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Autismo

Facilmente confundido com deficiência mental, o autismo é um transtorno do desenvolvimento que geralmente está associado a outras deficiências. As causas ainda não foram descobertas, mas, ao contrário do que se imagina, é possível evitá-lo. Abaixo, destacamos alguns dos principais aspectos que envolvem o tema.

O que é

A palavra "autismo", atualmente pode ser associada a diversas síndromes, o que aumenta a possibilidade do autista ser considerado portador de deficiência mental. É, na verdade, um transtorno do desenvolvimento e quem o possui apresenta, em muitos quadros, quociente de inteligência (QI) abaixo da média. É um transtorno sem fronteiras geográficas e sociais, ou seja, ocorre no mundo inteiro e em todas as classes sociais e econômicas.

Causa

Embora haja grupos de estudos e pesquisas no mundo inteiro, ainda não foi detectada a causa do autismo.

Como reconhecer

Os sintomas variam amplamente e manifestam-se de diversas formas, variando do mais leve ao mais alto comprometimento. Em cooperação internacional, os especialistas concordaram em usar alguns critérios de comportamento para diagnosticar o autismo.

Atualmente há duas publicações que descrevem os sintomas que levam ao diagnóstico da pessoa autista. Uma é o Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (DSM-IV), da Associação Psiquiátrica Americana ; e a outra é a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicada pela Organização Mundial de Saúde.

Conheça como se manifesta o autismo

Marcante lesão na interação social, manifestada por:

Diminuição no uso de comportamentos não-verbais como contato ocular (evita olhar nos olhos do interlocutor), expressão facial, postura corporal e gestos para interagir socialmente.
Dificuldade em desenvolver relações de companheirismo apropriadas.
Ausência de procura espontânea em dividir satisfações, interesses ou realizações com outras pessoas.
Falta de reciprocidade social ou emocional (indiferença).

Marcante lesão na comunicação, manifestada por:

Atraso ou ausência total de desenvolvimento da linguagem oral, sem ocorrência de tentativas espontâneas de compensação através de modos alternativos de comunicação, como gestos ou mímicas.
Em pessoas com fala normal, diminuição da habilidade de iniciar ou manter uma conversa com outras pessoas.
Ausência de ações variadas de imitação social apropriadas para o nível de desenvolvimento.

Padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades, manifestados por:

Obsessão por atitudes ou objetos específicos.
Fidelidade aparentemente inflexível a rotinas ou rituais específicos.
Hábitos motores repetitivos, por exemplo, agitação ou torção das mãos ou dedos e repetidos movimentos corporais.

Outras formas de reconhecer o autismo:

Resistência ao aprendizado
Ausência de noção de perigo
Indicação de necessidades com gestos
Resistência ao contato físico e a afetividade
Hiperatividade física
Comptamentos agressivo e destrutivo

Atenção: Esses sintomas individuais não configuram o autismo. A combinação de vários é que pode levar ao seu diagnóstico. Um especialista deve sempre ser consultado para orientação e esclarecimento.

Tratamento

Não há cura para o autismo.

A pessoa autista pode ser tratada e desenvolver suas habilidades de uma forma mais intensiva do que outra pessoa que não apresente o mesmo quadro e, então, assemelhar-se muito a essa pessoa em alguns aspectos de seu comportamento.

Porém, sempre existirá dificuldade nas áreas atingidas pelo autismo, como comunicação e interação social.

O autista pode desenvolver comunicação verbal, integração social, alfabetização e outras habilidades, dependendo de seu grau de comprometimento e da intensidade e adequação do tratamento que, em geral, é realizado por equipe multidisciplinar nas áreas de Fonoaudiologia, Psicologia, Educação Física, Musicoterapia, Psicopedagogia e outras.

Fonte: www.centrorefeducacional.com.br

Autismo

“Perda de contato com a realidade exterior”

Definição

O autismo é uma doença psiquiátrica rara e grave da infância – Síndrome de Kanner – autismo infantil – caracterizado por um desenvolvimento intelectual desequilibrado, afetando também a capacidade de socialização.

Podemos também caracterizá-lo como uma anormalidade grave que se caracteriza por severos problemas ao nível da comunicação e do comportamento, e por uma grande incapacidade em relacionar-se com as pessoas de uma forma normal.

"É hoje geralmente aceite que as perturbações incluídas no espectro do autismo, Perturbações Globais do Desenvolvimento nos sistemas de classificação correntes internacionais, são perturbações neuropsiquiátricas que apresentam uma grande variedade de expressões clínicas e resultam de disfunções do desenvolvimento do sistema nervoso central multifatoriais" (Descrição do Autismo, Autism-Europe, 2000).

O autismo é uma perturbação global do desenvolvimento infantil que se prolonga por toda a vida e evolui com a idade.

Os adolescentes juntam às características do autismo os problemas da adolescência, podendo contudo, melhorar a capacidade de relacionar-se socialmente e o seu comportamento ou, pelo contrário, podem voltar a fazer birras, mostrar auto-agressividade ou agressividade para com as outras pessoas.

É um distúrbio neurofisiológico e a sua causa é desconhecida. Alguns investigadores atribuem a alterações bioquímicas.

Outros associam a distúrbios metabólicos hereditários, encefalites, meningites, rubéola contraída antes do nascimento, ou até a lesões cerebrais. Porém existem bastantes incertezas e dúvidas na relação do Autismo com estas doenças.

O autismo resulta de uma perturbação no desenvolvimento do Sistema Nervoso, de início anterior ao nascimento, que afeta o funcionamento cerebral em diferentes áreas: a capacidade de interação social e a capacidade de comunicação são algumas das funções mais afetadas.

As pessoas com autismo têm uma grande dificuldade, ou mesmo incapacidade, de comunicar, tanto de forma verbal como não verbal. Muitos dos autistas não têm mesmo linguagem verbal. Noutros casos o uso que fazem da linguagem é muito limitado e desadequado. No que respeita à comunicação não verbal, há uma acentuada incapacidade na sua utilização.

Paralelamente, as pessoas com autismo têm uma grande dificuldade na interpretação da linguagem, devido à dificuldade na compreensão da entoação da voz e da mímica dos outros com quem se relacionam.

O isolamento social é outra característica do autismo.

Outra particularidade comum no autismo é a insistência na repetição. Por isso é que as pessoas com autismo seguem rotinas, por vezes de forma extremamente rígida, ficando muito perturbadas quando qualquer acontecimento impede ou modifica essas rotinas.

O balançar do corpo, os gestos e os sons repetitivos são vulgares, sendo mais frequentes em situações de maior ansiedade.

A maioria dos autistas tem também deficiência mental, com níveis significativamente baixos de funcionamento intelectual e adaptativo. Cerca de 30% dos autistas pode sofrer também de epilepsia.

O autismo resultante de uma perturbação do desenvolvimento embrionário, contudo, não é possível o diagnóstico pré-natal do autismo, nem este se manifesta por quaisquer traços físicos, o seu diagnóstico não é, em princípio, possível de ser feito nas primeiras semanas ou meses de vida.

A perturbação da interação social do bebé é geralmente o primeiro sinal que alerta para a hipótese de diagnóstico de autismo o qual, nos casos mais graves, pode chegar a ser identificado antes do primeiro ano de idade.

Causa

A causa ou causas específicas do autismo são ainda desconhecidas, sabe-se, contudo que tem uma base genética importante.

Sobre esta determinante genética seriam acumulados fatores adicionais (do meio interno e/ou envolvente) que eventualmente poderiam levar ao autismo e que seguramente contribuem para a sua expressão. Está, por outro lado, bem demonstrado que fatores como a relação mãe / bebé ou a educação, não determinam em nada o aparecimento do autismo.

Trata-se de uma perturbação global do funcionamento cerebral, que afeta numerosos sistemas e funções, eventualmente com múltiplas causas e que se expressa de formas bastante diversas.

Existem medicamentos que podem aliviar os sintomas e as alterações comportamentais associadas ao autismo.

A quase totalidade dos autistas será sempre incapaz de gerir de forma autónoma a sua pessoa e bens, pelo que necessitam, durante toda a vida, do auxílio de terceiros. Estes devem atender à natureza única de cada pessoa com autismo e criar condições que permitam a expressão máxima das capacidades individuais.

Nas décadas de 40 e 50 acreditava-se que a causa do autismo residia nos problemas de interação da criança com os pais e com a família. Várias teorias sem base científica e de inspiração psicanalítica culpabilizavam os pais (em especial as mães) por não saberem dar as devidas respostas afetivas aos seus filhos.

A partir dos anos 60 e com a investigação científica baseada sobretudo em estudos de casos de gémeos e nas doenças genéticas associadas ao autismo (X Frágil, esclerose tuberosa, fenilcetonúria, neurofibromatose e diversas anomalias cromossómicas) descobriu-se a existência de um fator genético multifatorial e de diversas causas orgânicas relacionadas com a sua origem.

Estas causas são diversas e refletem a diversidade das pessoas com autismo: parecem haver genes candidatos, isto é, uma predisposição para o autismo o que explica a incidência de casos de autismo nos filhos de um mesmo casal.

