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Entomologia Forense

APLICAÇÕES DAS TÉCNICAS DE BIOLOGIA MOLECULAR NA ENTOMOLOGIA FORENSE


1. Introdução

Os insetos necrófagos são aqueles que utilizam a matéria orgânica em decomposição como fonte de alimento. A sua atividade acelera o fenômeno de putrefação do corpo. A Entomologia Forense consiste na aplicação do estudo destes insetos na elucidação de questõesjudiciais, como morte violenta, tráfico de entorpecentes, maus tratos em idosos, crianças ou incapacitados, danos em bens móveis, dentre outros. (Thyssen, 2005; Amendt et al, 2007)

No tocante à morte violenta, a análise dos insetos encontrados nos cadáveres tem sido de grande importância por fornecer informações sobre a identidade do morto, a causa ou modo da morte, o local onde ela ocorreu, quando ela ocorreu, se houve movimentação do cadáver, e permite ainda a associação de suspeitos com a cena do crime. (Thyssen, 2005; Amendt et al, 2007)

Para poder extrair qualquer uma dessas evidências a partir dos achados entomológicos é necessário uma perfeita identificação da espécie do inseto encontrado. Essa identificação geralmente é feita a partir das características morfológicas do espécime coletado. Porém em muitos casos essa diferenciação torna-se difícil, pois há muita semelhança entre certas espécies, principalmente nos estágios iniciais de desenvolvimento. (Thyssen, 2005; Amendt et al, 2007)

Para uma identificação adequada do inseto encontrado, o entomologista forense precisa possuir um bom conhecimento de taxonomia, biologia e ecologia de insetos necrófagos. Porém estudos nessa área são ainda incipientes no Brasil, devido à complexidade, alto custo e demora na obtenção de resultados. E muitos estudos realizados no exterior não podem ser aplicados no país devido às peculiaridades climáticas existentes, que alteram o ciclo de vida e a sazonalidade dos insetos. (Pujol-Luz, et al, 2008)

Desta maneira, a identificação das espécies através de técnicas de biologia molecular torna-se uma opção factível e mais adequada, possuindo muitas vantagens, como permitir a identificação precisa da espécie, mesmo a partir de mínimas quantidades de material. Também é útil para identificar espécimes incompletos, seus fragmentos, pupários vazios e amostras inadequadamente preservadas, situações em que a identificação por meio de caracteres morfológicos seria muito difícil. Outra vantagem destas técnicas é que a molécula de DNA possui uma alta estabilidade química, mesmo após longo período de tempo, além de ser resistente a muitas condições que destroem a maioria dos outros compostos biológicos, como as proteínas. (Koch e Andrade, 2008; Mazzanti et al, 2010)

O presente trabalho tem por objetivo apresentar , por meio de revisão de literatura, as principais técnicas de biologia molecular hoje utilizadas, sua importância e aplicações na entomologia forense.

2. Metodologia

Para elaboração deste trabalho de revisão, foram utilizados artigos publicados nos últimos 10 anos, pesquisados na base de dados MedLine. As publicações foram selecionadas mediante busca com os seguintes descritores: DNA, biologia molecular, entomologia forense, PCR, RFLP, RAPD, seqüenciamento, identificação, conteúdo intestinal, desenvolvimento, molecular biology, forensic entomology, insect identification, gut contents e development. Foram selecionados 21 artigos na língua portuguesa e inglesa. Além disso foram utilizados como fonte quatro livros. Os critérios para escolha dos artigos e livros envolveram todo tipo de estudo que tivessem como base o tema escolhido, não havendo critérios de exclusão.

3. Discussão

3.1 Técnicas de biologia molecular mais utilizadas

3.1.1 Sequenciamento de DNA

O sequenciamento de DNA é um processo que determina a disposição dos nucleotídeos ao longo de um dado fragmento de DNA. Isto é feito através de técnicas manuais ou automatizadas, baseadas na identificação do último nucleotídeo incorporado na extremidade de alongamento de uma molécula de DNA marcada, complementar à fita simples da qual se deseja determinar a sequência. (Koch e Andrade, 2008)

A técnica consiste na utilização da DNA polimerase para copiar uma determinada molécula de DNA na presença dos 4 dNTPs (3’-desoxinucleotídeo trifosfatos: dATP, dCTP, dGTP e dTTP). Adiciona-se, então, um análogo de um dos desses 4 dNTPs, na forma de ddNTPs (2’, 3’-didesoxinucleotídeo trifosfatos), marcado radioativamente para permitir a visualização do resultado.

