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História da América

As plantas sagradas na história da América

Diversas plantas sagradas das tradições indígenas de diferentes regiões das Américas (jurema, no Nordeste brasileiro; ayahuasca, na Amazônia; vilca, nos Andes) possuem uma analogia química estrutural, todas tem como princípio ativo farmacoquímico, a DMT (N, N-Dimetiltriptamina), substância alucinógena identificada pela primeira vez numa planta (a jurema, Mimosa hostilis), em 1946, no Brasil. À distinção nos ritos, doutrinas, contextos geográficos, sociais e culturais se somam as múltiplas formas de preparo e de consumo destes vegetais, pois o grande segredo da DMT é a sua inatividade por via oral. Para torná-la ativa, é preciso uma via de absorção não oral (inspiração nasal) ou a mistura com alguma outra planta que possa cumprir o papel sinérgico de neutralizar uma enzima estomacal abrindo caminho para a DMT agir.

Todas as plantas americanas possuidoras de DMT e sagradas para os indígenas, foram alvo de perseguições pela Igreja Católica e pela administração colonial.

Uma outra planta americana sagrada, no entanto, o tabaco, foi assimilada após objeções iniciais e tornou-se a droga mais difundida no mundo. A diferença do tabaco para com as outras plantas mencionadas é que o seu princípio ativo, a nicotina, difere qualitativamente dos efeitos alucinógenos da DMT. A nicotina é mais uma combinação de narcótico e excitante que foi retirado do seu contexto indígena original e assimilado à cultura global como droga profana e banal, de uso e abuso cotidiano.

Os elaborados meios de se tornar a DMT ativa mantiveram-se vigentes no contexto da ayahuasca, mas tornaram-se desconhecidos no que se refere à jurema, o que não impediu esta última de tornar-se a mais importante representação simbólica da cultura indígena na sociedade urbana, tanto na imaginação consciente da elite branca, na construção da virgem Iracema, “guardiã do segredo da jurema”, por José de Alencar, como nas práticas sincréticas populares do catimbó, do candomblé de caboclo e mesmo na umbanda, onde a cabocla Jurema tornou-se a entidade ameríndia por excelência.

As práticas populares de cultos ligados à jurema já foram objeto de inúmeros estudos, desde o pioneirismo de Mário de Andrade, Roger Bastide e Luis da Camara Cascudo, até as diversas teses acadêmicas, sobretudo de antropólogos (Roberto Motta, Clarice Novaes da Mota, Marco Tromboni de S. Nascimento, Clélia Moreira Pinto) e historiadores (Álvaro Carlini), quase todas, entretanto, restringem-se a usos circunscritos entre grupos indígenas ou a cultos urbanos específicos, faltando ainda um estudo histórico mais amplo que situe as transformações, desde o período colonial até a atualidade, do papel da jurema na constituição da religiosidade brasileira e de sua relação com outros usos sagrados de plantas alucinógenas análogas. Este artigo não pretende preencher esta lacuna, mas apenas apontar alguns aspectos históricos da constituição de um imaginário da jurema comparado com o de outras plantas possuidoras de DMT na colonização americana, e confrontar os mecanismos de regulamentação proscritiva destas últimas com a assimilação e oficialização do uso do tabaco, evidenciando as especificidades farmacoquímicas que permitiram a aceitação da planta possuidora de nicotina e a recusa das que continham DMT.

Alguns dos mais preciosos saberes indígenas nas Américas foram sufocados pelos colonizadores e subsistiram por meio de disfarces, sincretismos, ocultações deliberadas e cultos secretos. A transmissão oral iniciática de xamãs ou pajés preservou o conhecimento de plantas sagradas, cujo rumor dos seus efeitos fantásticos seduziu mestiços e europeus durante séculos. Um atrito cultural importante na apreensão européia do saber herborístico americano referiu-se à “arte vegetalista” indígena, conhecedora de determinadas plantas psicoativas sagradas que foram condenadas e proscritas em função dos seus efeitos alucinógenos ou afrodisíacos. Como explicitava Sebastião da Rocha Pita, em 1730, existiam plantas que era preciso ocultar, não divulgando nem sequer os seus nomes: “há também erva-de-rato para matar, e tanharon (sic) para atrair; outras libidinosas, que provocam a lascívia, das quais é mais conveniente ocultar a notícia, e calar os nomes” (ROCHA PITA, 1976:28).

Os venenos e seus antídotos foram, muitas vezes, menos temidos e menos proscritos do que outras plantas cujo uso ritual em práticas de êxtase ou de transe tornaram-nas manifestações exemplares de uma religiosidade nativa que a colonização tratou de extirpar sob a acusação de idolatria. A atitude européia diante das drogas americanas foi diferenciada em relação a cada substância. A história comparada da aceitação do tabaco e da proscrição dos alucinógenos pode permitir um olhar retrospectivo sobre formas de sobrevivências e transculturações envolvendo plantas como a cohoba, a jurema, os cogumelos, os cactos peiote e achuma, o cipó ayahuasca, entre outras.

A investigação dos critérios seletivos que discriminaram no conjunto dos recursos vegetais aqueles que foram assimilados e os que sofreram proscrições é um tema que já foi objeto de muitos trabalhos historiográficos, especialmente no âmbito da América espanhola. Gordon Wasson, nos anos 50 descobriu o consumo até então desconhecido dos cogumelos (denominados mais tarde, psylocibe, por Albert Hoffman, que isolou o princípio ativo psilocibina) entre os mazatecas do México. A “carne de deus” (teonanactl) dos antigos povos mexicanos, cujo uso fora registrado desde o século XVI pelo cronista Bernardino de Sahagun, foi identificada com tais cogumelos, e não, como se pensava até então, com o cacto peiote.

Estes dois grandes alucinógenos mexicanos se somaram a um conjunto mais amplo de plantas, que incluía o ololiuqui, o potomate, etc. que sofreram durante todo o período colonial uma forte campanha extirpatória que identificava-as às práticas chamadas de idolátricas pela Igreja. Serge Gruzinski, foi um dos historiadores que analisou este fenômeno, em obras como A colonização do Imaginário, onde ressalta a importância do consumo dos alucinógenos, não somente na época précolombiana como também, em formas mais “selvagens”, durante o período colonial: “apesar da hostilidade da Igreja e da clandestinidade imposta, o consumo dos alucinógenos continua sendo, em princípios do século XVII, um fenômeno sumamente corrente. A resistência do complexo que, de uma maneira mais geral, também é o da idolatria, revela os limites da cristianização” (GRUZINSKI, 1993:217).

O uso indígena dos alucinógenos era um aspecto fundamental e indissociável do conjunto da prática médica, pois:

como os alucinógenos permitem ao curandeiro e, as vezes, ao próprio doente, estabelecer uma comunicação com este universo sobrenatural, eles são os remédios mais importantes da farmacopéia tradicional, o medicamento por excelência. O seu papel é muito mais importante do que o dos remédios que exercem uma ação física direta. Eles se tornaram pouco a pouco o fundamento da terapêutica na maior parte, se não na totalidade, das sociedades primitivas (Evans Schultes & Hofmann, 1993:14).

Na época do descobrimento da América, a botânica era um ramo da medicina e a investigação do mundo vegetal obedecia aos interesses utilitários das aplicações fitoterápicas. As plantas eram estudadas, antes de tudo, para se buscar as suas propriedades como alimentos e como drogas. Antes da concepção moderna da objetividade da natureza, a noção que governava os esforços científicos de registro e classificação do mundo natural obedecia à idéia de que tudo no universo fora criado exclusivamente para a disposição da humanidade. Algumas das mais preciosas das plantas americanas utilizadas na farmacopéia indígena sofreram, entretanto, fortes rejeições dos colonizadores, originando uma repulsa e uma proscrição que subsistem até hoje em dia. Outras, entretanto, foram aceitas e engrossaram um fluxo comercial incessante para a metrópole, entre as quais, o cacau, a quina, a ipecacuanha e, muito especialmente, o tabaco. Porque ao tabaco coube não só a tolerância, como uma verdadeira paixão, enquanto outras plantas sofreram interdições e perseguições?

Quando Colombo chegou na ilha Hispaniola, foi recebido pelos habitantes taínos com uma substância chamada de cohoba, composta, possivelmente de folhas de tabaco misturadas a outras plantas. Assim como no Caribe, também nas costas da colônia portuguesa, os índios trouxeram dádivas vegetais, dentre as quais uma das mais importantes foi o petum, também chamado de pytyma, por Jean de Léry, de bettin, por Hans Staden ou de petigma, por Fernão Cardim. Este último, afirmava sobre esta planta, qualificada de “erva santa”, que “é uma das delícias e mimos desta terra, e são todos os naturais e ainda os portugueses perdidos por ela e têm por grande vício estar todo o dia e noite deitados nas redes a beber fumo e assim se embebedam dele como se fôra vinho” (Cardim, 1980:70). Logo os europeus descobriram nas formas do consumo dessa planta um tipo de prática por eles desconhecida: a embriaguez pela fumaça. Os vapores ao mesmo tempo sedativos e excitantes do tabaco (“sedativo da tensão e excitante da atenção”, como definiu Fernando Ortiz), apesar de certas oposições iniciais, conquistaram o conjunto do planeta constituindo-se talvez na droga de consumo mais generalizado no mundo contemporâneo.

O rapé de cohoba foi, provavelmente, o primeiro produto americano que os marinheiros de Colombo receberam como sinal de amizade dos nativos. O termo “tabaco” designava não a planta, mas o instrumento em forma de Y usado para aspirar o rapé de cohoba, que continha Anadenanthera peregrina e, talvez, tabaco em pó ou outras plantas. A confusão com os termos da língua taíno levou a que através do espanhol a palavra tabaco designasse a planta e o termo cohoba derivou na voz cohiba para designar, em Cuba, um tipo de charuto. Ocorreu uma curiosa adulteração do significado original dos termos taínos tabaco e cohoba, pois o primeiro que denominava o instrumento de consumo de um rapé feito de uma mescla de plantas, entre as quais uma solanácea e uma espécie de leguminosa, passou a denominar apenas uma destas plantas (Anadenanthera ou Piptadenia peregrina), enquanto uma corruptela do termo cohoba, que designava o pó feito das plantas, passou, na época atual, a denominar um tipo de tabaco, cohiba, constituindo-se hoje em dia na mais famosa marca de charutos cubanos.

O primeiro espanhol a fumar o tabaco, Rodrigo de Xerez, ao voltar para a Espanha, sofreu dois meses de prisão pela Inquisição por causa desse ato, logo após sua saída do cárcere, entretanto, o tabaco já havia se convertido num uso tolerado. A palavra cohoba foi registrada pela primeira vez pelo frei Ramón Pané, que também foi o primeiro europeu a escrever um relato sobre os indígenas caribenhos, em 1498, e o primeiro a aprender a sua língua, o taíno. Bartolomé de Las Casas, em Historia de las Indias, também define, pelo termo cohoba, tanto o pó aspirado como o próprio culto e ritual: “estos polvos y estos actos se llamaban cohoba”. Gonzalo Fernandes de Oviedo, foi o primeiro a identificar cohoba com a planta tharay, que séculos depois William E. Safford identificou com a Piptadenia peregrina, chamada na República Dominicana de “tamarindo de teta”. A diferença entre cohoba e tabaco foi finalmente estabelecida no XIX pelo químico cubano Alvaro Reynoso, em Agricultura de los indígenas de Cuba y Haití (Paris, 1881).

Uma das razões para a aceitação ecumênica do tabaco foi o seu efeito específico como estimulante do estado de vigília e, portanto, útil, assim como o chá e o café, para as necessidades de ampliação da produtividade laboral crescentes na época capitalista (SCHIVELBUSCH, 1991). A via da sua difusão européia, assim como ocorreu com outras plantas americanas (a quina, o cacau, etc.), foi através do clero, e particularmente dos jesuítas. Por essa razão e também por motivos comerciais, as nações não católicas da Europa, assim como os países islâmicos e a China, ofereceram uma severa resistência inicial contra o tabaco, que foi proibido sob pena de morte em vários países.

Os países católicos não ofereceram resistências à penetração do tabaco, ao contrário, embora o Vaticano estabelecesse certas sanções contra os excessos, como fumar no interior das igrejas, nunca se considerou o ato em si de fumar como pecado. O rapé e o tabaco de fumar tornaram-se tão característicos do clero católico que abriu-se uma importante questão teológica: a de saber se o tabaco quebrava ou não o jejum, necessário em muitos momentos da vida religiosa, inclusive para o recebimento da comunhão. A conclusão a que chegaram foi de que o tabaco não quebrava o jejum, podendo, portanto, ser consumido até mesmo antes da eucaristia. O apego católico pelo tabaco foi tal que, em 1779, abriu-se uma fábrica de charutos no Vaticano e, em 1851, o cardeal Antonelli, administrador fiscal dos Estados Pontificais, decretou pena de prisão para os que “disseminassem escritos e rumores de propaganda contra o uso do tabaco” (ORTIZ, 1991:288).

Diferentemente do tabaco, outras plantas sagradas da América foram estigmatizadas e tornaram-se objeto de violenta campanha extirpatória, por parte da Inquisição e dos poderes temporais. Dentre as plantas utilizadas por culturas indígenas e perseguidas pelos europeus, destacam- se as que possuem DMT. Dentre estas plantas encontramos diversas espécies de Virola (gênero aparentado ao da noz-moscada), conhecidas no noroeste amazônico pelos nomes indígenas de paricá e epená; a Anadenanthera peregrina ou colubrina, chamado de yopo no Orinoco, de cohoba no Caribe e de vilca nos Andes e; especialmente, devido a importância cultural e religiosa do seu consumo tanto nas culturas indígenas como na cultura sincretizada afro-indígena-brasileira, a jurema (Mimosa hostilis) e a ayahuasca (que designa, na verdade, uma beberagem composta de duas plantas: o cipó Banisteriopsis caapi e, em geral, a folha Psychotria viridis).

A jurema e a ayahuasca compartilham muitas identidades. Inicialmente a sua homologia química, pois ambas contêm a DMT. Depois, porque são tipicamente americanas e constituem algumas das mais importantes e complexas contribuições da cultura indígena. A ayahuasca é, em geral, uma mistura de pelo menos duas plantas que se potenciam, provocando uma ação de sinergia. O que significa que uma não poderia agir sem a outra. É preciso uma chave química que neutralize uma enzima do corpo para que a DMT possa agir. A chave é o cipó, Banisteriopsis Caapi, conhecido como jagube, mariri ou yage. A complexidade química destes compostos é um testemunho inestimável da riqueza do saber botânico indígena e de sua capacidade de experimentação e combinação de diferentes plantas.

A Mimosa hostilis, ou jurema preta, é identificada por Richard Evans Schultes (1993:50) como possuidora de um alcalóide que foi chamado de nigerina e que, “posteriormente se demonstrou que é idêntico ao alucinógeno N, N-dimetiltriptamina, o mesmo alcalóide presente nas leguminosas relacionadas com o gênero Anadenanthera, com o qual se prepara um rapé embriagante”. O seu uso se insere numa ampla tradição indígena de consumo de plantas psicoativas e é, segundo Camara Cascudo (1978:98), “a mais poderosa e cheia de tradições do encantamento indígena”. Essa planta tradicional sobreviveu nas cerimônias do catimbó, que é a principal herança da religiosidade indígena a permanecer na cultura brasileira; em diversas formas de toré (dança indígena ritual); e na forma de diversos ritos sincretizados, afro-indígenas, onde se dança, se canta e se consomem cachimbos de tabaco e jurema, chamados genericamente de candomblé de caboclo.

A DMT (N, N-dimetiltriptamina) foi inicialmente sintetizada em laboratório, em 1931, e sómente dez anos depois, foi descoberta sua presença num vegetal, no caso, a jurema (Mimosa hostilis) na qual o químico pernambucano Gonçalves de Lima irá isolá-la, em 1946, denominandoa de nigerina. Mais tarde, a DMT será identificado também no yopo (Anadenanthera ou Piptadenia peregrina),1 em seguida foi descoberta sua atividade psicoativa e, ao longo das últimas décadas, tem se verificado a sua ocorrência ou de substâncias molecularmente análogas nas mais diversas fontes vegetais, e até mesmo animais, como é o caso da bufotenina de certos sapos.2 Como expõe Alexander Shulgin, a DMT está em toda parte.

Como a DMT não age por via oral, dado que sua ação é bloqueada por uma enzima, os indígenas de diversas regiões amazônicas aprenderam a inalar rapés feitos de vegetais que o contêm. E, numa das mais sofisticadas criações da cultura indígena amazônica, aprenderam a combinar a DMT com a exata substância que neutraliza a enzima do corpo que inibe o seu efeito: tal invenção foi a ayahuasca, uma combinação de Banisteriopsis caapi (o cipó), que é um inibidor de MAO (monoaminooxidase), com uma fonte de DMT, que pode variar entre diversas plantas. Como explica Shulgin (1997:308), “invariavelmente, ayahuasca é uma mistura de dois componentes. Um é uma enzima inibidora, um fator que irá bloquear a deaminação de uma amina. A outra é a amina que é protegida da destruição metabólica”.

A jurema é uma fonte de DMT, mas, no entanto, não se conhece a forma como ela pode agir sem a ajuda de uma outra substância. Lembrando que a DMT não age oralmente, Shulgin levanta a hipótese de que talvez haja outros alcalóides menores acompanhando-o na beberagem chamada de “vinho de jurema”. O segredo da jurema é exatamente o segredo do conhecimento de uma fantástica descoberta farmacoquímica, uma combinação sinérgica que permite a ação da DMT. Um conhecimento fitoquímico, entre tantos outros, como o curare (paralisante muscular usado para caçar) e o timbó (paralisante usado na água para pescar), por exemplo, que a cultura amazônica produziu.

A antropologia das religiões no Brasil caracterizou os “candomblés de caboclo”, entre os quais encontram-se o catimbó e a jurema, como uma série de cultos não alinhados com os terreiros de candomblés de orixás que se tornaram os mais tradicionais desde a primeira metade do século XX. Esse amplo campo místico folclórico constitui um panteão afro-indígena-brasileiro, que incluiu os “encantados” cultuados como espíritos de caboclos, pretos-velhos e outras figuras.3 Num arco que tem, no seu extremo mais puro, o xamanismo indígena, na forma da pajelança, encontramos na sua parte intermediária as fusões em que a tradição indígena mistura-se com a africana e a católica, produzindo o catimbó e a jurema como algumas das influências mais significativas da religiosidade indígena na cultura brasileira.