Fatores pré natais (ex.rubéola materna, hipertiroidismo) e durante o parto (ex.prematuridade, baixo peso ao nascer, infecções graves neonatais, traumatismo de parto) também podem ter influência no aparecimento das perturbações do espectro do autismo.

Existe uma grande ocorrência de epilepsia na população autista (26 a 47%) enquanto na população em geral a incidência é de cerca de 0,5%.

Atualmente, alguns investigadores encontram-se a efetuar estudos acerca de anomalias nas estruturas e funções cerebrais das pessoas com autismo.

Em suma, não há ligação causal entre atitudes e ações dos pais e o aparecimento das perturbações do espectro autista e não se encontra relacionado com a raça, a classe social ou a educação parental.

Incidência

Esta doença atinge mais o sexo masculino do que o feminino (cerca de 2 para 1).
As primeiras características podem surgir entre os 4 e os 8 meses de idade, devido ao atraso nível da motricidade e da fala.
O diagnóstico requer um cuidadoso exame físico, psicopedagógico e neurológico.
O Autismo pode ainda desenvolver-se em crianças que até então pareçam “normais” – Autismo secundário – onde ocorre um nível inexplicável de regressão.

Características / Evolução/Tratamento

As pessoas com autismo têm três grandes grupos de perturbações.

Segundo Lorna Wing (Wing & Gould,1979), a tríade de perturbações no autismo manifesta-se em três domínios:

Domínio social: o desenvolvimento social é perturbado, diferente dos padrões habituais, especialmente o desenvolvimento interpessoal. A criança com autismo pode isolar-se mas pode também interagir de forma estranha, fora dos padrões habituais.
Domínio da linguagem e comunicação:
a comunicação, tanto verbal como não verbal é deficiente e desviada doa padrões habituais. A linguagem pode ter desvios semânticos e pragmáticos. Muitas pessoas com autismo (estima-se que cerca de 50%) não desenvolvem linguagem durante toda a vida.
Domínio do pensamento e do comportamento:
rigidez do pensamento e do comportamento, fraca imaginação social. Comportamentos ritualistas e obsessivos, dependência em rotinas, atraso intelectual e ausência de jogo imaginativo.

Características do autismo (Leo Kanner – 1943):

Um profundo afastamento autista.
Um desejo autista pela conservação da semelhança.
Uma boa capacidade de memorização mecânica.
Expressão inteligente e ausente.
Mutismo ou linguagem sem intenção comunicativa efetiva.
Hipersensibilidade aos estímulos.
Relação estranha e obsessiva com objetos.

Posteriormente, mencionou a ecolália – fala de papagaio – linguagem extremamente literal, uso estranho da negativa, inversão pronominal e outras perturbações da linguagem (Kanner,J.,1946)

Um ano depois de Kanner ter publicado o seu artigo, em 1944, um pediatra austríaco Hans Asperger, publicava um artigo, em alemão "Die Autistischen Psychopathen im Kindesalter" no qual descrevia um grupo de crianças com características muito semelhantes às de Kanner, chamando igualmente autismo ao síndrome...

“De inteligência normal, estes rapazes tinham uma dificuldade marcada nas relações interpessoais. Quando se esperava que partilhassem os jogos com outras crianças ou se integrassem numa roda de brincadeiras, eram vistos sozinhos, preocupados de forma obsessiva com o objeto do seu interesse. A linguagem também era peculiar: embora por vezes usassem expressões ou vocábulos muito sofisticados, por outro lado não entendiam os ditados mais comuns ou as metáforas mais óbvias. As crianças com Asperger não compreendiam porque não dizemos o que pensamos, e pensamos o que não dizemos. A entoação era monocórdica sem as flutuações emocionais que dão colorido à nossa voz. A sua coordenação motora era tão pobre que se viam sistematicamente excluídos da participação em jogos coletivos, sem que, de resto, isso parecesse preocupá-los excessivamente. Em momentos de maior emoção apresentavam movimentos repetidos e estereotipados que lhes conferiam um aspecto bizarro.”

Asperger percebeu que estes rapazes partilhavam traços fundamentais com as crianças autistas.

Embora as características dos indivíduos fossem semelhantes, havia um grupo reconhecido por Asperger com níveis de inteligência e linguagem superiores – as crianças com estas características têm síndrome de Asperger. Porém, as suas observações ficaram ignoradas até aos anos 90 quando Lorna Wing, uma psiquiatra americana, chamou a atenção para o trabalho de Asperger e sublinhou a sua importância.

De então para cá o reconhecimento e o estudo desta disfunção cresceu exponencialmente, e as suas características clínicas e problemas associados foram melhor definidos.

As crianças com síndrome de Asperger são ermitãs: “Se eventualmente uma pessoa é companhia, duas são uma multidão.”

Alguns gostavam de ter amigos, mas não sabem como interagir socialmente:

“A alternância do “dá-cá-toma-lá” na relação com os outros é lhes difícil. Não entendem como as outras crianças podem retirar prazer de brincadeiras mais ou menos violentas com contato físico próximo, como também não percebem que o comum dos mortais não partilhe o fascínio por retroescavadoras, comboios, contentores do lixo ou outros temas obviamente de tremendo interesse e importância.”

Lorna Wing (1981) definiu o síndrome de Asperger com seis critérios de diagnóstico:

A linguagem é correta mas pedante e estereotipada;
Ao nível da comunicação não verbal apresentam:
voz monótona, pouca expressão facial, gestos inadequados;
No que diz respeito à interação social, esta não recíproca e revelam falta de empatia;
Resistem à mudança e preferem atividades repetitivas;
Ao nível da coordenação motora apresentam uma postura incorreta, movimentos desastrados e por vezes estereotipias;
Possuem uma boa memória mecânica e os seus interesses são especiais e circunscritos.

Hoje o síndrome de Asperger tem uma classificação separada do autismo no DSM IV – TR (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais).

A noção de um espectro de perturbações autísticas baseado na tríade de perturbações apresentada por Lorna Wing é importante para a educação e cuidados das crianças com autismo ou outras perturbações globais do desenvolvimento.

A criança autista vive num mundo à parte criado por ela própria, geralmente são incapazes de estabelecer relações pessoais normais, contudo, podem revelar uma ligação muito forte com os objetos.

Revelam ainda alterações ao nível da linguagem – padrões de fala inelegíveis e outras nem sequer falam, apresentam ainda dificuldades nas relações interpessoais; manifestam rituais – comportamentos estereotipados e repetitivos.

Podem ainda apresentar características como: inibição motora, mutismo, dificuldade em suportar mudanças de ambiente, recusa em procurar ou aceitar carinhos, gosto pela imitação de sons ou de movimentos, dificuldade em estabelecer amizades, entre outras…

O autismo é uma doença com um desenvolvimento gradual, assim: em bebés, os autistas não demonstram grande interesse pelo contato, não sorriem, não olham para os pais, podem apresentar problemas ao nível da alimentação, do choro e do sono.

O bebé com autismo apresenta determinadas características diferentes dos outros bebés da sua idade. Pode mostrar indiferença pelas pessoas e pelo ambiente, pode ter medo de objetos.

Quando começa a gatinhar pode fazer movimentos repetitivos (bater palmas, rodar objetos, mover a cabeça de um lado para o outro). Ao brincar, não utiliza o jogo social nem o jogo de faz de conta. Ou seja, não interage com os outros, pode não dar resposta aos desafios ou às brincadeiras que lhe fazem. Não utiliza os brinquedos na sua função própria.

Aos 12 meses poderão demonstrar um interesse obsessivo por determinados objetos, revelam comportamentos estereotipados e repetitivos e até atrasos ao nível da locomoção.

Geralmente só a partir dos 24 meses é que se podem constatar dificuldades de comunicação – verbal e não verbal.

Depois dos 2 anos de idade a criança autista tem tendência a isolar-se, a utilizar padrões repetitivos de linguagem, a inverter os componentes das frases, a não brincar normalmente, etc…

Dos 2 aos 5 anos de idade o comportamento autista tende a tornar-se mais óbvio. A criança não fala ou ao falar, utiliza a ecolália ou inverte os pronomes.

Há crianças que falam corretamente mas não utilizam a linguagem na sua função comunicativa, continuando a mostrar problemas na interação social e nos interesses.

Regra geral, dos seis anos de idade até à adolescência os sintomas mais perturbadores podem diminuir, contudo o problema não desaparece totalmente.

Os adolescentes juntam às características do autismo os problemas da adolescência. Podem melhorar as relações sociais e o comportamento ou, pelo contrário, podem voltar a fazer birras, mostrar auto-agressividade ou agressividade para com as outras pessoas.

Os adultos com autismo tendem a ficar mais estáveis se são mais competentes. Pelo contrário, os menos competentes, com QI baixo, continuam a mostrar características de autismo e não conseguem viver com independência.

No estado adulto, o autista não se consegue integrar na vida normal achando que o mundo é uma ameaça para si – fechando-se no seu mundo, pois sente maior segurança. Por vezes, neste período, o autista pode regredir e até voltar a manifestar comportamentos infantis.