Esses análogos são conhecidos como “terminadores”, pois quando incorporados pela DNA polimerase à cadeia nascente, por não apresentarem 3’OH que permita formar ligação com o próximo dNTP a ser adicionado, paralisarão a síntese da nova cadeia de DNA. Assim, são produzidos fragmentos de DNA de vários comprimentos. Devem ser feitas 4 reações separadas, cada uma contendo um dos análogos dos dNTPs, além dos outros 3 dNTPs normais, da enzima DNA polimerase e de um primer para servir de base para a DNA polimerase iniciar a síntese da cadeia. (Koch e Andrade, 2008)

Os fragmentos obtidos, cada qual contendo um resíduo final conhecido e marcado são, então, separados por tamanho em gel de poliacrilamida, seguida da transferência para um suporte de nitrocelulose, que permitirá a visualização da sequência dos nucleotídeos após a auto-radiografia. Desta maneira é possível conhecer a sequência de nucleotídeos do DNA sequenciado. (Koch e Andrade, 2008)

A técnica de sequenciamento de DNA pode ser automatizada por meio da utilização de seqüenciadores, que analisam os produtos da DNA polimerase. Neste caso utiliza-se simultaneamente os 4 ddNTPs, cada um marcado com um fluorocromo diferente, que será detectado e diferenciado pelo aparelho, baseado nos diferentes comprimentos de onda, e programas específicos permitem gerar as sequências de DNA. (Koch e Andrade, 2008)

3.1.2 PCR

Desenvolvida por Kary Banks Mullis em 1983, a Reação em Cadeia da Polimerase (Polymerase Chain Reaction) se baseia na síntese enzimática in vitro de milhões de cópias de um segmento específico de DNA, a partir de uma molécula de DNA molde, por meio da ação da enzima DNA polimerase. São necessários um tampão salino, onde estarão presentes a DNA polimerase, oligonucleotídeos iniciadores, denominados primers, de cadeia simples e geralmente constituídos por 15 a 30 nucleotídios, obtidos por síntese química, os quatro desoxinucleotídeos constituintes do DNA e o cofactor enzimático Mg 2+ (Alberts et al, 2009)

O princípio da reação envolve três etapas básicas, cíclicas, que devem ser repetidas várias vezes, consistindo de: desnaturação do DNA alvo pelo calor , aquecendo a mistura a 94-96ºC por cerca de 1 minuto, a fim de separar as duas cadeias; arrefecimento da mistura a 50-65 ºC por 1 minuto, para permitir a associação dos primers à molécula de DNA alvo; e aquecimento da mistura a 72 ºC por 1 minuto para que ocorra extensão dos iniciadores por meio da síntese da cadeia complementar de cada cadeia molde, catalisada pela DNA polimerase. (Alberts et al, 2009)

Como na técnica de PCR se encontram envolvidos vários ciclos de amplificação, foi desenvolvido equipamento que permite programar, de forma contínua e automatizada, os vários ciclos de aquecimento e arrefecimento. Para tal ser concretizável, as DNA polimerases utilizadas deverão ser termoestáveis, tendo isso sido conseguido com o isolamento da DNA polimerase da bactéria termofílica Thermus aquaticus (a denominada Taq DNA polimerase) que suporta temperaturas elevadas sem perder sua atividade. (Alberts et al, 2009)

Os produtos podem ser observados pela técnica de eletroforese em gel de agarose ou poliacrilamida, que separa os fragmentos de DNA pela velocidade de migração por meio de uma corrente elétrica, formando-se, assim, as bandas de DNA. Essas bandas podem também ser eluídas do gel e recuperadas para realização de outras técnicas, como o sequenciamento do DNA e a técnica de RFLP. (Duarte et al, 2001; Koch e Andrade, 2008)

