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Maricultura

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Maricultura
Maricultura

Maricultura é o cultivo de organismos marinhos em seus habitats naturais, geralmente com objetivos comerciais, atividade que cresce a uma taxa aproximada de 5 a 7% anualmente em todo o mundo.

Diversas espécies marinhas de peixes, algas e invertebrados têm sido cultivadas para o comércio de aquários e outros mercados. Contudo, a grande maioria das operações envolvendo maricultura é focada para a criação de espécies marinhas visando o consumo humano, como camarões, ostras e mariscos.

O cultivo de espécies não nativas pode levar ao estabelecimento de suas populações no novo ambiente ou à introdução não intencional de uma diversa flora e fauna associada às espécies cultivadas.

Por mais de 150 anos, diversas espécies de ostras têm sido transportadas e cultivadas em grande número em águas costeiras distantes de suas regiões de origem, com finalidades comerciais. Muitos organismos da fauna associada foram transportados acidentalmente, incluindo parasitas, comensais, epibiontes fixos em suas conchas ou entre seus agregados, predadores, pestes e outros organismos carregados na água, substrato ou outro material embalado em conjunto com as ostras.

Assim sendo, muitas espécies foram espalhadas por diversas regiões do mundo.

Alguns estudos sugerem que o transporte de ostras também é responsável pela introdução de organismos causadores de doenças que atingem humanos, como dinoflagelados tóxicos e novas linhagens de cólera.

Introduções não intencionais de espécies exóticas, incluindo predadores e parasitas, têm sido registradas como resultado de tentativas de estabelecer ostras em várias partes da América do Norte e Europa. Como exemplo, é citada a espécie Crassostrea gigas, conhecida como a ostra do Pacífico, introduzida na costa oeste americana na década de 20, que possibilitou a introdução do molusco Ocenebra japonica, predadora de ostras nativas, assim como possivelmente um copépode parasita, Mytilicola orientalis. Essa mesma espécie de ostra foi introduzida na Austrália e atualmente compete com espécies nativas.

Práticas modernas de maricultura, particularmente o movimento de cultura de espécies no estágio larval, têm diminuído grandemente a incidência de introduções acidentais. Contudo, o transporte secundário da fauna associada continua a ser um problema mundial, principalmente no que se refere à re-alocação de estoques e equipamentos.

No Brasil, a maricultura está representada, em grande parte, pelos cultivos de crustáceos e moluscos, uma vez que os cultivos de peixes marinhos e equinodermatas, ainda estão em fase laboratorial.

Um total de quatro espécies de moluscos são cultivados no Brasil, principalmente nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul. São elas o mexilhão Perna perna, recentemente sugerido como espécie exótica em todas as Américas por alguns autores, a vieira Nodipecten nodosus, nativa do litoral brasileiro, e as ostras Crassostrea rhizophorae, espécie nativa do Brasil, com uma distribuição ao longo de todo litoral e predominantemente em regiões de mangue do Norte e Nordeste e Crassostrea gigas, conhecida como ostra do Pacífico. Esta espécie foi primeiramente introduzida no país em 1974, pelo Instituto de Pesquisas da Marinha, por meio de sementes oriundas da Grã-Bretanha.

Atualmente, o estado de Santa Catarina é o maior produtor nacional de ostras e mexilhões cultivados, chegando a cerca de 90% de toda a produção brasileira e é considerado pólo gerador de tecnologia. Em 1991, o Laboratório de Cultivo de Moluscos Marinhos (LCMM), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), produziu as primeiras sementes de C. gigas e, em 2001 a produção chegou a 20 milhões de sementes. Entretanto, a demanda crescente não suprimiu a importação e atualmente o mercado nacional é abastecido pela produção do país e do exterior (Chile e EUA).

A produção de crustáceos no Brasil é representada pelo cultivo de camarões peneídeos. Atualmente, grande parte da produção nacional de camarão é baseada em apenas uma espécie exótica, Litopenaeus vannamei, nativa do Pacífico leste. Esta espécie foi introduzida no Rio Grande do Norte no início da década de 80 e hoje é cultivada em vários estados do N, SE e S do país, sendo o Nordeste a principal região produtora.

Litopenaeus vannamei (Boone, 1931)

Este camarão é nativo do Pacífico leste, trazido para o Brasil 1981 para fins comerciais. Atualmente L. vannamei, conhecido como camarão-vanamei ou camarão-cinza, corresponde a 95% da produção brasileira de camarões marinhos, sendo cultivado em vários estados do nordeste (Piauí, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte. Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia), do norte (Pará), do sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo) e sul (Paraná e Santa Catarina).

Referências

Streit DP, Lupchinski E, Moreira HLM, Ribeiro RP, Moraes GV and Vargas LD (2002) Perspectivas atuais da aqüicultura Marinha no Brasil. Revista Urutágua n° 4
Cohen AN and Carlton JT (1995) Nonindigenous aquatic species in a United States estuary: a case study of the biological invasions of the San Francisco Bay and Delta. U.S. Fish and Wildlife Service, Washington DC.
Furlani DM (1996) A Guide to the Introduced Marine Species in Australian Waters. Technical Report n° 5. Centre for Research on Introduced Marine Pests, CSIRO Division of Fisheries, Hobart, Tasmania. Esta espécie é atacada por diversas doenças de origem viral, constituindo um sério risco de contaminação à espécies nativas. Também é utilizado como isca viva, aumentando as chances de possíveis introduções acidentais.

Fonte: zoo.bio.ufpr.br

Maricultura

1 – INTRODUÇÃO

1.1.– Um breve histórico do Setor

Entende-se como Maricultura o cultivo de animais e plantas marinhas. A prática da maricultura costeira é uma forma de produção nova no Brasil e poderá assumir importância estratégica para a sobrevivência das comunidades litorâneas que começam a se interessar pela inclusão dessa modalidade, uma vez que importantes reservas litorâneas de pesca foram demasiadamente exploradas.

Com o crescimento populacional e uma diminuição dos recursos marítimos torna-se necessário encontrar alternativas para aumentar e/ou manter o padrão de vida das populações litorâneas e reduzir a pressão sobre os recursos marítimos.

Este projeto orienta ações para o desenvolvimento da maricultura especificamente a ficocultura (cultivo de algas) voltada a pequenos produtores. Trata-se de criação de estratégias que permitam gerar empregos, conferir dignidade e saúde para essas populações, canalizando interesses para a melhoria do nível econômico, envolvendo mudanças estruturais básicas e preservando aspectos culturais.

Através do acesso a recursos técnicos, pode-se agregar valores à produção primária advinda de atividades que hoje apenas complementam a renda familiar, como é o caso da coleta de algas, tornando-a atividade principal para famílias da comunidade, com resultados financeiros suficientes para romper os limites da pobreza.Algas marinhas são organismos vegetais que habitam principalmente ambientes aquáticos.

As algas marinhas dividem-se em: planctônicas (microalgas) e bentônicas (macroalgas).As algas marinhas constituem produto muito usado na alimentação pelos orientais desde 3000 anos AC, enquanto que no Brasil inexiste ainda o seu hábito do consumo.

O uso de algas em nosso país dá-se mais especialmente por algumas indústrias que as exportam “in natura” e as utilizam para fins cosméticos e farmacêuticos.

1.2. – O valor da Maricultura

O nordeste brasileiro é conhecido como produtor natural de algas marinhas cujos bancos naturais são explorados pela população da orla.

Segundo a publicação “Explotation and Management of Seweed Resources in Northest Brazil” de Muttamby Durautnam, editado pelo Departamento de Limnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1989), existem no litoral do Nordeste 23 espécies produtoras de agar e 21 espécies que produzem alginato.

Algumas espécies tem sido coletadas para processamento de agar, carragena, extrato de algas e exportação de algas secas e úmidas tais como: Gracillaria, Hypnea musciformis, Sargassum filipendula, Lithothamnium calcareum, Gigartina, Gelidiela acerosa e Meristiela.

No projeto proposto enfatiza-se a espécie Gracillaria, que é a mais abundante, e cujo método de cultivo está sendo dominado no Brasil.

É uma espécie que tem sido cultivada com sucesso em outros países e é responsável por 65% do agar para uso alimentício produzido mundialmente, possuindo dois componentes principais: a agarose e a agaroseptina, sendo a primeira usada como componente gelificante. Iniciando a preparação de subsídios para apoiar a instalação do setor, o SEBRAE/CE, em parceria com o Departamento Nacional de Cooperativismo do Ministério da Agricultura – DENACOOP, patrocinou o Levantamento de Áreas Propícias para Cultivo de Macro Algas que foi realizado pelo Instituto Terramar.

O Levantamento de Áreas Propícias para Cultivo de Macro Algas Marinhas no Estado do Ceará realizado pelo Instituto Terramar (2002) relacionou 18 municipios do litoral cearense com 58 praias com ocorrência de algas, o que pode significar presença de bancos naturais nas proximidades. Essa informação demonstra que 90% do litoral cearense é produtor de algas, importante dado que indica o potencial do recurso a ser ecologicamente manejado pelas populações litorâneas.

1.3.– O Setor e seus Produtos

Agricultura e Pecuária

Fertilizante orgânico (N,P,K,Mg,etc) e inorgânicos (Ca) Corretivo de solo (Ca) Ração animal (gado, aves, peixes)

Indústria alimentícia e de bebidas

Clarificantes de cervejas e vinhos Alimentação humana (saladas) Sorvetes e gelatinas (geléia) Chocolates

Indústria farmacêutica e medicinal

Cápsulas de medicamentos

Atividades: antibiótica, antilipênica, anticancerígena, antivermífuga, anestésica, cicatrizante, antiinflamatória, antipirética, anticoagulante, antiherpes, antihipertensiva Laxantes (ex. algarol) Hormônios (esteróis) Tratamento de cálculo biliar Tratamento anti-obesidade

Indústria de tintas/vernizes e têxtil

Firmeza dos pigmentos e das cores

Outras:

Cosméticos (cremes de barbear, para a pele, para o cabelo, shampoos, sabonetes) Prótese dentária e dentifrícios (anticárie) Lentes de contato Filmes fotográficos Meios de cultura (laboratórios)

1.4.– O Mercado

Os resultados do Estudo de Mercado realizado pela Empresa De Christo & Associados (2002) detalha os processos de importação e exportação de algas, as empresas envolvidas e as possibilidades do Brasil nesse mercado e, em vista disso, podemos concluir que existem caminhos a serem localmente desenvolvidos para introduzir no setor parte do contingente residente na orla.

Atualmente estão se instalando no Brasil, especificamente em São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará indústrias que utilizam as algas como matéria prima para fins alimentícios e cosméticos. A entrada destas industrias no mercado brasileiro modificará aspectos da demanda de algas “in natura”.

Apesar de ainda existirem em nosso litoral, a produção dos bancos naturais está reduzida seja pela exploração exagerada e indiscriminada, ou por razões climáticas. Dizem os coletores que há mais de vinte anos, quando iniciaram a coleta das algas, elas eram abundantes e eram vendidos carregamentos enormes para processamento.