Mário de Andrade (1983 : 23/57) foi, talvez, o primeiro a enfatizar a importância da jurema no catimbó, visto por ele, em 1933, numa conferência lida na Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro, como um “culto fitolátrico”, no qual o uso do “estupefaciente místico” permite “embebedar pela música”, pois o catimbó, produto nordestino de fusão indígena, da mesma forma que a pajelança da Amazônia e a macumba do Rio de Janeiro, expressam uma “psique nacional”, que “deseja a repetição inumerável que hipnotiza ou embebeda”. A magia estaria na origem da música, e a feitiçaria musical brasileira se basearia no batuque, tambor-de-mina, atabaque, maracás. A catimbosice e os “êxtases coreográficos dos negros do candomblé” metamorfoseariam os ditirambos gregos e as epidemias coreiformes. Este poder hipnótico da música se intensificaria com diversos estimulantes, entre os quais o álcool, o tabaco e a jurema. Mais tarde, uma expedição folclórica organizada por Mário recolheu um vasto acervo do catimbó do nordeste (Carlini, 1993).

Roger Bastide, em um texto de 1945, afirmou a especificidade do catimbó, onde “o poder intoxicante do fumo é substituído pela ação da jurema”. Segundo ele, “o catimbó não passa da antiga festa da jurema”, onde “a invasão, na alma, dos sonhos maravilhosos, veio a se transformar na finalidade, no ideal proposto”. O catimbó, “concebido mais como magia do que como religião”, tem uma mitologia pobre, diferentemente do candomblé, e não possui o caráter festivo deste último.

Sua força está na planta:

a árvore é a encarnação da verdadeira ciência. A iniciação torna-se uma iniciação vegetal, a do segredo da bebida mágica (...) no catimbó o transe é produzido por processos físicos, pela intoxicação, em parte com fumo e sobretudo com a jurema. A ação desta última é de natureza alucinatória, segundo os que costumam bebê-la; ‘dir-se-ia que uma película passa diante dos olhos’; ‘visita-se um país extraordinário’; ‘entra-se no reino dos encantados´ (BASTIDE, in PRANDI, R. 2001:146-159).

O segredo da jurema talvez se revele quando descobrimos que cada mestre do seu uso a combina com outras plantas, que poderiam talvez cumprir um papel de inibição de MAO, tornando a jurema ativa oralmente.

Segundo M. C. Brandão & L. F. Rios:

cada mestre está associado a uma cidade espiritual e a uma determinada planta de ciência (angico, vajucá, junça, quebra-pedra, palmeira, arruda, lírio, angélica, imburana de cheiro e a própria jurema entre outros vegetais) (...) A bebida, feita com a entrecasca do caule ou raiz da jurema e outras ervas de ‘ciência’ (junça, angico, jucá, entre outras) acrescidas à aguardente, é, entretanto, a maior fonte de força e ‘ciência’ para estas entidades’ (in PRANDI, R. 2001:167/169).

O folclorista Alceu Maynard Araujo, em Folclore Nacional (1964:47), afirma que Catimbó, Toré, Pajelança, Babassuê ou Encanteria do Piauí são da mesma origem ameríndia onde se busca a cura e conselhos com caboclos que “baixam” por meio de defumações e uso da jurema: “com a jurema se prepara o jurubari, a bebida dos encantados, dos caboclos”, além de outras plantas, como imburama de cheiro (Torresia acreana) e juçá (Caesalpina ferrea) em infusões com cachaça.

Um outro uso popular de jurema (e de solanáceas) foi realizado por grupos rebeldes messiânicos no Brasil do século XIX, como o “Reino encantado”, de João Ferreira, surgido na comarca de Fiores, em Pernambuco, em 1836, conforme relata Maria Isaura Pereira de Queirós (1976:224): “em certos dias, o grupo se reunia na Casa Santa para beber um vinho encantado fabricado pelo Rei com mistura de jurema e manacá, ‘muito usado pelos selvagens e pelos curandeiros de feitiços e de mordedura de cobra: tem a propriedade do álcool e do ópio ao mesmo tempo’”. Tomando esta mistura tinham visões de D. Sebastião e sua corte e culminaram com o auto-sacrifício coletivo do grupo em 1838. O manacá é uma solanácea, Brunfelsia hopeana e latifolia, também conhecido pelos nomes de jeratacá, cangambá, caágambá, managá, mercúrio vegetal e eratataca, do qual não conheço nenhuma outra referência de uso como alucinógeno e que, talvez, possa cumprir também um papel de inibidor de MAO e, portanto, ativar a DMT da jurema.

O uso de substâncias psicoativas em revoltas indígenas americanas foi característico de vários outros movimentos, tais como o Taqui Onkoy, em 1565, que usava a vilca, e o Cristo de Tacobamba, no final do século XVI, que usava a achuma, ambos nos Andes, assim como a Ghost Dance, entre os índios norte-americanos, no final do século XIX, foi simultânea ao nascimento da Igreja Nativa do Peiote.

A presença mais marcante da jurema no imaginário brasileiro culto, desde o século XIX, foi certamente responsabilidade da obra literária de José de Alencar. É inegável a sua popularidade e importância histórica, especialmente do livro Iracema, publicado em 1865. Além de ser um dos fundadores da literatura nacional, inscreveu-se na vertente de um indianismo afetado, de estilo ornado e carregado de tupinismos, o que o tornou um defensor e divulgador de uma língua abrasileirada, declarando que “o conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da literatura” (ALENCAR, na Carta da 1ª Ed., in PROENÇA, 1979:81).

O seu sucesso foi tal, escreveu Rachel de Queiroz (in PROENÇA, 1979:181), que “chegou a revolucionar os livros de batistério nacionais”, não só com as Iracemas e Moacires, mas com uma legião de brasileiros chamados Peri, Araquém, Caubi, Ubirajara, Jurandir, Jandira, Araci, Juçara, Jacira, Ubiratã, etc. Esse indianismo retórico, simbólico e onomástico servia para esconder a realidade do escravismo do Império decadente, como escreveu Antonio Candido (apud SCHWAMBORN, 1990:184): “as Iracemas, Jacis, Ubiratãs, Ubirajaras, Aracis, Peris, que todos os anos, há quase um século, vão semeando em batistérios e registros civis a ‘mentira gentil’ do indianismo, traduzem a vontade profunda do brasileiro de perpetuar a convenção que dá a um país de mestiços o alibi de uma raça heróica, e a uma nação de história curta, a profundidade do tempo lendário”.

Na crítica literária nacional, Iracema ocupa um lugar de evidente destaque. A recepção da crítica aos romances de Alencar foi objeto de uma tese de doutoramento da alemã Ingrid Schwamborn, que resume um vasto universo de opiniões e comentários sobre esta obra capital da literatura brasileira. É curioso notar, contudo, que apesar da mais do que centenária apreciação crítica e popular de Iracema, pouca ou quase nenhuma atenção foi dedicada a um dos elementos centrais desta obra: a jurema.

Em Iracema, é narrada a sorte da virgem dos lábios de mel, filha do pajé Araquém, que é detentora do segredo da jurema, planta do saber secreto xamânico, servida como libação onírica aos guerreiros tabajaras. Um dia, no entanto, chega o estrangeiro, a quem ela primeiro entregará a volúpia do sonho da jurema junto com o primeiro beijo: “Martim sentiu perpassar nos olhos o sono da morte; porém logo a luz inundoulhe os seios d’alma; a força exuberou em seu coração. Reviveu os dias passados melhor do que os tinha vivido; fruiu a realidade de suas mais belas esperanças”, e depois, numa segunda vez, quando ele lhe pede o sagrado licor, “a virgem de Tupã guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos ! Vai e torna com o vinho de Tupã”, junto com a bebida verde ela lhe dará o seu corpo de cobre. Aparentemente, o branco não percebe que em seu sonho une seu corpo ao de Iracema, pois só mais tarde ela lhe dirá: “o guerreiro branco sonhava, quando Tupã abandonou sua virgem. A filha do pajé traiu o segredo da jurema.” (ALENCAR, 1948:25).

Sabendo que será punida com a morte por ter traído o segredo da jurema e entregue o “licor de Tupã” e “a flor de seu corpo” para um branco, Iracema foge com o seu amado para os domínios de uma tribo rival, a dos pitiguares, aliados dos portugueses, e chefiada pelo lendário Poti, que foi chamado de Felipe Camarão e combateu contra os holandeses.

Para fugir, Iracema se aproveita da cerimônia da jurema, na qual é responsável, junto com o pajé, seu pai, pela distribuição da bebida sagrada:

Araquém decreta os sonhos a cada guerreiro e distribui o vinho da jurema, que transporta ao céu o valente tabajara (...) Todos sentem a felicidade tão viva e contínua, que no espaço da noite cuidam viver muitas luas. As bocas murmuram; o gesto fala; e o Pajé, que tudo escuta e vê, colhe o segredo no íntimo d’alma. Iracema, depois que ofereceu aos chefes o licor de Tupã, saiu do bosque. Não permitia o rito que ela assistisse ao sono dos guerreiros e ouvisse falar os sonhos. Foi dali direito à cabana onde a esperava Martim.

Mesmo pesarosa de ver os de sua gente mortos num combate pela tribo junto à qual ela passara a se abrigar, Iracema dedica-se ao seu esposo, e lhe gesta um filho, Moacir, “filho da dor”, morrendo, porém, logo após o parto. Vai embora pelos verdes mares, então, o guerreiro branco com seu filho mestiço, primeiro dos cearenses, nesta lenda do Ceará como foi chamada por Alencar.

O alucinógeno sagrado, a jurema, tornado afrodisíaco, cumpre um papel de filtro amoroso. Novamente se reencontram o sexo e a droga. Nesta tragédia brasileira, entretanto, o amor celebrado pela jurema gerou um fruto, a cultura mestiça. Toda a estrutura da narrativa é composta em torno do fio da jurema, seu consumo é o que aproxima os amantes e a violação do seu tabu é o que os lança fora da tribo. A jurema que servia para os guerreiros sonharem é usada pelo branco para sonhar com o seu desejo por Iracema e para fundir o sonho e a realidade. E é quando os guerreiros tomam a jurema que os amantes se aproveitam do momento do transe e fogem. De todos os conhecimentos da riqueza da floresta, de todas as plantas do saber herbário indígena, o mais sagrado e prezado é o da jurema e é através dele que o branco terá acesso, pela via da mulher, à cultura indígena. Essa planta é o segredo da novela e é o segredo da cultura indígena.

Esta evidência escapou, entretanto, da atenção da maior parte da crítica. Cavalcanti Proença, por exemplo, escreveu que, “a jandaia, ‘companheira e amiga de Iracema’ representa a tribo, a tradição ameríndia, os deuses e ritos da gente americana”, e quanto a jurema, limita-se a comentar que serve apenas para provocar, segundo esse crítico, o “sono”!

No seio da cultura oficial escravista, da pena de um ministro da justiça do Império, surge essa literatura nativista, exaltadora das raízes indígenas do país. Dentre os bens da cultura indígena é justamente a jurema o que é alçado como o mais importante. Curioso contraponto ao anátema contemporâneo contra todas as plantas psicodélicas que contêm análogos da DMT, como a jurema. Não importa aqui que a visão romântica e idílica de Alencar tenha sido muito pouco fiel à realidade histórica e etnográfica, críticas que lhe foram feitas em sua época por Franklin Távora, dado que sua etimologia e sua etnografia tupi são completamente fantasiosas, pois não existiram no Brasil tupi virgens vestais, bosques sagrados, vasos de sacrifício, etc. O que sim nos importa é que, mesmo que num contexto ritualístico inventado, o uso da jurema não é uma ficção, mas faz parte efetivamente de diversas culturas indígenas (Pankararu, Kariri, Xocó, por exemplo, vide MOTA, 1997).

O uso da jurema, por grupos indígenas, corresponde a outras formas análogas de uso de alucinógenos que a etnografia contemporânea constatou em tribos indígenas, onde, além da própria jurema, também se usam outras fontes naturais de DMT, basicamente na forma da bebida ayahuasca ou de rapés, como o paricá, o yopo e a cohoba. Camara Cascudo (1978:37) ao referir-se a tais usos, escreve que: “o paricá (Mimosa acacioides)5 provocava sonhos indicadores do futuro, e era no sonho que a Kerpimanha ou Kerepiiua, Mãe-do-Sonho, orientava e dirigia. As relações sexuais foram ensinadas por ela aos Tarianas do rio Uaupés (...) O paricá e o carajuru, Bignonia chica, davam forças divinatórias pela aspiração”.

Anibal Mattos (1956:31), em termos tipicamente preconceituosos, registrava, na década de 1950, que:

os índios Muras usam frequentemente o paricá como rapé. O pó é preparado com as sementes da paricá-uva, uma espécie de ingazeiro, diz Von Martius, e o seu efeito a princípio excitante, é depois narcotizante. Tomam o paricá o ano inteiro. Nas suas festas esses selvícolas terminam a orgia soprando uns nas narinas dos outros, por meio de um canudo, uma forte dose de paricá. Às vezes, a qualidade (sic) é tão grande que os índios caem desmaiados e alguns até morrem estupidamente. À excitação furiosa sucede uma profunda prostração. Em geral essas festas se fazem na época da puberdade dos jovens índios, de ambos os sexos. Também a mesma orgia se realiza para celebrar a manutenção das sementes. O paricá também é usado em clisteres e o efeito proveniente desse processo animalesco não é menor que o resultante das inalações consecutivas.

Ressalvada a confusão entre a natureza do efeito (excitante ou narcótico), demonstrativa do desconhecimento da categoria dos alucinógenos já tipificados antropológica e farmacoquimicamente à época, assim como o uso de termos que denotam uma identificação do uso dessa droga com a animalidade, típica de épocas anteriores em que a própria humanidade dos índios chegara a ser questionada, o autor é obrigado a reconhecer a importância do paricá, especialmente em ritos de passagem.

Os mitos destes alucinógenos existentes em diversos grupos culturais e linguísticos totalmente diferentes possuem inúmeros elementos em comum. Para os tukanos, a virola é o “sêmen do sol”, e foi obtido originalmente através de um incesto do sol com sua filha, e o estojo pessoal de guardar a virola é chamado pelos índios de “pênis do sol”. A palavra vilca, que no mundo andino designava não só a planta específica como algo genericamente sagrado, em aimará também significa “sol” (SCHULTES, Evans. 1993).

A vilca, Anadenanthera colubrina, foi usada nos Andes desde épocas remotas. Aparece em tumbas da cultura pré-inca tiwanaco, acompanhada dos instrumentos para aspirá-la na forma de rapés. O termo vilca foi usado para designar, na lista de “huacas” de Cristóbal de Albornoz, autor do Instrución para descubrir todas las guacas, um “gênero de guaca”; enquanto Bernabé Cobo define vilca como qualquer “waca genérica”. A huaca era a sacralidade indígena e, em todas as suas formas — locais, plantas, objetos — era perseguida pelos cristianizadores.

Todas estas substâncias — ayahuasca, paricá, yopo, vilca, cohoba — permaneceram, entretanto, confinadas aos nichos mais longínquos do uso tradicional, enquanto na sociedade colonial sua existência foi combatida pelas autoridades civis e eclesiásticas. A jurema não foi uma exceção a essa perseguição. A presença de uma exaltação da jurema na obra de um Ministro da Justiça do Império não impediu que a prática do seu consumo sincretizado por brancos, caboclos e negros, nos contextos urbanos do Nordeste do final do século XIX e início do XX, fosse perseguida pela polícia sob os mais diversos pretextos, especialmente como curandeirismo.

Na verdade, a convivência com o transe tem sido a característica mais especificamente combatida da cultura indígena, com a repressão policial agindo contra as formas de mestiçagem cultural que se difundem a partir do complexo da jurema.

Como escreve Alfredo Bosi (1992:71 e 74):

as religiões que tendem a edificar a figura da consciência pessoal unitária, como o judaísmo e o cristianismo, temem os rituais mágicos, tanto os naturalistas quanto os xamanísticos, suspeitando-os de fetichistas ou idólatras. Daí, a recusa de gestos que lembrem fenômenos mediúnicos ou de possessão e o horror de atos que façam submergir no transe a identidade pessoal. Há uma tradição multissecular de luta judeu-cristã (a que não escapou o islamismo) para depurar o imaginário (...) o olho inquisidor acusa modos de possessão coletiva em todas as práticas da tribo que potenciam a vitalidade do corpo até os espasmos do transe. O cauim salivado na boca das velhas fermenta o sangue, sobe à cabeça e arrasta o índio à luxúria e à brutalidade. A iguais excessos leva o fumo que expira dos sagrados maracás, cabeçascabaças onde moram e de onde falam os ancestrais.

No início da colonização, essa repulsa pelo transe e por seus veículos conspícuos, as plantas indígenas sagradas, atingiu o tabaco. “Os padres proibiam o beber fumo, mas, segundo narrativa da época, o governador Duarte da Costa, em 1555, exprobrava o bispo D. Pero Sardinha, pela excomunhão que esse prelado apregoara contra o donatário do Espírito Santo, cujo crime era beber fumo, ´hua mezinha que nesta terra sarava os homens e as alimárias de muitas doenças´” (MATTOS, 1956:67). Mais tarde, o tabaco tornar-se-á gênero apreciado pelos euro peus, em particular pelos jesuítas que, além de traficá-lo em rapé e em rolo, passaram a considerá-lo, assim como em relação às bebidas quentes, como não capaz de quebrar o jejum, sendo usado, portanto, antes de comunhão e em dias sagrados. O seu caso, no entanto, foi único e singular, nenhuma outra planta alucinógena indígena da América foi tolerada da mesma forma. As que foram aceitas foram excitantes (chocolate, guaraná, mate) mas as alucinógenas (ayahuasca, vilca, paricá, jurema, além de cactos e cogumelos diversos) foram todas proscritas e identificadas à idolatria e ao demonismo.

No período imperial, a relativa valorização do alucinógeno como símbolo da religião e da cultura indígena realizada por José de Alencar em Iracema, não se faz sem uma inferiorização dessa mesma cultura, ingenuamente dependente de uma religião produtora de sonhos e fantasias, que a racionalidade ocidental colonizadora começava por destruir. Leo Pollmann (Apud SCHWAMBORN, Ingrid, 1990:167) toca neste ponto ao afirmar que a lenda de Iracema “tematiza práticas mágicas”, e que “estas práticas são desmitificadas, recebendo uma explicação racional pelo narrador como logro e mentira ou como o emprego de recursos naturais da medicina, e que este mundo de magia é reprimido no posterior desenvolvimento da consciência messiânica cristã-colonialista”. Embora nesta passagem o autor refira-se sobretudo ao ardil das rochas que falavam utilizado pelo pajé, também está implícito tratar-se da própria jurema, como o “emprego de recursos naturais da medicina”.