A PCR é uma técnica muito sensível, permitindo a amplificação de material de interesse a partir de quantidades diminutas da amostra. É muito útil também por permitir a amplificação de sequências específicas a partir de material degradado ou mal conservado. (Alberts et al, 2009)

3.1.3 RAPD

Para a realização da técnica de PCR há a necessidade de conhecimento prévio da sequência de DNA a ser estudada, para que possa ser sintetizado um primer específico que ira se anelar e permitir a amplificação do material genético. Uma vez que existem muitas espécies diferentes de insetos, ficava muito difícil encontrar primers para todos eles e realizar a reação de PCR comum. Surge, então, a técnica de RAPD (random amplified polymorphic DNA), que é uma variação da técnica de PCR utilizando primers curtos (de ate 10 pares de base) com sequência arbitrária, eliminando, assim, a necessidade do conhecimento prévio de sequência. Esta técnica foi inicialmente desenvolvida nos Estados Unidos por Williams no ano de 1990, e tem sido largamente utilizada por muitos pesquisadores até os dias de hoje. (Jain et al, 2010)

O RAPD abriu uma perspectiva inteiramente nova para a análise genômica de indivíduos e populações. Além de facilitar e acelerar os estudos que já ocorriam com as espécies tradicionais, a tecnologia RAPD permitiu a realização de estudos de análise genética em espécies anteriormente não contempladas. (Jain et al, 2010)

Essa técnica consiste na amplificação de DNA genômico por uma reação de PCR, mas utilizando os primers de sequência arbitrária. Geralmente utiliza-se apenas um tipo de primer em cada reação. Esse primer se liga às sequências complementares em fitas opostas de DNA alvo e ocorre a amplificação do DNA pela Taq polimerase. Por serem pequenos, é grande a possibilidade de que os primers encontrem diversas regiões do genoma para se ligarem, fazendo com que diversos fragmentos de tamanhos diferentes resultem de uma reação. Os produtos são então separados por uma reação de eletroforese em gel de policacrilamida ouagarose, formando um padrão diferente para cada indivíduo, que pode também ser usado para diferenciar espécies de insetos. (Jain et al, 2010)

3.1.4 RFLP

A técnica de RFLP (Restricition Fragment Lenght Polymorphisms) detecta diferenças entre moléculas de DNA por meio da presença de diferentes sítios de restrição (sequencias nucleotídicas específicas ao longo da fita), pois é baseada na clivagem da dupla fita de DNA por enzimas de restrição, gerando fragmentos de DNA de número e tamanhos diferentes. As enzimas de restrição reconhecem sequências específicas no DNA e catalisam clivagens endonucleotídicas dessa molécula, originando os fragmentos de tamanhos diferentes. Os fragmentos gerados são então separados por eletroforese em gel de poliacrilamida ou agarose, para formar um padrão. Esses fragmentos podem também ser identificados por hibridização com sequencias homólogas de DNA marcadas com compostos radioativos ou quimioluminescentes. (Alberts et al, 2009)

3.2 Aplicações das técnicas na entomologia forense

3.2.1 Identificação da espécie do inseto de importância forense

A Entomologia Forense pode ser usada para responder a vários quesitos referentes a uma morte violenta, como local, maneira e algumas vezes até autoria do crime. A aplicação mais importante da Entomologia Forense é na determinação do intervalo pós-morte (IPM), que é o intervalo de tempo entre a data da morte e a data em que o cadáver foi encontrado e ser feita de duas maneiras: por meio da sucessão entomológica ou pelo tempo de desenvolvimento do inseto. Para ambos os métodos é necessário identificar a espécie do inseto envolvido. (Costa, 2008)