O projeto visa preparar o contingente de coletores para suprir a demanda no que for econômica e ecologicamente viável e agregar valores ao produto no sentido de reter recursos na fonte.

No sentido de agregar valores ao produto algas existem atividades que podem ser desenvolvidas localmente e que poderão aumentar a renda dos produtores e, ao mesmo tempo incluir outras pessoas, aumentando o contingente de mão de obra local a ser aproveitado e promovido pelo projeto.

Atividades mais simples como seleção, lavagem, branqueamento, secagem e enfardamento constituem a base para aumentar o rol de produtos e podem ser realizadas em todas as comunidades que coletam algas.

Existem atividades mais sofisticadas como produção de agar, extrato de algas, cosméticos diversos, encapsulamento, que poderão ser realizadas mediante treinamento nas comunidades de origem, permitindo assim que a renda da atividade seja retida nesses locais.

Este projeto pretende organizar atividades atualmente desenvolvidas e que são básicas para o funcionamento do setor e a introdução de novas formas de agregar valores ao produto. O tratamento que será destinado a essas atividades está relacionado à perenização do produto e à promoção do coletor de algas.

No entanto, para introduzir medidas de proteção aos bancos naturais e para que não se esgote o recurso com prejuízo ecológico e diminuindo a participação da atividade na renda familiar dos coletores, é preciso adotar medidas antecipadamente planejadas.

Por isso será executado, num primeiro momento, o Censo Estadual dos Coletores de Algas, baseado no cadastro iniciado pela Food and Agriculture Organization no ano de 2001/2 com informações necessárias para planejamento de ações futuras de organização da categoria.

Ao mesmo tempo será realizadas a localização e mensuração dos bancos naturais de alga.

A organização da coleta passa pela estimativa da capacidade de produção e de recuperação dos bancos naturais bem como da pressão exercida sobre esses bancos.

A introdução de técnicas de manejo dos bancos naturais, assim como a pesquisa sobre os métodos de recuperação dos bancos poderá ser feita em parceria com instituições afins e pessoas da comunidade.

As informações apresentadas até então levam a considerar a necessidade preemente da organização e desenvolvimento do setor aliado a perenização do produto em questão, através do manejo ecológico dos bancos naturais e capacitação do contingente de coletores para tal atividade, objetivo do projeto em questão.

2 – PESCA É A MAIOR AMEAÇA ÀS FAZENDAS MARINHAS

Em cada cordão de cultivo (que ficam no mar, pendurados em bóias amarelas), é possível produzir até 30 quilos de mariscos.

O grande problema da atividade é a pesca de arrasto feita nas proximidades das fazendas marinhas: Atraídos pela fartura de peixes, os pescadores se aproximam muito das fazendas e suas redes danificam os cordões de cultivo, prejudicando a produção.

3 – OSTREICULTURA É ATIVIDADE AMBIENTALMENTE SUSTENTÁVEL

Para a implantação do projeto de cultivo de ostras alunos do curso de Engenharia de Pesca da Universidade Federal (UFC), realizaram capacitações técnica e social para as famílias beneficiadas onde realizaram um diagnóstico socioeconômico das comunidades com potencial para a ostreicultura. No qual foi identificado que esta atividade têm grande importância na alimentação das famílias, mas pouco contribuem na geração de renda.

O estudo foi feito na zona estuarina do Município de Camocim, envolvendo três comunidades: Sambaíba, Quilômetros e Guriú, as duas primeiras localizadas no estuário do Rio Coreaú e a última, na bacia do Córrego Cajueiro.

Essas comunidades apresentam uma relação próxima com o ecossistema manguezal que lhes oferece uma variedade de produtos que contribuem para sua subsistência, bem como para a geração de renda. Além do peixe e do caranguejo que são amplamente explorados nos manguezais, a ostra de mangue coloca-se como uma alternativa para atender as necessidades nutricionais dessas comunidades, podendo-se constituir em mais uma oportunidade de complementação de renda das famílias”. O cultivo de ostras do mangue, “Crassostrea rhizophorae”, coloca-se como uma alternativa de produção sustentável para as comunidades litorâneas e que já vem sendo exploradas em alguns municípios no Ceará — Fortim, Amontada, Trairi e Camocim.

O processo de difusão tecnológica tem sido feito por instituições governamentais e não-governamentais como Sebrae, Labomar, Neema, Cefet, Instituto Terramar e Instituto Netuno. Os projetos de maricultura visam capacitar os nativos, principalmente mulheres, denominadas marisqueiras, para a implantação de estruturas de cultivo e aplicação de técnicas de manejo. O sucesso do cultivo de ostras pode ser comprometido por uma série de fatores de natureza socioeconômica. Dentre esses fatores destacam-se a falta da cultura para o trabalho participativo por parte da comunidade, retornos financeiros a médio prazo oferecidos pela ostreicultura, o que desestimula os associados, e a falta de canais de comercialização estabelecidos para escoamento da produção. Isto suscita a necessidade de se conhecer melhor as comunidades do ponto de vista socioeconômico a fim de qualificar estes aspectos, o que pode servir de subsídios para a elaboração de estratégias para contornar os problemas identificados.

Diferentemente do extrativismo de ostras, que pode causar danos ao meio ambiente quando conduzido de forma predatório, o cultivo de ostras desenvolvido nos estuários pode ser uma atividade ambientalmente sustentável e que depende diretamente das condições ambientais satisfatórias oferecidas pelo ecossistema manguezal. No entanto, a atividade não depende somente da tecnologia e das condições ambientais, mas, em igual importância, das condições socioeconômicas em que as comunidades estão inseridas. Portanto, torna-se importante estudar os parâmetros demográficos, sociais e econômicos manifestados pelas comunidades e como isto possa interferir na atividade produtiva de cultivo de ostras.

Projeto fará primeira coleta em fevereiro.

Na comunidade quilômetro quatro, as famílias contam com ajuda técnica.

Uma experiência de cultivo de ostras está sendo desenvolvida na comunidade Quilômetro Quatro, em Camocim, como parte do projeto de Tecnologia da Ostreicultura em Comunidades Litorâneas no Estado Ceará. A previsão da primeira coleta é para fevereiro de 2005. Trata-se de uma unidade demonstrativa com 12 módulos familiares, sendo cada módulo composto por uma mesa com 12 travesseiros de cultivo, com o sistema de castigo — um sistema fixo submerso na maré cheia e fora dágua na maré baixa, quando as famílias envolvidas aproveitam para o manejo das ostras.

O projeto é executado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), através do Núcleo de Estudos em Economia do Meio Ambiente (NEEMA) e Grupo de Estudos de Moluscos Bivalves do Instituto de Ciências do Mar (Labomar). O financiamento é do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Banco do Nordeste.

A equipe da UFC, formada pelo professor Rogério César Pereira de Araújo, engenheiros de pesca Maximiano Pinheiro Dantas e Sandra Carla Oliveira do Nascimento, e a estudante Cássia Rosane, esteve no último domingo em Camocim para uma reunião de avaliação e visita no projeto de cultivo de ostras. Os resultados foram considerados satisfatórios, com estimativa de 48 mil ostras, no período de oito meses, o que corresponde a uma receita de R$ 1.200,00 por mesa.

Este projeto tem o objetivo de gerar ocupação e renda extra aos membros da comunidade.

4 – O CULTIVO DE OSTRAS NO LITORAL CEARENSE

O cultivo de ostra utiliza a estrutura tipo mesa (suspensa), apropriada para as condições ambientais da gamboa, braço do Rio Coreaú, com uma profundidade de aproximadamente cinco metros.

A estrutura consta de estacas de madeiras fixadas no solo, sendo suas extremidades livres ligadas por varas de bambu, que servem de apoio para os travesseiros”.

Quando a maré está alta, os “berçários” em estrutura tipo mesa ficam submersos.

A produção é obtida em duas fases: pré-engorda e engorda. Na primeira etapa, as sementes, ostras juvenis, são acomodadas em travesseiros com malha de quatro milímetros de abertura, por um período de 120 dias. Depois, as ostras são remanejadas para travesseiros de nove e de 14 milímetros até atingirem o tamanho comercial, que varia de seis a oito centímetros.

Uma vez por semana, aproveitando a maré baixa, ocorre a limpeza das ostras com a retirada de predadores, parasitas e incrustantes como caranguejos, caramujos, poliquetas, cracas e algas. “É a primeira vez que acontece este tipo de atividade com orientação. Está sendo ótimo o acompanhamento dos técnicos da Universidade.

Depoimentos de Pescadores que estão envolvidos no Projeto

Estou com três mesas, a minha e as mesas de outros colegas que desistiram”.

Com estas palavras, o pescador Raimundo Nonato Alves, 53 anos, expressa sua confiança no projeto que, na sua avaliação, tem todas as condições para melhorar a vida das famílias envolvidas com a geração de renda.

Outro pescador, Odilon Amaral Rocha, 70 anos, enfatiza que “a limpeza é um serviço fácil que pode ser feito por qualquer pessoa e não atrapalha o serviço de ninguém… é feita de oito em oito dias, durante duas horas, podendo ser no sábado e no domingo, quando a maré ficar baixa”. Também pescador, Francisco das Chagas Oliveira da Silva, 28 anos, revela que “só tinha ouvido falar de ostra na televisão. Agora já aprendi muita coisa. Estou gostando de trabalhar com ostras.

Só é preciso tirar o lodo e a lama, a gente passa o escovão e balança dentro dágua”.

A presidente da Associação Comunitária dos Quilômetros, Maria das Graças Silva Rocha, comenta que desistiram algumas das 12 famílias selecionadas para o projeto “Algumas pessoas não acreditam, ficam com resistência em adotar este sistema. A Rede Globo está mostrando uma novela que fala sobre ostras. Aqui, a gente recebeu a estrutura e o conhecimento. O que se espera é uma grande produção. Em Camocim, o preço é de R$ 3,60 a dúzia; em Jericoacoara é R$ 10,00”, disse Maria das Graças.

5 – FESTIVAL DE OSTRAS NO CEARÁ

Fortalecer o turismo gastronômico como uma alternativa para atrair turistas e visitantes no período de baixa estação. Esse é um dos objetivos do I Festival das Ostras, que acontece na praia do Mundaú localizada a 150 quilômetros de Fortaleza.

O evento é uma iniciativa do Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) no Ceará em parceria com a AHTRA (Associação dos Hotéis e Pousadas do Trairi) e Fundação Netuno.

Durante dois dias, a praia do Mundaú é palco de grandes atrações e roteiro obrigatório para os consumidores de ostras. Durante o evento, o Sebrae no Ceará realiza oficinas de artesanato, oficinas de manejo no cultivo de ostras, além de visitas técnicas às comunidades produtoras na região. A programação conta, ainda, com degustação de pratos feitos com ostras, exposição de artesanato e shows artísticos.

O cultivo de ostras no Litoral Oeste é uma atividade recente no Ceará.