As pessoas idosas com autismo têm os problemas de saúde das pessoas idosas acrescidos das dificuldades de os comunicarem. Os problemas de comportamento podem por isso sofrer um agravamento. Além disso, perdem muitas vezes o gosto pelo exercício físico e têm menor motivação para praticar desporto, o que não contribui para melhorar a sua qualidade de vida. Por outro lado, o seu comportamento pode tender a estabilizar-se com a idade.

O tratamento para o autismo não existe, centra-se apenas em tentar desenvolver na criança/jovem aptidões e competências ao nível da linguagem e ao nível social. Podem contudo, utilizar-se psicofármacos em situações de agressividade, autodestruição ou convulsões.

Características gerais das crianças autistas

Fisicamente sadios e de boa aparência.
Desconhecimento da sua própria identidade.
Falta de comunicação.
Não mantêm o contato visual.
Retraídos, apáticos e desinteressados.
Indiferença em relação ao ambiente que os rodeia.
Resistência a mudanças de ambiente.
Incapacidade de julgar.
Ansiedade frequente e excessiva e aparentemente ilógica.
Hiperatividade e movimentos repetitivos.
Entorpecimento nos movimentos que requerem habilidade.

Sintomas

Do nascimento até aos 15 meses:

Problemas com a alimentação, como por exemplo: dificuldade na amamentação.
Apáticos e não demonstram nenhum desejo de abraços e nem de mimo.
Choro constante ou ausência total de choro.
Desinteresse pelas pessoas e pelo meio ambiente.
Medo anormal de estranhos.
Movimentos repetitivos, como:
balanceamentos das mãos, oscilações ou rotações prolongadas, entre outros…
Interesse obsessivo por determinados objetos, jogos ou aparelhos mecânicos.
Insistência nos seus desejos unicamente para que não se mude de ambiente físico.
Problemas de sono.

Dos 18 meses até aos 2 anos:

Dificuldades em aprender a controlar os esfíncteres e os hábitos de higiene.
Hábitos e preferências estranhas na alimentação.
Atraso na fala, ausência de fala ou poderão eventualmente perder a fala já adquirida.

Após os 2 anos:

Afasia contínua ou utilização de padrões invulgares na fala, tais como repetir palavras e frases.
Seguem os problemas de controlo dos esfíncteres e dos hábitos de higiene.
Incapacidade para jogos vulgares.
Alguns podem possuir habilidade musical, motora ou manual.
Por vezes podem demonstrar insensibilidade à dor.

Fonte: edif.sapo.pt

Autismo

Autismo
Autismo

DEFINIÇÃO

O autismo é um distúrbio congênito caracterizado por alterações no desenvolvimento infantil que manifesta-se nos primeiros meses de vida, caracterizando-se por um retrocesso das relações interpessoais e diversas alterações de linguagem e dos movimentos. Estes sintomas são reconhecidos principalmente entre os 6 e os 36 meses de idade.As causas são desconhecidas, mas pode estar associado a fatores genéticos e problemas pré e pós-parto. Em 1944, Kanner sugeriu que os sintomas do autismo poderiam constituir um distúrbio diferente da esquizofrenia infantil.

Em 1964, Rimland resume o ponto de vista dominante atual, caracterizando o autismo infantil como um distúrbio independente. As crianças autistas possuem , geralmente, aspectos saudáveis e são bonitas (uma das características mais marcantes).

O processo básico deste sintoma é a perda do contato emocional e interpessoal. Problemas de sociabilidade, isolamento intenso e agressividade. Observa-se que as crianças não respondem as carícias, palavras e nem às atenções dos adultos. Em contraste com a apatia frente às pessoas, a criança parece fascinada por objetos giratórios. Preocupa-se com que o ambiente fique conservado de forma inalterada. Passa muito tempo jogando com objetos repetitivamente. É indiferente às palavras e à qualquer som emitido por outras pessoas. Porém pode dar atenção ao ruído de uma porta ou ao barulho de um avião. Possuem hipersensibilidade ao toque e aos sons.

Algumas crianças autistas, entre 4 e 5 anos, são capazes de repetir propagandas de TV, trechos de músicas populares, o que não significa um ato de comunicação, apenas foram absorvidas estruturas codificadas.

ANOMALIAS DA LINGUAGEM

1) Repetição em eco das palavras que lhe são dirigidas.
2)
Repetição de uma palavra ou de um grupo de palavras, sem significação afetiva.
3)
O uso da palavra "sim" representa uma dificuldade freqüente, como se indicasse um envolvimento com outras pessoas.
4)
Apresentam problemas na aprendizagem dos pronomes "eu", "tu" e "nós", utilizando-os de maneira desorganizada.
5)
Dificuldade de comunicação, mutismo, inversão pronominal (troca o "eu" por "você"), incompreensão da linguagem figurativa.

ANOMALIAS MOTORAS

1) Podem permanecer imóveis durante um tempo prolongado.
2)
Distúrbios de comportamento, atos rituais, estereotipados, repetição de um mesmo movimento, com o tronco para frente e para traz.
3)
Movimentos com as mãos e braços no vazio, sem qualquer significado.
4)
Caminhar rígido ou em círculos, com os braços apertados sobre o corpo.
5)
Obsessão por uma atividade, desenham ou jogam xadrez por horas a fio compenetrados.
6)
Hiperatividade.

ETIOLOGIA

A origem desta enfermidade, atualmente ainda é desconhecida. Existem teorias que atribuem causas de ordem genética hereditária, perturbação precoce das relações interpessoais e uma combinação de fatores orgânicos e afetivos.

B. Rimland opina que existe uma grande semelhança entre a conduta das crianças autistas e das crianças vítimas de privação sensorial, sendo o autismo mais grave e intenso que a privação sensorial. Segundo a descrição do autor, as crianças inacessíveis aos estímulos externos, como se estivessem confinadas, sugerem a hipótese de uma lesão no sistema reticular, cuja origem seria uma hiperoxia.

E. Schopler atribui os problemas de adaptação da criança autista, a uma disfunção do uso dos receptores, isto é transtornos perceptivos, dificuldade para discriminação de imagens com objetos vivos ou inanimados. E. M. Ornitz e R. Ritvo, afirmam que a criança autista apresenta uma incapacidade para manter a percepção constante, ou seja, percepções idênticas que se originam dos estímulos do meio ambiente, não são experimentadas como sendo as mesmas a cada vez.

Outras hipóteses sobre autismo, como as de B. Bettelheim, Escalona, J. Lanouziere, T. Lainé e outros, que centralizam seus interesses teóricos no fenômeno da percepção, passam superficialmente pelo fenômeno essencial, da ausência de impulsos afetivos.

Não se trata, contudo, de um fenômeno que possa ter ligação com os processos perceptivos e discriminativos, porque a criança autista discrimina perfeitamente e rechaça exclusivamente a relação humana.

PROGNÓSTICO

A ocorrência do autismo é de uma em cada 2.500 crianças. Mais comum em homens.

Os graus varia do autismo clássico, mais grave, à síndrome de Asperger, bem mais leve. Abrange de uma criança muda, retardada e agressiva a "gênios", como Mozart, que teria todas as características de Asperger. A cura ainda não há. Retardo mental ocorre em 80% dos casos. Cerca de 15% das crianças autistas quando estimuladas adequadamente, conseguem uma recuperação social, na idade adulta, que os permite viver com certa independência assistida e até trabalhar.

Uns 25% dos autistas alcançam um desenvolvimento parcial menos significativo, impondo que vivam bem na casa de seus familiares, com sinais evidentes de autismo, sem capacidade de trabalhar e viver independentemente.

Aproximadamente 60% das crianças autistas, por vários fatores, não conseguem obter um desenvolvimento satisfatório.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIADO

O autismo infantil pode ser confundido com retardamento mental, surdo-mudez, síndrome de trauma craniano (pré natal, natal e pós natal), afasia e síndrome pós encefálico. A grande diferença é que os outros quadros apresentam mais ou menos intacta a resposta afetiva.

As crianças com retardamento mental, aprendem a falar e tentam formar um relacionamento afetivo com seus familiares, no entanto, os autistas, apresentam anomalias de linguagem, repelem o contato com as pessoas e afastam o olhar quando alguém os encara.

Ocorrem, eventualmente casos de crianças autistas serem diagnosticadas como surdas-mudas, devido ao fato de não comunicarem-se verbalmente e levando a crer que nem conseguem ouvir. Há provas demonstrando que o autista possui a sua capacidade auditiva intacta. Os surdos-mudos, por outro lado, buscam um relacionamento com outras pessoas expressando-se mediante gestos, indicando necessidades e desejos. Usa sons vocálicos desarticulados com finalidade comunicativa.

Nos casos de síndromes de traumas cranianos não verificam-se as alterações de linguagem e de movimento que ocorrem nos autistas e nem de bloqueio da afetividade. Nas crianças com trauma craniano podem ocorrer paralisias, movimentos desarticulados, atrofias musculares, deformações no crânio, incapacidade de concentração por muito tempo que são sintomas ausentes nos autistas.

Os portadores de afasia procuram relacionar-se com outras pessoas, apesar de não possuírem capacidade para expressarem-se através da linguagem. Nos casos de síndrome pós encefálicas, são observados sintomas freqüentes de desordens do comportamento social, irresponsabilidade, reações emocionais impulsivas e ocasionalmente sinais neurológicos

TRATAMENTO

O tratamento convencional de crianças autistas, consiste em psicoterapia individual ou de grupo, como Ludoterapia ou Musicoterapia. A utilização de medicamentos psicotrópicos tem mostrado resultados ineficazes.