Os métodos tradicionais para determinação do IPM baseiam-se na análise dos fenômenos cadavéricos, como o resfriamento do corpo, evaporação tegumentar, rigidez cadavérica, livores e hipóstases, mancha verde abdominal, estágios de putrefação, gases de putrefação, cristais no sangue putrefeito e crescimento de pêlos da barba. Porém esses métodos são indicados para morte recente, de até três dias. Passado este período esses sinais começam a desaparecer. A partir deste momento a entomologia forense passa a ser uma ferramenta útil para a determinação do IPM, principalmente para IPM longos. Para osmétodos tradicionais, quanto maior for o IPM, menor a sua acurada determinação. Porém, com o auxílio da entomologia forense, quanto maior for esse intervalo, mais segura é a estimativa. (Costa, 2008; Gomes, 2010)

Para a determinação do IPM por meio da entomologia forense dois métodos podem ser usados: a sucessão entomológica e a idade de desenvolvimento do inseto (Costa, 2008).

A composição da comunidade de artrópodes associada aos corpos modifica-se conforme progride o processo de decomposição. Cada estágio de putrefação cadavérica oferece condições e características que atraem um determinado grupo de insetos, para se alimentar ou depositar seus ovos. Na sucessão entomológica um padrão esperado e conhecido de sucessão de insetos em um corpo é comparado a uma lista de insetos encontrados em um cadáver de IPM desconhecido visando estimá-lo. Os representantes da ordem Diptera são geralmente os primeiros a se apresentar, sendo também os mais abundantes. O tempo de desenvolvimento da larva mais antiga, associado ao ciclo de vida e às características biológicas e ecológicas das diferentes espécies encontradas em um cadáver pode também ser usada na determinação do IPM. (Croce e Croce Júnior, 2010).

Para ambos os métodos utilizados é necessária uma perfeita identificação da espécie dos insetos associados aos corpos em decomposição, uma vez que cada espécie possui tempos de desenvolvimento diferentes em seu ciclo de vida. O método de identificação do inseto baseado na morfologia é mais indicado e mais utilizado atualmente para insetos adultos, porém esse método não pode ser aplicado em todos os casos, devido às variações intraespecíficas existentes e das discretas diferenças morfológicas entre muitas espécies, principalmente para identificação de espécimes em seus estágios iniciais de desenvolvimento. (Gomes, 2010; Croce e Croce Júnior, 2010)

Muitos pesquisadores preferem recolher os espécimes imaturos e levá-los ao laboratório para mantê-los até que eclodam, originando adultos, para só então identificar a espécie por meio das características morfológicas deste adulto. Porém esse método leva tempo, que pode ser crucial em uma investigação criminal, além de poder ocorrer a morte dos espécimes antes do completo desenvolvimento, acarretando a perda de evidências criminais importantes. (Gomes, 2010; Croce e Croce Júnior, 2010)

Para qualquer uma das aplicações da entomologia forense é crucial a determinação da espécie do inseto encontrado. A utilização das técnicas de biologia molecular neste sentido tem fornecido grandes vantagens aos entomologistas por permitir uma rápida e acurada diferenciação e identificação, mesmo de espécies muito similares morfologicamente, nos estágios iniciais de desenvolvimento, pupários vazios ou apenas fragmentos (Costa, 2008).

A técnica de biologia molecular mais utilizada pelos entomologistas hoje é a técnica de PCR, que tem se mostrado muito sensível, permitindo a amplificação de material de interesse a partir de quantidades diminutas da amostra. É muito útil também por permitir a amplificação de sequências específicas a partir de material degradado ou mal conservado. (Desmyter & Gosselin, 2009; Sairusa et al, 2009)

O sequenciamento também tem sido muito utilizado pelos entomologistas na determinação do material genético característico da espécie. E se a quantidade da amostra é muito pequena, pode-se realizar uma PCR antes, para aumentar o número de fragmentos de DNA, e em seguida seqenciar os fragmentos amplificados, como feito por Stevens & Wall (2001) na análise filogenética das subfamílias de califorídios de importância forense, Calliphorinae, Luciliinae e Chrysomyinae; por Pai et al (2007) para identificar uma espécie de Califorídeo (Chrysomya megacephala) utilizada na estimativa do IPM em um caso em Taiwan; e por Cainé et al (2009) para identificar espécies de dípteros de importância forense coletados de corpos durante a autópsia em Portugal.