O Sebrae vem apoiando a produção em diversas comunidades do Trairi, com o objetivo de fortalecer a consciência em torno da preservação da natureza, além de estimular a formação da cultura empreendedora e organização associativa junto às famílias da região.

O projeto tem o objetivo de incrementar o emprego e a renda de populações carentes, preservando o meio ambiente por meio da vigilância da comunidade no ecossistema manguezal, além de monitorar a qualidade da água do rio, condição fundamental para o cultivo de ostras, e promover a inclusão social, através do repasse de tecnologia de práticas de cultivo sustentado.

6 – O MERCADO DE OSTRAS NO CEARÁ

No Ceará a atividade de coleta ou cultivo de ostras ainda contribui pouco para a geração de emprego e renda. As razões para isto devem-se a um mercado ainda incipiente que pode ser explicado pela falta de hábito alimentar. Em particular, o desenvolvimento do cultivo de ostras se mostra como uma prática viável para reduzir a pressão sobre os estuários da coleta desordenada das mesmas, contribuindo assim para a preservação deste ecossistema e, também, gerando uma renda complementar para as comunidades que possuem áreas propícias para tal fim. Um mercado potencial para o escoamento da produção de ostras é o setor turístico em crescimento no Ceará.

7 – O PROGRAMA SETORIAL DO SEBRAE NO CEARÁ

7.1 – Objetivo

Promover o desenvolvimento dos grupos produtores a partir da prática de técnicas apropriadas de cultivo, do gerenciamento competente de seus empreendimentos e do controle ambienta.

7.2 – Público-Alvo

Produtores de ostras cultivadas da região do litoral oeste do estado.

7.3– Municípios atendidos

8– DESAFIOS

Reunir os produtores em torno de grupos produtivos associativos Implantar uma escola de produção para despescas mensais. Aumentar o envolvimento de todos os membros das famílias envolvidas no trato e vigilância dos cultivos. Introduzir o consumo das ostras de cultivo destes grupos nos principais restaurantes especializados de Fortaleza e barraca de Praias.

9– NÍVEIS DE GERENCIAMENTO

Nível Local

Núcleo Gestor – constituído por representantes das entidades parceiras financiadoras , responsáveis pela orientação do projeto, análise dos resultados, discussão dos problemas de execução e identificação de suas soluções.

Gestor do Projeto – executivo, com dedicação integral, responsável pela implementação do projeto, integração das ações, negociação com parceiros e obtenção dos resultados.

Responsável pela Execução – atuante em cada parceiro, responsável pela implementação das ações sob a responsabilidade de sua instituição, em articulação com o gerente do projeto.

Nível Estadual

Gestor Estadual – executivo, com dedicação integral, responsável pela coordenação estadual do programa, que além de integrar esforços da organização para apoiar tecnicamente e financeiramente o programa, colaborar para o bom relacionamento institucional com os demais parceiros.

BIBLIOGRAFIA

www.noolhar.com
http://asn.interjornal.com.br/
www.sebrae.com.br
www.ibge.gov.br
www1.folha.uol.com.br
www.geocities.com
www.pesca.sp.gov.br/
www.acaq.org.br/

Fonte: www.sebrae.com.br

Maricultura

MARICULTURA E TERRITÓRIO EM SANTA CATARINA – BRASIL

Resumo

O mar é um importante fornecedor de alimentos no mundo e principal fonte de proteína para aproximadamente um bilhão de pessoas, daí a relevância da maricultura, especialmente a de pequeno porte. No Estado de Santa Catarina temos mitilicultura e ostreicultura.

Apesar de a maricultura comercial ser recente no Brasil, tendo se iniciado em Santa Catarina em 1990, está se expandindo significativamente. Por sua semelhança em termos organizacionais com o cultivo da terra, está incluída nos programas de desenvolvimento rural, ligados ao Ministério da Agricultura e do Abastecimento.

O principal objetivo de nosso trabalho é mostrar como a apropriação comercial do mar faz com que ele deixe de ser um “espaço” e passe a ser um “território”, no sentido de ser definido por e a partir de relações de poder, permeadas por conflitos entre pesca artesanal & pesca industrial; especulação imobiliária e turismo & populações tradicionais; ambientalistas & populações extrativistas etc.

Segundo Molnar (2000), o mar é um dos mais importantes fornecedores de alimentos no mundo e a principal fonte de proteínas para cerca de um bilhão de pessoas. Para pelo menos 150 milhões a pesca não só é vital para a nutrição, como é também uma fonte não desprezível de renda e emprego. Além disso, como consta na declaração resultante da “Conference on Aquaculture in the Third Millenium”, realizada em Bangkok (Tailândia) em 2000, a aqüicultura é o setor de produção de alimentos que, nas últimas três décadas, está crescendo de maneira mais rápida mundialmente. Enquanto esta atividade cresce 8% ao ano, a criação de gado cresce 3%, e a pesca, 1,5% (RANA, 1997 apud VINATEA, 2000, p. 3).

Os crescentes investimentos na aqüicultura e sua expansão tornam-se perfeitamente compreensíveis quando vemos que as regiões pesqueiras estão em declínio e que esta decadência tende a aumentar conforme cresce a população. Segundo informações da revista The Ecologist, citadas por Vinatea (2000, p. 75), nove das 17 maiores regiões pesqueiras do mundo apresentam franco declínio, e quatro delas já estão esgotadas. Molnar (2000) confirma tal quadro, afirmando que 70% das espécies mundiais mais importantes e 11 das 15 maiores áreas pesqueiras estão em declínio.

O CULTIVO DA ÁGUA COMO NOVA FORMA DE PRODUÇÃO

A aqüicultura, ou seja, o cultivo da água pode ser feito tanto em lagos e açudes de água doce quanto no mar (maricultura), sendo as espécies diferentes em cada caso.

O cultivo em água doce é realizado em pequenas propriedades rurais como forma de complementar a alimentação e a renda das famílias e, também, de obter um fertilizante orgânico através da utilização do lodo que se forma no fundo dos poços de água.

Quanto à maricultura, segundo dados da Federação das Associações de Maricultores de Santa Catarina – FAMASC (2002), temos que no Brasil se cultivam quatro espécies de molusco (malacocultura): o mexilhão (Perna perna), a ostra japonesa (Crassostrea gigas), a ostra nativa (Crassostrea rhizophorae) e a vieira (Nodipecten nodosus). Há também cultivo de camarões (carcinicultura).

Segundo dados de Diegues de 1995, citados por Vinatea (2000), no mundo todo existem dez milhões de pescadores artesanais e, no Brasil, 550 mil, agrupados em 299 colônias que se espalham pelo litoral. Ainda de acordo com Vinatea (2000), da produção brasileira total de pescado o mar contribui com a maior parte, tendo sido esta, em geral, superior a 60%. Apesar da imensidão de sua costa (8,5 mil quilômetros), o Brasil não é auto-suficiente quando a este tipo de produto, tendo que importar milhares de toneladas todo ano. Mesmo assim, o consumo da população está aquém do ideal. Cada brasileiro consumia, em meados da década de 90, em média 5,5 quilos de peixe anualmente, número quatro vezes inferior ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Para atingirmos a suficiência, deveriam ser produzidas 3,2 milhões de toneladas por ano.

Informações do Instituto de Planejamento e Economia Agrícola de Santa Catarina – Instituto CEPA/SC (2000b) mostram que, dos anos oitenta até 1997, a produção brasileira girou em torno de 785 mil toneladas. As exportações têm permanecido estáveis, apresentando uma média de 24,9 mil toneladas, enquanto as importações têm sido bem mais altas, 195,7 mil toneladas em 1998 e 169,1 mil toneladas em 1999, por exemplo.

O litoral de Santa Catarina tem uma costa de 561,4 quilômetros de extensão. Possui inúmeras praias de mar aberto, mas, por sua fisiografia recortada (especialmente a região centro-norte), apresenta também áreas protegidas das intempéries como baías, estuários e enseadas, facilitando o manejo dos cultivos.

Por estas características têm-se excelentes condições tanto para a pesca como para a maricultura.

A produção de pescado em Santa Catarina tem se mantido, nos últimos anos, em torno de 130 mil toneladas anuais (INSTITUTO CEPA, 2000b), havendo variações devido ao desembarque errático de sardinha, e estão presentes dois tipos de pesca: a industrial e a artesanal.

Há, no Estado, uma nítida tendência ao aumento da pesca industrial em detrimento da artesanal. Branco e Rabelo (1994 apud VINATEA, 2000, p. 54) mostram que, no período de 1984 a 1990, a frota industrial foi responsável por 84% do pescado capturado no mar, enquanto a frota artesanal foi responsável por 16%, tendo esta porcentagem diminuído para 8% entre 1991 e 1993. Dados mais recentes fornecidos pelo Instituto CEPA (2000b) confirmam esta tendência.

Em 1998, em uma produção de 133 mil toneladas de pescado, apenas 7% resultou da pesca artesanal, e 93%, da industrial. Segundo a mesma fonte, a pesca em Santa Catarina já alcançou seu limite máximo sustentável de captura.

Diante do exposto, fica claro porque a maricultura está adquirindo importância crescente em Santa Catarina. Os primeiros passos foram dados na década de 80, com pesquisas realizadas pelo Departamento de Aqüicultura da Universidade Federal de Santa Catarina, que teve o apoio da Secretaria de Agricultura do Estado, primeiro através da extinta Associação de Crédito e Assistência Pesqueira de Santa Catarina – ACARPESC e, depois, da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina – EPAGRI. De 1985 a 1988, teve apoio também do Banco do Brasil (VINATEA, 2000; LCMM, 2002 e FAMASC, 2002). Começaram, então, a ser desenvolvidas em águas catarinenses a mitilicultura (mexilhões) e a ostreicultura (ostras). Mexilhões e ostras são moluscos (malacocultura). Em 1986, o Laboratório de Mexilhões – LAMEX, ligado à Universidade Federal de Santa Catarina, desenvolveu pesquisas sobre uma espécie nativa de mexilhões. O Laboratório de Cultivo de Moluscos Marinhos (LCMM) da Universidade Federal, criado em 1994, começou a produzir sementes de ostra (não nativa) e repassá-las aos produtores para a engorda.

Em 1989, estabeleceu-se a maricultura em escala comercial com boas perspectivas de expansão. Segundo dados da EPAGRI, citados por Vinatea (2000), no início tinham-se 12 unidades de cultivo em caráter experimental e, em 1996, existiam mais de 100 áreas de cultivo, havendo cerca de 600 profissionais cadastrados, produzindo mais de 5.000 toneladas de moluscos cultivados. No ano seguinte, 1997, eram 750 os profissionais, e a produção, 7.000 toneladas, o que colocou o Estado como o maior produtor do Brasil de ostras tipo Crassostrea gigas e mexilhões Perna perna.

