratamento dispensado ao trabalhador, as condições paupérrimas de trabalho, o baixíssimo nível de vida, os elevados índices de desemprego e subemprego, fatores retratados por Carlos Vilar em seu Perfiles de la Revolución Sandinista. Vilar descreve que o excedente extraído de forma brutal aos trabalhadores no conjunto da economia - especialmente na agro-exportação – iria servir, definitivamente, pela via do comércio desigual, das remessas de utilidades, dos serviços do capital estrangeiro e do endividamento externo, ao processo transnacional de valorização do capital controlado pelo imperialismo, através da mediação dos grupos dominantes locais associados a ele.

O Estado somocista não foi somente a condensação institucional de uma dominação de classes, mas, ao mesmo tempo, a expressão da subordinação dessa classe aos Estados Unidos. A dinastia Somoza era subsidiada pela sua atitude reacionária diante de qualquer possibilidade de mudança e sua política externa submissa no contexto centro-americano. Aliás, esta é uma diferença entre o modelo de dominação do século XX entre América Central e América do Sul. Nas primeiras, a estrutura de poder depende em termos político-militares diretamente dos Estados Unidos, enquanto que nos Estados da América do Sul, o modelo de dominação-associação permite uma certa autonomia relativa. Isso se explica pelo baixíssimo grau de desenvolvimento das forças produtivas na América Central e pelas debilidades das burguesias locais em momentos em que ingressa com força a influência dos Estados Unidos.

Sob a ditadura de Somoza, a Nicarágua foi um voto a seu favor nas Nações Unidas, um aliado seguro na região, um território de reserva para um eventual segundo canal inter-oceânico no interesse geopolítico dos Estados Unidos e um terreno fértil para seus investimentos.

A revolução sandinista: ascensão e queda de Ortega

Daniel Ortega assumiu o poder em nome de uma Revolução legítima, popular e democrática, governando durante anos de guerra, em um tempo em que qualquer possibilidade de negociação e de opinião internacional era bloqueada pela diplomacia “americana”. Os anos da Revolução foram os anos do confronto militar, das contínuas pressões financeiras e comerciais, como o desligamento dos organismos internacionais, e da intensa campanha ideológica contra o sandinismo. A influência dessa pressão e, conseqüentemente, de não se poder satisfazer às demandas dos trabalhadores é determinante para a interpretação adequada da derrota da Frente Sandinista na eleição de 1990.

Essa revolução foi asfixiada, ainda que seja justo mencionar as dificuldades, crises e rompimentos da própria Frente Sandinista. O fato é que, em 1990, o Partido Liberal Constitucionalista, com Violeta Chamorro, assume o poder, seguida por Arnaldo Alemán e, finalmente, por Enrique Bolaños, que deixa o governo com 80% da população de 5,5 milhões de nicaragüenses vivendo com menos de dois dólares diários.

Uma das questões que mais impressionam na recente campanha eleitoral da Nicarágua é que os jornais noticiam o apoio explícito dos Estados Unidos a um dos candidatos, o banqueiro Eduardo Montealegre. As ingerências dos Estados Unidos nos países do continente em tempo eleitoral são mais do que conhecidas e já fazem parte da paisagem eleitoral. Mas, na Nicarágua, parecem, salvo melhor juízo, mais descaradas. Adicione-se outra constatação, a de que o conhecido eixo Moscou-Havana-Manágua foi substituído nas grandes redes de comunicação, com veneno costumeiro, por Caracas-Havana-Manágua.

2006: o novo triunfo da Frente Sandinista

E o fato é que o povo nicaragüense votou - a presença nas urnas foi de mais de 75% dos eleitores. E votou contra os 16 anos de governo neoliberal, contra um empobrecimento crescente, que afeta mais do 80% da população; votou pela alternativa que oferece Ortega e porque aguarda uma mudança profunda na economia e na política.