BIODANÇA PARA CRIANÇAS AUTISTAS

HIPÓTESES

O autismo infantil tem como base uma alteração na região límbico hipotalâmico e nas vias córtico diencefálicos, que bloqueiam os sentimentos de afeto e comunicação. Esta anomalia pode surgir através de uma predisposição hereditária, convergente com fatores ambientais no decorrer dos primeiros meses de vida.

A ação terapêutica, no entanto, deverá ser dirigida no sentido de uma ativação global da região límbico hipotalâmico, estimulando respostas de comunicação, cinestésica , afetivas e eróticas.

PROPOSTA DA BIODANÇA

1) Local acolhedor, uma sala espaçosa, arejada, bem iluminada de preferência com piso de madeira, sendo que as atividades são realizadas eventualmente ao ar livre na grama e também em piscina aquecida. Objetos intermediários: um bom aparelho de som, colchonetes, bolas de tênis, etc.
2)
Atividades progressivas que propõe, inicialmente contatos corporais aparentemente casuais, sutis e breves.
3)
Massagear as costas e as solas dos pés com as bolas de tênis.
4)
Massagem com as mãos, inicialmente de uma pessoa com quem estabelece-se a troca, posteriormente, realizado por várias pessoas.
5) Jogos de contato:
pronunciar frases com sentido de afeto, ao mesmo tempo em que a criança toca a garganta do professor, percebendo as vibrações das cordas vocais. Em seguida invertendo as posições.
6) Acariciamento: a criança deve aprender a receber carícias, desde que surja espontaneamente seu desejo de dar carícias.
7)
Brincadeiras de roda, danças integrativas (dança grega, ciranda nordestina, danças circulares, danças sagradas), rodas de comunicação criativa e afetiva.
8)
Seguir o ritmo da melodia com movimentos de cabeça e pescoço, depois, ombros e braços e em seguida quadris e membros inferiores, posteriormente integrando os três centros em movimentos suaves.
9) Acalentar a criança em um berço humano. Exercícios de contato afetivo, seguidos de ativação gradativa. Utilização de música rítmica e melódica, com volume médio.

10) Alcançado um estágio mínimo de comunicação verbal e corporal, é feita a integração de maneira progressiva, a um grupo de crianças normais. A estrutura do grupo seria em média de: 4 crianças autistas; 8 crianças normais, com 1 facilitador e 5 monitores dando apoio.

CONCLUSÃO

Esta enfermidade é, por excelência, a enfermidade do contato e da comunicação. É o exemplo mais significativo da relação neurológica que existe entre afetividade, contato corporal e comunicação. Esta função bloqueada no portador de autismo, não é uma anomalia do córtex, como ocorre no caso de uma criança deficiente mental. É uma típica disfunção das estruturas límbico hipotalámicas, que são as fontes biológicas das emoções.

O autista é capaz de entender apenas emoções "simples, fortes e universais", como as de uma criança, mas fica confusa com as mais complexas. "A Principal emoção de um autista é o medo, o mais primitivo dos sentimentos humanos".

A enfermidade está constituída pela repulsa ao contato, a carícia, a tudo que está relacionado a demonstração de afetividade humana. A boa saúde representa a recuperação da necessidade de contato e não apenas, um processo formal de socialização. O autismo é uma síndrome que concentra as mais profundas reflexões sobre o valor terapéutico das carícias.

Fonte: www.biodanzasp.com.br

Autismo

O Autismo é um distúrbio do desenvolvimento humano que se manifesta durante toda a vida. É caracterizado por um quadro comportamental peculiar, que envolve sempre as áreas de interação social, da linguagem/comunicação e do comportamento, em graus variáveis de severidade. O autismo é encontrado em todo o mundo e em famílias de todas as raças, etnias e classes sociais, sendo mais comum em meninos do que em meninas.

Atualmente, embora o Autismo seja bem mais conhecido, ele ainda surpreende pela diversidade de características que pode apresentar e pelo fato de, na maioria das vezes, a criança autista ter uma aparência bastante normal. É comum pais relatarem que a criança passou por um período de normalidade anterior à manifestação dos sintomas.

Quando as crianças com autismo crescem, desenvolvem sua habilidade social em extensão variada. Alguns permanecem indiferentes, não entendendo muito bem o que se passa na vida social. Elas se comportam como se as outras pessoas não existissem, olham através delas como se não estivesse lá e não reagem a alguém que fale com elas ou as chame pelo nome.

Freqüentemente, suas faces mostram muito pouco de suas emoções, exceto se estiverem muito bravas ou agitadas. São indiferentes ou têm medo de seus colegas e, muitas vezes, usam o outro como objeto quando querem obter alguma coisa.

Pessoas com esse distúrbio possuem dificuldades qualitativas na comunicação, interação social, e no uso da imaginação (a chamada tríade) e, conseqüentemente, apresentam problemas comportamentais. Muitas vezes, o simples fato de desejarem algo e não conseguirem comunicar, pode ocasionar atitudes de auto-agressão ou, mesmo, de agressão aos outros.

Desvios Qualitativos da Comunicação

A comunicação é caracterizada pela dificuldade em utilizar com sentido todos os aspectos da comunicação verbal e não verbal. Isto inclui gestos, expressões faciais, linguagem corporal, ritmo e modulação na linguagem verbal.

Portanto, dentro de grande variação possível na severidade do autismo, é possivel encontrar uma criança sem linguagem verbal e com dificuldades na comunicação por qualquer outra via - isto inclui ausência de uso de gestos ou um uso muito precário dos mesmos; ausência de expressão facial ou expressão facial incompreensível para os outros, e assim por diante. É possível também encontrar crianças que apresentam linguagem verbal, muitas vezes, sem função comunicativa.

Muitas das crianças que apresentam linguagem verbal repetem simplesmente o que lhes foi dito. Este fenômeno é conhecido como ecolalia imediata. Outras crianças, repetem frases ouvidas há horas, ou até mesmo dias antes (ecolalia tardia).

É comum que crianças autistas inteligentes repitam frases ouvidas anteriormente e de forma perfeitamente adequada ao contexto, embora, geralmente nestes casos, o tom de voz soe estranho e pedante.

Desvios Qualitativos na Sociabilização

Este é o ponto crucial no autismo e o mais fácil de gerar falsas interpretações. Significa a dificuldade em relacionar-se com os outros, a incapacidade de compartilhar sentimentos, gostos e emoções e a dificuldade na discriminação de diferentes pessoas.

Muitas vezes, a criança autista aparenta ser muito afetiva, por aproximar-se das pessoas abraçando-as e mexendo, por exemplo, em seu cabelo ou mesmo beijando-as quando, na verdade, ela adota indiscriminadamente esta postura sem diferenciar pessoas, lugares ou momentos. Esta aproximação, usualmente, segue também um padrão repetitivo e não contém nenhum tipo de troca ou compartilhamento.

A dificuldade de sociabilização, que faz com que a pessoa autista tenha uma pobre consciência da outra pessoa, é responsável, em muitos casos, pela falta ou diminuição da capacidade de imitar, que é uns dos pré-requisitos crucias para o aprendizado, e também pela dificuldade de se colocar no lugar do outro e de compreender os fatos a partir da perspectiva do outro.

Desvios Qualitativos na Imaginação

Caracteriza-se por rigidez e inflexibilidade e se estende às várias áreas do pensamento, linguagem e comportamento da criança. Isto pode ser exemplificado por comportamentos obsessivos e ritualísticos, compreensão literal da linguagem, falta de aceitação das mudanças e dificuldades em processos criativos.

Esta dificuldade pode ser percebida em formas de brincar desprovidas de criatividade e pela exploração peculiar de objetos e brinquedos. Uma criança autista pode passar horas a fio explorando a textura de um brinquedo. Em crianças autistas, com a inteligência mais desenvolvida, pode-se perceber a fixação em determinados assuntos, na maioria dos casos, incomuns em crianças da mesma idade, como calendários ou animais pré-históricos, o que é confundido às vezes com nível de inteligência superior.

As mudanças de rotina, como de casa, dos móveis, ou até mesmo de percurso, costumam perturbar bastante algumas dessas crianças desencadeando comportamentos desestruturados.

Fonte: www.musica.ufg.bt

Autismo

Autismo é um conceito que se originou por retração semântica de um termo similar, que pelo preconceito do seu autor Carl Gustav Jung, em recusar a definição freudiana do auto-erotismo. Este se define ao corresponder o primeiro estágio de satisfação da libido no próprio corpo da criança, erotizando-o.

Ou seja: é aquele momento seguinte, no qual a criança pode gozar por si mesma ao reencontra-se com a satisfação perdida do seio da mãe, ao vir pegar e sugar o próprio dedo ou seus sucedâneos. Auto-erotismo – erótico = autismo.