Santa Catarina é o maior produtor de mexilhões do País e da América Latina. Sua produção cresceu cerca de 1.742% no período 1990/1995. Esta atividade se transformou não só em uma importante fonte de proteínas, como também de empregos, gerando, segundo dados relativos a 1999, aproximadamente 2.000 empregos diretos e 5.000 indiretos. Como a espécie cultivada (Perna perna) é nativa, as sementes medindo entre um e três centímetros são obtidas nos estoques naturais, ou seja, nos costões. Colocadas nas estruturas de cultivo, levam de sete a nove meses para atingir o tamanho comercial, que é de sete a oito centímetros (LCMM, 2002, e Instituto CEPA/SC, 2000a). Segundo Vinatea (2000), o ritmo de crescimento dos mexilhões em águas catarinenses mostra condições adequadas, pois, se aqui eles crescem de dois para oito centímetros num período de seis a 11 meses, precisam, para obter o mesmo desempenho, de 18 meses na Espanha, 24 na França e 36 na Holanda. Porém, este mesmo autor alerta para o fato de que o cultivo de molusco cresceu tanto em algumas áreas que superou a capacidade de carga do local e, como conseqüência, os indivíduos estão levando mais tempo para crescer.

Segundo Vinatea (2000), os impactos ambientais do cultivo de moluscos marinhos são relativamente inócuos, exceto quando há prática intensiva.

Os tipos de impactos são: distúrbios das comunidades naturais de fitoplâncton; deterioração da qualidade da água devido à acumulação de dejetos; contaminação genética dos estoques selvagens; e introdução de espécies que competem com as já existentes ou transmitem doenças aos estoques naturais. O principal impacto, porém, é a deposição de matéria orgânica no fundo dos locais de cultivo. Cem toneladas de mexilhões cultivados causam uma sedimentação de partículas três vezes superior às condições naturais.

Quanto à produção de ostras em Santa Catarina, houve uma tentativa em 1971 que não trouxe continuidade. Em 1985, os esforços foram retomados com o surgimento do “Projeto Ostras”. Um obstáculo a ser superado era a ausência de sementes, pois a espécie cultivada não é nativa, mas isso foi resolvido com a criação do LCMM em 1994. A produção de sementes feitas por este laboratório cresceu de 403.627 sementes, em 1991, para 8.748.666, em 1999, e a produção de ostras cultivadas passou de 42.900 dúzias, em 1991, para 210.000, em 1998 (cerca de 314 t), o que mostra um aumento de cerca de 490%. Há, no Estado, 67 produtores, sendo 52 em Florianópolis (LCMM, 2002, e Instituto CEPA/SC, 2000a).

Apesar de o LCMM ter incrementado anualmente sua produção de sementes, tendo comercializado, na primeira safra de 2001, 17 milhões de unidades, o fato de este ser, após dez anos, o único laboratório com produção comercial no Brasil tem causado restrições à atividade (FAMASC, 2002).

A produção de mexilhões é totalmente voltada para o mercado interno do Estado, o mesmo acontecendo com 95% da produção de ostras. Os restantes 5% são levados por uma única empresa para os Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná (LCMM, 2002). Em 1999, foi fundada a FAMASC, que procura reivindicar melhores condições de trabalho e a atualização adequada da legislação.

Para finalizar este item, devemos dizer que também houve, em Santa Catarina, uma tentativa de cultivo de camarões marinhos que não prosperou, devido, principalmente, à baixa produtividade obtida com as espécies nativas. Há experiências bem-sucedidas, iniciadas em 1998, com uma nova espécie – Litopenaeus vannamei (EPAGRI, 1999 e Instituto CEPA/SC, 2000b). Informações obtidas junto à EPAGRI informam, ainda, sobre o cultivo de outro molusco, a vieira (pectinicultura), no Estado, principalmente no município de Porto Belo. No momento, o incremento desta atividade se vê cerceado, pois não há fornecimento regular de sementes, tendo estas que serem adquiridas em Angra dos Reis – RJ. Porém, o LCMM já está expandindo suas instalações para produzir sementes da espécie Nodipecten nodosus.

Todos os ramos da maricultura implicam novas formas de ocupação das águas costeiras, nem sempre pacíficas. Podem surgir outros conflitos além do já existente entre pesca artesanal e pesca industrial. A introdução de cercados brancos nas águas próximas às praias não agrada aos que valorizam a paisagem, sejam turistas, sejam moradores locais ou agências imobiliárias. Também os ambientalistas preocupam-se com a ocupação desordenada e a superutilização de algumas áreas e, além disso, há tensão entre os donos de barcos quando se sentem cerceados em sua movimentação. Para entendermos melhor estes conflitos, devemos nos deter um pouco em como se dava a ocupação do mesmo espaço na pesca tradicional, porque é de egressos desta atividade que se forma a maioria dos grupos de maricultores.

PESCA E TERRITÓRIO

Nossas considerações sobre a relação entre pesca e território têm por base as reflexões de Souza (1995) sobre espaço e poder.

Para ele, o território é um “espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder”. Usar indistintamente os termos “território” e “espaço” obscurece, segundo este autor, “o caráter especificamente político do primeiro”, o que fica bastante claro quando se fala em “território nacional”, através da associação com a idéia de Estado, sempre ligada a poder. Restringir o uso do termo “território” a esta escala, porém, seria reduzir as possibilidades analíticas do conceito.

A concepção de poder, Souza a recupera das obras de Hanna Arendt, que o define como “a habilidade humana de não apenas agir, mas agir em uníssono, em comum acordo. O poder jamais é propriedade de um indivíduo. Quando dizemos que alguém está no ‘poder’ estamos na realidade nos referindo ao fato de encontrar-se esta pessoa investida de poder, por um certo número de pessoas, para atuar em seu nome” (ARENDT, 1985 apud SOUZA, 1995). Esta idéia coletiva de poder é muito importante, pois explica por que, embora o poder não necessite de justificativas, sendo inerente à existência de qualquer comunidade política, ele requer legitimidade no sentido weberiano da necessidade de uma crença na “justiça”, ou seja, na “verdade” deste poder por parte de dominantes e dominados.

Outro ponto importante recuperado de Arendt pelo autor citado é a idéia de que poder e violência se opõem, não sendo a segunda uma manifestação extrema do primeiro como querem alguns autores, entre eles Raffestin (1993 apud SOUZA, 1995). Quando o poder já está bem estabelecido, ele se naturaliza. Um terceiro e último ponto levantado por Souza é a afirmação de que uma sociedade autônoma não é uma sociedade sem poder, o que, para ele, seria impossível.

Estes três aspectos têm grande importância para nós neste trabalho. A busca por legitimidade nos faz entender por que há, por um lado, uma tendência em se reproduzirem na maricultura muitos dos costumes da pesca tradicional por parte de ex-pescadores e, por outro, a insistência por novas leis requeridas pelos que vêm de outro grupo social, como empresários, profissionais liberais, entre outros. O segundo aspecto, a idéia de que poder e violência se excluem, permite-nos ver dominação onde é comum ver-se apenas integração, como é o caso dos estudos sobre comunidades, tais como os pequenos agrupamentos pesqueiros. As considerações sobre autonomia nos fazem desistir da ilusão de que “poderes locais” possam ter como substrato o consenso entre os membros de uma localidade.

Nesse sentido, as discussões sobre localidade de Marsden et al. (1992), presentes na obra coletiva intitulada Constructing the countryside, nos foram bastante úteis. Um dos seus cinco colaboradores, Jonathan Murdoch, é retomado por nós em outro texto (MURDOCH & PRATT, 1993).

Estes autores consideram o conceito de “localidade” fundamental nas análises sobre o meio rural, pois ele tem substituído com vantagens os termos “comunidade” e “região”, largamente utilizados nas Ciências Sociais. O primeiro carrega uma ênfase funcionalista excessivamente centrada nas formas de integração. O segundo, embora ainda conserve certa utilidade, não dá conta da reestruturação intra-regional das relações econômicas e sociais. Apesar disso, o significado do termo “localidade’ não é unívoco, sendo necessários alguns esclarecimentos.

A discussão sobre a importância do local levanta pontos relevantes sobre a relação entre o social e o espacial, discussão que tem como paralelo uma outra que procura compreender os elos entre estrutura e ação. Mesmo que se tenha claro que qualquer recorte socioespacial deva levar em conta configurações mais amplas, fica sempre a pergunta de como as ações locais reproduzem estruturas mais amplas, sem que haja necessariamente homogeneização entre diferentes localidades. Há, segundo os autores citados, três razões para que as relações socioespaciais sejam vistas como localizadas. A primeira delas é que há ações que sofrem forte limitação local como, por exemplo, a disponibilidade de mão-de-obra, pois trabalho e local de moradia devem andar juntos. Em segundo lugar, temos que qualquer atividade produtiva sempre exige algum grau de imobilidade como, por exemplo, adequação da infra-estrutura. Por último, por mais que se fale em globalização, o capitalismo provocou no mundo todo um desenvolvimento desigual que distingue uma localidade de outra.

Isto posto, é preciso ter claro que as localidades não são homogêneas, por isso há problemas quando são vistas como um “agente”, por mais que se queira enfatizar que é lá que se concretizam as ações. Há diferenças socioeconômicas e culturais entre grupos internos a ela, que se refletem em diferenças de interesse e poder. Quem age são as pessoas e dificilmente em concordância, como enfatizam estes pesquisadores que dão grande importância aos estudos de caso. As forças sociais não são produto de um consenso, mas a resultante de embates entre interesses em conflito. A localidade é uma arena. O poder local não se apóia em uma soma de interesses, mas em alianças que buscam legitimidade social. Nesta busca são elaboradas diferentes construções do real que lutam por hegemonia.

Sendo a localidade um “local de encontros” (meeting place), devemos, ao estudá-la, distinguir bem atores e interesses, explicitando todos os pontos de vista envolvidos nas ações. Como proposta metodológica para dar conta da formação de alianças e das formas de legitimação que as sedimentam, os autores se definem pelo que denominam de “estudo de redes”.

Em que pese a importância que os estudos de redes sociais têm adquirido, não foi por esta metodologia que optamos, embora tenhamos incorporado as considerações extremamente ricas sobre o uso do conceito “localidade” feito pelos autores. Explicamo-nos, dizendo que nos interessa menos como se dá a formação de alianças, ou seja, como se dão os processos integradores, que desvendar os conflitos abertos ou potenciais que permeiam a convivência comunitária nos locais onde está se estabelecendo a maricultura.

Ao procurarmos entender o sentido da ação dos grupos envolvidos nesta nova atividade voltada para o cultivo do mar, percebemos que a lógica que rege a apropriação das águas costeiras própria das localidades pesqueiras tradicionais tem grande importância, por isso houve a necessidade de explicitá-la. Este é o momento então de deixarmos explicitada também qual a metodologia utilizada na pesquisa.