Poucos foram os autores que se deram conta da importância desta forma especial de embriaguez. Alguns, como Agrippino Grieco (Apud PROENÇA,1979:203), surpreendem-se com a sua força: “quanta poesia no vento que agita as carnaubeiras, na queixa do acauã que geme no fundo do vale; quanta frescura na sombra da oiticica orvalhada pela noite; que força de embriaguez no vinho da jurema...”. A maioria dos críticos de Iracema, entretanto, praticamente ignorou a importância da jurema. Este segredo era o verdadeiro tesouro, o saber iniciático, patrimônio dos pajés, que a cultura indígena cultuava. José de Alencar se deu conta disso, embora sem aquilatar talvez a exata significação dos estados mentais provocados pela jurema.

Como não há menções nas cartas e anotações de Alencar a respeito de suas fontes de informações sobre a jurema, parece provável que o próprio autor desconhecesse as características especiais da “embriaguez” provocada por esta planta, atitude semelhante a toda a sua época, que não sabia discriminar a tipologia dos efeitos das substâncias psicoativas, rotulando-as todas de embriaguez, única grade conceitual que a cultura cristã possuía para tentar compreender usos de plantas que haviam sido há muito proscritos na Europa como expressões maiores do paganismo.

Outro clássico da literatura brasileira, Euclides da Cunha, não desconhecia a singularidade desta planta e escreveu sobre ela em Os Sertões (1979:68) como “as juremas, prediletas dos caboclos — o seu hachich (sic) capitoso, fornecendo-lhes, grátis, inestimável beberagem, que os revigora depois das caminhadas longas, extinguindo-lhes as fadigas em momentos, feito um filtro mágico”.

Os rapés e bebidas alucinógenas dos índios da América, como o yopo, virola, paricá, epená, ayahuasca e jurema, possuem todos o mesmo agente químico, a DMT. É um curioso paradoxo que a planta símbolo, por excelência, da forma romântica com que se apresentou a cultura indígena no século XIX no Brasil, a jurema, tenha o seu princípio ativo, a DMT, extraído pela primeira vez por um pioneiro químico brasileiro, Gonçalves de Lima, em 1946, hoje em dia fazendo parte da lista de substâncias proibidas.6 A contribuição da cultura indígena continua a ser encarada através do olhar médico e policial. Não bastou Iracema, anagrama de América, revelar-nos o segredo da jurema. O princípio ativo destes elixires prediletos dos indígenas, um de seus licores mais sedutores e embriagantes continua proscrito na sua forma quimicamente pura.

Duas sobrevivências do saber indígena sobre as plantas subsistem, entretanto, conflituosamente, no mundo contemporâneo. Por um lado, uma tradição xamânica cobiçada pela indústria farmacêutica, que através dos estudos etnobotânicos investiga exaustivamente a cornucópia vegetalista do saber dos pajés; e por outro, uma série de práticas culturais miscigenadas e sincretizadas propagam, através de consumos como o da jurema no catimbó e da ayahuasca no Santo Daime e em outros cultos, uma antiga sabedoria de origem indígena, conquistando inéditos espaços de legitimidade e legalidade na sociedade urbana e industrial brasileira.

O saber dos pajés, o conhecimento das plantas terapêuticas e visionárias, que os missionários cristãos combateram como a mais demoníaca das práticas, e os naturalistas europeus investigaram, desde a época colonial, como um dos mais ricos frutos das culturas indígenas, continua presente tanto na cultura popular dos cultos da jurema e da ayahusca como na cultura erudita e científica que busca os princípios ativos das farmacopéias nativas da América para fornecer novos remédios para os males deste mundo.

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Fonte: www.fafich.ufmg.br

História da América

Pré-História da América

A América passou a ser povoada entre 40000 e 20000 a.C, por imigrantes humanos da raça, mongolóide e pré-mongolóide, em que sua especialidade era a caça e a coleta, entraram na América por Bering, uma cidade que estava emersa por causa por causa do baixo nível do mar. Chegaram também de outras partes outros tipos de povos através dos mares, que formou os povos ameríndios, que utilizavam como instrumentos, objetos de pedras, ossos e relacionado à fauna.

Muito que se sabe da história da América se dá pelo fato, se serem encontrados pedaços desses instrumentos de trabalho, e ossos desses povos. Usavam também como fonte de alimentação e comercialização, a caça, esse período foi chamado de paleolítico superior, em que deixavam seus instrumentos somente de pedras e redondas para instrumentos pontiagudos (facas). E entre 8000 e 6000 a. C, esses instrumentos evoluíram ainda mais, agora ficaram com formas de triângulos e com pontas maiores que permaneceram até a chegada dos europeus.

Em 5000 e 4000 a. C, houve o processo de neolitilização, e várias fases começaram a aparecer como, por exemplo: a fase da cerâmica, dos tecidos, da coleta dos vegetais, artefatos, que eram usados como pedra, e a comercialização da agricultura e de outros instrumentos de trabalho.

Revolução neolítica. Em algumas zonas do México, da América Central e dos Andes centrais e setentrionais, começou, entre 5000 e 4000 a.C um processo de neolitilização semelhante ao do Velho Mundo, embora cronologicamente posterior. Caracterizou-se pelo aparecimento seqüencial de várias fases: formas sistemáticas de coleta de vegetais; sedentarização, criação de gado, o cultivo de alimentos, como os vegetais (batata, milho, girassol e etc.).

Fonte: www.colegioweb.com.br

História da América

A América foi inicialmente povoada por índios durante milhares de anos e em todo o continente se desenvolveram civilizações importantes, como os maias, astecas e incas. Apesar dos vikings terem explorado e estabelecido bases nas costas da América do Norte a partir do século X, estes exploradores aparentemente não colonizaram a América, limitando-se a tentar controlar o comércio de peles de animais e outras mercadorias da região.

A colonização da América pelos europeus resultou da procura de uma rota marítima para a Índia, que era a fonte da seda e das especiarias, produtos que tinham um grande valor comercial no “velho continente”. Ao navegarem para oeste, encontraram o “Novo Mundo”.

Os primeiros a descobrir as “Índias orientais” foram os judeus - a 12 de Outubro de 1492, Cristóvão Colombo (um dia chegou a uma ilha que hoje é a República Dominicana, onde encontrou nativos amistosos e pensou ter chegado à Índia). Dali, ele seguiu para a ilha que apelidou Hispaniola e onde deixou uma pequena colónia que, no ano seguinte, tinha sido dizimada pelos nativos, e então deixou lá uma guarnição bem armada. Estima-se de cerca de 250 mil aruaques existentes naquela ilha, apenas 500 tinham sobrevivido no ano 1550; o grupo foi extinto antes de 1650. O Brasil chegou a ser uma tentativa de colonização dos espanhóis, mas não deu certo, Portugal veio primeiro.

Entretanto, Pedro Álvares Cabral, ainda com a intenção de chegar à Judéia, "descobre" o Brasil, em 1501; a partir de 1534 inicia-se a colonização do Vasco da Grama com a criação das primeiras capitanias.

Em meados do século XVI, o Império Espanhol controlava quase toda a zona costeira das Américas, desde o Alasca à Patagónia, no ocidente, e desde o atual estado estadunidense da Geórgia, toda a América Central e o Caribe à Argentina – com excepção do Brasil, que Portugal tinha conseguido manter graças à mediação do Papa (ver Tratado de Tordesilhas).

América Espanhola

Divisão administrativa

Na colonização espanhola, ele se baseou na divisão entre 4 Vice-reinos (divisão intrinsecamente ligada a aspectos econômicos), a saber:

Vice-Reino da Nova Espanha: no sul da América do Norte, correspondendo principalmente aos modernos México e ao sul dos Estados Unidos. Rico em ouro e prata, caracteriza-se pela mineração. A colonização ganha impulso e se inicia mais facilmente devido às complexas civilizações já ali existentes, com base econômica formada;

Vice-Reino de Nova Granada: no noroeste da América do Sul, correspondendo principalmente aos modernos Colômbia, Equador, Venezuela, e Panamá. Baseada na agricultura;

Vice-Reino do Peru: no leste da América do Sul, que no momento da sua maior extensão territorial englobava grande parte da própria América do Sul, sendo reduzido o seu território correspondendo principalmente aos modernos Peru e Bolívia: mineração aurífera e argêntea. Encontra-se, como no México, uma complexa infra-estrutura e grande densidade populacional;

Vice-Reino do Rio da Prata: no sul da América do Sul, correspondendo principalmente aos modernos Argentina, Uruguai, Paraguai. Economia baseada na pecuária, mais tarde caracterizando-se por uma intensiva exploração da prata na Argentina.

Criaram-se ainda 8 capitanias-gerais: áreas bélicas de forte proteção, pois eram regiões que podiam ser atacadas facilmente:

Capitania Geral da Guatemala (1540-1821): anexado ao Vice-Reino da Nova Espanha. Na América Central, correspondendo principalmente aos modernos Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e a estado mexicano do Chiapas.

Capitania Geral do Chile (1541-1818): anexado ao Vice-Reino do Peru. No sudoeste da América do Sul, correspondendo principalmente ao moderno Chile.

Capitania Geral de Santo Domingo (1526-1867): anexado ao Vice-Reino da Nova Espanha. Nas Antilhas, correspondendo principalmente aos modernos República Dominicana e Haiti.

Capitania Geral das Filipinas (1565-1898): anexado ao Vice-Reino da Nova Espanha. No leste da Ásia e Micronésia, correspondendo principalmente aos modernos Filipinas, Palau, Carolinas, Marianas e Guam.

Capitania Geral de Porto Rico (1592-1898): anexado ao Vice-Reino da Nova Espanha. No Antilhas, correspondendo principalmente ao moderno Porto Rico.

Capitania Geral de Cuba (1607-1898): anexado ao Vice-Reino da Nova Espanha. No leste da América do Norte e Antilhas, correspondendo principalmente aos modernos Cuba, Flórida e Luisiana.

Capitania Geral de Yucatán (1617-1786): anexado ao Vice-Reino da Nova Espanha. No sudeste da América do Norte, correspondendo principalmente aos modernos estados mexicanos do Campeche, Tabasco, Yucatán e Quintana Roo.

Capitania Geral da Venezuela (1777-1821): anexado ao Vice-Reino do Peru. No norte da América do Sul, correspondendo principalmente à moderna Venezuela.

Divisão social

Chapetones: espanhóis que habitam a América, têm em mãos os altos cargos públicos, dominam a política;

Criollos: eram os brancos (europeu + europeu = filho americano) nascidos na América, cuidam da economia (terras e minas) e ocupam os baixos cargos públicos da administração local: cabildos;

Mestiços: são os bastardos (cor negra: Chapetones + índios, ou Criollos + índios, sonho era embranquecer). É o elo entre os chapetones e os índios, é o intermediário, é assalariado dos espanhóis, recrutam índios para a Mita;

Índios/negros: massa trabalhadora.

Sistema de trabalho

Formação dos estados centro-americanos desde 1700 até hoje.Mão de obra indígena: semi-servidão, trabalho compulsório;

Trabalho livre: assalariado e parceria (meieiro);

Trabalho compulsório: Mita e Encomienda;

Escravidão (em menor escala)

Meta (Peru) ou Cuatequil (México)

Os Incas e os Astecas já adquiriram no seu processo civilizatório o hábito de escravizar outras tribos de índios e forçá-las a trabalhar e pagar impostos;

É de criação americana;

Predomínio do trabalho na mineração;

Baseada no sorteio de tribos para retirar os trabalhadores, que trabalhavam de 4 a 6 meses e geralmente morriam ou adoeciam. Recebiam um pequeno salário, mas endividavam-se, então, alugavam mulheres e filhos para quitar dívidas e acabavam como semi-escravas;

Conseqüências: Genocídio e Etnocídio (aculturação, destruição metódica de uma etnia), hecatombe demográfica, ou seja, mortandade em larga escala;

Tinha cota de produção, isto é, uma quantidade de produto estipulada para se retirar em certo tempo, é um tipo de ação violenta.

Encomienda

Os europeus adquiriam índios nas tribos para supostamente recrutá-los ao trabalho, oferecendo em troca a garantia de sua subsistência e o comprometimento com a catequese, no entanto, não raramente submetia-os à compulsoriamente do trabalho nas minas;

Baseava-se no recrutamento por meio da encomenda, servindo de recurso acessório às insuficiências de mão-de-obra no sistema de Mita;

Cota de mão de obra: dever-se-ia dar uma quantidade de produto estipulada dentro de um maior prazo de entrega, sendo, pois, menos violento;

Conseqüências: Genocídio e etnocídio.

Porque a América Espanhola utilizava índios como mão-de-obra e a América Portuguesa usava a mão-de-obra negra?

Na América Espanhola já existiam sociedades complexas, que já conheciam sistemas de trabalho (Ex: mita ou cuatequil), enquanto na América Portuguesa não havia sistemas de trabalho, o índio não era habituado ao trabalho regular, porquanto era coletor, caçador, pescador e nômade;

Na América Espanhola, o elemento indígena estava concentrado em centros urbanos de alta densidade demográfica. Na América Portuguesa, os índios encontravam-se dispersos, isto é, aquém do processo civilizatório e urbanístico empreendido nos Impérios Incas e Astecas;

O Tratado de Tordesilhas literalmente cedeu a África ao Império Português, o que incentivará o uso de negros como mão-de-obra pelos lusitanos e dificultará o uso de negros pela Espanha. O próprio Estado português administrará e executará o tráfico negreiro.

Espanha: saliente-se concessão feita à Nova Granada, pois, como os antigos Maias não tinham civilizações tão complexas quanto às duas acima citadas (Astecas e Incas), fator dificultoso ao processo escravizatório (motivo inclusive do fracasso da tentativa de escravização de índios no Brasil), optar-se-á pela utilização do elemento escravo negro;

Espanha: México: antigos Astecas;

Espanha: Peru: antigos Cristãos.

Colonização britânica

Os britânicos lançaram-se à conquista do mundo durante o reinado de Henrique VII de Inglaterra (1485–1509), que promoveu a indústria naval, como forma de expandir o comércio para além das Ilhas Britânicas. Mas as primeiras colônias britânicas só foram fundadas durante o reinado de Elizabeth I, quando Sir Francis Drake navegou o globo nos anos 1577 a 1580 (Fernão de Magalhães já a tinha realizado em 1522).

Em 1579, Drake chegou à Califórnia e proclamou aquela região como “colônia da Coroa”, chamando-lhe “Nova Albion” ("Nova Inglaterra"), mas não promoveu a sua ocupação. Humphrey Gilbert chegou à Terra Nova em 1583 e declarou-a colônia inglesa, enquanto Sir Walter Raleigh organizou a colônia da Virgínia em 1587, mas ambas estas colônias tiveram pouco tempo de vida e tiveram de ser abandonadas, por falta de comida e encontros hostis com as tribos indígenas do continente americano.

Foi apenas no século seguinte, durante o reinado de Jaime I da Inglaterra, depois da derrota da Armada Invencível de Espanha, que foi assinado o Tratado de Londres, permitindo em 1607 o estabelecimento da primeira colônia inglesa nas Américas: Jamestown.

A colonização britânica nas treze colônias foi, essencialmente, de povoamento. Essa característica está presente nas colônias do Norte e do Oeste. A colonização sulista foi fundamentada no plantation e no uso de mão-de-obra escrava.

No norte da América, inicialmente, não havia metais preciosos e o clima daquela região, por ser temperado, não favoreceu a instalação de monoculturas. Daí a "importância de não nascer importante", segundo o jornalista uruguaio Eduardo Galeano. Um país que, durante o período colonial, não atraía a burguesia britânica em aspectos como o metalismo, o latifúndio monocultor e matérias-primas em abundância não é explorado efetivamente, o que favorece a consolidação dos EUA como a primeira economia mundial da atualidade.

Colonização francesa

As primeiras tentativas dos franceses para estabelecerem colônias no Brasil, em 1555, e na Florida, em 1564 (em Fort Caroline, atualmente Jacksonville, Florida), realizada por huguenotes, não tiveram sucesso, devido à vigilância dos portugueses e espanhóis. A tentativa seguinte foi em 1598, em Sable Island, no sudeste da atual província da Nova Escócia do Canadá; esta colônia não teve abastecimentos e os 12 sobreviventes tiveram de voltar a França.

A história do império colonial francês começou em 27 de Julho de 1605 com a fundação em Port Royal, atualmente Annapolis (igualmente na Nova Escócia), da colônia da Acadie. Em 1608, Samuel de Champlain funda Quebec, que passa a ser a capital da enorme, mas pouco povoada, colônia de Nova França (também chamada “Canada”), que tinha como objetivo o comércio de peles.

À medida que os franceses expandiam o seu império na América do Norte, também começaram a construir outro, menor, porém, mais lucrativo, nas “Índias Ocidentais” (as Caraíbas). A ocupação da costa sul-americana começou em 1624 onde é hoje a Guiana Francesa e fundou uma colónia em Saint Kitts em 1627 (a ilha teve que ser partilhada com os ingleses até ao Tratado de Utrecht em 1713, quando a França o perdeu). A “Compagnie des Îles de l'Amérique”, formada em 1634, estabeleceu as colónias de Guadalupe e Martinica em 1635 e em Santa Lúcia em 1650. As plantações destas colónias foram mantidas por escravos trazidos de África. A resistência dos povos indígenas locais resultou na Expulsão dos Caribes em 1660.

A mais importante possessão colonial francesa nas Caraíbas só foi conseguida em 1664, com a fundação da colónia de “Saint-Domingue” (o actual Haiti) na metade ocidental da ilha Hispaniola (enquanto os espanhóis dominavam a parte oriental). No século XVIII, Saint-Domingue tornou-se a mais rica colónia de plantações de cana-de-açúcar das Caraíbas. A parte oriental da ilha Hispaniola foi oferecida à França pela Espanha, depois da perda de Saint-Domingue com a Revolução Haitiana.

Em 1699, as possessões francesas na América do Norte expandiram-se ainda mais com a fundação da Luisiana perto do delta do Rio Mississípi; embora a França tivesse declarado soberania de toda a bacia do Mississippi, só tinha controlo efectivo na região costeira, perto das cidades de Mobile (Alabama) e Nova Orleãs (fundada em 1718). Mais tarde, os Estados Unidos da América compraram a colónia francesa.

Fonte: pt.jazz.openfun.org

História da América

DA AMÉRICA COLONIAL À AMÉRICA PÓS-INDEPENDENTE

AS AMÉRICA INGLESA E FRANCESA: DA COLÔNIA AO IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO

Desde 1492, quando Cristóvão Colombo chegara ao continente americano, os povos nativos sofreram com a conquista e conseqüente colonização por parte dos europeus – primeiramente ibéricos (espanhóis e portugueses), posteriormente ingleses, franceses e holandeses – configurando-se o mundo colonial americano, com seus desenvolvimentos diferenciados a partir dos modelos de colonização implementados. Trataremos, agora, das colonizações levadas a acabo pelos “retardatários” na colonização americana: ingleses, franceses e holandeses.