Logo, o autismo é, então, a subtração erótica primordial desta satisfação libidinal do corpo próprio, que por não obter o gozo necessário, deixa o pequenino desinteressado pelo o que virá girar em torno de si mesmo, faltando-lhe o ânimo subjetivo para encher a boca de ar e suspirar: inspirar, expirar e falar. Esta criança por não se articular na fala, deixa o sentir-ser (dasein) cair no sintoma psíquico do bebê autista.

Linearmente, pelo o sentido do sintoma, pode-se aproximar com menor dispersão ou incompreensão do que será necessário para se depreender por esta via, a problemática em causa no autismo. Pode-se demarcar que sua origem está relacionada com o antecedente simbólico do desmame e por sua organicidade; vê-se que não se trata aqui da ablactação.

Abordar a problemática do desmame e o que dele decorre para que criança se articule ou não na dimensão da fala e da palavra é aqui essencial. A privação real do seio pelo desmame, remete o bebê ao sentido de vir alucinar o prazer, o gozo deixado por todo o ato da amamentação na experiência de satisfação anterior, o que leva ao inerme corpo à inervação, à libidinização e, nesta em particular, a boca. Pela primazia da fase oral, será a sede por onde outros objetos correlativos, simbólicos da maternagem são introduzidos com jogos onde a fala e as palavras não devem faltar. Pois se faltam ou não colam na libido, será o caso do autismo.

Neste caso do autista, diz-se que ficou esvaziada pela já anunciada subtração erótica, que não lhe foi repassada o suficiente para lhe deixar no corpo a - fôrma, o molde, pelo o qual os objetos sucedâneos na libido modulariam pela voz concorrendo com o olhar, o gosto pelo sonoro e cênico. Por isso, ele não captura com gosto próprio os objetos em volta e assim, também não entra na subjetividade da fala e da linguagem. O autista é aquele que é esvaziado desta subjetividade essencial ao ser falante.

Outrossim o desmame é um acontecimento humano traumático, por servir de estofo real para uma ruptura narcisista subseqüente, que marca o homenzinho com o enigma da castração simbólica, que o ameaça ou o privará por toda a vida de uma parte narcísica de si mesmo, o falo imaginário. Questionará sempre e, mais além, por esta ameaça ou falta e por isso, quando pode se agarra ao drama existencial de ser ou não ser. Ao entrar na dialética subjetiva do pensar.

Entrada que bem pode ser delineada por um apólogo de Sto. Agostinho, sobre o ciúme.

O Santo se impressionou com a cena ao descrever: “– Eu vi com os meus olhos e, observei bem um pequeno tomado de ciúmes: ainda não falava e não podia sem empalidecer, lançar o seu olhar para o espetáculo amargo do seu irmão de leite”. O drama do ciúme é o signo de identidade entre o ser e o outro.

A descoberta da psicanálise escandalizou o mundo ao dizer que a criança de peito e a mãe gozam ao amamentar. Que a criança vem ao mundo para satisfazer o gozo da mãe. Sobre essa história da organização sexual infantil, que foi prefigurada no épico sofocliano do Édipo, pela a qual a sua descoberta passou a ser uma praga ignota e ninguém da medicina psiquiátrica queria saber nada disso, inclusive Jung. Utilizou o termo autismo para estabelecer a nosologia da esquizofrenia. E, por este último viés foi o autismo abordado, isolado e classificado como uma entidade nosográfica: “autismo de Leo Kanner”.

Pus-me a escrever este texto, após assistir um programa de televisão norte-americano sobre o autismo, comemorativo pelo o dia mundial do autista. Ao ouvir o speaker comentar que nem as mais avançadas técnicas de exames e nem as pesquisas genéticas descobriram suas causas no corpo destas crianças.

Ora! Se não se encontra essas causas no corpo físico destas crianças, aonde devem pesquisá-las? Todo mundo sabe de um fenômeno da física; que a uma fissão tectônica na Indonésia, provoca efeito do outro lado do universo, um maremoto no golfo do México. O que é que, com este fenômeno, posso dizer? Digo que por extensão o corpo da mãe, por ser ainda constituinte do corpo do seu bebê, responde por suas causas. Precisa-se pesquisar no autismo da criança, qual estado se encontra o desejo da mãe ao receber o seu rebento. Será que veio o ser pelo qual esperava? Nestes casos de autismo, vi mães suprimirem os seus desejos eróticos, como se esses filhos fossem tudo para preencher suas faltas.

O corpo por ser oco é uma caixa de ressonância, repercute o som da voz e por sua superfície reflete como no espelho pela luz do olhar. A voz, o olhar serão os objetos com os quais se perpassa a sutura da ferida narcísica do desmame e do seu sucessor. Se estes objetos atraem a presença do outro, por este encontro, fará embalar a jubilação e se reencontrar o gozo que foi extraído, num prazer mais além, por uma nova modalidade de gozo sentido. Mas, se estes objetos não atraem e nem fazem ecos, são opacos, levarão ao sono letárgico da indiferença do bebê pelo modo de gozo arrefecido da mãe; dá-se ai a instalação do autismo.

A instalação do autismo concernente à relação subliminar do desmame, pelo qual a libido — que é a energia do desejo — não foi reinvestida no reencontro de um ponto comum de interesse fora da linha narcísica entre a mãe e a criança. O pai desvalido não foi cogitado e a mãe, que por seu desinteresse erótico, não colorirá pela sua ausência, uma presença gratificante de júbilo ao aparecer para o bebê. A causa do autismo, não há outra, que não esteja na modalidade do gozo anoético da mãe e por não deixar passar o gosto, o gozo erótico inconsciente.

O inconsciente é da ordem de um saber que se quer ignorar, mas o que não pode é se esquecer, que ele existe e funciona pelas leis que lhes dá uma estrutura de linguagem, que se aparelha no gozo para abordar a realidade. O inconsciente por ser um fator de discurso dá ao ser do ente, pela a palavra, a condição de por ela se curar. Pena que o autista desaparelhado ou, esvaziado do seu gozo não se interessa pela palavra e suas mães por indiferença, também.

Um jovem loquaz contou-me: - sua mãe deu conhecimento a todos do seu gozo por se encontrar grávida, desejou uma iguaria inencontrável e o papai ao querer saciá-la, fez-la deslocar o desejo para um antojo. Ela tinha o dom de negacear o seu desejo de tal modo, que lhe deixava em dúvidas sobre o que ela queria e seu pai ardendo de ciúmes e arremata que jamais nasceria autista.

Antônio Carlos Caires Araújo

Fonte: www.campopsicanalitico.com.br

Autismo

Definição

Embora inúmeras pesquisas ainda venham sendo desenvolvidas para definirmos o que seja o autismo, desde a primeira descrição feita por Kanner em 1943 existe um consenso em torno do entendimento de que o que caracteriza o autismo são aspectos observáveis que indicam déficits na comunicação e na interação social, além de comportamentos repetitivos e áreas restritas de interesse. Essas características estão presentes antes dos 3 anos de idade, e atingem 0,6% da população, sendo quatro vezes mais comuns em meninos do que em meninas.

A noção de espectro do autismo foi descrita por Lorna Wing em 1988, e sugere que as características do autismo variam de acordo com o desenvolvimento cognitivo; assim, em um extremo temos os quadros de autismo associados à deficiência intelectual grave, sem o desenvolvimento da linguagem, com padrões repetitivos simples e bem marcados de comportamento e déficit importante na interação social, e no extremo oposto, quadros de autismo, chamados de Síndrome de Asperger, sem deficiência intelectual, sem atraso significativo na linguagem, com interação social peculiar e bizarra, e sem movimentos repetitivos tão evidentes.

Diagnóstico

O diagnóstico do autismo é clínico, feito através de observação direta do comportamento e de uma entrevista com os pais ou responsáveis. Os sintomas costumam estar presentes antes dos 3 anos de idade, sendo possível fazer o diagnóstico por volta dos 18 meses de idade.

Ainda não há marcadores biológicos e exames específicos para autismo, mas alguns exames, tais como cariótipo (com pesquisa de X frágil, EEG, RNM e erros inatos do metabolismo), teste do pezinho, sorologias para sífilis, rubéola e toxoplasmose, audiometria e testes neuropsicológicos são necessários para investigar causas e outras doenças associadas.

O quadro clínico do autismo, segundo o DSM IV TR (APA, 2002) é:

Prejuízo da habilidade social: não compartilham interesses, não desenvolvem empatia e demonstram uma certa inadequação em abordar e responder aos interesses, emoções e sentimentos alheios.
Prejuízo no uso de comportamentos não-verbais como: contato visual direto, expressão facial, postura corporal e com objetos.
Dificuldades na interação social: fracasso em vincular-se a uma pessoa específica, não diferenciação de indivíduos importantes em sua vida, falta de comportamento de apego.
Alterações na linguagem: atraso na linguagem falada. Nos que desenvolvem a linguagem adequadamente, dificuldade em iniciar ou manter uma conversa, uso estereotipado e repetitivo de certas palavras ou frases e emprego da terceira pessoa (inversão pronominal) para falar de suas vontades. Os que aprendem a ler não apresentam compreensão do que lêem.
Alterações de comportamento: padrões restritos de interesse, manipulação sem criatividade dos objetos, ausência de atividade exploratória, preocupação com as partes de objetos, inabilidade para participar de jogos de imitação social espontâneos, adesão a rotinas rígidas, presença de maneirismos motores e crises de raiva ou pânico com mudanças de ambiente; mudanças súbitas de humor, com risos ou choros imotivados, hipo ou hiper-responsividade aos estímulos sensoriais e agressividade sem razão aparente. Comportamentos auto-agressivos, como bater a cabeça, morder-se, arranhar-se e arrancar os cabelos podem ocorrer.