A combinação dessas duas técnicas também foi suficiente para diferenciar oito espécies de dípteros através da análise do DNA mitocondrial de pupários vazios, que são muito similares externamente, dificultado a diferenciação morfológica da espécie que eclodiu dele. É possível realizar a técnica de biologia molecular com sucesso em pupários com mais de vinte anos de idade, uma vantagem para casos de IPM longos. (Mazzanti et al, 2010)

A técnica de RFLP também tem sido utilizada para diferenciar espécies de insetos por meio dos padrões de polimorfismos baseado na diferença dos tamanhos dos fragmentos de restrição. Geralmente essa técnica é combinada com uma reação de PCR para amplificar o material genético, seguida da RFLP, como feito por Schroeder et al (2003), que demonstrou que analises por PCR-RFLP podem ser úteis para diferenciar adequadamente larvas de Luicilia sericata e Calliphora vicina na Alemanha. Da mesma forma Thyssen et al (2005) foi capaz de identificar, através da técnica de PCR-RFLP, espécies adultas de duas moscas varejeiras de importância forense, Hemilucilia segmentaria e Hemilucilia semidiaphana, que são morfologicamente parecidas, e ocorrem na mesma região.

Apesar de também poder usar DNA nuclear, o genoma mitocondrial tem se mostrado um excelente marcador molecular para estudos evolutivos, sendo várias as características que o tornam uma fonte abundante de caracteres genotípicos, tais como: possuir uma estrutura genética simples, haplóide, geralmente não apresentando íntrons, estar presente em um grande número de cópias, o que facilita a amplificação e o acesso a informação genética de amostras mal preservadas; possuir um alto raio de substituição nucleotídica, o que leva a uma rápidageração de sequências diferentes entre as sub-espécies. (Junqueira et al, 2002; Otranto, D. & Stevens, 2002)

Wells e Sperling (2001) demonstraram que a sequência do DNAmt pode ser usada para identificar todas as espécies de moscas de importância forense de um grupo taxonômico particular, os califorídios, no Canadá e Estados Unidos da América.

A caracterização da subunidade I do gene mitocondrial da Citocromo Oxidase (COI) tem sido amplamente utilizada para obter dados de identificação espécie-específicos baseados em técnicas de DNA. Vários segmentos dessa região têm sido sequenciados em diferentes estudos, variando desde 278 pares de bases até o gene COI inteiro. (Harvey et al., 2003; Pai et al, 2007; Cainé et al, 2009).

Thyssen (2005) conseguiu identificar e diferenciar com sucesso duas espécies de califorídios intimamente relacionadas, de importância forense no Brasil, utilizando o padrão de fragmentos de restrição dos genes da subunidade I da citocromo oxidase, por meio da técnica de PCR, seguida de sequenciamento e digestão por enzimas de restrição. Essas espécies de califorídios ocorrem na mesma área geográfica, e não são facilmente distinguidas por critérios morfológicos nos seus estágios imaturos, sendo a técnica de biologia molecular a alternativa mais segura para a identificação.

Ames et al (2006) foi capaz de diferenciar Calliphora vicina de Calliphora vomitória utilizando o gene COI, inclusive utilizando material genético de larvas parcialmente queimadas, em decomposição ou imergidas em água, para mimetizar casos de corpos queimados após a morte, amostras mal preservadas e afogamento.

3.2.2 Análise do conteúdo intestinal do inseto

Os insetos necrófagos alimentam-se dos tecidos em decomposição. Para a determinação do IPM assume-se que todo o período de desenvolvimento do inseto, bem como toda a sua alimentação tenha ocorrido no corpo em análise, desde que as larvas ou pupas tenham sido colhidas diretamente do corpo ou próximo a ele.