A primeira ressalva a ser feita é que a lógica amostral não foi a mesma para as duas situações discutidas: a pesca tradicional e a maricultura. Se no primeiro caso é importante a representatividade dos casos analisados, no segundo, não, pois não estamos interessados, seja na tipicidade ou freqüência dos possíveis conflitos, seja na visão que os atores têm deles. O que nos interessa é levantar questões que ponham em cheque a construção excessivamente homogênea e integradora dos grupos analisados. Como diz Bulmer (1993, p. 98) em seu texto “Sampling”, que é parte de uma coletânea por ele organizada (em co-autoria com Warwick) sobre surveys e censos no Terceiro Mundo, há tipos de pesquisa que requerem amostras não representativas, entre elas cita as que querem identificar problemas ou gerar hipóteses, que é o nosso caso. Assim sendo, foram entrevistados aleatoriamente pescadores, mulheres de pescadores, maricultores e maricultoras, técnicos e dirigentes de órgãos oficiais e quaisquer outros que nos parecessem, mesmo que só a princípio, informantes-chave. Foram escrutinados também documentos oficiais, legislações e relatórios de ação ou pesquisa em busca de “pistas”.

Quanto à visão do espaço marítimo presente nas populações envolvidas na pesca artesanal, aí sim precisávamos de representatividade, pois queríamos seu pensamento típico, coletivo. Pouco precisamos pesquisar diretamente, pois nos foram de grande valia os muitos estudos existentes sobre o assunto na biblioteca e nos programas de pós-graduação da Universidade Federal de Santa Catarina. Sendo alguns deles da área de Antropologia, apresentavam trabalhos de campo bastante elaborados e com representatividade garantida. Cito como principal exemplo a pesquisa de Beck (1979), que se baseou em técnicas exaustivas de observação. Foram necessárias apenas uma ou outra entrevista para “fecharmos o quadro”.

O mar é visto pelos pescadores como um espaço imenso e livre, que é de todos. Nas palavras de Martinello (1992), “o mar é um ambiente inapropriável e indivisível”. Durante as entrevistas, foi preciso insistir muito para que algumas regras de ocupação das águas fossem explicitadas, para além da resposta costumeira de que cada ponto de pesca é de quem chegar primeiro. Esta insistência, porém, teve que ser feita com delicadeza, pois os pescadores se ofendem e reagem diante de qualquer insinuação de que o mar tenha dono.

Maldonado (1986 apud MARTINELLO, 1992) sintetiza de maneira clara pontos-chave: A forma de divisão ou de delimitação do espaço produtivo no mar é feita através do estabelecimento tradicional de bancos de pesca explorados por um ou mais grupos. Através do conhecimento dos caminhos marítimos e do comportamento das diversas espécies de peixe e crustáceo, os pescadores realizam o acesso aos bons locais de pesca. Aqui é importante a tendência ao segredo e à ocultação das rotas, comportamento bastante freqüente num processo de apropriação simbólica do recurso. (MALDONADO, 1986, p. 33).

Os estudos sobre a pesca em Santa Catarina sempre fazem referência ao papel dos costumes no estabelecimento das normas coletivas, mas nem todos mostram o grau de refinamento destas normas que, através de subdivisões capilares, procuram dar conta das múltiplas possibilidades, deixando pouca margem para desavenças.

Dois fatores explicam a existência de costumes tão arraigados: a longa tradição da pesca nas costas catarinenses e a necessidade de ajuda mútua entre os pescadores.

Que a pesca é uma atividade milenar em Santa Catarina tem como prova os inúmeros sambaquis encontrados pelo arqueólogos. Mas a tradição pesqueira, como a conhecemos ainda hoje, chegou junto com os colonizadores açorianos em meados do século XVIII (1748 a 1756), fruto de uma corrente migratória provocada, por um lado, pela difícil situação econômica dos Açores e, por outro, pela necessidade do governo português de povoar a região sul do Brasil, disputada palmo a palmo pelos espanhóis (PIAZZA, 1983).

A necessidade de ajuda mútua é fundamental entre os pescadores. São precisos muitos homens para colocar um barco na água, muitos mais para puxá-lo para fora do mar quando carregado de peixes. Costuma-se tocar o sino da igreja para chamar homens a qualquer hora do dia ou da noite quando isto se faz necessário. Por ser uma atividade exposta à força dos elementos como ventos e tempestades, o perigo é algo sempre presente. Tripulantes de barcos perdidos ou que sofreram falha mecânica em pleno mar têm que contar com a solidariedade de outros pescadores. Cultivar inimizades pode trazer conseqüências dramáticas.

Durante uma entrevista, insistimos muito sobre a possibilidade de conflitos na apropriação dos espaços marítimos entre os pescadores locais, enquanto o entrevistado reafirmava que todos eram amigos e que se respeitavam. Se uma rede já estava estendida em um local, quem chegasse depois teria que se afastar, colocando sua rede de forma a não atrapalhar a pescaria alheia, ou seja, bloquear a “passagem do peixe”. Às vezes podiam surgir discussões, “bate-bocas”, mas que não derivavam em nada mais sério, pois “amanhã ou depois ele também precisa de mim lá fora, precisa de um reboque que o motor quebrou, aí a gente não vai deixar ele lá, já traz”. Porém, se “num dia aquele lá não me ajudou, então amanhã ou depois eu também já não ajudo ele. É assim”.

As desavenças podem ser mais fortes entre pescadores locais e pessoas vindas de fora, como pescadores ocasionais e turistas. Nestes casos “já conversamos em grosseria, briga”.

Não só as normas de ajuda mútua regem as relações de trabalho e de amizade, relações que facilmente se superpõem em uma localidade pequena. A remuneração para cada tipo de atividade é muito bem especificada, evitando-se descontentamentos. Beck (1979), que estudou uma localidade ao norte do município de Florianópolis, explica que a unidade de cálculo é o “quinhão”, termo que antigamente designava meia rede de sardinha e, agora, significa a parte que cabe a um “camarada”, sendo a “camaradagem” formada por pescadores que só têm de si a força de trabalho, não são donos do barco, nem das redes, nem têm funções especializadas como “livreteiro” (contador), “proeiro” etc. Quem desempenha mais de uma função ou, além de pescar, é dono de algum dos equipamentos, tem sua remuneração composta da soma de parcelas correspondentes a cada trabalho ou propriedade. Um barco com sua rede e a tripulação é chamado de “parelha”, daí a expressão “dono de uma parelha”. O dono não necessariamente é também o “patrão”. Há donos de parelha que não saem para o mar, nestes casos contratam um “patrão”, que é quem comanda a vida no barco. O grau de detalhamento com que é feita a contabilidade realmente impressiona um observador leigo. Os peixes são contados um a um.

A partilha, tal como é definida a repartição da produção, ocorre no final da safra. Toda produção comercializada é registrada pelo livreteiro, bem como tudo o que cada membro da camaradagem retirou durante o período em que a sociedade esteve constituída. Assim, 50% cabem à rede, ou aos donos das redes, os outros 50% cabem aos camaradas. Porém, algumas categorias, além do quinhão de camarada recebem mais um ou mais dois quinhões pelo desempenho de certas tarefas especializadas. É o caso do patrão por exemplo, que recebe um quinhão, às vezes um quinhão e meio, da parte do dono-da-rede, o mesmo acontecendo com os vigias, que recebem também um quinhão, da parte da rede e mais um quinhão da parte dos camaradas. (BECK, 1979, p. 83/84, grifos da autora).

Esta forma de remuneração continua vigente até hoje, como explica um pescador que é dono do barco e da rede, ou seja, é dono da “parelha”:

E qual é a parte deles (tripulantes) na pesca?

A parte deles (três tripulantes), nós dividimos a quantia em dinheiro conforme a mareada. A mareada é a quantidade de peixes. Eu fico com a metade, e a metade é pros três. Metade do dinheiro é meu, eu sou o dono do material, sou dono da parelha, e a outra metade é dividida pros três.

E até quem puxa o barco, quando ele chega, ganha peixe também?

Ganha, ganha! Todo mundo ganha. Se tiver 30 pessoas puxando o barco, os 30 vão ganhar cada um o seu peixe pra comer. É um cada um. Se for pouca gente ajudar e for bastante peixe, já leva dois, três peixes cada um. Leva uma corvina, um cação, uma anchova, uma tainha. Muitos não querem levar porque já têm peixe em casa, deixa pra outro dia. No outro dia ele leva.

Quanto mais valioso o peixe, mais estritas as regras, e a tainha é a espécie mais lucrativa. Um exemplo citado por Beck (1979, p. 78/79, grifos da autora) mostra bem a explicitação minuciosa das regras neste tipo de pesca.

Na lagoinha existem 26 redes para pescar tainha, o que não corresponde a igual número de donos-de-rede, pois alguns possuem mais de uma.

Estas 26 redes de tainha constituem uma sociedade, dividida em duas emendas de 13 redes cada uma.

A sociedade é constituída por um período de dois meses: maio e junho, que é o período da safra. Cada emenda possui dois vigias. Estes, num total de 4, se colocam em par, um de cada emenda, sobre a rocha do vigia, em cada extremidade da praia. A partir do momento em que é constituída a sociedade, pega-se a marcar o lance, isto é, qual das redes e de qual emenda deverá proceder o cerco do cardume sinalizado pelos vigias.

No cerco atuam duas redes: a primeira, ou seja, a que cerca diretamente o cardume; a segunda, que a auxilia e que cerca por trás. Ambas estão marcando o lance de suas respectivas emendas. O critério sobre qual das duas será a primeira a dar o lance é o do primeiro vigia a sinalizar o cardume.

A importância da segunda rede cercar por trás está no fato de que se o número de peixes for superior a 200, é dividido igualmente, entre as duas emendas.

Quando isso acontece, a primeira rede assume o último lugar na marcação do lance da sua emenda e a segunda rede volta à posição inicial, até ser a primeira a dar o lance. Caso a segunda rede não auxilie a primeira e o número de peixes seja superior a 200, a sua emenda não recebe a metade dos peixes e a rede passa a ser a última na marcação do lance da sua emenda. E, ainda, no caso do número de peixes ser inferior a 200, não há divisão e cada rede volta à posição inicial na marcação do lance de suas respectivas emendas.

Como se vê, não há igualdade entre os tripulantes de um barco, assim como não há igualdade em terra, existe sim uma hierarquia muito bem estabelecida. A longa tradição de estudos sobre revoltas de populações oprimidas, principalmente camponesas, nos revela que essas revoltas estão mais ligadas a mudanças bruscas de regras que à intensidade da exploração ou ao grau de miséria. Os costumes naturalizam o que é socialmente construído. O relacionamento entre os mais ricos e os mais pobres, entre patrões e camaradas, entre autoridades e população, entre outros, é facilitado pela existência das relações de vizinhança, de parentesco e pelo clientelismo sempre presente. Um outro fator que também reforça a necessidade de integração entre os habitantes de áreas costeiras é que as equipes pesqueiras, as sociedades, são temporárias, devendo ser refeitas a cada safra. Sendo assim, são os “bons patrões” que conseguem os “bons camaradas”.

Entre as tradições da pesca está a de que o mar é um espaço masculino. O trabalho da mulher se circunscrevia, até há pouco tempo, à casa e à “roça”, ou seja, à lavoura. As famílias dos pescadores eram também lavradoras. Atualmente, em decorrência da grande exploração imobiliária ocorrida em boa parte das praias catarinenses, essas terras de plantio desapareceram, embora ainda seja comum as mulheres cuidarem, pelo menos, de um pequeno “quintal”.