Uma proposta de alteração dos critérios do DSM V está online e sugere que para se diagnosticar autismo, estejam presentes as seguintes características:

Déficits na comunicação social e na interação social: déficit na comunicação não verbal e verbal utilizada para a interação social, falta de reciprocidade social, incapacidade de desenvolver e manter relacionamentos com seus pares apropriados ao seu nível de desenvolvimento.
Padrões restritos e repetitivos de comportamento: estereotipias ou comportamentos verbais estereotipados ou comportamento sensorial incomum, aderência a rotinas e padrões de comportamentos ritualizados, interesses restritos.

Os sintomas devem estar presentes na primeira infância, mas podem não se manifestar plenamente, até que as demandas sociais ultrapassem as capacidades limitadas.

Tratamento

O tratamento do autismo envolve intervenções psicoeducacionais, orientação familiar, desenvolvimento da linguagem e/ou comunicação. O recomendado é que uma equipe multidisciplinar avalie e desenvolva um programa de intervenção orientado a satisfazer as necessidades particulares a cada indivíduo. Dentre alguns profissionais que podem ser necessários, podemos citar:psiquiatras,psicólogos,fonoaudiólogos,terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e educadores físicos. Os métodos de intervenção mais conhecidos e mais utilizados para promover o desenvolvimento da pessoa com autismo e que possuem comprovação científica de eficácia são:

TEACCHR (Treatment and Education of Autistic and Related Communication Handcapped Children): é um programa estruturado que combina diferentes materiais visuais para organizar o ambiente físico através de rotinas e sistemas de trabalho, de forma a tornar o ambiente mais compreensível, esse método visa à independência e o aprendizado.

PECSR (Picture Exchange Communication System) é um método de comunicação alternativa através de troca  de figuras, é uma ferramenta valiosa tanto na vida das pessoas com autismo que não desenvolvem a linguagem falada quanto na vida daquelas que apresentam dificuldades ou limitações na fala.

ABA (Applied Behavior Analysis) ou seja, analise comportamental aplicada que se embasa na aplicação dos princípios fundamentais da teoria do aprendizado baseado no condicionamento operante e reforçadores para incrementar comportamentos socialmente significativos, reduzir comportamentos indesejáveis  e desenvolver habilidades. Há várias técnicas e estratégias de ensino e tratamento comportamentais associados a analise do compormentamento aplicada que tem se mostrado útil no contexto da intervenção incluindo (a) tentativas discretas, (b) análise de tarefas, (d) ensino incidental, (e) análise funcional

Medicações: O uso medicamento deve ser prescrito pelo médico, e é indicado quando existe alguma comorbidade neurológica e/ou psiquiátrica e quando os sintomas interferem no cotidiano. Mas vale ressaltar que até o momento  não existe uma medicação específica para o tratamento de autismo. É importante o médico informar sobre o que se espera da medicação, qual o prazo esperado para que se perceba os efeitos, bem como os possíveis efeitos colaterais.

Letícia Calmon Drummond Amorim

Fonte: www.ama.org.br

Autismo

O autismo infantil é um transtorno invasivo do desenvolvimento e é basicamente caracterizado por prejuízos no desenvolvimento da interação social, atraso no desenvolvimento da linguagem, comportamentos estereotipados e repetitivos. Apresenta uma incidência de 2 a 5 casos para cada dez mil crianças e ocorre em torno de quatro vezes mais em meninos do que em meninas.

Normalmente o autismo é identificado por volta dos trinta meses de idade. Os pais podem procurar ajuda do pediatra, preocupados com o comportamento do filho que ainda não está falando, resiste aos cuidados paternos e não interage com outras pessoas.

Bebês com autismo apresentam grande déficit no comportamento social, tendem a evitar contato visual e mostram-se pouco interessadas na voz humana. Eles não assumem a postura antecipatória como colocando seus braços à frente para serem levantados pelos pais, são indiferentes ao afeto e não demonstrando expressão facial ao serem acariciados.

Quando crianças não seguem seus pais pela casa e não demonstram ansiedade de separação dos mesmos. Não se interessam em brincar com familiares ou com outras crianças e não há interesse por jogos e atividades de grupo. Suas ações podem se limitar a atos repetitivos e estereotipados, como cheirar e lamber objetos ou bater palmas e mover a cabeça e tronco para frente e para trás.

O interesse por brinquedos pode ser peculiar, a criança pode se interessar pelo movimento circular da roda de um carrinho ou pelo barulho executado por ele, por exemplo. Essas alterações estão relacionadas com respostas não usuais a experiências sensoriais diferentes vivenciadas pela criança. Pode ocorrer uma fascinação por luzes, sons e movimentos que o desperte para um interesse muito grande por um ventilador de teto ou uma batedeira elétrica, por exemplo. A testura, cheiro, gosto, forma ou cor de um objeto pode desencadear um interesse peculiar da criança pelo objeto.

Gustavo Teixeira

Fonte www.comportamentoinfantil.com:

Autismo

É uma alteração cerebral que afeta a capacidade da pessoa se comunicar, estabelecer relacionamentos e responder apropriadamente ao ambiente. Algumas crianças apesar de autistas apresentam inteligência e fala intactas, outras apresentam também retardo mental, mutismo ou importantes retardos no desenvolvimento da linguagem. Alguns parecem fechados e distantes outros presos a comportamentos restritos e rígidos padrões de comportamento.

Características comuns

Não estabelece contado com os olhos
Parece surdo
Pode começar a desenvolver a linguagem mas repentinamente isso é completamente interrompido sem retorno.
Age como se não tomasse conhecimento do que acontece com os outros
Ataca e fere outras pessoas mesmo que não exista motivos para isso
É inacessível perante as tentativas de comunicação das outras pessoas.
Ao invés de explorar o ambiente e as novidades restringe-se e fixa-se em poucas coisas.
Apresenta certos gestos imotivados como balançar as mãos ou balançar-se
Cheira ou lambe os brinquedos
Mostra-se insensível aos ferimentos podendo inclusive ferir-se intencionalmente

Manifestações sociais

Muitas vezes o início é normal, quando bebê estabelece contato visual, agarra um dedo, olha na direção de onde vem uma voz e até sorri. Contudo, outras crianças apresentam desde o início as manifestações do autismo.

A mais simples troca de afeto é muito difícil, como, por exemplo, o próprio olhar nos olhos que é uma das primeiras formas de estabelecimento de contato afetivo. Toda manifestação de afeto é ignorada, os abraços são simplesmente permitidos mas não correspondidos. Não há manifestações de desagrado quando os pais saem ou alegria quando volta para casa.

As crianças com autismo levam mais tempo para aprenderem o que os outros sentem ou pensam, como, por exemplo, saber que a outra pessoa está satisfeita porque deu um sorriso ou pela sua expressão ou gesticulação.

Além da dificuldade de interação social, comportamentos agressivos são comuns especialmente quando estão em ambientes estranhos ou quando se sentem frustradas.

Razões para esperança

Quando os pais de uma criança autista descobrem que seu filho é autista muitas vezes cultivam durante algum tempo ainda a esperança de que ele ira recuperar-se completamente. Algumas famílias negam o problema e mudam de profissional até encontrar alguém que lhes diga um outro diagnóstico. Como seres humanos a dor sentida pode ser superada, nunca apagada, mas a vida deve manter seu curso. Hoje mais do que antigamente há recursos para tornar as crianças autistas o mais independente possível. A intervenção precoce, a educação especial, o suporte familiar e em alguns casos medicações ajudam cada vez mais no aprimoramento da educação de crianças autistas.

A educação especial pode expandir suas capacidades de aprendizado, comunicação e relacionamento com os outros enquanto diminui a freqüência das crises de agitação. Enquanto não há perspectiva de cura podemos desde já melhorar o que temos, o desenvolvimento da qualidade de vida de nossas crianças autistas.

Diagnóstico

Os pais são os primeiros a notar algo diferente nas crianças com autismo.

O bebê desde o nascimento pode mostrar-se indiferente a estimulação por pessoas ou brinquedos, focando sua atenção prolongadamente por determinados itens. Por outro lado certas crianças começam com um desenvolvimento normal nos primeiros meses para repentinamente transformar o comportamento em isolado. Contudo, podem se passar anos antes que a família perceba que há algo errado. Nessas ocasiões os parentes e amigos muitas vezes reforçam a idéia de que não há nada errado, dizendo que cada criança tem seu próprio jeito. Infelizmente isso atrasa o início de uma educação especial, pois quanto antes se inicia o tratamento, melhor é o resultado.

Não há testes laboratoriais ou de imagem que possam diagnosticar o autismo.