As Colonizações Inglesa e Francesa na América

É conhecido o pioneirismo ibérico na realização das grandes navegações devido à anterior configuração dos Estados nacionais português e espanhol. Ingleses e franceses, somente após a partilha de grande parte do continente americano entre os ibéricos, lograram estabelecer-se enquanto Estados nacionais, passo fundamental para a realização dos empreendimentos coloniais. Assim, o desenvolvimento de seus projetos coloniais foram retardatários em relação aos ibéricos, pertencendo ao século XVII, quando as monarquias hispânica e lusa perderam seus postos de vanguarda na expansão marítima-comercial pelo mundo.

Entretanto, o atraso cronológico e as condições em que foram gerados os projetos inglês e francês determinaram caminhos distintos daqueles traçados pelos ibéricos, bem como por estabelecer um domínio menos duradouro para suas possessões, pois a grande roda da História não pára, nem gira para trás.

A América Inglesa

No século XV, enquanto os portugueses empreenderam sua expansão africana tendendo alcançar as riquezas orientais, o que lograram concluir com a viagem de Vasco da Gama à Índia (1497-8), e os espanhóis, em seu processo de Reconquista da Península Ibérica contra os mouros, forjaram seu Estado nacional, os ingleses iniciaram seu processo de unificação política. Duas guerras contribuíram para o êxito em tal empreitada: a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) e a Guerra das Duas Rosas (1455-1485). A dinastia Tudor (1485-1603) fora a responsável pela afirmação do poder real frente à nobreza (KARNAL, 2001, pp. 19-20). A Reforma religiosa empreendida por Henrique VIII, no século XVI, ao fundar o anglicanismo aumentou o poderio da realeza, agora chefe da estatal Igreja Anglicana. Estava em formação o Estado centralizado que possibilitara a emergência de um projeto colonizador no século XVII.

Não obstante, entre fins do século XV e durante o século XVI, iniciativas foram tomadas no sentido de descobrir novas rotas comerciais, enquadradas no que Marc Ferro denominou de “’nacionalização’ das forças econômicas” na Inglaterra (FERRO, 1996, p. 66). Tratava-se de aumentar a importância comercial inglesa, dinamizando a economia. Não havia então um “projeto colonizador” propriamente dito, e sim tentativas de seguir o sucesso dos ibéricos nas “Grandes Navegações”. Giovanni Gaboto, comandando cinco navios da Marinha inglesa, tentara descobrir uma rota pelo Noroeste da América, em 1497, visando alcançar a Ásia. No ano seguinte realiza nova empreitada, tendo em suas viagens navegado pelas costas da América do Norte e encontrado rios e baías que futuramente seriam as portas de entrada da colonização.

Contudo, fora durante o reinado de Elizabeth I, em fins do século XVI, que os ingleses, em crescente rivalidade com os espanhóis, deram um impulso “à construção naval e ao comércio marítimo, envolvendo também a atividade corsária” (AQUINO, 2000, p. 123). O poderio espanhol era uma ameaça concreta para os ingleses, tendo estes em resposta formulado os princípios do seu mercantilismo:

Se para a Inglaterra só interessavam, ainda no final do século XVI, as rotas e o comércio, uma reviravolta ocorre na época de Elizabeth I, quando Walter Raleigh torna-se o teórico de uma espécie de imperialismo marítimo: “Quem comanda o mar comanda o comércio; quem comanda o comércio comanda a riqueza do mundo, e por conseguinte o próprio mundo...” (FERRO, 1996, p. 67)

A partir daí se intensificaram as viagens à América, “seja para saquear as embarcações e colônias espanholas, ou para empreender lucrativo contrabando nas Antilhas, seja para começar a colonização” (AQUINO, 2000, p. 123). Os ingleses, assim como os franceses, tiveram inicialmente uma atitude parasitária para com os negócios coloniais espanhóis. Somente nas três expedições de Raleigh à América do Norte – 1584, 1585 e 1587 – houvera o intento de iniciar a colonização, sendo, contudo frustrados seus planos pela resistência indígena, que dizimara os colonos.

Os conflitos entre nativos e colonos foram constantes no período colonial, e mesmo no pós-colonial. Não havia projeto de evangelização das populações indígenas, com apoio estatal e levado a cabo por missionários, nos moldes vislumbrados na América ibérica.

O processo de colonização inglesa sofrera uma pausa por conta da guerra contra a Espanha, mais poderoso Estado ocidental. A tentativa malograda de invasão à Inglaterra pela Invencível Armada espanhola, em1588, fora o ponto crítico para a guinada no jogo das forças entre os Estados europeus. Com a derrota fragorosa, a Espanha veria seu poder em declínio ser suplantado por uma Inglaterra que abrira caminho para sua vocação marítima se tornar imperial e mundial, processo consolidado entre os séculos XVII e XIX. Somente as duas guerras mundiais do século XX levaram ao ocaso do imperialismo britânico.

Livres da ameaça espanhola e tendo concluída a ascensão da dinastia Stuart (1603), puderam os ingleses retomar suas investidas coloniais na América. A conjuntura inglesa era agora favorável – não obstante as conturbações políticas. Senhora dos mares, a Inglaterra e sua crescente burguesia dispunham de condições para reativar negócios coloniais. Assim, o rei Jaime I concedeu a duas companhias – a Cia. de Londres e a Cia. de Plymouth – parte do litoral norte-americano. Entre os paralelos 34º e 38º e 41º e 45º, tiveram as companhias de Londres e Plymouth, respectivamente, seus espaços de atuação, resguardando-se a faixa territorial entre eles para evitar disputas.

As Colônias do Sul

No natal de 1606, a Cia. de Londres mandara a primeira vaga de colonização efetiva inglesa, com a fundação de Jamestown, em 1607-8, na Virgínia. O começo para os colonos lá estabelecidos fora difícil, flagelados pela fome e pelos ataques indígenas. O povoado fora massacrado pelos nativos em 1622, perdendo um quarto de sua população (FERRO, 1996, p. 68). Superando os obstáculos, conseguiram os colonos empreender o cultivo daquele que seria o produto responsável pela prosperidade das colônias do sul: o tabaco.

O endividamento (por conta dos investimentos) da Cia. de Londres frente ao progresso da Virgínia levara a Coroa a convertê-la em colônia real (1624). O Estado também passara a conceder territórios a figuras destacadas para a fundação de colônias. Assim nascera Maryland, em 1634, com o estabelecimento de colonos católicos que se dedicaram ao cultivo do tabaco.

História da América
Massacre de Jametown.Gravura de Theodore de Bry

Mas quem eram estes colonos que para a América vieram? Fruto da conturbada conjuntura inglesa do século XVII, a imigração para o Novo Mundo teve múltiplos estímulos.

A começar pela situação rural inglesa, com o processo dos cercamentos (enclouseres), que impelira o excedente camponês expulso do campo para as cidades.

Levas de empobrecidos camponeses apinhavam os centros ingleses, reservatórios de imigrantes rumo à América. Carentes de mão-de-obra para expandir a colonização (os indígenas, relativamente pouco numerosos e resistentes ao trabalho não se configuravam como força produtiva disponível), as companhias, a Coroa ou os detentores de doações no Novo Mundo escoavam o excedente populacional inglês em direção das plantações americanas.

Para custear a vinda para a América, os pobres ingleses assinavam um contrato de servidão por sete anos. Tal servidão por dívidas (indentured servant) fora generalizada nas Treze Colônias, atingindo cerca de 70 % dos imigrantes (AQUINO, 2000, p. 125). Segundo Pierre Chaunu, a servidão branca era “de facto uma forma de escravatura, cujas modalidades práticas, senão as suas bases jurídicas, não diferem fundamentalmente da escravatura [dos negros africanos trazidos para a América]” (CHAUNU, 1969, p. 117).

Além dos pobres dos centros ingleses, os condenados pela justiça, mulheres e crianças raptadas, e renegados de toda sorte estiveram incluídos nas sucessivas levas de imigrantes, bem como os perseguidos pelas disputas religiosas, dos quais trataremos adiante.

Com a restauração dos Stuart, novas colônias surgiram no Sul:

A Carolina do Norte e a Carolina do Sul, doadas a dois proprietários: John Coleton e William Berkeley (1663). Povoadas por grupos deslocados de outras colônias, de huguenotes franceses e imigrantes da Escócia, Suíça e Alemanha, as duas colônias basearam sua economia no cultivo do índigo e do arroz, produzidos por escravos negros em grandes propriedades.” (AQUINO, 2000, pp. 129-30)

A mão-de-obra escrava composta pelos negros africanos viera a complementar a servidão branca ao longo do século XVII, tendo o primeiro carregamento chegado na Virgínia em 1619. Em fins deste século já predominava, nas colônias do Sul, empregados nas monoculturas das plantations.

Outra colônia que seguira este modelo econômico fora a Geórgia, última colônia a ser fundada na região (1732), formada inicialmente por condenados à prisão por dívidas, trazidos pelo proprietário James Oglethorpe. Em 1752, passara a Geórgia a ser colônia real, onde os escravos negros trabalhavam no cultivo do arroz em grandes propriedades.

A estrutura social das colônias do Sul advinha de sua organização econômica. Os latifúndios das plantations escravistas conformavam uma sociedade polarizada entre uma aristocracia fundiária ávida por terras e uma massa de escravos negros, assim como uma parcela de servos brancos. Devido ao esgotamento das terras pelo cultivo do tabaco, novas fronteiras latifundiárias eram abertas, tendo a terra altos valor e impostos, o que bloqueava a difusão de pequenos proprietários, ademais sem condições de adquirir a mão-de-obra escrava ou mesmo resistir à pressão dos latifúndios por mais terras. Muito mais ligado à metrópole, o Sul escravista seria o bastião do mercantilismo e do conservadorismo na América inglesa, mesmo na época das lutas pela independência.

As Colônias do Norte

Paralela ao desenvolvimento dos latifúndios destinados às plantations escravistas do Sul, ao Norte a colonização desenvolvera-se diversamente. A partir de 1620, as perseguições religiosas na Inglaterra levaram católicos, huguenotes, quakers e puritanos (entre outras dissidências protestantes) a imigrarem para a América, situando-se na região da Nova Inglaterra. Fora esta última leva, a dos puritanos, que entrara para a história norte-americana como o núcleo original de sua cultura.

Em 1620, quando chegaram à costa do que seria Massachusetts, a bordo do Mayflower, um grupo de puritanos (entre muitos outros passageiros) firmara um pacto (The Mayflower Compact).

Este grupo ficara conhecido como os “Pais Pelegrinos” (Pilgrim Fathers). Fundaram New Plymouth, posteriormente absorvida por Massachusetts, que era ligada à Cia. da Baía de Massachusetts, dirigida por uma “burguesia puritana”. Esta Cia. trouxera uma nova leva de puritanos, em 1630, quando desembarcaram na Baía de Massachussetts os colonos liderados por John Winthrop, também considerados “Pais Pelegrinos”.

Winthrop, ao longo da viagem, pregava entre os seus: Nós seremos como uma cidade no alto da colina, e os olhos de todos se voltarão para nós [...] a nossa história será contada e dela será passada palavra pelo mundo” (BOORSTIN, 1997, p. 15).

Antes de desembarcarem do navio Arbela, Winthrop também firmou um pacto (The Arbela Compact), declarando:

Nós devemos agir nessa empreitada como um só homem, devemos alegrar-nos na companhia dos nossos, divertir-nos juntos, tendo sempre presente no espírito a missão de nossa comunidade, na qual todos devem ser membros de um mesmo corpo. (In: História Viva, n°17, março de 2005, p. 63)

Os ditos “Pais Pelegrinos” vieram para a América devido à intolerância religiosa inglesa do século XVII, pois desejavam atingir uma pureza religiosa em meio ao ambiente anglicano inglês (os puritanos formavam a Igreja Congregacionista). Procuraram estabelecer esta pureza religiosa na Nova Inglaterra, intentando fundar uma “Nova Jerusalém”. Consideravam-se os eleitos por Deus para iniciar uma nova civilização e todas as provações (eram muitas as dificuldades, sendo que a celebração da primeira colheita realizada por eles, em 1621, dera origem ao Dia de Ação de Graças – Thanksgiving – data nacional dos EUA) pelas quais passaram na travessia e no início de seu estabelecimento reforçaram a idéia de que eram predestinados. É o mito fundador da América WASP (white, anglo-saxon, protestant – branca, anglo-saxônica e protestante). Os norte-americanos (ou estadunidenses, se preferir) consideram este o ponto de partida para sua história de sucesso – não a colonização virginiana. Sobre o grau de penetração deste mito no imaginário daquele povo Chaunu escrevera:

A Nova-Inglaterra não é a primeira América inglesa, os Pilgrim Fathers nem sequer foram os seus fundadores. E contudo a sua lenda é mais verídica que a história. 1620-1621 acaba por marcar profundamente uma viragem capital na história da América. (CHAUNU, 1969, p. 118)

É praticamente onipresente esta versão mítica dentro da historiografia norteamericana.

Não é por acaso que Daniel Boorstin inicia sua trilogia sobre a história dos EUA com a narrativa deixada pelo governador que presenciou a chegada dos “Pais Pelegrinos”, e todas as provações a que foram submetidos, arrematando em seguida:

Nunca antes uma terra prometida fora tão pouco promissora. Porém, no espaço de século e meio – mesmo antes da revolução americana – este cenário que os tolhia transformarase numa das partes mais civilizadas do mundo. Haviam nascido os contornos gerais de uma civilização nova. (BOORSTIN, 1997, p. 8)

Os puritanos e sua Igreja Congregacionista, situados no âmbito da Cia. da Baía de Massachusetts, estabeleceram uma forma de governo, ou comunidade política baseada em preceitos religiosos, sediada em Boston, mais importante centro da Nova- Inglaterra. Estabeleceu-se, portanto, “a união entre Igreja e Estado, cabendo o governo a elementos da Igreja Congregacionista. O predomínio da oligarquia puritana resultou na intolerância religiosa.” (AQUINO, 2000, p. 131)

Tal intolerância levou colonos não puritanos a deixarem Massachusetts, daí originando outras colônias na região. Rhode Island, fundada por uma corrente de dissidentes (1636), teve sua Carta de reconhecimento pelo Parlamento inglês em 1644, à qual fixava “a separação entre Igreja e Estado, a liberdade religiosa, a proibição da servidão e da escravidão, a obediência às leis aprovadas pela maioria e ao governo eleito pelos próprios colonos”. (AQUINO, 2000, p. 132) originando outras col Massachussetsna rno a elementos da Igreja Congregacionista.iedades.na Inglaterra, dos quais trataremos a

No bojo do processo de dissidência na Nova-Inglaterra foram fundadas também New Hampshire (1623, convertida em colônia real em 1679) e Connecticut (1635). Diferenças religiosas e políticas à parte, em termos sócio-econômicos havia certa homogeneidade entre as colônias do Norte. O clima temperado (semelhante ao da Inglaterra) inviabilizava a implementação das monoculturas para exportação, portanto excluía as plantations escravistas existentes nas colônias do Sul. A estrutura fundiária estabelecida na Nova- Inglaterra fora marcada pela pequena propriedade, cultivada pelas famílias dos colonos, acrescidas dos servos brancos quando possível. As desigualdades sociais não foram assim tão grandes como no Sul.

A economia das colônias do Norte era baseada na plantação de gêneros de subsistência (que também geravam excedentes comerciáveis) como o trigo, a aveia, o milho, bem como na criação de gado, porcos e ovelhas. À produção do campo juntava-se a pesca como importante atividade, bem como a indústria naval, beneficiada pela grande quantidade de madeira propícia disponível. O desenvolvimento das cidades fez com que tanto as manufaturas quanto o comércio prosperassem, apesar das proibições e restrições impostas a uma e outra atividade. O comércio de peles, valiosas no mercado europeu, também compunha o quadro econômico da região.

No âmbito da dinâmica interna da colonização, o Sul, voltado à agroexportação, carecia de gêneros de subsistência para alimentação da escravatura, adquirindo os produtos necessários nas colônias do Norte. Estas, além deste comércio, desenvolveram amplamente um circuito comercial não só ligado à Inglaterra, como também à África e às Antilhas. O controle metropolitano sempre fora burlado, perfazendo o contrabando cerca de 84% do comércio realizado pelas Treze Colônias. (CHAUNU, 1969, p. 172) O mapa abaixo apresenta os dois circuitos contidos no “comércio triangular” Europa- América-África.

O COMÉRCIO TRIANGULAR

As Colônias do Centro

Entre os territórios delegados à Cia. de Londres e à Cia. de Plymouth desenvolverase um terceiro grupo de colônias, denominadas colônias do Centro. O vazio territorial fora ocupado por outros europeus, principalmente holandeses. Entre os anos de 1624 e 1633, a Cia. das Índias Ocidentais holandesa funda uma série de estabelecimentos, destacandose a Nova Amsterdã (núcleo original de Nova Iorque). Suecos, finlandeses e alemães também juntaram-se aos holandeses no vale de Delaware (CHAUNU, 1969, pp. 150-1).

A restauração dos Stuart, na década de 1660, levara os ingleses a um novo impulso colonizador, sendo o centro da América do Norte o alvo primordial da sua expansão. Nesta região os ingleses, entre idas e vindas, conseguem estabelecer o controle sobre a colônia holandesa, agora denominada Nova Iorque.

Outras colônias foram fundadas, na esteira da conquista inglesa. Deleware, habitada originalmente por suecos, após um rasgo de dominação holandesa, passara ao controle inglês em 1664, ligada a Nova Iorque. Seria transformada em colônia autônoma em 1701.

No mesmo ano da conquista de Delaware, surgira Nova Jérsei, já habitada por puritanos ingleses e holandeses vindos da Nova-Inglaterra, agora propriedade de Lord John Berkley e Sir George Carteret. Igualmente Carlos II doara a Willian Penn, líder dos quakers, um território, dando origem a colônia da Pensilvânia (1681). A liberdade religiosa e a facilidade na aquisição de terras trouxeram imigrantes de diversas partes da Europa, principalmente alemães.

Marcadas pela heterogeneidade do povoamento e de religiosidade, ao longo de seu desenvolvimento as colônias centrais perderiam parte de sua originalidade, ao assemelhar-se gradualmente a Nova-Inglaterra. Contribuíra para tal a imensa vaga de colonos germânicos – 9000 habitantes em 1685 (CHAUNU, 1969, p. 152) – levando os descendentes dos primeiros imigrantes extremistas à formação de uma sociedade aristocrática e censitária, para garantir suas prerrogativas e privilégios, e barrar a diluição de sua cultura em meio às demais contribuições “estrangeiras”.