A falta de terras para plantar faz com que as mulheres busquem mais e mais trabalhos assalariados. Outro costume que está diminuindo, mas ainda é visível, é a confecção de rendas de bilro pelas mulheres. Tradição portuguesa que se enraizou fortemente nos povoados de colonização açoriana.

O trabalho das mulheres na pesca está ligado ao beneficiamento do produto que é trazido do mar. Elas limpam os peixes, tiram os mexilhões das conchas e, para isso, devem cozinhá-los antes, separam os camarões de suas cascas, desfiam siris e caranguejos etc. Essas tarefas tanto podem ser feitas por cada grupo familiar isolado, como em grupos de mulheres que vendem a força de trabalho. As assalariadas são, em geral, mulheres de pescadores que dispõem, naquele momento, de tempo livre ou têm necessidade de dinheiro. É comum seus maridos passarem meses embarcados em alto-mar, como camaradas, enquanto elas cuidam do sustento da família.

Faz parte também da ocupação destas mulheres a coleta de frutos do mar junto às praias, seja na areia, seja nos costões. Nestes lugares temos os mexilhões, o berbigão, as ostras nativas, as tatuíras e outros.

A tradição feminina voltada para o trabalho familiar na pesca faz com que as mulheres tenham uma visão favorável da maricultura, pois ela permite não só uma renda maior, como mantém pais e filhos trabalhando juntos. Nos cultivos próximos da praia, as mulheres participam fazendo o manejo. Embora algumas tenham carteira profissional de maricultoras, esta é uma situação rara. Em geral, são os maridos os responsáveis pela atividade, os registros são em seu nome, são eles que recebem os financiamentos e que comercializam. Quando a mulher se responsabiliza é porque tem filhos homens trabalhando junto, e o marido tem outra profissão. Do que observamos, não há mudança significativa na situação subordinada da mulher em relação ao marido nesta passagem da pesca artesanal para o cultivo.

Quanto ao trabalho assalariado feito pelas mulheres, não há mudanças. Como ele é visto como uma “ajuda” na renda familiar, é pouco regulamentado, e elas são mal pagas.

A MARICULTURA E SEUS PRINCIPAIS CONFLITOS

Sendo uma atividade nova, a maricultura não conta com a ajuda da tradição para aplainar arestas que ela mesma cria. A mais visível é a mudança da paisagem.

O mar, que era sempre tido como um espaço livre, aparece agora cheio de pequenas cercas brancas, que dificultam a movimentação dos barcos e dos cardumes e quebram a amplitude da visão. Como o mar “não é de ninguém”, não se pode impedir que instalações de cultivo sejam colocadas bem na frente da casa de moradores antigos ou dos que foram lá morar justamente por causa da beleza do horizonte. Ouvimos o relato de um cultivador que teve seus equipamentos seguidamente quebrados durante a noite como forma de protesto dos moradores, tendo sido obrigado a mudar-se de lugar. Assim como os moradores, os donos de barcos também se irritam com os limites impostos à navegação.

Ainda associada à idéia do mar como espaço livre, temos a concepção de que seus frutos são de todos, ou melhor, de quem os achar. A pesca, ao contrário da maricultura, é uma atividade de coleta e não de produção. Por isso, não é raro haver roubos de moluscos durante a noite. Tem-se problema semelhante com relação à retirada de sementes de mexilhão nos costões. Se alguns produtores tirarem muitas, outros ficam sem nenhuma, e pode-se perceber que esta não é uma atividade fácil de ser controlada. O que vem do mar sempre foi de quem chegasse primeiro e mantivesse segredo sobre a localização das áreas mais piscosas.

Denunciar excessos nesse sentido nem sempre é recomendável. As autoridades sempre foram vistas como inimigas pelas populações mais pobres e, no caso das localidades pesqueiras, ainda há uma forte tradição de ajuda mútua. Acusar um vizinho pode significar represálias como agressões físicas. Por esses mesmos motivos, é difícil eleger membros das comunidades como fiscais, embora sejam os mais bem situados para exercer qualquer controle.

O declínio da pesca artesanal, associado ao baixo custo dos equipamentos para produção de moluscos, levou a um grande crescimento desta atividade, antes que houvesse tempo para maiores regulamentações. As normas vão surgindo aos poucos, resultando de muitos embates de interesses e provocando outros tantos. Se antes era mais fácil estabelecer-se como maricultor, novas regras estão aumentando cada vez mais as exigências, seja em termos do conhecimento do produtor, seja em qualidade dos equipamentos.

Segundo Vinatea (2000, p. 111/112) e informações obtidas junto aos técnicos do setor, o acesso às baías para fins de maricultura encontra-se regulamentado pela associação de maricultores e pela EPAGRI, e cabe a esta última tramitar as licenças dos interessados em se iniciarem nesta atividade junto a outros órgãos.

Junto à Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina – FATMA deve ser obtida a licença ambiental; junto ao Ministério da Agricultura, o registro de maricultor que, até abril de 2000, era fornecido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA; a Secretaria do Patrimônio da União – SPU confere se a área requisitada está entre as demarcadas para a aqüicultura; e a Capitania dos Portos do Ministério da Marinha verifica se não haverá interferência com as atividades de navegação. Cabe à EPAGRI também consultar a Prefeitura para saber se a demarcação da área não entra em conflito com os planos diretores do município. Como as áreas marítimas são da União, não se pode falar em propriedade das áreas, mas sim em posse.

São as associações de maricultores que, em assembléia geral, decidem sobre a admissão de novos associados. Como a maricultura foi iniciada no Estado com base em pesquisas desenvolvidas pela Universidade Federal de Santa Catarina, que é uma instituição pública de ensino, e com o apoio do principal órgão de extensão rural do Estado, a extinta ACARPESC, houve preocupação em priorizar o atendimento ao pescador artesanal. Porém, isto só foi possível no caso da mitilicultura, pois esta exige poucos investimentos. Tanto assim que mais de 80% dos produtores de mexilhões são pescadores. O mesmo não acontece no cultivo de ostras que, por exigir maiores investimentos, está nas mãos principalmente de empresários, mesmo que pequenos.

Que a produção de mexilhões é mais “democrática” que a de ostras pode ser visto pelos números: temos atualmente, em Santa Catarina, cerca de 1.050 produtores de mexilhões para cerca de 100 produtores de ostras.

No momento, a EPAGRI está procurando incentivar a cultura de mexilhões em áreas mais distantes da praia, onde se precisa de mais investimentos, tendo como justificativa o aumento da produção, com conseqüente acréscimo de empregos, ao mesmo tempo em que minimiza a sobrecarga dos ambientes de cultivo próximos à costa. Está havendo um estímulo ao desenvolvimento de uma mentalidade mais empresarial por parte dos ex-pescadores, hoje cultivadores.

Há, porém, riscos nesta atitude, no sentido de diminuir o papel social que está tendo a maricultura, possibilitando melhores alternativas de vida a populações de baixa renda. Não devemos nos esquecer do quanto a extensão rural foi seletiva no Brasil, tendo criado grandes contingentes de excluídos, parte dos quais se integraram ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Dependendo do modelo de desenvolvimento que for adotado para a produção marítima, poderemos ter os “sem-mar”. Se levarmos em conta que há um mercado à espera, pois a produção atual não dá conta nem mesmo do consumo interno, podemos apostar em um aumento da disputa pelo recurso finito que são as áreas liberadas para cultivo.

Há países, cujo principal exemplo é o México, que estimulam a produção na forma de sistemas coletivizados, enfatizando a gestão através de condomínios, cooperativas, integrações e outras formas associativas. Embora haja exemplos bem-sucedidos desta forma de organização no estado, há fortes indícios de que os incentivos estejam na direção de uma mercantilização crescente. Surgiu, em 11 de abril de 2001, a Instrução Normativa Interministerial n°. 9 que está provocando reações por sua pouca ênfase nas questões sociais. Preocupa-se mais com as regulamentações técnicas e, entre outras disposições, exige que as áreas de cultivo sejam individualizadas. Até o momento, a EPAGRI tem assumido a administração de muitas áreas, alocando os cultivos segundo normas que contemplam prioridades sociais. Foi dado um prazo para que os produtores se ajustem à nova legislação, mas os especialistas estão prevendo dificuldades, pois cada produtor, por pequeno que seja, terá que se ajustar a muitas exigências técnicas e enfrentar burocracias complicadas, pois, como já vimos, há muitos órgãos envolvidos. Isto não significa que não haja maricultores favoráveis à posse individual, mas sim que aí reside uma nova fonte de conflitos.

Obviamente nenhum dos especialistas entrevistados é contra normas que impliquem controle da qualidade e da pureza do produto. O que se alega é que as regras que se querem obedecidas no Brasil são muito mais rígidas que as observadas em países europeus também produtores de moluscos, como é o caso, por exemplo, da França. Preocupações higienistas, como mostra a história brasileira, podem conter em seu bojo reservas de mercado. Situação semelhante foi vivida no Oeste do Estado quando da implantação de frigoríficos nos anos 70 e, atualmente, na questão da qualidade do leite. No primeiro caso, muitos suínos foram abatidos, e a produção caseira severamente restringida em função de as autoridades terem alegado presença de um mal contagioso, a “peste suína”. Até hoje a existência ou não da peste é assunto polêmico (PAULILO, 1990). Quanto ao leite, quando seu preço foi liberado depois de 45 anos de tabelamento, em 1990, surgiram sérios questionamentos sobre a qualidade do produto oriundo dos estabelecimentos mais rústicos, o tipo “C”, embora ele estivesse dentro dos padrões sanitários exigidos no País (PAULILO, 2001).

Ainda no que diz respeito à relação entre os maricultores e os órgãos oficiais, não se pode esquecer da forte influência do clientelismo, que se manifesta de várias formas. Uma delas é a longa permanência das mesmas pessoas nos cargos de direção das colônias (CÓRDOVA, 1986, entre outros). Nas entrevistas, a influência dos políticos locais nas decisões ligadas à pesca é explicitada sem nenhum pejo. Outra é a maneira como certas exigências são contornadas ao invés de serem cumpridas.

Como exemplo, citamos uma entrevista em que um pescador estava descrevendo o aumento das exigências para se obter a carteira profissional, que hoje inclui prova escrita e teste de natação:

No meu tempo, eu chegava lá no balcão e pedia, eles davam. Mas agora ele (um camarada) foi sexta, sábado e vai voltar amanhã que é o último dia: natação, escrita (…) Eu também, se cair na água também não sei (nadar), eu só nado cachorrinho. Aí o homem que manda lá já entende que a gente já quer o documento porque é obrigado a fazer, aí já deixa passar.

“O homem que manda lᔠdeixa passar não só no teste de natação, como também na temida prova escrita: “Oh, senhora! Isso é que é duro, escrever né? Deus o livre!”. Quando insistimos sobre o destino dos pouco alfabetizados, eis a resposta: “eles deixam passar em branco”.