Assim o diagnóstico deve feito clinicamente, pela entrevista e histórico do paciente, sempre sendo diferenciado de surdez, problemas neurológicos e retardo mental. Uma vez feito o diagnóstico a criança deve ser encaminhada para um profissional especializado em autismo, este se encarregará de confirmar ou negar o diagnóstico.

Apesar do diagnóstico do autismo não poder ser confirmado por exames as doenças que se assemelham ao autismo podem. Assim vários testes e exames podem ser realizados com a finalidade de descartar os outros diagnósticos.

Dentre vários critérios de diagnóstico três não podem faltar: poucas ou limitadas manifestações sociais, habilidades de comunicação não desenvolvidas, comportamentos, interesses e atividades repetitivos. Esses sintomas devem aparecer antes dos três anos de idade.

Tratamento

Foge ao objetivo desde site entrar em maiores detalhes a respeito do autismo em geral e sobre o tratamento especificamente.

Contudo, vale a pena fazer algumas citações. Não há medicações que tratem o autismo, mas muitas vezes elas são usadas para combater efeitos específicos como agressividade ou os comportamentos repetitivos por exemplo. Até bem pouco tempo usava-se o neuroléptico para combater a impulsividade e agitação, mais recentemente antidepressivos inibidores da recaptação da serotonina vêem apresentando bons resultados, proporcionando maior tranquilidade aos pacientes.

As medicações testadas e com bons resultados foram a fluoxetina, a fluvoxamina, a sertralina e a clomipramina. Dentre os neurolépticos a clorpromazina, o haloperidol e a tioridazina também podem ser usadas dentre outras.

Para o autismo não há propriamente um tratamento, o que há é um treinamento para o desenvolvimento de uma vida tão independente quanto possível.

Basicamente a técnica mais usada é a comportamental, além dela, programas de orientação aos pais. Quanto aos procedimentos são igualmente indispensáveis, pois os pais são os primeiros professores. Uma das principais tarefas dos pais é a escolha de um local para o treinamento do filho com autismo.

Fonte: www.psicosite.com.br

Autismo

LINGUAGEM E AUTISMO: FATOS E CONTROVÉRSIAS

"Embora me seja difícil comunicar-me ou compreender as sutilezas sociais, na realidade, tenho algumas vantagens em comparação com os que tu chamas de ‘normais’. Tenho dificuldade em me comunicar, mas não costumo enganar. (...) Minha vida como autista pode ser tão feliz e satisfatória como a tua vida ‘normal’. Nessas vidas, podemos vir a nos encontrar e a partilhar muitas experiências." Angel Rivière Gómez

O que é ?

Sob um rosto inteligente, uma aparência física normal, uma capacidade mnemônica muitas vezes notável, esconde-se uma criança que não se constituiu como sujeito: "sem um olhar", com um grave comprometimento na linguagem, que se isola, que não encontra o outro, enfim, uma criança que simboliza para todos aqueles que a "encontram" um verdadeiro enigma – o enigma da criança autista.

Caracterizado como um distúrbio profundo do desenvolvimento, o autismo foi pela primeira vez descrito cientificamente, em 1943, no artigo "Distúrbios autísticos de contato afetivo", do psiquiatra austríaco Leo Kanner.

Neste artigo, Kanner não definiu especificamente o termo autismo, mas descreveu o quadro clínico de 11 crianças, de onde foi possível extrair características comuns consideradas essenciais, cada uma das quais nos sugere, neste momento, algumas indagações:

Incapacidade de estabelecer relações normais com pessoas e situações

"uma criança que se basta a si mesma?"

Atraso na capacidade de falar e não utilização da linguagem como instrumento de comunicação com os outros

"uma linguagem que exaure a memória em busca de que?"

Obsessão ansiosa em manter imutável o seu ambiente físico

"aceitar uma mudança no mundo físico significa ter que entrar nesse mundo?"

Destaca-se nesse quadro, o papel atribuído ao "isolamento autístico", descrito por Kanner (op. cit.), como presente desde o início da vida da criança, sugerindo assim, um caráter inato. Mais tarde, observa que o distúrbio pode aparecer, após um desenvolvimento aparentemente normal, até aproximadamente os 30 meses de vida.

A grande contribuição de Kanner, ao caracterizar o autismo como uma síndrome independente, com um quadro clínico que a diferencia de outras síndromes psiquiátricas (como debilidade, esquizofrenia, etc.), não foi suficiente para possibilitar uma definição precisa do autismo. Não há consenso sobre os instrumentos avaliativos, seus sintomas (primários ou secundários), bem como sobre os mecanismos desencadeadores de tal quadro.

No que diz respeito às causas para as diferentes formas de autismo, muitas são as explicações, contudo, não encontramos referência a um fator específico.

Pesquisas recentes (citadas em Johnson e Dorman, doc. on line) apontam para fatores biológicos ou diferenças neurofisiológicas no cérebro. Por exemplo, anomalias na estrutura do cérebro, em especial no cerebelo, inclusive no tamanho e número das células de Purkinje.

Durante muito tempo, os fatores psicogênicos foram apontados como os grandes desencadeadores da síndrome.

O próprio Kanner (1943), já destacava aspectos comuns aos pais autistas:

Classe sócio econômica elevada.
Inteligência superior à média.
Preocupação com o abstrato.
Ausência de calor humano.
Introversão.
Baixa emotividade.
Características obsessivas.

A partir de então, o funcionamento familiar foi elemento central na busca de explicações sobre os fatores psicogênicos como desencadeadores do autismo.

Como consequência de tal ênfase, Leboyer (1995) descreve três hipóteses formuladas em cima de tal questão:

" A primeira hipótese sugere que o autismo se desenvolve unicamente sobre bases psicogênicas: são os pais que em razão de seu funcionamento patológico próprio, provocam a aparição da síndrome do autismo em seus filhos.
A segunda hipótese sugere a existência de dois grupos autistas:
um primeiro grupo, onde o autismo é associado a uma patologia neurológica (Goldfard, 1961), é o "autismo orgânico". Um segundo grupo dito "autismo inorgânico", é devido a fatores psicogênicos.
A terceira hipótese é aquela que Kanner adota em 1955:
"A estrutura psicológica própria da criança resulta de fatores inerentes e da dinâmica relacional pais-filhos". Em outros termos, o autismo se situa à conjunção de um acidente orgânico inato e do stress psicogênico".

Por outro lado, os estudos com gêmeos, as investigações familiares e os dados epidemiológicos sugerem um determinismo genético paro o autismo.

Neste sentido, a literatura recente associa alguns casos de autismo a doenças geneticamente transmissíveis, como é o caso da síndrome do cromossoma X frágil, encontrado em autistas que apresentam deficiência mental. (Brown e outros, 1982, citado em Leboyer, 1995).

Contudo, dificuldades relacionadas ao número escasso de casos diagnosticados como autistas, às dificuldades de interpretação dos resultados nas avaliações realizadas , bem como ao próprio significado do termo genético – patrimônio transmitido de pais para filhos ou genótipo modificado patologicamente – dentre outras, impedem uma postura conclusiva com relação ao modelo genético.

Ao longo dos anos, o autismo também tem sido associado a doenças orgânicas, dentre as quais podemos citar: rubéola congênita (Chess, 1971, 1977) ; hemorragias no primeiro trimestre de gravidez (Torrey e outros, 1975); fenilcetonúria (Wing, 1996; Sorosky e outros, 1968).

Entretanto, não se pode falar numa relação direta entre autismo e tais doenças, a não ser o fato de que estas por si sós podem afetar o Sistema Nervoso Central, provocando alterações no seu desenvolvimento.

Pelo exposto, é possível constatar a existência de várias hipóteses com relação aos fatores desencadeantes do autismo, contudo, até o momento, não se reuniu evidências suficientes para comprovar nenhuma delas. É possível apenas depreender das mesmas que uma multiplicidade de fatores podem conduzir a uma síndrome autista, mas qual (ou quais) deles, e em que etapa do desenvolvimento isto acontece, continua sendo uma pergunta sem resposta.

Tentamos, nesta breve exposição, e sem a pretensão de aprofundar o assunto, traçar um quadro geral do que é o autismo, localizando o leitor no que diz respeito às principais hipóteses relacionadas à sua etiologia. Em seguida, contemplando o objetivo principal deste artigo, passaremos a abordar um dos principais sintomas que caracteriza o quadro autista – a linguagem - cujas alterações , tal como descreveu Kanner (1949, citado em Assumpção Jr., 1997) se estendem "do mutismo a uma linguagem sem função comunicacional, refletindo as dificuldades no contato e na comunicação interpessoal" .

A Linguagem no autista

Os autores, de um modo geral, referem-se a vários tipos de dificuldades com relação à linguagem. Tais dificuldades significam tanto uma não aquisição da linguagem, como uma perda progressiva das vocalizações já adquiridas, ou ainda a persistência de manifestações verbais com características bem peculiares.

Vale destacar que é bastante antigo o registro de produções verbais consideradas peculiares que, a partir de Kanner (1943), passaram a fazer parte da sintomatologia autista. Por exemplo, já em 1799, na Psiquiatria, apontava-se para a dificuldade de reversão do pronome pessoal, ou seja o fato de que "alguns sujeitos referem-se sempre a si mesmos na terceira pessoa." (Martos, 1989). Kanner (op. cit.) aborda este fato no contexto mais amplo do sintoma que ele denomina "fala ecolálica".