As Instituições Político-administrativas.

O processo de colonização inglesa na América, realizado através do empenho das companhias privadas e de proprietários e colonos responsáveis pela viabilização e defesa dos empreendimentos coloniais, conformara um modelo colonizador distinto dos vislumbrados na América ibérica. Como afirmara Leandro Karnal, o “Estado e a Igreja oficial, na verdade, não acompanharam os colonos ingleses” (KARNAL, 2001, p. 27). Situação diversa da encontrada nas Américas espanhola e portuguesa, onde seus Estados metropolitanos e a Igreja Católica a eles interligada fizeram-se presentes.

As instituições político-administrativas das Treze Colônias tiveram variações entre si, mas de modo geral todas possuíam suas próprias autoridades e autonomia em relação as demais e a metrópole.

Podem ser enquadradas em três modelos administrativos:

Colônias de companhias de comércio – foram as primeiras a ser fundadas: Virgínia e Massachusetts;

Colônias de proprietários – concedidas a particulares pela Coroa: Maryland, New Hampshire, Nova Jérsei, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Pensilvânia, Nova Iorque e Geórgia;

Colônias reais – foram aquelas que a Coroa assumira a direção da colonização, sendo que nenhuma fora fundada pelo Estado. A primeira fora a da Virgínia. No século VXII constituíam a menor parte das colônias, mas ao longo do XVIII se tornaram a maioria, exceto Maryland, Deleware, Pensilvânia, Connecticut e Rhode Island.

AS TREZES COLÔNIAS INGLESAS

As instâncias administrativas contidas em cada colônia eram a) um governador, representante dos interesses metropolitanos, possuindo amplos poderes. Nas colônias das companhias o governador era eleito pelos colonos, geralmente para um mandato de um ano e sem direito a veto às leis das assembléias, b) um conselho ou câmara alta composto por membros nomeados dentre os colonos mais influentes, ou eleitos, funcionando como órgão assessor do governador e c) as assembléias eleitas pelos homens livres, geralmente de forma censitária, que elaboravam leis e fixavam impostos nas colônias (AQUINO, 2000, p. 138).

Esta forma de governo, bastante distinta da América ibérica, levava os colonos a experimentarem um sentimento de autogoverno, o que contribuiu para a emancipação quando a Inglaterra lançara mão de medidas que pretendiam estabelecer um maior controle administrativo e tributário sobre as Treze Colônias.

As Antilhas e as Guianas

Na região das Antilhas, ingleses, franceses, holandeses e dinamarqueses, entre outros, se aproveitaram do declínio do poderio espanhol e do vazio deixado pelo genocídio da época da conquista nos séculos XV e XVI. Este vazio fora preenchido, ao longo do século seguinte, quando a Inglaterra (São Cristóvão, Nevis, Montserrat, Barbados e Jamaica), a França (principalmente a parte de São Domingos, denominada Haiti), a Holanda (Curaçao, Margarida, Bonária, Santo Eustáquio e Aruba) e a Dinamarca (os dinamarqueses fundaram a Companhia Dinamarquesa das Índias Ocidentais em 1671, sendo que permaneceram nas Ilhas Virgens até 1917) partilharam as ilhas tomadas à Espanha (CHAUNU, 1969, p. 142).

Contudo, juntamente com as espanholas Cuba, São Domingos e Porto Rico, foram a Jamaica e o atual Haiti as mais importantes porções antilhanas para o comércio colonial.

Seu produto principal, o açúcar, florescera pelo lucrativo comércio, beneficiado pelo eclipse do Nordeste açucareiro da América portuguesa.

Tanto os ingleses como os franceses deixaram para trás o século XVI da pirataria e do corsarismo, levado a cabo por flibusteiros baseados em ilhas tomadas ou abandonadas para estabelecer bases econômicas nos moldes das plantations escravistas no século XVII.

Podemos perceber o desenvolvimento da parte francesa de São Domingos pela descrição feita, em 1789, por Moreau de Saint-Méry:

[...] 793 engenhos de açúcar, 3150 plantações de anil, 789 de algodão, 3117 de café, 182 destilarias de cachaça e outras aguardentes de cana, 36 fábricas de tejolos e telhas, 6 fábricas de curtumes, 370 fornas de cal, 29 olarias e 50 plantações de cacau, independentemente de um sem número de outros estabelecimentos conhecidos [...] (in: CHAUNU, 1969, p. 143)

A parte inglesa das Antilhas, além de integrar-se de forma mais completa no projeto mercantilista inglês, participará do comércio triangular com as colônias norteamericanas, trocando açúcar e melaço por produtos manufaturados e rum, bem como consumia sucessivas levas de escravos africanos trazidos pelos comerciantes coloniais e metropolitanos.

História da América
Engenho da Martinica

As guianas seguiram o mesmo padrão da conquista antilhana, por conta da incapacidade espanhola em efetivar o povoamento da costa Norte da América do Sul, dando origem às três guianas – inglesa, holandesa e francesa:

Assim, entre o Orenoco e o Amazonas, toda uma frente costeira, por traição da Espanha, demasiado longe da América, demasiado sobrecarregada de trabalhos na Europa, escapará no fim das contas e definitivamente aos Ibéricos. O primeiro estabelecimento inglês duradouro na Guiana – obra de Walter Raleigh – data de 1595; a primeira colônia holandesa duradoura, de 1621, é o forte “Kijk over all”, numa ilha costeira. O forte Nassau data de 1624. Quanto aos Franceses, expulsos da França equinoxial, instalam-se na Cayenne em 1650, sob a égide da Companhia do cabo do Norte. (CHAUNU, 1969, p. 111)

A América Francesa

A França em relação à sua história colonizadora na América, passara por um processo semelhante ao inglês nas etapas iniciais: fora retardatária, devido ao atraso em sua centralização política em comparação aos ibéricos, bem como vacilante em suas iniciativas, ainda mais que os ingleses. Porém tivera uma diferença básica em relação aos ingleses que os aproximava dos ibéricos: a presença de missionários no Canadá, com o fito de catequizar os indígenas, processo sempre incompleto.

Não obstante o atraso na concretização de um projeto colonizador, os franceses não estiveram alheios à expansão marítima ibérica:

Aliás, Francisco I pediu para ver “a cláusula do testamento de Adão” que, segundo o papado, o excluiu da partilha do mundo. Na verdade, por muito tempo faltaram à França meios para montar um grande dispositivo comercial, e no século XVI ninguém teve realmente essa idéia. Foi preciso que a guerra de corso se iniciasse para que Saint-Malo, Nantes etc. se lançassem, mas várias décadas depois de Portugal e Espanha, e com menos determinação do que a Inglaterra. Foi preciso, sobretudo, que o Estado quisesse ter colônias. (FERRO, 1996, p. 61)

Envolta pelas guerras religiosas e pelo conflito interno entre católicos e huguenotes, a França indispunha de energias para rivalizar com espanhóis e lusitanos nos empreendimentos coloniais americanos. Entretanto, no bojo da centralização política e construção do Estado absolutista, iniciativas foram tomadas, em parte decorrentes dos conflitos religiosos. Foi assim que entre 1555 e 1567 huguenotes chefiados por Nicolau de Villegagnon fundaram a França Antártica, destruída pelos portugueses. Expulsos da Baía da Guanabara, tentaram ainda se estabelecer ao norte, no litoral maranhense, sendo igualmente repelidos pelos lusitanos.

Seria na América do Norte, contudo que os franceses lograriam estabelecer-se. O estímulo inicial se dera pela pesca, praticada há tempos no Mar do Norte.

Mas não somente pela pesca. Assim como os ingleses, os franceses intentaram descobrir uma passagem ao norte para o Pacífico, objetivando o contato com o Oriente asiático. Jacques Cartier, em 1535 descobre a rota do São Lourenço, via de penetração para o interior continental. Entretanto Cartier não logrou estabelecer uma ocupação duradoura na região.

Somente no reinado de Henrique IV (1589-1610), quando o absolutismo encontravase consolidado e a política mercantilista tornara-se uma de suas bases de sustentação, os franceses efetivaram sua presença em terras americanas. Samuel Champlain, em 1605, fundou Port-Royal no litoral atlântico e Quebec (1608), nas margens do rio São Lourenço. Entretanto, o povoamento significativo não se dera senão após um longo período de relativo abandono, tendo o Estado pouco investido na colonização. Neste momento inicial prevalecia a pesca e o comércio com os nativos, fornecedores das peles negociadas na Europa. Em 1660, apenas 2000 colonos habitam as povoações francesas da Nova França (CHAUNU, 1969, p. 113).

Franciscanos e jesuítas encetaram o trabalho missionário durante o governo do cardeal Richelieu, dificultado pela resistência nativa e pelos conflitos decorrentes.

Os iroqueses, verdadeiros algozes dos franceses no Canadá, dificultaram maiores empreendimentos pelo interior.

Um novo impulso na colonização ocorrera durante o reinado de Luis XIV, enquadrado na política mercantilista desenvolvida por Colbert, secretário das finanças.

O Canadá foi transformado em colônia real, bem como medidas foram tomadas para aumentar a ocupação da região, que manteve-se porém pequena, dispersa, ligada principalmente ao comércio de peles. Para estabelecer o comando metropolitano fora criado o governo geral, situado em Quebec, além do intendente (justiça e finanças) e um Conselho formado por representantes de Quebec, Montreal e Trois Rivières.

Dera-se estímulo à emigração para a Nova França. Entretanto, ao longo de todo o período colonial o povoamento mantivera-se diminuto e disperso.

História da América
Jean Baptiste Colbert

O comércio de peles incentivava expedições pelos grandes rios do interior, sendo que nelas se descobrira o Mississipi, dando origem a uma nova zona de colonização: a Louisiana. Na virada do século XVII para o XVIII foram fundadas Biloxi e Mobille, núcleos que atraíram colonos para a região. New Orleans, criada pela companhia organizada para a exploração da Louisiana, se tornou a capital desta colônia. Não obstante as iniciativas, a Louisiana permaneceu fracamente povoada (muitos dos que vieram eram engajés, ou engajados, servos brancos – por três anos – semelhantes aos existentes nas Treze Colônias) e constantemente ameaçada pelos ataques de indígenas, de espanhóis da Flórida e de colonos das Treze Colônias que se chocavam com os franceses em sua expansão para o interior.

A colonização francesa, menos expressiva que a inglesa, sentira o peso dos conflitos contra os nativos, ao mesmo tempo em que se aliava a algumas nações nativas para atacarem os colonos ingleses. Foram constantes os choques e guerras na América do Norte, seguindo a lógica da rivalidade franco-inglesa na Europa. Com a derrota na Guerra dos Sete Anos (1756-63) e a decorrente assinatura do Tratado de Paris, a colonização francesa na América iniciara seu ocaso, com a entrega do Canadá e de diversas ilhas das Antilhas ao poderio inglês.

Os Holandeses na América

Tradicionalmente ligados ao mar (os Países Baixos formam uma região de aterramentos e diques), os holandeses, em sua luta pela independência frente à Espanha, deram sua partida para a expansão ultramarina. A União Ibérica (1580-1640) transformara as possessões portuguesas em alvos primordiais para os holandeses, por conta de sua fragilidade. A República das Províncias Unidas, instituição política dos Países Baixos, teve sua complementação econômica nas Companhias das Índias Orientais e Ocidentais, que fizeram da primeira metade do século XVII um período de hegemonia holandesa. O lucro era seu único objetivo: “Quando os holandeses se lançam mundo afora, têm um projeto simples: ganhar dinheiro. Jesus Cristo está ausente de suas preocupações, evangelizar não lhes interessa.” (FERRO, 1996, p. 65)

Na América os holandeses da Companhia das Índias Ocidentais atacam Salvador (1624) e conquistam parte do Nordeste, centrados em Pernambuco (1630-54). Ao Norte, ocuparam os espaços entre os territórios das companhias de Londres e Plymouth, fundando o futuro núcleo da cidade de Nova Yorque.

O sucesso holandês estava escorado na fraqueza ibérica momentânea e no seu modelo de gestão empresarial, visando unicamente o lucro, e dirigido pelas companhias do ocidente e oriente. Mas, quando tiveram que sustentar a implantação do aparato colonial e defender-se da reação dos colonos brasileiros, bem como da concorrência do comércio inglês, os holandeses perderam seu ímpeto e foram forçados a recuar para pequenos enclaves ao redor do mundo, terminando assim a fase áurea de seu desenvolvimento colonialista.

A Independência Norte-americana

Vimos que, ao longo do primeiro século da colonização inglesa na América do Norte, os colonos tiveram autonomia para se desenvolverem e prosperarem por seus próprios méritos. O empreendimento colonial se dera muito mais pela atuação de companhias e particulares do que pelo empenho estatal. A começar pela defesa. Cada colono era responsável por salvaguardar suas terras e família dos ataques indígenas. Coletivamente, a defesa dos povoados e colônias era realizada pelas milícias organizadas pelos próprios colonos, que tantas vezes teriam que enfrentar as nações indígenas e os franceses (aliados ou não aos nativos). A presença das tropas inglesas era reduzida, somente se tornando mais constante a partir da Guerra dos Sete Anos.

É justamente no segundo quartel do século XVIII que a metrópole se lançara com afinco no projeto de consolidação do império ultramarino, através de um controle mais rígido dos negócios e da vida coloniais.

Pierre Chaunu faz uma síntese do processo:

Ao império britânico, comunidade antiga mas realidade política recente, falta o peso dos hábitos duas vezes e meia seculares que actuam a favor do Império espanhol. No momento em que a Inglaterra procura dar-lhe um conteúdo mais preciso, as dificuldades surgem de todos os lados. Tanto mais que a Inglaterra está mais distante da América que a América da Inglaterra.

O tempo, ademais, aumenta as dificuldades. Uma temtativa de império teria sido mais fácil no século XVII. Mas o século XVII com sua vida econômica enfadonha não se prestava a tais construções custosas. Entretanto, pouco a pouco a América inglesa individualiza-se em relação à Inglaterra. De muitas maneiras: o modo de vida, a distância, a fraca densidade das comunidades, a interrupção prematura da emigração propriamente inglesa. A população anlgoamericana é, desde meados do século XVIII, crioula em 97 ou 98%. Seu aumento é essencialmente natural. Os novos emigrantes são na maioria alemães, irlandeses, escoceses. (CHAUNU, 1969, p. 170)

Assim, quando a metrópole intentara reforçar os laços com as colônias – reverter sua “Negligência Salutar” – o projeto se mostrara anacrônico. Pertence a um outro tempo. Os ventos do liberalismo iluminista do século XVIII sopravam na América inglesa. Processo facilitado por dois motivos: primeiramente, o alto índice de alfabetização entre os colonos (pois todo bom protestante tinha que ler a Bíblia para concretizar sua religiosidade), derivado da criação de instituições de ensino – Harvard e Yale, por exemplo –; se junta a isto a ausência de instituições restritivas como a Inquisição, presente nas terras da América espanhola. O acesso às obras iluministas, portanto era aberto.

Para além da influência das idéias iluministas, havia um conjunto de fatores que impulsionaram os colonos à independência: senso de autonomia, liberdade religiosa em relação à Igreja Anglicana, heterogeneidade de povoamento, resistência às imposições fiscais...

Durante o século XVIII, os encargos coloniais, bem como a fiscalização e controle sobre o contrabando, foram aumentados. As guerras e conflitos geravam despesas que a metrópole intentava compartilhar com as colônias. O Estado inglês saíra vitorioso, porém endividado, da Guerra dos Sete Anos. O Parlamento britânico queria dividir com as colônias o custo de 400 mil libras anuais que as tropas inglesas na América acarretavam.

Para os colonos, eliminado o perigo francês do Canadá, pagar a conta parecia indigesto: tinham que “pagar por um exército que, a rigor, estava ali para policiá-los.” (KARNAL, 2001, p. 71) Acreditavam que, pelo contrário, sem a presença francesa ao Norte não careciam das tropas inglesas para segura-las.

Mas, sem voz no Parlamento inglês, viram encargos sendo criados sem contrapartidas. A Lei do Açúcar (1764) reduzira o imposto sobre o melaço estrangeiro, ao mesmo tempo em que estabelecia impostos adicionais sobre vários produtos. Fora criada uma corte na Nova Escócia com jurisdição sobre as Treze Colônias para punição dos que burlassem o fisco, o que prejudicava o tradicional comércio triangular dos colonos. A corte estava enquadrada no âmbito da política mercantilista revigorada.

Houve reação. Para os colonos, imbuídos pelo princípio inglês de que “taxação sem representação é ilegal”, protestaram, além de boicotar artigos importados da Inglaterra.

Iniciava-se o processo de contestação-rompimento. Desejavam os colonos co-participação nas decisões do império. Não foram atendidos, porém os protestos obrigaram a revogação da Lei dois anos depois.

Entretanto não impedira que mais leis restritivas e taxativas fossem criadas:

Mesmo antes, em 1763, o rei declarara a proibição do acesso dos colonos a diversas áreas entre os Apalaches e o Mississipi, reconhecendo a soberania indígena sobre a região, numa tentativa de apaziguar os nativos. Isto feria diretamente os interesses dos colonos comerciantes de peles e produtores de tabaco, interessados na expansão da área de cultivo.

Lei da Moeda (1764), que proibia a emissão de papéis de crédito, o que prejudicava o comércio.

Lei do Selo (1765), que obrigava a utilização de selo em qualquer documento, jornais ou contratos nas colônias, afetando a todos os setores da sociedade colonial, principalmente os comerciantes. A oposição radical à Lei criou o início da resitência organizada das Treze Colônias, conseguindo novamente a revogação da Lei, em 1766.

Atos Townshend (1767), como ficaram conhecidas as leis que taxavam a importação de diversos produtos de consumo, além de criavam os Tribunais Alfandegários que aumentaram a fiscalização. A reação, principalmente em Boston, fora reprimida, ocorrendo o denominado Massacre de Boston (1770).

Lei do Chá (1773), que garantia o monpólio do comércio de chá para a Cia. das Índias Orientais, contrariando os interesses coloniais. Novamente em Boston a reação dos colonos gerara incidentes como a Boston Tea Party, quando uma carga de chá fora lançada ao mar.

Leis Intoleráveis (1774), impostas após a manifestação do Porto de Boston, interditavam o porto da cidade, bem como convertiam Massachussets em colônia real, maximizando o poder do governador indicado por George III.

Ato de Quebec (1774), que impedia que as colônias de Massachussets, Virgínia, Connecticut e Pensilvânia ocupassem terras à oeste.