Nas razões do triunfo da Frente Sandinista encontra-se a retomada da campanha nas ruas, casa a casa; o aproveitamento de uma base ampla de votos seguros de velhos e históricos militantes da luta contra Somoza; a prioridade ao setor juvenil. Mas, também, porque, no terreno da pragmaticidade política, a Frente impulsionou uma controvertida aliança, ampla e bastante flexível, com ex-membros dos Contra e com liberais. Um elemento a considerar é que o vice de Ortega é o senhor Morales Carazo, ex-assessor do ex-presidente Alemán, que possui excelentes relações com o Banco Mundial.

Contudo, há um perdedor. E perderam as eleições os grandes empresários e a direita aliada aos Estados Unidos e a outras oligarquias centroamericanas. Perdeu uma direita dividida entre Montealegre e Rizo, até porque a ingerência descarada dos Estados Unidos condenou, aos dois, à rejeição nacionalista de um bom número de nicaragüenses.

Ortega tem pela frente o desafio de corresponder a essa votação. E não pode vacilar, porque a Nicarágua não tem condições de admitir novas frustrações. Seu governo deve, necessariamente, diferenciar-se da lógica que inspirou os três governos anteriores.

Advirta-se que distinguir a estrutura econômica e de classes da Nicarágua de hoje, com o objetivo de explicar algumas das questões mais relevantes da etapa que se abre com o triunfo de Daniel Ortega, das suas possibilidades e perspectivas, é trabalho que não pode ser resumido e extrapola o espaço reservado a estas linhas.

Uma nova conjuntura: os desafios de Ortega

Otimistamente, o governo de Daniel Ortega tem chances de avançar, de encabeçar uma nova etapa, se realizar uma leitura da realidade atual da América Latina e se o seu componente político-ideológico for a rejeição à submissão diante da política externa dos Estados Unidos, cuja história, como temos visto, em nada favorece os interesses da Nicarágua. O novo governo terá todas as possibilidades históricas, se sua projeção, em matéria de relações internacionais, for a redefinição da sua inserção na economia internacional, a partir de uma novo padrão produtivo; tem tudo para vencer se optar pela aproximação aos Estados especialmente na América, que empreendem também o caminho do desenvolvimento com soberania em uma cenário complexo, de pressões internas das direitas mais reacionárias e costumadas com o poder, com meios de comunicação jogando contra o dia a dia, em um intenso debate sobre qual deve ser o ritmo das mudanças necessárias no cenário da esquerda - para não falar de contradições mais de fundo no seio da própria esquerda.

Na Nicarágua, esse confronto não é de modo algum fácil, pois significa uma oposição concreta ao Plano Puebla-Panamá e ao CAFTA, assim como a programas como a privatização da energia elétrica. No entanto, não pode ser outro o rumo. E, para conseguir isso, é necessário criar os espaços de reflexão e, essencialmente, abrir o caminho a uma evolução coletiva de alternativas viáveis, aceitando as idéias variadas, escutando propostas que aprofundem a integração com soberania e diminuam a dependência externa dos Estados Unidos, fraturando a forma de Estado que foi gerada após a interrupção da revolução.

Existe hoje a experiência dos inícios do processo em 1979. É preciso abrir espaços à participação popular, promovendo a construção pela base de uma unidade dos movimentos sociais, insistindo em concretizar um programa alternativo ao neoliberalismo, que deu e ainda dá suporte a uma oligarquia financeira aliada ao imperialismo, neutralizando as forças opositoras com a mobilização popular.

Nos marcos de acordos possíveis, foi dito que o transporte público voltará aos 13 centavos de dólar, por conta do acordo entre transportadores e a prefeitura de Manágua para receber diesel da Venezuela a baixo preço, tendo em vista o acordo entre a PDVSA, a ALBANIC (Alba Petróleo de Nicarágua) e a Associação de Municípios da Nicarágua (AMUNIC). Esse é, no mínimo, um bom começo para uma nova etapa.

Fonte: www.correiocidadania.com.br

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