Essas soluções só são possíveis porque ser profissional da pesca é uma ocupação pouco invejada. Pode-se prever que a entrada na maricultura de pessoas estranhas ao meio e a disputa cada vez maior por um pedaço de mar vão quebrar esses laços tradicionais de solidariedade e clientelismo, jogando o pescador em novas redes de relações que ele desconhece e, inclusive, teme.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa, por estar ainda em andamento, pouco conclui. Apenas reforça que, para ser fiel a seu objetivo principal, que é ver a maricultura do ponto de vista das relações de poder e das formas de legitimação que este poder busca, é importante desconstruir o discurso homogeneizador sobre a maricultura, muito utilizado politicamente no Estado, que a considera, sem problematizar, como uma alternativa para os pescadores artesanais que perderam suas condições de trabalho e como uma atividade que beneficia a família como um todo. Também chamamos a atenção para os riscos de se tomar as leis de mercado, construídas pelos homens, como inevitáveis. A exclusão dos pequenos produtores em decorrência da intensidade da competição não é “natural”, mas fruto do modelo de desenvolvimento que se quer implantado.

Com relação à maricultura como alternativa para as famílias de pescadores, em que pese sua real importância neste sentido, é preciso levar em conta as múltiplas possibilidades de exclusão que estão aparecendo: famílias com recursos e/ou instrução insuficientes para competir com os novos interessados na atividade; população costeira pobre que vive do turismo; população afetada pela poluição ambiental; mulheres que continuam dependendo dos maridos para qualquer movimentação no espaço público; mulheres assalariadas mal remuneradas, entre outros.

Maria Ignez S. Paulilo

BIBLIOGRAFIA

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MACHADO, Márcia. Maricultura como base produtiva geradora de emprego e renda; estudo de caso para o distrito de Ribeirão da Ilha no município de Florianópolis-SC-Brasil. 2002. Tese defendida junto ao Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção/UFSC. Florianópolis.
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Fonte: www.sociologia.ufsc.br

Maricultura

Maricultura
Maricultura

Especialistas da National Geographic acreditam que no futuro, a criação de peixes será feito com a ajuda de esferas gigantes que flutuam no oceano.

A demanda por peixes está aumentando.

Aquicultura produz cerca de metade dos estoques consumidos em todo o mundo. Por isso, é lógico acreditar que o fenômeno da pecuária neste setor irão desempenhar um papel importante.

De acordo com especialistas da National Geographic, fazendas independentes poderiam ser implantados no oceano. Estes assumem a forma de esferas gigantes e assim iria viajar para imitar os movimentos dos cardumes.

Essas esferas são ainda capazes de gerar sua própria eletricidade por acumular energia solar e correntes, entre outros.

Ciência ou Ficção?

Saberemos em poucos anos …

Fonte: www.insolite.ca

Maricultura

A maricultura é a arte de cultivar organismos marinhos: algas, crustáceos, peixes, moluscos, etc. É uma atividade antiga que nos últimos anos vem crescendo em todo o mundo e adotando novas técnicas modernas e sustentáveis, como alternativa a pesca e ao extrativismo, que se encontra em declínio acentuado em todo o mundo. A maricultura constitui também um fator de desenvolvimento sócio econômico na medida em que introduz tecnologias baratas e acessíveis que podem ser desenvolvidas pelas comunidades pesqueiras artesanais.

TIPOS DE MARICULTURA

MOLUSCOS BIVALVES

OSTREICULTURA

A ostreicultura tem sido desenvolvida e aperfeiçoada principalmente por países asiáticos aonde o cultivo de ostras vem de muitos séculos. O cultivo de ostras talvez seja uma das formas mais antigas de aqüicultura, datando, pelo menos, do período do Império Romano.

No Brasil a ostreicultura iniciou na década de 70, principalmente no Sudeste e Sul, sendo que um dos principais órgãos de introdução das técnicas e desenvolvimento de pesquisas com Ostreicultura foi o Instituto de Pesca, em Cananéia, SP.

É uma atividade recente, de baixo custo, importante na preservação ambiental como alternativa ou desenvolvida paralelamente à pesca e de importância social e econômica como fonte complementar de alimentação e renda à família.

Principais espécies cultivadas:

Crassostrea rhizophorae (ostra do mangue), espécie nativa é a mais cultivada no Brasil;
C. gigas (japonesa ou do Pacífico), foi introduzida no Brasil, aonde vem sendo cultivada em Santa Catarina e São Paulo (experimentalmente); C.virginica (ostra norte-americana): cultivada nos Estados Unidos e México;
C. angulata (portuguesa): cultivada em Portugal, Espanha e França;
Ostrea lúrida (ostra plana do pacífico): cultivada nos Estados Unidos e Canadá;
O. edulis (ostra plana chilena): cultivada na Itália, França, Grã-Bretanha, Espanha, Holanda e Bélgica.

CICLO DE VIDA

A ostra pode ser fêmea e depois macho e ir alternando entre macho e fêmea até o fim da vida. Jovens geralmente são machos e depois da desova poderão ser machos ou fêmeas. A diferenciação sexual somente é possível pela analise no microscópio. A fecundação é externa, e vinte e quatro horas depois da fertilização as larvas desenvolvem suas pequenas conchas.

Estágio das larvas: Ovo-trocófora (tamanho = 50 micra); idade = 1 dia; Véliger (tamanho = 100-120micra); idade = 1-6 dias; Umbonada (tamanho = 55-70 micra); idade = 1-14 dias; Pediveliger (tamanho = 250 micra); idade = 14-18 dias; Semente (tamanho = 300 micra); idade = 21 dias.

CONDIÇÔES NECESSÀRIAS A OSTREICULTURA

Salinidade: a salinidade, em ambiente estuarino, onde é cultivada a C. rhizophorae é muito instável e existem variações importantes que podem contribuir na regulação dos processos reprodutivos. A ostra do Pacífico, C. gigas, exige salinidades mais elevadas e se desenvolve muito bem em ambientes com salinidade de 18 a 32 %.
Produtividade primária:
sendo filtradores, as microalgas são os alimentos mais importantes para as ostras, a quantidade de “clorofila a” e a biomassa fitoplanctônica, são estimadas para a instalação do cultivo. Geralmente nas regiões costeiras, principalmente próximo a rios, a produtividade primária é alta.
Temperatura da água:
este fator influencia no metabolismo das ostras sendo que C. rhizophorae por viver na região costeira suporta variações de temperatura já ostra do Pacífico, originária de climas temperados, cresce melhor no inverno sendo que a temperatura ideal seria 14,5 °C, temperatura superior a 28°C podem interromper o crescimento, e até mesmo provocar a morte.
Poluição:
a poluição é um fator muito importante e que determina a qualidade final do produto. Substâncias tóxicas, esgotos, despejos industriais, óleos de barco ou navios, defensivos agrícolas, que são carreados pelas chuvas podem afetar o cultivo e afetar a saúde de quem consome as ostras. Proximidades de áreas de pesca, áreas de navegação e proximidade de centros urbanos também devem ser evitados.
Renovação de água
: deve ser constante favorecendo a boa alimentação para os moluscos.
Ventos, ondas e correntes marítimas:
escolher locais abrigados, se esses fatores forem excessivos podem prejudicar as estruturas de sustentação do cultivo e a fixação das ostras.

SISTEMAS DE CULTIVO

Balsas: locais protegidos com mais de 4m de profundidade = conjunto de bóias e armação de madeira mantido sobre a superfície, ancorada com cabos ligados a poitas, com dimensões das balsas e o número de flutuadores variando de acordo com o local, profundidade etc.
Mesa ou Tabuleiro: locais mais rasos (até 3 metros), armação de madeira com pés enterrados em fileiras. O material utilizado para a construção destas estruturas pode ser o bambu ou PVC. pelo seu baixo custo. Na região de Cananéia (SP), as ostras são envolvidas em telas plásticas, que são colocadas em mesas nas regiões intermareais. Este mesmo tipo de cultivo também é utilizado tradicionalmente na França.
Long-Line ou Espinhel: locais mais profundos e mais expostos aos ventos e correntes Constituem-se em um cabo ancorado e mantido suspenso na água por intermédio de bóias. O espaçamento entre um espinhel e outro varia de 5 a 15 metros. As estruturas contendo as ostras (lanternas, caixas, etc.) são atadas à linha principal. Neste sistema de cultivo submerso geralmente deve-se contar com o apoio de mergulhadores.

CULTIVO

Reprodução: matrizes colocadas nos tabuleiros liberam os gametas na água onde ocorre a fecundação e o nascimento das larvas. — Sementes = quando a larva forma a concha e se fixa nas raízes do mangue ou outro tipo de substrato. —— Engorda as sementes com mais de 5 cm são retiradas das raízes ou coletores e são colocadas no viveiro de engorda onde passam de 3 a 4 meses se alimentando do fitoplancton encontrado na água do mar. —- Castigo as ostras são submetidas a períodos de exposição ao sol, processo de seleção em que sobrevivem as mais resistentes. —– Depuração as ostras são depositadas um tanque com água do mar, filtrada e tratada com raios ultravioleta por no mínimo 6h, eliminando odores, resíduos e bactérias. —– Beneficiamento – são excluídas as conchas abertas (mortas), classificadas por tamanho lavadas e embaladas.

O sucesso do cultivo depende de um local adequado e do abastecimento de sementes. Para C. rhizophorae, as sementes podem ser coletadas no próprio ambiente através de coletores Os coletores podem ser confeccionados de garrafas plásticas cortadas e sobrepostas, conchas de moluscos perfuradas e sobrepostas, em forma de colar ou laminas de persianas. As sementes podem também ser produzidas em laboratório Como é o caso de C. gigas. O Laboratório de Cultivo de Moluscos Marinhos, da Universidade Federal de Santa Catarina, produz e vende sementes de ostras aos produtores

MITILICULTURA

Mitilicultura é o cultivo de mexilhões sendo que a espécie mais utilizada em cativeiro no Brasil é Perna. É realizada de forma industrial em diversos países europeus e asiáticos desde o século XIX. Todavia é uma atividade recente no Brasil, sendo praticada de forma comercial a partir dos anos 80.

Os mexilhões são bivalves marinhos que vivem aderidos a substratos consolidados, tendo nos costões rochosos das regiões entre marés seu habitat principal (até 10 m de profundidade). A espécie Perna cultivada no Brasil é a que apresenta crescimento mais rápido entre os mexilhões cultivados em todo o mundo. Esse fato, aliado ao seu sabor agradável e à sua rusticidade, estimulou a expansão do cultivo principalmente no Estado de Santa Catarina. No Estado de São Paulo, a mitilicultura é praticada de forma semi-artesanal, principalmente no litoral norte, por famílias de pescadores e comunidades tradicionais.