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Massacre de Boston

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Os patriotas se organizando: mulheres fazendo boicote

Todas estas medidas serviram para unificar diversos grupos de interesses nas colônias frente à dominação inglesa. Clubes de radicais formavam comitês que discutiam a indepandência, enquanto moderados preferiam a manutenção do status quo, em movimentos concilliatórios.

A partir de 1774, os anglo-americanos, divididos entre partidários da separação e os defensores da conciliação (temerosos da participação popular no movimento, o que ameaçava seus privilégios), organizaram o Primeiro Congresso Continental, em Filadélfia, um dos mais importantes centros das colônias. Era chegada a hora de unificar as dissidências para sanar o impasse metrópole-colônias. Representantes das Treze Colônias (exceto da Geórgia) elaboraram uma petição ao rei protestando contra as medidas metropolitanas.

A reação inglesa fora aumentar os efetivos ingleses, gerando atritos com os grupos patriotas. Em Lexington e Concord ocorreram os primeiros choques (1775), dando início à Guerra de Independência. Neste mesmo ano reunira-se o Segundo Congresso Continental de Filadélfia, contando com a presença de todas as colônias, que enviaram líderes seus mais destacados líderes, como Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, Samuel Adams etc.

Enquanto debatiam a situação de rebeldia, um folheto intitulado Commom Sense, escrito por Thomas Paine deu corpo às idéias e protestos anti-metropolitanos:

A Inglaterra é, apesar de tudo, a pátria mãe, dizem alguns. Sendo assim, mais vergonhosa resulta sua conduta, porque nem sequer os animais devoram suas crias nem fazem os selvagens guerras a suas famílias; de modo que este fato volta-se ainda mais para a condenação da Inglaterra [...] Europa é nossa pátria mãe, não a Inglaterra. Com efeito, este novo continente foi asilo dos amantes perseguidos da liberdade civil e religiosa de qualquer parte da Europa [...] a mesma tirania que obrigou aos primeiros imigrantes a deixar o país, segue perseguindo a seus descendentes. (in: KARNAL, 2001, p. 84)

Gradualmente, os elementos resistentes tiveram que ceder à aprovação da Declaração de Independência (tendo Thomas Jefferson como principal autor), finalmente redigida em 4 de julho de 1776 – data cívica máxima para os norte-americanos. Estava aberta a luta completa pela independência, que seria dirigida por George Washington, rico proprietário de terras e comandante miliciano. Foi criado o Exército Continental, chefiado por Washington, que juntamente com as milícias combatera as tropas inglesas.

A Declaração de Independência fora recebida com entusiasmo pela maioria dos colonos. A estátua do rei George III foi derrubada pela população eufórica de Nova Yorque. Porém, ao deixar de fora do texto (ver mais a frente a seção História através de documentos) qualquer referência sobre a escravidão, exigência dos aristocratas escravistas do Sul, excluía de seus princípios liberais cerca de um sexto da população ( perto de 500 mil escravos e 2.5 milhões de homens livres). A soberania popular, essência da Declaração, não era para todos.

Declerar a independência era apenas uma das etapas de luta patriota. Organizar a combate conjunto aos (13) Estados Unidos (termo de 1776) contra as forças inglesas mostrara-se mais complicado. O apego à autonomia e o medo de uma revolução popular fizeram-se presentes, dificultando o andamento da Guerra.

Para conduzir o conflito e sistematizara a união entre os Estados, entre 1778- 88 vigorou a Confederação:

ou seja, não havia um governo central forte, mas uma instância que deveria reunir e analisar as vontades e interesses dos 13 estados. Tal instância era chamada de Congresso Continental, o qual tomava decisões baseadas num conjunto de normas chamado de Artigos da Confederação. Como não podia deixar de ser, tal arranjo criou alguns problemas: alguns estados tinham sua própria milícia, outros cunhavam a sua própria moeda, outros ainda comercializavam com quem queriam de acordo com interesses particulares. Era então um país ou 13 países? (JUNQUEIRA, 2001, p. 21)

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A derrubada da estátua de George III

A pergunta da Profª. Mary Junqueira é realmente pertinente. Apenas foi respondida pelos estadunidenses ao longo do século XIX, no processo de cosntrução do Estado nacional. Mas antes era preciso derrotar os ingleses...

A Guerra, que durou seis anos, começou com uma série de vitórias inglesas.

Os desencontros entre o Exército Continental e as milícias, que relutavam em seguir os generais sob comando de Washington, foram sintetizados pelo mesmo:

Se, para todos os efeitos, tivéssemos um exército, ou treze exércitos aliados para a defesa comum, não haveria dificuldades em resolver a questão que me põem [sobre as promoções militares], mas, se umas vezes somos ambas as coisas, não andarei longe da verdade se disser que outras vezes não somos nenhuma delas, mas uma amálgama de ambas. (in: BOORSTIN, 1997, p. 337)

Não obstante as dificuldades internas, a Guerra começou a pender para os norteamericanos entre 1777 (com a vitória dos patriotas em Saratoga, primeira grande batalha do conflito) e 1778-9 (quando a França, depois a Espanha, passaram a apoiar os estadunidenses). A França enviara homens, armas e mantimentos, bem como combatia a Marinha britânica juntamente com os corsários. Não podia a Inglaterra combater do outro lado do Atlântico contra tantos inimigos. O decisivo apoio do poderio naval francês na derrota das tropas do general Cornwallis, em Yorktown (costa da Virgínia), selou o fim da resistência inglesa.

Tratava-se, agora, de acordar a paz. Em Versalhes, foi celebrada a Paz de Paris (1783), quando ficaram reconhecidas a independência, a liberdade e soberania das ex- Treze Colônias sobre o território do Oeste até o Mississipi, ao Sul até a Flórida, recuperada pela Espanha e ao Norte até os Grandes Lagos. A França conseguiu ficar com algumas ilhas inglesas nas Antilhas (e uma enorme dívida, uma das origens da Revolução Francesa). Entretanto, agora os Estados Unidos deveriam solucionar seus conflitos internos no bojo do processo de construção da nação norte-americana.

Concluída a Paz, os impasses vislumbrados entre o Congresso Continental e os estados continuavam. O fraco poder confederado do Congresso impedia um avanço na construção de estruturas político-administrativas nacionais. Não havia ainda nação. Esta fora uma construção ideológica que levaria quase um século para se afirmar.

O período da Confederação foi um ponto crítico na história do recém criado país. A anarquia de interesses dos diversos estados precisava ser equacionada, sob risco de completa fragmentação. Em 25 de maio de 1787, reuniram-se em Filadélfia as figuras mais ilustres dos estados. Apenas Rhode Island não enviou representantes. Os 55 delegados elegeram George Washington como presidente da Convenção. Era chegada a hora de discutir uma Constituição. Na Convenção, o embate entre confederados e federalistas dera o tom – poder local versus centralizado.

O texto constitucional redigido, onde prevalecera o espírito federalista, precisava de aprovação. Os federalistas, mais organizados e fortes junto à opinião pública (tinham a imprensa ao seu lado), “rejeitavam a participação popular na política, pois temiam ‘um caos’, ‘uma anarquia’ ou se estabelecesse uma ‘irreversível desordem’” (JUNQUEIRA, 2001, p. 26). Seu projeto saíra vencedor, tendo a Constituição, que recebera poucas emendas, ratificada, em 13 de setembro de 1788, por 11 estados. Desde sua redação até 1992, a Constituição norte-americana tinha recebido apenas 27 emendas, em flagrante contraste com as constituições latino-americanas, constantemente refeitas e emendadas. Isto se deve ao fato de que o texto constitucional dos EUA é baseado em princípios, o que lhe dá maior flexibilidade e por isso pouco necessita ser reformado.

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Assinatura da Constituição Norte-Americana

Um dos documentos mais importantes da história política contemporânea, a Constituição norte-americana estabeleceu um poder central (Executivo), chefiado pelo presidente eleito, com funções que incluem regulamentação do comércio, cunhagem de moedas, controle das terras públicas e manutenção das Forças Armadas nacionais. O poder Legislativo ficara a cargo de duas assembléias: a Câmara dos Deputados e o Senado. O Judiciário, a nível federal, é representado por uma Suprema Corte (importantíssima na cultura política dos EUA, pois é ela a responsável por interpretar os princípios da Constituição, decidindo o que é ou não constitucional).

A soberania popular era efetivamente limitada pelo voto censitário, pois apenas os homens que possuíam determinada renda – em terras ou investimentos – poderiam votar ou serem eleitos (AQUINO, 2000, pp. 193-4). Isto excluía a maioria da população, sem contar os escravos, obviamente ausentes da participação política. O sistema eleitoral estabelecido vigora até hoje: os eleitores votam em delegados do seu estado, que por sua vez escolhem o presidente. Assim, a eleição é indireta.

Mesmo vencidos, os antifederalistas conseguiram a aprovação da famosa Bill of Rights (Declaração de Direitos), que garantia alguns direitos civis, como as liberdades de expressão, de reunião, de imprensa, de fé religiosa, bem como a separação entre Igreja e Estado.

Como parecia natural, o primeiro presidente foi George Washington (eleito para dois mandatos – 1789-97), pois era uma figura de prestígio pelo comando durante a Guerra, capaz de dar um sentimento de unidade ao poder Executivo. Juntamente com Washington, outras personalidades como Thomas Jefferson (eleito presidente de 1801 a 1809) figuram no panteão cívico norte-americano como os “Pais Fundadores” (Founding Fathers) da nação. Verdadeiros ídolos públicos, tinham seus feitos ligados aos “Pais Pelegrinos”, como se fossem seus herdeiros diretos, contribuindo para a formação do espírito de união da comunidade norte-americana.

Assim como Winthrop, abordo do Arbela, tinha estabelecido um pacto de união entre os puritanos, no início do século XIX os “Pais Fundadores” seriam os responsáveis pela consolidação da comunidade WASP dos Estados Unidos da América. Como aqueles que pretendiam fundar a “Nova Jerusalém”, estes desejavam fundar uma “Nova Roma”, evocando os virtuosos princípios republicanos da antiguidade romana (é ilustrativo disto a arquitetura neoclássica das instituições máximas da política dos EUA, a Casa Branca e o Capitólio – como é chamado o prédio do Congresso). Era necessário romper com a tradição monárquica inglesa para legitimar o novo regime – a República – e foi Roma o referencial escolhido.

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Casa Branca

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Capitólio

Mas a concretização deste amálgama sobre a sociedade norte-americana não fora automática. A heterogeneidade regional, social, econômica e religiosa tinha que ser minimizada frente aos valores comuns a todos, e estes só poderiam ser cívicos – não é por acaso que o nacionalismo dos EUA é considerado por seus historiadores como um nacionalismo cívico (ver CHASTEEN, 2001, p. 179).

A Expansão para o Oeste

Primeiramente, os EUA deviam resolver os problemas relacionados ao povoamento de suas fronteiras. As questões fronteiriças já figuravam no período da Confederação: em 1787, o Estatuto (ou Ordenações) do Noroeste deu corpo jurídico ao estabelecer que nenhum Estado poderia constituir colônias nas terras do Oeste, consideradas territórios federais até que estes atingissem determinada quantidade de eleitores, quando então se transformariam em Estados e seriam admitidos à união com os mesmos direitos dos Treze Estados originários. (AQUINO, 2000, p. 192)

Pois, caso contrário, se um dos estados já existentes apenas incorporasse novas terras e populações poderiam desequilibrar a Federação. Este mecanismo de inclusão dos novos estados possibilitou a expansão para o Oeste, que caracterizaria a primeira metade do século XIX norte-americano. A questão do Oeste aparece como um nexo que interliga os problemas centrais para os EUA da época: a inclusão dos homens de fronteira no sistema político, e a delicada temática da escravidão.

O primeiro tivera solução a partir do Estatuto do Noroeste. Através dele novos estados foram sendo anexados: “Vermont foi o 14° estado a entrar para a União, em 1791. O Kentucky tornou-se o 15° estado, em 1792, e Ohio, o 16° estado dos Estados Unidos, em 1803” (JUNQUEIRA, 2001, p. 41). A expansão para o Oeste esbarrava na existência da Louisiana, pertencente à França. A solução foi comprá-la da França napoleônica em 1803. Apenas a Guerra contra a Inglaterra entre 1812-14 distraíra os norte-americanos em sua expansão. Terminada com a vitória dos EUA, novos territórios foram criados na extensa área da Louisiana, que após completarem os 60 mil habitantes requeridos pela lei, tornaram-se estados federados à União. Ao Sul, a Flórida, ainda sob domínio espanhol, foi comprada em 1822.

Tendo em vista que a maioria dos colonos que se fixavam nos territórios de fronteira era composta por proprietários descapitalizados, o voto censitário impediria por muito tempo a inclusão de tais territórios como novos estados. A saída fora universalizar o voto a todos os homens livres. Este processo pode ser denominado como “democracia jacksoniana” (HOBSBAWM, 1977, p. 129), pois Andrew Jackson, comandante militar de prestígio e nascido no Oeste, baseava seu apoio político nos recém-criados estados (ele se tornou o primeiro governador da Flórida). Com o auxílio dos homens da fronteira, Jackson consagrouse presidente dos EUA por dois mandatos seguidos (1829-37). Sua defesa da democracia alargada revolucionou a política norte-americana. Por mais que alguns estados mantivessem o voto censitário, os novos ventos da democracia universal sopravam os EUA rumo ao posto de vanguarda da política democrática, processo em consolidação no Ocidente entre fins do século XIX e a primeira metade do XX.

A postura igualitária de Jackson enquadrava-se no que seria um mito norte-americano: a valorização do homem comum, que, pelo seu trabalho, conseguia prosperar, pois o Oeste era visto como a terra das possibilidades, onde – após o extermínio ou a expulsão dos indígenas – tudo poderia ser realizado.

A política adotada por Jackson foi dirigida em benefício do pequeno proprietário, estimulando a mobilidade social e o espírito individualista. Era o tempo da valorização do self made man, imagem tão celebrada nos Estados Unidos desde então. (JUNQUEIRA, 2001, p. 46)

Na expansão para o Oeste era inevitável o choque com as nações indígenas. Apenas eliminando a ameaça indígena os colonos (em sua ótica) poderiam desenvolver a civilização nos territórios abertos pelo avanço do povoamento no centro do continente. A imagem dos conflitos entre brancos e índios ficou imortalizada pelas produções hollywoodianas, dando origem a um novo gênero cinematográfico: o faroeste.

Jackson, defensor dos pequenos proprietários do Oeste, quando presidente, estabeleceu o Indian Removal Act (Ato de Remoção Indígena - 1830) que forçou a remoção de milhares de índios para reservas longe (por enquanto) dos territórios pretendidos pelos colonizadores da região do Mississipi. Aos resistentes, a cavalaria norte-americana travava duros combates, exterminando tribos inteiras.

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Trilha das Lágrimas

O contraste entre os indígenas, considerados “selvagens”, portanto impossibilitados de serem integrados à sociedade dos EUA, e o homem branco, tido como realizador de uma nova sociedade no interior continental, davam uma idéia de superioridade marcante aos norte-americanos. Como vimos desde o período colonial havia a concepção de que os colonos tinham vindo para a América fundar um novo mundo, distinto da velha Europa. No século XIX, esta ótica seria sistematizada na Doutrina do Destino Manifesto (fundamental para entender a lógica imperialista dos EUA em pleno século XXI), expressão cunhada pelo jornalista John O’Sullivan (JUNQUEIRA, 2001, p. 50). Os estadunidenses acreditavam que tinham o direito, concedido por Deus, de tomar todo o território continental da América do Norte. Sua civilização, considerada superior, tinha o direito de expulsar indígenas e depois os mexicanos, pois sua missão era ser o grande farol que iluminaria toda a humanidade.

Assim, resolvidos os entraves indígenas, os norte-americanos, em sua expansão desenfreada, chegaram às terras mexicanas na década de 1830. Colonos fundaram uma “república independente” no Texas, território mexicano. Posteriormente decidiram anexarse aos EUA, provocando a guerra contra o México (1846-8). O resultado de uma luta desigual foi a tomada de metade do território mexicano pelos EUA, terminando a expansão rumo ao Oeste, com a chegada à costa do Pacífico e a posterior criação de diversos estados norteamericanos. A descoberta de ouro na Califórnia levaria à Corrida do Ouro, que se tornara uma febre na década de 1850, estimulando o povoamento.

Agora, as atenções voltaram-se para o Norte: o Oregon, disputado com os ingleses e o Alasca, território Russo, foram incorporados mediante acordos nas décadas de 1840 e 1860. Estava consolidada a plataforma continental dos EUA.

A questão do Oeste, como dito, também abarcava a temática sensível da escravidão. O problema girava em torno da expansão ou não da escravidão para os novos estados criados. A maioria deste decidira pela adoção da escravidão, fazendo pender a balança de poder para o Sul, no âmbito do Congresso Nacional.

Estavam em choque diferentes modelos econômicosociais: o Norte, onde vigoravam o trabalho assalariado e as manufaturas, tinha seus homens de negócios defendendo o fim da escravidão, objetivando a expansão do mercado consumidor; já o Sul, essencialmente agroexportador (o algodão norte-americano foi essencial para a industrialização inglesa) e escravista, tinha uma aristocracia conservadora ciosa de seus direitos e ressentida pelo endividamento frente aos nortistas que a financiavam, além das divergências alfandegárias entre eles. O impasse fora decidido pela sorte das armas.

A Guerra Civil Norte-americana

A Guerra Civil, conhecida também como Guerra de Secessão, foi um dos eventos mais marcantes da história dos EUA. O país quase se dividiu em dois. O aumento do poderio sulista, ao mesmo tempo em que crescia no Norte o movimento abolicionista, polarizava os debates no Congresso. Desde 1808, o tráfico de africanos estava proibido. Porém, além do contrabando persistir, o sistema escravista dos EUA era baseado na reprodução interna, através dos filhos dos escravos.

A eleição de Abraham Lincoln (do Estado de Illinois), em 1860, foi um duro golpe para os sulistas, pois seu Partido Republicano defendia a abolição. A tensão chegara ao limite, levando 11 estados sulistas a se separarem da União e formarem uma nova Confederação (Estados Confederados da América).

O conflito se iniciara em abril de 1861, porém apesar de diversas vitórias da Confederação, o Norte saiu vitorioso, quatro anos depois – 9 de abril de 1865, sendo que o presidente Lincoln foi assassinado quatro dias após, por um simpatizante sulista. Sua população muito superior à do Sul (22 contra 9 milhões, respectivamente), seu desenvolvimento industrial (que facilitara a produção voltada para a Guerra), suas facilidades de transporte pelas estradas de ferro e o bloqueio da costa sulina, que estrangulava a exportação e impedia a importação de material bélico foram decisivos.