A análise do conteúdo intestinal dos insetos pode ser uma evidência crucial quando não está claro se todos os insetos utilizados na análise entomológica realmente se desenvolveram e se alimentaram do corpo em questão. Uma associação precisa do inseto encontrado com o corpo é importante em casos onde o corpo tenha sido removido do local posteriormente à sua morte e são encontradas somente as larvas vivas; quando há uma fonte alternativa de alimento próxima ao cadáver e não fica claro de onde a larva procede; quandohá muitas evidências no local; ou ainda quando os insetos de uma cena de crime são divididos e enviados para diferentes investigadores que chegam a conclusões divergentes. (Linville et al, 2004; Campobasso et al , 2005)

A utilização de técnicas de biologia molecular tem se mostrado eficaz para identificar DNA humano presente no intestino de insetos, fornecendo um perfil genético que pode ser comparado ao do corpo em questão, como observado no experimento de Wells et al (2001), que foi capaz de sequenciar e identificar DNA humano após uma reação de PCR de material do intestino de insetos alimentados com um fígado humano removido de um transplante; e por Zehner et al (2004) que mostraram que a análise de regiões polimórficas (STR) do DNA humano recolhido do intestino de larvas, após realização de PCR e sequenciamento, poderia ser usada para associar esses insetos a um determinado corpo.

No entanto é necessário preservar as larvas imediatamente após a coleta no local do crime, uma vez que o tamanho da amostra é um fator que afeta a habilidade de analisar o DNA do hospedeiro nas larvas. O sucesso da análise molecular pode ser mais alto em larvas que estão se alimentando ativamente no corpo do que os espécimes mais velhos que já pararam de se alimentar. Ainda são necessários mais estudos referentes a esse tema para determinar a metodologia mais adequada para coleta e armazenamento dos espécimes para permitir uma recuperação mais eficaz do material intestinal do inseto. (Wells et al, 2001)

3.2.3 Diferenciação do estágio de desenvolvimento

Logo após a morte, se não houver nenhum impedimento físico ou químico, vários insetos serão atraídos pelo corpo em decomposição, onde utilizarão a carcaça como alimento ou para ovoposição. Baseado nisso, pode-se avaliar o IPM por meio da determinação da idade do inseto encontrado no corpo, comparando esses dados com informações sobre a biologia, o ciclo de vida e a ecologia do inseto. Geralmente essa determinação da idade é feita por meio da análise da morfologia e biometria das larvas, uma vez que cada espécie possui um padrão de crescimento específico a uma certa temperatura. Deve ser utilizado o mais velho estágio larvar encontrado, pois este corresponderá às primeiras posturas e indicará o tempo mínimo de desenvolvimento do inseto. (Tarone et al, 2007; Zehner et al, 2009)

No entanto, o tempo de desenvolvimento, bem como as características ecológicas entre as espécies necrófagas pode diferir, ainda que façam parte de um mesmo gênero. Assim, um mesmo estágio de desenvolvimento das larvas encontradas no corpo não necessariamente indica a mesma idade ou mesmo tempo de colonização. (Amendt et al, 2004)

Após o término da alimentação as larvas deixam o corpo para iniciar o estágio de pupa, e o estágio de crescimento chega ao fim. O desenvolvimento do inseto ocorre agora dentro da pupa. Muitas espécies de insetos de importância forense permanecem mais de 50% de seu estágio de vida imaturo na forma de pupa, desta forma a determinação da idade do inseto neste período é de grande valia na estimativa do IPM. A morfologia externa da pupa não apresenta muitas variações no decorrer do desenvolvimento do inseto, dificultando a determinação da idade desta baseada somente me características morfológicas. (Tarone et al, 2007; Zehner et al, 2009)

A metamorfose é caracterizada por processos de desenvolvimento como proliferação celular, remodelamento de tecido, migração celular e morte celular programada. Muitos genes são envolvidos nessas ações e mudanças na expressão desses genes podem funcionar como uma moderna ferramenta para determinar a idade da pupa. (Costa, 2008)

A utilização de técnicas de biologia molecular na análise das diferenças na expressão gênica pode fornecer importantes dados para permitir a determinação da idade da larva e da pupa. Para tanto utiliza-se uma transcriptase reversa para produzir um cDNA a partir do RNA expresso pelo inseto. Esse cDNA é amplificado através de uma reação de PCR.