Os mexilhões se alimentam, por meio de filtração, de plâncton, microrganismos e matéria orgânica, em um processo contínuo, só interrompido quando são expostos ao ar ou submetidos a condições ambientais desfavoráveis (baixa salinidade, reduzidos teores de oxigênio, etc.).

CICLO DE VIDA

São dióicos (sexos separados), sendo raros os casos de hermafroditismo. Quando os mexilhões estão sexualmente maduros, ocorre à emissão dos gametas, e a fecundação ocorre no ambiente aquático, externamente ao corpo do animal. Como resultado da fecundação origina-se o ovo, do qual eclode a larva de vida livre, deslocando-se através de natação ou por correntes marítimas. Nesta fase ocorre a maior mortalidade, podendo chegar a 99%. Após passarem pelas fases de desenvolvimento, as larvas sofrem a metamorfose, paras o mexilhão jovem, o qual passa a viver sedentariamente, aderido a um substrato qualquer.

Estágio das larvas:

Ovo- Trocófora: forma-se de 6-8 horas após a fecundação, apresenta intenso movimento de rotação e translação — Véliger é completamente envolvido pela concha larval chamada Prodissoconcha I, transparente, forma-se 17 a 24 horas após a fecundação
Veliconcha:
ocorre a segunda concha larval = Prodissoconcha II. forma-se 40 e 48 horas após a fecundação
Pedivéliger
: precede a fixação e metamorfose para pós-larva (dissoconcha).
Dissoconcha:
surge o bisso e a larva procura lugar para se fixar. Nesta fase, a metamorfose é completa e a larva assume o aspecto de animal adulto, forma-se após 40 dias após a fecundação.

SISTEMAS DE CULTIVO

Cultivos suspensos – os mexilhões ficam fixos a substratos presos a uma estrutura na superfície, pendendo livremente na camada d’água sem tocar o fundo.
Flutuantes – Praticado no Brasil, Chile, Canadá, Estados Unidos da América, China e Espanha. Consiste em estruturas flutuantes com cordas (redes de contenção com mexilhões jovens para engorda) fundeadas por poitas ou âncoras, sem contato com o substrato, com máximo aproveitamento da coluna d’água, os animais ficam submersos e protegidos dos predadores do fundo.

Cultivos fixos

Mesa – Consiste na ancoragem de estacas sobre as quais é construído um engradado ou mesa, onde são suspensas as cordas ou redes de crescimento que ficam dentro d’água. Apresenta a desvantagem de ficarem expostos parcialmente nos períodos de maré baixa.
Tomateiro – trata-se de um método onde se fixam estacas com até 3 m de bambu ou madeira cruzadas na superfície. Transversalmente, outros bambus são amarrados e neles se penduram às cordas. É um método utilizado em profundidades de até 3 metros. Apresentam boa produção, baixo investimento e facilidade de manejo.
Long line – várias cordas são suspensas a partir de uma linha mestra na coluna d’água tanto para coleta de sementes, como para o subseqüente crescimento dos mexilhões. ancorados ao fundo por lastros que servem de suporte as cordas. As cordas de cultivo são semeadas introduzindo os indivíduos em redes tubulares de algodão e protegidas por redes de polietileno unidas a um lastro. Uma vez que a rede de algodão se desintegra e as sementes se fixam pelo bisso, a rede de polietileno se desloca para o centro de conjunto formando um emaranhado central que serve como estrutura de suporte no processo de engorda.
Cultivos de Fundo – Necessita de praias abertas, calmas, com fundos consolidados (de pedras), para que os animais nele se fixem pelo bisso. Consiste em transferir mexilhões jovens de áreas de grande abundância de sementes para locais de bom crescimento e potencial de engorda. Desvantagem = predação por organismos de fundo (estrelas e caranguejos, principalmente).
Estacas – Por ser um método que pode se utilizado somente em praias de fundo lodoso, pouco profunda, de declividade suave e com grandes oscilações de marés, ele está restrito ao litoral ocidental francês, sendo pouco utilizado atualmente. São postes de madeira cravados sobre o fundo do mar, formando linhas retas perpendiculares à praia. As sementes ao retiradas de costões afastados da praia e trazidas para os postes da região mais rasa, onde são aderidas com o auxilio de malhas de algodão, para crescimento e engorda.

CULTIVO

Obtenção de sementes

A obtenção de sementes de mexilhão é primordial para o cultivo, podendo ocorrer de três formas: extração dos estoques naturais nos costões rochosos, captação por meio de coletores artificiais, e produção em laboratório.

Bancos naturais é o método mais prático, porém não o mais recomendável. A extração é feita através de raspagem com espátulas em diversos costões dos indivíduos que medem de dois a três centímetros, durante a maré baixa. A raspagem desses bancos acarreta forte impacto ambiental, pois alem das sementes, são extraídas, outras espécies animais e vegetais, essenciais para a recuperação do ecossistema.

Coletores artificiais = consiste na disposição de estruturas para fixação das larvas de mexilhão presentes na água do mar até que sofram metamorfose e se transformem em “sementes”. É um método mais racional e ecológico. É necessário o conhecimento das condições oceanográficas do local, das épocas de reprodução, uma vez que as estruturas devem ser dispostas na água cerca de dois meses antes dos picos de desova. Os substratos utilizados na captação de sementes podem ser lisos, (bambu e tubos de PVC), são mais eficientes quando estendidos horizontalmente, ou rugosos (redes de pesca velhas e sacos de ráfia, suspensos verticalmente em uma estrutura flutuantes. Neste caso, a profundidade não deve ultrapassar os dois metros, já que as larvas tendem a se concentrar próximas à superfície, atraídas pela luminosidade.

Produção em laboratório

A larvicultura em laboratório para produção de sementes de mexilhão é utilizada em alguns países como alternativa para garantir a produção em regiões com captação irregular, para a reprodução controlada de espécies exóticas ou para a realização de seleção genética. No entanto é uma produção dispendiosa, principalmente se considerarmos espécies nativas como o Perna perna que apresenta amplo estoque natural.

SEMEADURA

Processo durante o qual as sementes são colocadas nas estruturas de engorda, pra se desenvolver. São dois os métodos básicos para semeadura de mexilhões, conhecidos como método espanhol e método francês.

Espanhol – Consiste em encordoar o mexilhão, com a ajuda de uma bandagem de algodão. Num cabo de náilon de preferência com barbelas que se projetam para fora do diâmetro principal.

ENGORDA

A engorda é caracterizada pela manutenção do mexilhão no mar até adquirir peso e tamanho adequados a comercialização

COLHEITA

A colheita, ou despesca dos mexilhões, é feita quando os animais atingem o comprimento adequado à comercialização.

Compreende: retirada dos mexilhões da rede; limpeza dos que consiste em livrá-los dos animais, principalmente, cracas, briozoários e ascídias, e de algas; separação dos mexilhões por classes de tamanho

DEPURAÇÃO

A depuração é necessária quando o mexilhão é cultivado em águas onde o índice de coliformes é elevado, fato este que resulta na contaminação do mexilhão. O mexilhão se auto depura. É necessário apenas fornecer-lhe água de boa qualidade sanitária. Manter os moluscos por certo tempo em água tratada, livre de microrganismos ou, em concentrações não patogênicas.

COMERCIALIZAÇÃO

O maior problema na comercialização do mexilhão foi sempre à falta de garantia da sua qualidade, já que os grupos extratores de uma maneira geral, não observam normas de higiene e sanidade do produto. Diferentemente da ostra, o mexilhão é comercializado cozido e sem a concha, fresco ou congelado. Pode ser vendido também in natura, frescos, na concha, assim que são colhidos, mas o seu consumo só pode ser feito após o cozimento.

“Dentre os bivalves, alem da ostreicultura e mitilicultura para consumo como alimento, existe a produção de ostras perliferas, praticada principalmente na Ásia e a pectinicultura, cultivo de pecten ou vieira, difundida na Europa e ainda em fase experimental no Brasil.”

GASTROPODES

HELICICULTURA

Termo zootécnico introduzido no Brasil no ano de 1983, correspondente à criação de moluscos exóticos europeus Helix spp.

Atividade voltada para criação de caracóis (escargots) para fins comerciais. Simples e fácil, pode ser um negócio bastante rentável, principalmente para aqueles que têm o conhecimento do seu manejo

Condições para a instalação do cultivo:

O clima da região um fator importante. No Brasil, apresenta condições bem mais favoráveis para a helicicultura do que países de climas temperados ou frios, desde que forneçamos a esses animais, instalações que lhes proporcionem as condições ambientais por eles exigidas, principalmente em relação à umidade e à temperatura.

Temperatura é um dos fatores de maior importância na criação de escargots, em temperaturas elevadas são muito sujeitos à desidratação e as baixas diminuem o ritmo do metabolismo, provocando atrasos no seu crescimento ou provocando a hibernação. As temperaturas ideais para os escargots são entre 16ºC e 24ºC.

Regime pluviométrico = incidência de chuvas durante o ano, esses dados são importantes porque nos permitem, por exemplo, evitar regiões com poucas chuvas ou muito secas, que são impróprias para a criação de escargots.

Umidade – a grande permeabilidade do corpo dos escargots faz com que se desidratem com muita facilidade e rapidez, levando à morte. A umidade dentro do heliário deve ser controlada, monitorada com higrômetros e alterada artificialmente quando necessário com sistemas de aspersão de água.

Ventos os ventos são muito prejudiciais porque, incidindo diretamente sobre o seu tegumento, aceleram a sua evaporação corporal, provocando uma queda do seu índice de umidade e causando, conseqüentemente, o seu ressecamento

Luz escargots sofra a influência da luz ou luminosidade, quando prolongada, em suas funções orgânicas. Esses animais são ativos durante a noite ou em dias nublados, não tolerando muito sol.

CULTIVO

Pode ser praticada por:

Confinamento ao ar livre – sistema tradicional de parques helicicultores, confinados a cercados cobertos com tela e iluminação controlada.
Verticalização em prateleiras –
em caixas plásticas ou madeira em galpões com luz controlada

Alimentação: deve ser farta, para satisfazer a voracidade desses moluscos, que chegam a ingerir diariamente de 50 a 60% do seu peso em alimentos. Dieta eminentemente vegetariana necessidade de contínuo e volumoso consumo de alimentos para saciar a fome, principalmente na fase de crescimento, quando os alimentos devem ser convertidos em massa corporal. Vegetais em geral- hortaliças e verduras; frutas; raízes e tubérculos; cereais e grãos; Calcio – pó de osso, de casca de ostra ou de ovo, necessário para a formação da concha, do manto, do dardo, da rádula e do opérculo; Fósforo – combinação com o cálcio, imprescindíveis, para produzir a energia geradora das atividades cotidianas do escargot; Líquidos: ele o obtém não só pelo consumo direto, como também a extraindo do verde de que se alimenta.

Reprodução: se acasalam várias vezes por temporadas, em média duas a três vezes, embora não se saiba exatamente o número de repetições. Mantêm-se também ativos para a reprodução vários anos de sua vida. Porém a partir do 2º ano é menor a produção de ovos por postura.

Fonte: www.unisanta.br

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