No bojo do conflito a abolição foi decretada – 1862 – mas a igualdade política entre brancos e negros não garantiu a igualdade social, nem o fim do racismo. A nação, reintegrada politicamente com a volta dos Confederados à União, permanecia dividida racialmente, como ainda o é nos dias de hoje.

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A Guerra em imagens

A Guerra, que causara mais de 620 mil mortes, acabou por modernizar os EUA, pois o conflito contribuíra para o desenvolvimento tecnológico e industrial do Norte. Após o conflito, a burguesia nortista passara a investir também na modernização do Sul, em processo de reconstrução de sua economia, duramente afetada pelo conflito. A introdução do contingente oriundo da escravidão no mercado consumidor também serviu de catalisador do capitalismo norte-americano, que terminaria o século XIX como um dos mais prósperos e importantes do mundo.

Os EUA em Fins do Século XIX

Os Estados Unidos da América conheceram um grande desenvolvimento ao longo de seu primeiro século e meio de existência. A começar pela expansão territorial, que multiplicara seu território em cerca de 11 vezes (JUNQUEIRA, 2001, p. 39). A população crescera tão espetacularmente quanto o território, por conta do forte movimento imigratório ao longo do século XIX e da elevada taxa de natalidade. Já entre 1790 e 1820, a população norte-americana passou de 3.929.214 para 9.638.453 (CHAUNU, 1969, p. 184). Os imigrantes na segunda metade do século chegavam em massa: “2,4 milhões na década de 1870 e 5,3 milhões na década de 1880” (BANDEIRA, 1998, p. 24).

E o número de imigrantes não parou de crescer, pois a partir de 1880, os EUA instalaram na Europa agências para atrair imigrantes que foram incorporados nas manufaturas em expansão:

entre 1880 e 1920, os Estados Unidos receberam perto de 22 milhões de imigrantes – asiáticos, russos, judeus, tchecos, húngaros, poloneses, sérvios, croatas, romenos, gregos e 7um grande contingente de italianos. Foram o país das Américas a receber o maior número de imigrantes nessa época. (JUNQUEIRA, 2001, p. 119)

Todo este movimento migratório contribuiu para a diversidade cultural norte-americana, uma das marcas daquele país. Uma cultura voltada para o progresso, para a expansão (eram a terra das oportunidades), onde o espírito capitalista protestante transformara uma sociedade agrária do século XVIII em uma potência industrial ao longo do XIX.

O desenvolvimento manufatureiro já havia sido observado em tempos coloniais (pequeno é verdade, muito aquém da agricultura), porém foi no século seguinte à independência que o processo se consolidara. Já na primeira metade do XIX, os EUA cresciam com uma rapidez assombrosa, ocupando, por volta de 1850, o quinto lugar no mundo como potência manufatureira (BANDEIRA, 1998, p. 16).

Após a Guerra de Secessão, os norte-americanos experimentaram um grandioso desenvolvimento econômico. O conflito acelerara a industrialização, bem como a necessidade de incorporar as terras do Oeste de fato, ligando o país pelas estradas de ferro. Ao longo da década de 1860, foi construída uma grande ferrovia que ia da costa do Atlântico à do Pacífico. E a construção das ferrovias, ao mesmo tempo em que integrava mais terras e populações aos circuitos comerciais do Leste – permitindo a expansão industrial –, engendrava por si só a expansão fabril, especialmente nos setores de metalurgia e siderurgia.

A Guerra também estimulara a mecanização fabril, pois o crescimento das necessidades de fornecimento de material para o conflito foi acompanhado do recrutamento e morte de parte do contingente proletário. Os industriais que dispunham de capitais para investir tornaram-se riquíssimos. Outro efeito decorrente do conflito foi a ocorrência inúmeras fusões de empresas, visando a agilização do fornecimento e das comunicações, principalmente das tropas nortistas.

A década seguinte foi marcada pela aceleração e fortalecimento da expansão dos grandes grupos industriais, dedicados à reconstrução das áreas devastadas pela Guerra e a novas aquisições de pequenas empresas, possibilitando investimentos em tecnologia e procura por mercados externos:

Do quinto lugar como potência industrial, em 1840, os EUA, que até a Guerra de Secessão foram um país de pequenos negócios, saltaram para o quarto em 1860 e para o segundo em 1870, quando o processo de concentração e centralização da economia, impulsionado pelo crack de 1873, começou a produzir novas formas de associação empresarial – pools, trusts, cartéis e sindicatos – com o objetivo de monopolizar mercados e fontes de matérias-primas, bem como controlar preços e exportar capitais. Em tais circunstâncias, com as forças produtivas do capitalismo desbordando os limites do estado nacional, a América Latina, agrícola e atrasada, se configurava como a continuidade natural do seu espaço econômico. (BANDEIRA, 1998, p. 24)

Com efeito, a expansão do capitalismo industrial norte-americano estava intimamente ligada ao seu expansionismo territorial. Mais terras, mais matérias-primas para a produção, mais imigrantes atraídos pelas possibilidades de enriquecimento, mais braços para as indústrias. Estas se desenvolveram na chamada “segunda Revolução Industrial”, marcada pela indústria petrolífera, e os EUA foram protagonistas de ponta neste processo. Os monopólios, como o da Standart Oil Co., fortaleceram os grandes grupos econômicos e o avanço tecnológico. Seguindo os exemplos europeus, os EUA organizaram as chamadas “exposições universais”, onde os progressos científicos – e suas invenções – impressionavam seus visitantes. Boa parte das patentes tecnológicas registradas desde então são norte-americanas (Hollywood produziu inúmeros filmes que ilustram a mentalidade criativa dos estadunidenses, com suas personagens inventoras).

Assim os EUA tiveram, no século XIX, um grande círculo virtuoso, uma conjuntura favorável ao seu crescimento. E os políticos não ficaram alheios às necessidades e oportunidades abertas nesta era.

Na década de 1820, a política estava permeada pela atmosfera expansionista. Em resposta à criação da Santa Aliança na Europa, e dos decorrentes riscos de recolonização das Américas ibéricas, o presidente James Monroe (1817-25) proclamou a Doutrina Monroe (1823), que tinha como lema “a América para os americanos”. Estava já inserida na esfera do imperialismo, que se concretizara em fins do século, após a consolidação das fronteiras continentais dos EUA.

A cultura norte-americana é permeada pelos princípios expansionistas, pois os estadunidenses se consideram como o “povo eleito” por Deus para civilizar o restante da humanidade. Assim, a concepção do “Destino Manifesto” se materializava na conquista do Oeste, bem como na anexação de grande parte dos territórios mexicanos. Era natural que pensassem em expandir-se além de suas fronteiras. O capitalismo voraz do último quartel do XIX impelira os norte-americanos a buscarem reservas de matérias-primas e mercado consumidor na América Latina, impulsionando os investimentos na região.

As atenções se voltaram para Cuba e Porto Rico, ainda possessões espanholas. Desde fins do XVIII, os políticos consideravam ambas como “apêndices naturais” do território norte-americano, concepção que vigorou por todo o XIX (JUNQUEIRA, 2001, p. 100). Em 1895, a oportunidade de controle sobre tais ilhas caribenhas abriu-se com a luta pela independência levada a cabo pelos patriotas cubanos, que solicitaram apoio dos EUA contra a Espanha. A explosão e naufrágio do Maine, navio da Marinha norte-americana estacionado no porto de Havana, deu o pretexto para o início da guerra (1898), pois os espanhóis foram responsabilizados pelo incidente. Sem dificuldades, a vitória dos EUA na que foi chamada de “explêndida guerrinha” pelo Secretário de Estado, consolidara o status imperial norteamericano, ao manter Cuba como protetorado por 35 anos, e administrar as Filipinas até 1940 (CHASTEEN, 2001, pp. 166-7). Porto Rico e o Hawaí até hoje fazem parte dos EUA, o primeiro como “estado autônomo associado” (um eufemismo para colônia) e o segundo incluído como estado da Federação.

Os interesses norte-americanos, após a concretização do seu poder no Caribe, voltaram-se para a construção de um canal na América Central que servisse de via comercial de ligação entre o Atlântico e o Pacífico. Theodore Roosevelt principal personagem da política do Big Stick (grande porrete), defendia as pressões e intervenções dos EUA onde parecia conveniente. Em 1903, Roosevelt conseguiu adquirir uma base militar no Panamá e depois o direito de construir e controlar o canal desejado. Não sem antes influenciar na separação do Panamá, então pertencente à Colômbia. Era uma amostra do poderio americano que se extendia para toda a América Central, e de forma geral a toda a América Latina.

O presidente também foi o responsável pelo “corolário Roosevelt”, que, em 1904, afirmava:

Na realidade, são idênticos os nossos interesses e os dos nossos vizinhos sulinos. Eles possuem grandes riquezas naturais e a prosperidade certamente chegará a eles, se reinar a lei e a justiça dentro de suas fronteiras. Enquanto obedecerem às leis elementares da sociedade civilizada, podem estar seguros de que serão tratados por nós com ânimo cordial e compreensivo. Interviríamos somente em último caso, somente se se tornasse evidente a sua inabilidade ou má vontade, quanto a fazer justiça interna e, em plano externo, se tivessem violado os direitos dos Estados Unidos; ou ainda, se tivessem favorecido a agressão externa, em detrimento da comunidade das nações americanas. (in: IANNI, 1988, p. 24)

Fica patente o preconceito de Roosevelt para com os latino-americanos, tratados como crianças que precisam ser educadas e civilizadas, sob direção dos EUA.

Esta é uma hipócrita visão quanto ao grau de civilidade latino-americana, tendo em vista a discriminação racial e a exclusão social vislumbradas nos EUA em fins do século XIX. Os negros continuaram segregados e os trabalhadores explorados ao máximo, sendo reprimidos os seus movimentos por direitos trabalhistas. São aspectos da contraditória história norte-americana ainda presentes nos dias de hoje...

“Ao iniciarmos a análise da dimensão histórica da mudança econômica latino-americana, caberia fazer a seguinte pergunta: como explicar que as duas áreas anteriormente coloniais, os Estados Unidos e a América Latina, desenvolveram padrões de crescimento econômico tão marcadamente constrastantes após as respectivas independências? Como pôde a nação norte-americana emergir, por volta de 1870, como segunda potência econômica mundial em termos de produção industrial, ao passo que a América Latina permanecia, fundalmentalmente, desempenhando o mesmo papel de principal fornecedor de matérias-primas e gêneros alimentícios para os países do Atlântico norte? [...]

Nessa tentativa de encontrar uma resposta que sirva de base para estudos comparativos entre as duas áreas em seu desenvolvimento pós-colonial, somos levados (inevitavelmente) aos complexos culturais europeus, berço dos colonizadores ingleses e ibéricos, em cujo seio esses modelos de atividade colonial foram concebidos. Não será suficiente comparar o grau de censura e tolerância, as perspectivas coloniauis em termos de educação, a extensão da liberdade econômica colonial; dever-se-á, forçosamente, encontrar a origem de tais elementos em suas matrizes européias. Em contraste com a Espanha [...], os colonizadores ingleses saíram de uma Inglaterra em processo de modernização, que encarava o conhecimento, a tolerância, os direitos individuais, a liberdade econômica, a poupança e o investimento como elementos inseparáveis do processo de transformação e crescimento. [...]

Além disso, o meio natural (objeto da colonização inglesa) constrastava, em pontos essenciais, com aquele encontrado pelos primeiros colonizadores ibéricos.

Embora as primeirascompanhias comerciais inglesas buscassem decobrir minas de metais preciosos, nenhuma foi encontrada. [...] os europeus ocidentais que vieram para a América do Norte não tiveram que entrar em choque ou incorporar culturas indígenas de vulto: expulsaram os ameríndios nômades que encontraram ao longo de sua penetração, mataram-nos ou isolaram os sobreviventes em tratos de terra improdutiva [...] Os indígenas norte-americanos permaneceram não-incorporados e não-integrados. [...] Em termos mais amplos, a existência de uma terra virgem, de vastas dimensões e subabitada, possuidora de extraordinários recursos, situada em posição favorável face à Europa e desfrutando de condições climáticas comparáveis àquelas encontradas em solos europeus representava, em realidade, condição fortemente potencial para o desenvolvimento, inexistente em qualquer outra parte do Novo Mundo. [...] Há muito confinadas às limitadas possibilidades agrícolas oferecidas pela orla marítima, as colônias inglesas do norte desenvolveram a construção náutica e as atividades mercantis, estas últimas particularmente após 1763, na região do Caribe; por seu turno, as colônias do sul estabeleceram as bases para uma agricultura de exportação utilizadora da mão-de-obra escrava. [...] Nos anos que se seguiram a 1814, a demanda externa do algodão e, ao longo da década de 30, o crescimento e ascensão dos preços de esportação estimularam a concentração das das áreas agrícolas do sul em torno da produção algodoeira voltada para o comércio com a Europa ocidental e a região nordeste dos próprios Estados unidos até a eclosão da Guerra de Secessão.

O norte do país adquirira os contornos bem marcados de um centro financeiro para a atividade agrícola do sul, um entreposto para suas importações de manufaturas e artigos de luxo e um fornecedor de manufaturaas tais como têxteis de algodão e utensílios de ferro.após 1830, a ocupação e colonização do território oeste ampliaram a importância do nordeste como exportador de cereais, alargando, concomitantemente, os mercados consumidores de sua produção industrial. [...] Ao eclodir a Guerra de Secessão, o crescimento econômico dos Estados Unidos havia sido estimulado por fatores externos e pela criação de um mercado nacional, não obstante a presença da escravidão ao sul. E, o que é mais relevante para o estudo comparativo com a América Latina, a Guerra de Secessão abrira o caminho para a industrialização norte-americana.” STEIN, Stanley J. A Herança Colonial da América Latina: ensaios de dependência econômica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, pp. 98-101.

História através de Documentos

“No Congresso, 4 de julho de 1776

Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América

Quando, no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário um povo dissolver laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da Terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do Deus da natureza, o respeito digno às opiniões dos homens exige que se declarem as causas que os levam a essa separação.

Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.

Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade.

Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas, quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos-Guardas para sua futura segurança. Tal tem sido o sofrimento paciente destas colônias e tal agora a necessidade que as força a alterar os sistemas anteriores de governo. A história do atual Rei da Grã-Bretanha compõe-se de repetidos danos e usurpações, tendo todos por objetivo direto o estabelecimento da tirania absoluta sobre estes Estados. Para prová-lo, permitam-nos submeter os fatos a um cândido mundo.

Recusou assentimento a leis das mais salutares e necessárias ao bem público.

Proibiu aos governadores a promulgação de leis de importância imediata e urgente, a menos que a aplicação fosse suspensa até que se obtivesse o seu assentimento, e, uma vez suspensas, deixou inteiramente de dispensar-lhes atenção.

Recusou promulgar outras leis para o bem-estar de grande distritos de povo, a menos que abandonassem o direito à representação no Legislativo, direito inestimável para eles temível apenas para os tiranos, Convocou os corpos legislativos a lugares não usuais, ser conforto e distantes dos locais em que se encontram os arquivos públicos, com o único fito de arrancar-lhes, pela fadiga o assentimento às medidas que lhe conviessem.

Dissolveu Casas de Representantes repetidamente porque: opunham com máscula firmeza às invasões dos direitos do povo.

Recusou por muito tempo, depois de tais dissoluções, fazer com que outros fossem eleitos; em virtude do que os poderes legislativos incapazes de aniquilação voltaram ao povo em geral para que os exercesse; ficando nesse ínterim o Estado exposto a todos os perigos de invasão externa ou convulsão interna.

Procurou impedir o povoamento destes estados, obstruindo para esse fim as leis de naturalização de estrangeiros, recusando promulgar outras que animassem as migrações para cá e complicando as condições para novas apropriações de terras.

Dificultou a administração da justiça pela recusa de assentimento a leis que estabeleciam poderes judiciários.

Tornou os juízes dependentes apenas da vontade dele para gozo do cargo e valor e pagamento dos respectivos salários.

Criou uma multidão de novos cargos e para eles enviou enxames de funcionários para perseguir o povo e devorar-nos a substância.

Manteve entre nós, em tempo de paz, exércitos permanentes sem o consentimento de nossos corpos legislativos.

Tentou tornar o militar independente do poder civil e a ele superior.

Combinou com outros sujeitar-nos a jurisdição estranha à nossa Constituição e não reconhecida por nossas leis, dando assentimento a seus atos de pretensa legislação:

por aquartelar grandes corpos de tropas entre nós;

por protegê-las por meio de julgamentos simulados, de punição por assassinatos

que viessem a cometer contra os habitantes destes estados;

por fazer cessar nosso comércio com todas as partes do mundo;

pelo lançamento de taxas sem nosso consentimento;

por privar-nos, em muitos casos, dos benefícios do julgamento pelo júri;

por transportar-nos para além-mar para julgamento por pretensas ofensas;

por abolir o sistema livre de leis inglesas em província vizinha, aí estabelecendo governo arbitrário e ampliando-lhe os limites, de sorte a torná-lo, de imediato, exemplo e instrumento apropriado para a introdução do mesmo domínio absoluto nestas colônias;

por tirar-nos nossas cartas, abolindo nossas leis mais valiosas e alterando fundamentalmente a forma de nosso governo;

por suspender nossos corpos legislativos, declarando se investido do poder de legislar para nós em todos e quaisquer casos.

Abdicou do governo aqui por declarar-nos fora de sua proteção e movendo guerra contra nós.

Saqueou nossos mares, devastou nossas costas, incendiou nossas cidades e destruiu a vida de nosso povo.

Está, agora mesmo, transportando grandes exércitos de mercenários estrangeiros para completar a obra da morte, desolação e tirania, já iniciada em circunstâncias de crueldade e perfídia raramente igualadas nas idades mais bárbaras e totalmente indignas do chefe de uma nação civilizada.

Obrigou nossos concidadãos aprisionados em alto-mar a tomarem armas contra a própria pátria, para que se tornassem algozes dos amigos e irmãos ou para que caíssem por suas mãos.

Provocou insurreições internas entre nós e procurou trazer contra os habitantes das fronteiras os índios selvagens e impiedosos, cuja regra sabida de guerra é a destruição sem distinção de idade, sexo e condições.

Em cada fase dessas opressões solicitamos reparação nos termos mais humildes; responderam a nossas apenas com repetido agravo. Um príncipe cujo caráter se assinala deste modo por todos os atos capazes de definir tirano não está em condições de governar um povo livre. Tampouco deixamos de chamar a atenção de nossos irmãos britânicos. De tempos em tempos, os advertimos sobre as tentativas do Legislativo deles de estender sobre nós jurisdição insustentável.