Os produtos dessa reação são separados em um gel de agarose. Os diferentes transcritos são, então, separados e sequenciados por meio de um sequenciador automatizado. Há genes que aumentam sua expressão durante a metamorfose, que a diminuem, ou há ainda aqueles que apresentam uma reversão em sua expressão durante o desenvolvimento do inseto, indicando a existência de um perfil de expressão gênica típico para cada fase do desenvolvimento. Desta forma é possível diferenciar o início e o final da metamorfose da pupa, com uma idade de até 120 dias. (Tarone et al, 2007; Zehner et al, 2009)

4. Considerações Finais

A Entomologia Forense tem sido de grande valia na elucidação de casos, auxiliando os peritos na evidenciação de circunstâncias pertinentes à morte suspeita, como a identidade do morto, a maneira como a morte ocorreu, o local onde a morte ocorreu e quando a morte se deu.

A principal utilidade desta técnica é na determinação do IPM, principalmente quando já se passaram muitos dias desde a morte, pois os fenômenos cadavéricos, normalmente utilizados para calcular esse intervalo, já terão desaparecido. E quanto maior o tempo decorrido após a morte, mais precisa é a determinação do IPM pela entomologia forense.

A determinação do IPM pode ser feita por meio da sucessão da fauna cadavérica ou pela determinação da idade da larva mais desenvolvida. Para ambos os casos há a necessidade de se determinar a espécie do inseto encontrado, pois cada espécie possui um ciclo de vida característico. Para este fim, bem como para determinação da idade do inseto por meio de modificações na expressão gênica, a biologia molecular pode auxiliar os entomologistas na elucidação de casos. Com o advento de técnicas como a PCR, o sequenciamento, o RFLP e o RAPD, a determinação da espécie do inseto ficou mais precisa, evitando muitos equívocos de classificação de insetos baseados somente nas características fisiológicas, uma vez que há espécies diferentes de insetos que possuem morfologia semelhante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Fonte: www.cpgls.ucg.br

Entomologia Forense

ENTOMOLOGIA MÉDICA

1. Ordem Hemíptera: Aspectos morfológicos e taxonômicos gerais; ênfase nos aspectos importantes da fisiologia e bioquímica destes vetores envolvidos na transmissão de parasitos. Interação dos parasitos com os vetores.

2. Ordem Díptera – subfamília Culicíneos: Aspectos morfológicos e taxonômicos gerais; ênfase nos aspectos importantes da fisiologia e bioquímica destes vetores envolvidos na transmissão de parasitos humanos. Interação dos parasitos com os vetores.

3. Ordem Díptera – Anofelinos: Aspectos morfológicos e taxonômicos gerais; ênfase nos aspectos importantes da fisiologia e bioquímica destes vetores envolvidos na transmissão de parasitos humanos. Interação dos parasitos com os vetores.

4. Ordem Díptera - Flebotomíneos: Aspectos morfológicos e taxonômicos gerais; ênfase nos aspectos importantes da fisiologia e bioquímica destes vetores envolvidos na transmissão de parasitos humanos. Interação dos parasitos com os vetores.

5. Insetos ectoparasitos causadores de miíases – Aspectos morfológicos e taxonômicos gerais; Ciclo Biológico do ectoparasito; Aspectos gerais da resposta do hospedeiro a infestação por estes ectoparasitos.

6. Insetos ectoparasitos humanos – Sifonapteros e Anopluros: Aspectos morfológicos e taxonômicos gerais; ênfase nos aspectos importantes da fisiologia e bioquímica destes vetores na relação do hospedeiro; Aspectos gerais da resposta do hospedeiro a infestação por estes ectoparasitos.

7. Glândula salivar de vetores: estrutura, função, bioquímica e fisiologia. Relações moleculares deste sistema com a transmissão parasitária.

8. Sistema digestivo de vetores: estrutura, função, bioquímica e fisiologia. Relações moleculares deste sistema com a transmissão parasitária.

9. Sistema reprodutivo de vetores: estrutura, função, bioquímica e fisiologia. Transmissão transovariana de parasitos.

10. Sistema imune de vetores: estrutura, função, bioquímica e fisiologia. Relações moleculares deste sistema com a tolerância ou susceptibilidade a parasitos.

11. Controle biológico de insetos vetores

Fonte: biof.ufrj.br

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