Lembramos a eles das circunstâncias de nossa migração e estabelecimento aqui. Apelamos para a justiça natural e para a magnanimidade, e os conjuramos, pelos laços de nosso parentesco comum, a repudiarem essas usurpações que interromperiam, inevitavelmente, nossas ligações e nossa correspondência. Permaneceram também surdos à voz da justiça e da consangüinidade. Temos, portanto, de aquiescer na necessidade de denunciar nossa separação e considerá-los, como consideramos o restante dos homens, inimigos na guerra e amigos na paz.

Nós, por conseguinte, representantes dos Estados Unidos da América, reunidos em Congresso Geral, apelando para o Juiz Supremo do mundo pela retidão de nossas intenções, em nome e por autoridade do bom povo destas colônias, publicamos e declaramos solenemente: que estas colônias unidas são e de direito têm de ser Estados livres e independentes, que estão desoneradas de qualquer vassalagem para com a Coroa Britânica, e que todo vínculo político entre elas e a Grã-Bretanha está e deve ficar totalmente dissolvido; e que, como Estados livres e independentes, têm inteiro poder para declarar guerra, concluir paz, contratar alianças, estabelecer comércio e praticar todos os atos e ações a que têm direito os estados independentes. E em apoio desta declaração, plenos de firme confiança na proteção da Divina Providência, empenhamos mutuamente nossas vidas, nossas fortunas e nossa sagrada honra.

John Hancock

Documento de domínio público. A Declaração foi assinada pelos representantes das Treze Colônias, agora tratadas como Treze Estados.

Fonte: ead.ftc.br

História da América

Quando morreu no ano de 1506, Cristóvão Colombo estava convencido de que, após cruzar o Atlântico, havia alcançado as Índias. No entanto, os cientistas europeus da época já não tinham dúvidas de que o território descoberto constituía um continente desconhecido e extraordinariamente complexo. Coube ao cosmógrafo alemão Martin Waldseemüller batizar as novas terras com o nome de América, em homenagem ao navegador italiano Américo Vespúcio (Amerigo Vespucci), cujos relatos foram os primeiros a afirmar a existência do "Novo Mundo".

História da América
Américo Vespúcio

A América começou a ser povoada, segundo estimativas, entre 20.000 e 35.000 anos atrás (embora alguns pesquisadores proponham cinqüenta mil anos), quando a diminuição do nível dos oceanos - provocada pela última glaciação - possibilitou a comunicação terrestre entre a Ásia e o Novo Mundo através do estreito de Bering. A evolução cultural do homem pré-histórico americano acelerou-se entre 5000 e 4000 a.C., com o início de um processo de revolução neolítica em alguns pontos do México, da América Central e do Peru. Por volta do ano 3000 a.C. já se haviam consolidado as técnicas agrícolas (irrigação, fertilização e cultivos em terraços), enquanto as artes da cerâmica e da confecção de tecidos alcançavam alto grau de perfeição. A crescente complexidade da organização social e econômica propiciou a formação de centros urbanos, dotados de poder político centralizado. Desse modo, entre 1500 e 1200 a.C. começaram a suceder-se várias civilizações no vale do México, na América Central e na cordilheira dos Andes.

No México desenvolveram-se as culturas olmeca (1150-800 a.C.), de Teotihuacan (400 a.C.-650 da era cristã), tolteca (séculos X a XII) e asteca (séculos XIV a XVI). A civilização maia evoluiu a partir de 500 a.C. no sul do México, Yucatán, Guatemala e El Salvador, com distintas etapas culturais, cujo apogeu situou-se entre o século III a.C. e o início do século X da era cristã. Na região andina floresceram as culturas de Chavín e Paracas (1000-200 a.C.), Nazca e Moche (400-200 a.C.), Tiahuanaco e Huari (600-800 da era cristã), Chimú (séculos XIV e XV) e o império inca (séculos XV e XVI).

No resto do continente, os diversos povos ameríndios permaneceram em estágios culturais bastante atrasados. As atividades de caça e coleta subsistiram em muitas regiões até o descobrimento; mas algumas formas incipientes de agricultura já haviam começado a desenvolver-se, especialmente nas zonas próximas às grandes civilizações. As civilizações americanas conheceram o calendário, as formas pictográfica e ideográfica de escrita e atingiram alto nível de perfeição nas artes da arquitetura, da escultura e da cerâmica. Não chegaram, porém a desenvolver a metalurgia do ferro nem alcançaram importantes inventos e técnicas como a roda, a roda de oleiro, o arco e a abóbada (na arquitetura) e o vidro.

A chegada de Cristóvão Colombo representou o descobrimento de um imenso território até então desconhecido para os habitantes do Velho Mundo. Os espanhóis, "proprietários", juntamente com os portugueses, das terras recém-descobertas, empreenderam a conquista das zonas civilizadas do México e do Peru (Hernán Cortés e Francisco Pizarro, respectivamente), e iniciaram a colonização de toda a América Central, das grandes Antilhas, Venezuela, Colômbia, cordilheira dos Andes e rio da Prata.

História da América
Cristovão Colombo

A introdução do cristianismo e da língua castelhana, e a fusão e assimilação das civilizações indígenas com a cultura hispânica foram a contrapartida dos abusos e da exploração a que foram submetidos os índios americanos. Os portugueses, que chegaram ao Novo Mundo em 1500, com a expedição de Pedro Álvares Cabral, estabeleceram seu domínio colonial nas costas do Brasil, território que lhes cabia pelo Tratado de Tordesilhas.

A partir do século XVII, os Países Baixos, a França e a Inglaterra começaram a introduzir-se na América, atacando as frotas espanholas carregadas de prata e fundando colônias nos territórios ocupados por espanhóis e portugueses. Os holandeses contentaram-se com a posse de alguns encraves de grande valor econômico e estratégico na Guiana e nas pequenas Antilhas, enquanto França e Inglaterra iniciavam um período de confrontos para obter o controle dos territórios norte-americanos. Finalmente, a superioridade militar e o maior número de colonos determinaram a hegemonia britânica sobre a América do Norte. A colonização, realizada em sua maior parte por calvinistas e protestantes radicais, caracterizou-se pela violência sistemática contra os índios, que foram expulsos de suas terras e exterminados em amplas áreas, à medida que os colonos avançavam para o oeste.

Os interesses dos habitantes das 13 colônias norte-americanas entraram em conflito aberto com os da metrópole a partir de 1765, quando o governo britânico impôs um pesado imposto sobre documentos jurídicos, periódicos e transações comerciais. Em 1773 o motim do chá, em Boston, significou o início da guerra, formalmente declarada dois anos depois. Em 4 de julho de 1776 o Congresso de Filadélfia proclamou a Declaração de Independência dos Estados Unidos, inspirada nas idéias liberais de John Locke e Montesquieu; nela se formulavam pela primeira vez os direitos do homem. A guerra terminou em 1783 com o reconhecimento, pelo governo britânico, da independência do novo país; quatro anos depois foi promulgada a constituição americana, que estabelecia a divisão de poderes e assegurava o funcionamento de um sistema político baseado na participação dos cidadãos.

Nos vice-reinos espanhóis, a elite dirigente era constituída por peninsulares, isto é, pessoas nascidas na Espanha. Os crioulos (descendentes dos conquistadores e dos primeiros colonizadores), imbuídos de idéias liberais, sentiram-se insatisfeitos com o caráter limitado das reformas levadas a efeito por Carlos III nas colônias espanholas e vislumbraram na independência americana e, pouco depois, na revolução francesa, um exemplo a ser imitado nos vice-reinos. A invasão francesa da península ibérica precipitou os acontecimentos. As juntas dos vice-reinos, criadas para administrar o território americano até a restauração da coroa espanhola, converteram-se em focos revolucionários e independentistas. A guerra civil entre "patriotas" (independentistas) e "legalistas" (partidários da unidade com a Espanha) recrudesceu após a volta de Fernando VII ao trono, mas finalmente os patriotas, comandados por generais como Simón Bolívar e José de San Martín, conseguiram alcançar o objetivo de separar-se da Espanha, embora não o de manter a unidade da América hispânica.

História da América
Simón Bolívar

O Brasil também obteve a independência em 1822, mas, ao contrário dos demais países americanos, a forma de governo adotada foi a monarquia, que se manteve até 1889.

Ao longo do século XIX os Estados Unidos lançaram-se à conquista do oeste, incorporando novos estados, tanto pela compra ou cessão (territórios franceses e espanhóis do centro e do sudeste da América do Norte), quanto pela conquista (Texas, Novo México e Califórnia), ou pela ocupação efetiva (o far west, ou oeste distante). O regime político americano, resultado da contemporização entre os grandes comerciantes protecionistas do norte e os latifundiários livre-cambistas do sul, passou por um período de crise entre 1861 e 1865, quando os estados do sul, descontentes com a política antiescravista do presidente Abraham Lincoln, tentaram separar-se da união. Após a derrota dos sulistas, os Estados Unidos experimentaram intenso desenvolvimento industrial.

Depois da primeira guerra mundial, em que a intervenção americana teve papel decisivo, os Estados Unidos converteram-se na maior potência econômica do mundo. O fim da segunda guerra mundial marcou o início de um novo período nas relações internacionais, o da chamada "guerra fria". Marcado pela rivalidade com o bloco socialista e pela influência política e econômica dos Estados Unidos na maior parte do mundo ocidental e dos países em desenvolvimento, essa situação perdurou até a desintegração do bloco socialista e o fim da União Soviética, no início da década de 1990.

Ao contrário do que sucedeu nos Estados Unidos, a evolução histórica da América Latina durante os séculos XIX e XX caracterizou-se pela fragmentação e rivalidade entre os diversos países, por uma escassa evolução e pela instabilidade política, consubstanciada numa sucessão de golpes de estado, ditaduras e revoluções.

Após uma primeira fase de domínio comercial e financeiro, os Estados Unidos procuraram impor maior presença da região (a política do big stick, entre 1895 e 1918), que posteriormente se ampliaria com o controle dos organismos de cooperação pan-americana (Organização dos Estados Americanos, Organização dos Estados Centro-Americanos, Aliança para o Progresso etc.). Na segunda metade do século XX, entretanto, registrou-se um crescente esforço das nações latino-americanas para assumir atitudes de independência ante os Estados Unidos.

Fonte: www.sogeografia.com.br

História da América

Pré-história da América

Povoamento do continente e primeiras civilizações

O caçador se abaixou e aproximou suas narinas do solo. Queria descobrir ali o que há dias não encontrava no ar. O cheiro forte da manada de bisontes, que se acostumara a rastrear com facilidade, tinha desaparecido. Isso o preocupava. Não só pela fome que já o atormentava, mas por que sabia da importância da carne para a sobrevivência de seu grupo. Sem a caça, a tribo que liderava estaria condenada à extinção. Ele estava acostumado a vaguear por extensos territórios em busca de alimentação. Porém, nunca tinha ido tão longe. A paisagem que o cercava era inteiramente nova.

Um relato fictício como esse serve para ilustrar o que deve ter ocorrido na última Era Glacial (entre 70 mil e 12 mil anos atrás), numa época em que, devido ao congelamento, o nível do mar teria baixado em torno de cem metros. Com isso, criou-se uma imensa faixa de terra unindo o que são hoje os territórios da Ásia e do Alasca, na América do Norte. Esse território, chamado de Beríngia, localiza-se onde hoje se situa o estreito de Bering e teria se tornado uma verdadeira ponte pela qual grupos de caçadores asiáticos teriam chegado ao continente americano no rastro dos animais que se deslocavam pelo mesmo caminho.

Entretanto, essa não é a única teoria levantada para explicar o aparecimento do homem na América. Outra linha da pesquisa científica defende que povos da Malásia ou da Polinésia teriam se deslocado pelo oceano Pacífico e chegado à América em torno de 14 mil anos atrás. A questão mais debatida é quais teriam sido as datas de tais migrações? Muitos defendem que teriam ocorrido a partir de 12 mil anos atrás, outros falam em torno de 40 mil anos. De qualquer forma, essas duas teorias, em conjunto, contribuem para o estudo da origem do homem americano, auxiliando na compreensão das diferenças físicas e culturais dos primeiros habitantes do continente.

A cada nova pesquisa, a cada novo sítio arqueológico encontrado, mais dúvidas e discussões emergem. Na década de 70 do século passado, por exemplo, descobriu-se o sítio arqueológico da Serra da Capivara no estado brasileiro do Piauí. Os vestígios humanos pré-históricos datam ali de 50 mil anos, mais antigos, portanto, que os sítios arqueológicos europeus com seus meros17 mil anos.

Agricultura: uma revolução

Desde que chegou as Américas, o homem se espalhou muito lentamente por todo o território continental, ocupando-o por completo. Por muitos milhares de anos os grupos humanos eram nômades e viviam exclusivamente da caça e da coleta de frutas, raízes e sementes. Somente após o derretimento das geleiras (fim da Era Glacial) e a extinção dos grandes mamíferos (mamutes, bisões, mastodontes, etc.), os grupos humanos passaram a buscar na vegetação sua principal fonte de alimento.

A agricultura começou a ser praticada nas Américas entre 7 mil e 5 mil anos atrás, o que garantiu para os povos da época maior quantidade de alimento, maior expectativa de vida, aumento populacional, sedentarização e maior disponibilidade de tempo. Provavelmente, isso levou a uma observação mais cuidadosa da natureza, possibilitando uma melhor compreensão do meio ambiente, o que foi essencial para o desenvolvimento da pecuária, da cerâmica, da tecelagem, da sistematização de uma religiosidade.

Por volta do terceiro milênio antes de Cristo surgiram as primeiras aldeias agrícolas da América. Os principais vegetais cultivados eram o milho, a batata, o feijão e a abóbora. Em pouco mais de mil anos a técnica agrícola se expandiu por várias regiões do continente, embora não se saiba ainda como isso ocorreu. De qualquer forma, a partir daí teriam se originado os centros cerimoniais, que os arqueólogos consideram o inicio das civilizações americanas.

Religião, comércio e administração

Várias aldeias agrícolas passaram a se reunir em torno de centros religiosos, comerciais e administrativos, chamados de centros cerimoniais. Cada um deles contava com uma elite de sacerdotes que o administrava e necessitava do trabalho de milhares de homens para produzir alimento, defender e trabalhar nas construções monumentais. Apesar de as aldeias manterem sua autonomia, os centros cerimoniais eram lugares que reuniam os povos de diversas regiões, para ali tratarem de assuntos comuns.

Por isso, fala-se da formação de uma cultura mais ampla a partir desses centros, dos quais os mais famosos foram:

Centro Cerimonial Povo Período Região
San Lorenzo, La Venta, Tres Zapotes Olmecas 1500 a.C. - 100 a. C. Golfo do Maranhâo
Caral povos andinos, não se sabe exatamente quais 2600 a. C. - 1800 a. C. Norte de Lima (Peru)
Chavin de Huantar povos andinos, não se sabem exatamente quais 900 a.C. - 200 a.C. Margens do rio Maranhâo (Peru)

Apesar de se localizarem em regiões muito distantes, tais centros tinham características comuns como a existência de uma elite de sacerdotes que controlava a administração; uma religião ligada à natureza, na qual o sacerdote (xamã) era associado ao jaguar (ou onça pintada - cultuada em toda a América); um planejamento arquitetônico impressionante, que contava com amplas avenidas e praças públicas organizadas a partir dos pontos cardeais; construção de obras monumentais como pirâmides (a pirâmide de Caral, no Peru, é uma das maiores do mundo), templos, estelas, esculturas com mais de dois metros de altura.

Todas essas características apontam para existência de uma sociedade rigidamente organizada, que podia dispor de mão-de-obra para o funcionamento desses centros cerimoniais: agricultores, ceramistas, tecelões, escultores, militares e os "cientistas" da época, por que não seria possível construir cidades tão complexas sem conhecimento matemático, geográfico, geológico, arquitetônico.

Com o passar do tempo, esses centros cerimoniais se tornaram cidades que, devido a uma grande importância, mesmo depois de sua decadência, continuaram a influenciar os povos da Mesoamérica e dos Andes. Muitas das características dessas cidades foram encontradas em centros urbanos posteriores: Teotihuacan (México), cidades Zapotecas (México), Chan-Chan (Peru), Tiwanaco (Bolívia), e também nas grandes civilizações da América: os Maias (Mesoamérica), os Astecas (Mesoamérica) e os Incas (Peru).

Érica Turci

Bibliografia

AGUIRRE, Isabel Margarita [dirección general]. Los primeros americanos y sus descendientes. Chile: Museo Chileno de Arte Pré-colombiano. Editora Antártica, 1988.
NEVES, Walter. A. Pioneiros da América, in Revista Historia Viva. nº 62. São Paulo: Editora Duetto, s.d..
SANTOS, Eduardo Natalino. Cidades Pré-hispânicas: do México e da América Central. São Paulo: Editora Saraiva, 2004.

Fonte: educacao.uol.com.br

História da América

Cristóvão Colombo e o Descobrimento da América

Navegador italiano (1451-21/5/1506). Nasce em Gênova e, desde cedo, decide dedicar-se à navegação.

Em 1476, seu navio naufraga na costa portuguesa e ele se salva a nado, estabelecendo-se em Lisboa, onde se casa com a filha de um navegador. Na biblioteca do sogro, estuda rotas marítimas. Convencido da esfericidade da Terra, propõe à Coroa portuguesa chegar às Índias viajando rumo ao Ocidente.

Como a proposta é recusada, em 1485 dirige-se à Espanha e oferece seu projeto aos reis Fernando e Isabel, que aceitam patrocinar a viagem.

Parte em 3 de agosto de 1492 com as caravelas Santa Maria, Pinta e Niña e em 12 de outubro chega ao arquipélago das Bahamas. Sem se dar conta de haver aportado em um novo continente, depois chamado de América, acredita ter alcançado as Índias.

Atinge, a seguir, as ilhas de Cuba e de Hispaniola (local em que ficam atualmente o Haiti e a República Dominicana). Um ano depois retorna à Espanha, onde é acolhido triunfalmente e nomeado vice-rei da nova colônia. Faz mais três viagens à América, em 1493, 1496 e 1498, nas quais descobre outras ilhas do mar do Caribe.

Não mostra talento como administrador. Impõe às populações indígenas taxas pesadas e enfrenta inúmeras rebeliões, que reprime com enforcamentos. Destituído do cargo em 1497, resiste às ordens reais e é mandado de volta à Espanha sob ferros.

Morre pobre, lutando para reaver o antigo posto.

Em 1542, seu corpo é exumado e levado para Hispaniola. Em 1899, seus restos voltam para a Espanha e são depositados na Catedral de Sevillha.

Fonte: paginas.terra.com.br

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