Segundo esse autor, algumas crianças por ele acompanhadas repetiam "como um papagaio" tudo o que lhe havia sido dito, naquele momento (ecolalia imediata), ou em momentos anteriores (ecolalia diferida). A esse respeito, chega a afirmar que "a conversa dessas crianças é um eco de tudo o que já se lhe pôde ser dito", registrando a limitação, ou mesmo a ausência da produção de frases espontâneas.

Nesse "eco", as palavras são repetidas exatamente na forma como são ouvidas, destacando-se o fato de que os pronomes pessoais usados pelas outras pessoas são retidos sem alterações, sendo também, algumas vezes, reproduzidos a entonação e o tom de voz dessas pessoas.

Por sua vez, tem-se apontado, nessas repetições, o caráter de estereotipia, inflexibilidade ou permanência (Kanner, 1943, Lasnik-Pennot, 1991 e 1997, Rocha, 1997, dentre outros), com base no qual Kanner (op. cit.) admite que a linguagem do autista não possui a função de comunicar uma mensagem a outra pessoa.

Para Lasnik-Penot (1997), "esse tipo de verbalizações nem mereceria o nome de repetição", justamente por tenderem, rapidamente, a se tornar estereotipias" as quais consistem num esvaziamento do ato de tudo o que é de um valor simbólico, "restando um vestígio de um trabalho humano que, apenas, começou a acontecer." (op. cit., pag. 16)

A marca de estereotipia das manifestações verbais da criança autista causa, no interlocutor, um efeito de estranhamento, como pode ser exemplificado nos fragmentos de diálogo abaixo, que fazem parte do conjunto de dados, obtidos através de filmagens semanais de sessões de terapia em grupo, no CPPL (Centro de estudos de Psicanálise e Linguagem da cidade do Recife):

C= Terapeuta

L= Terapeuta

P= Paulo* (criança autista)

* Nome fictício

(1) (P - 13;4)

C - O que está acontecendo aqui, vocês estão preocupado com o que hein?

P - (ininteligível) (Fala com a voz bem fina).

C – Estão preocupados com alguma coisa?

P – Vamos ver se (ininteligível) Hoje, vamos ver (ininteligível) aberto hoje, agora! (Fala num tom mais alto e firme)

Quem mandou você jogar. (Fala fino)

Deixe de palhaçada! Levanta menino! Deixe de palhaçada (Fala fino)

Deixe de palhaçada!(Fala grosso) Deixe de palhaçada! (Fala fino)

C - Quem está fazendo palhaçada?

P – Acenda Hélio, por favooor (Voz um pouco mais grossa)

Acenda aí por favor, acenda aí por favor. Acenda por favor agora. (ininteligível) (Fala fino)

A lata tá cheia de (ininteligível) (Voz estranha

Ô Paulo (ininteligível) coelho (ininteligível) coelho.(Fala mais fino)

C – Eu não sabia que (ininteligível)

P – Oh Paulo!

Acenda Paulo, acenda logo!

Paulo acenda essa luz meu filho, logo! (Fala apenas um pouco mais fino que sua voz)

Acenda Paulo logo. (fala grosso) Acenda Paulo, logo (Fala bem fino)

Ui, tia apagou. Acenda aí, por favor!

Acenda Paulo! (ininteligível) (Fala mais fino)

Tia, apague a luz do quarto por favor, tia.

Oh Paulo, ligue agorinha, ligue! (Fala mais grosso e ordenanado) (ininteligível) (Fala bem fino)

(2) (P - 13;5)

P - Carlinhos rasgou a roupa todinha! (Fala fino)

L – Foi verdade.

C - (ininteligível)

L - Carlinhos ficou com muita raiva, sabe? Porque Carlinhos fazia umas máscaras, sabe?

Enrolava no papel, colava, desenhava. Num era Paulo?

Ele fazia umas máscaras e nesse dia não tinha o papel prá ele fazer essas máscaras e aí Carlinhos ficou com raiva rasgou as roupas, deu grito. Precisou Carlos e Liliane pegar ele para não deixar ele rasgar todinho, não foi Paulo?

P - Carlinhos rasgou. (Fala fino)

E num rasgue não! (Fala grooso, ordennado)

Carlinhos rasgou a roupa, Carlinhos rasgou a roupa (Fala grosso no início da frase).

C – Eu lembro de Carlinhos pequenininho.

P - Tá bom aí? (P fala grosso, vai para perto da filmadora)

A luz. (P coloca seu rosto no visor da filmadora).

C - Tá procurando o que aí?

P - Vamu depressa. Vamu depressa. (ininteligível) (Fala fino)

De jeito e maneira. De jeito e maneira. (Fala fino)

C - Estamos arrumados, hein?

P – Arrumados, arrumados. (Fala fino)

C - Temos um imitador aqui perfeito.

Notam-se, nos fragmentos acima, fortes marcas da presença de uma reprodução rígida da fala do outro na fala da criança, como por exemplo, a não reversão do pronome pessoal ou a manutenção das características prosódicas originais (tom e entonação).

Por sua vez, chama atenção, em alguns momentos, a persistência no que concerne a determinada reprodução, ressaltando, ainda mais, sua condição de "eco" tão destacada pelos estudiosos do tema, como "Acenda Paulo". Tal enunciado pertence ao discurso da terapeuta em sessão passada, diante do menino que, insistentemente, apagava a luz da sala.

As produções verbais de P. indicam, portanto, um caráter de "fixação", "permanência" ou "imobilidade" que parece ter dificultado um movimento de "circulação" ou de "deslizamento", conforme concebido por Lier-De Vitto (1994).

Tal movimento tem lugar "quando o segmento destacado da produção do bebê, ressurge na da mãe para, em seguida deslizar, novamente, para a criança." (op. cit., pag. 138), o que aparece no seguinte fragmento de diálogo – entre o adulto(mãe) e a criança com desenvolvimento linguístico considerado "normal" – extraído do Banco de Dados do Instituto de Estudos da Linguagem/UNICAMP:

M = mãe

C = criança

(3) (C – 1;2.15)

M- Num tem. Só tem um nenê.

C - é/bô M- Acabô C - néé M - Só tem um nenê C - nenê

M- Você vai dá papá pro nenê?

C - pápa

M- Vai?

C - a/u/ua aiá

No tocante a essa questão, pode-se dizer que várias reproduções de P., em situação de terapia, obedecem a um critério de justaposição. Tais reproduções fazem parte de situações discursivas anteriores, como por exemplo, "Deixe de Palhaçada", retornando na fala de P., em sessões de terapia, sinalizando, entretanto, para uma ausência de articulações sucessivas com outros fragmentos da fala do adulto o que indica, portanto, uma ausência de deslizamento.

Lasnik-Penot (1997) acrescenta ainda às características mencionadas acima, a ausência de segmentações (ou cortes) na substância fônica, ou melhor, frequentemente não se observam, em algumas crianças, uma separação entre as palavras, como se algo permanecesse, irremediavelmente colado entre elas, o que constitui um dos grandes obstáculos à aquisição da linguagem. Tem-se também feito referência a uma histórica suspeita de surdez, relativamente frequente entre os autistas, diante da falta de respostas de orientação a certos sons. (ver Rivière, 1995). Trata-se de surdez aparente, ou melhor de surdez seletiva, desde que a criança somente não escuta a voz humana, respondendo, entretanto a outros ruídos, como por exemplo ao "barulho de máquinas". (Exemplo citado por Lasnik-Penot, op.cit.).

No tocante a essa caracterização sumária da sintomatologia de natureza verbal do quadro autista, convém mencionar dois aspectos: o primeiro diz respeito à singularidade da criança, no sentido de que "esses sintomas não se manifestam por igual, nem têm o mesmo significado em diferentes fases da vida das pessoas autistas". (Rivière, op. cit., pag. 276).

O segundo diz respeito ao fato de que, embora haja consenso no tocante às dificuldades linguísticas gerais do autista, tal consenso parece não subsistir quando se trata de descrever as dificuldades relativas a aspectos específicos da linguagem. Com base em Belinchón y outros (1996), pode-se apontar para um desacordo no que se refere a tais aspectos específicos, desde que várias investigações sobre o tema chegaram a resultados discordantes entre si.

Por exemplo, Hermelin y O’Connor e Fyffe y Prior (1979) obtiveram resultados que indicam a existência de déficit, no autismo, no âmbito semântico-conceitual, enquanto que Tager-Flusberg (1985, 1986) encontrou que a organização e representação das categorias semânticas básicas do significado das palavras dos sujeitos autistas era similar às do grupo de crianças normais estudadas. Por sua vez, de acordo com os estudos de Prior y Hall (1979) e de Tager-Flusberg, 1981), a compreensão de orações, por pessoas com autismo, é pior do que a dos sujeitos que serviram de controle, por não usarem estratégias de compreensão usadas por estes últimos.

Entretanto alguns dados mais recentes (Paul, Fisher y Cohen, 1988) têm sugerido que os autistas são capazes de usar estratégias de compreensão que se baseiam em pistas tanto semânticas quanto sintáticas. (ver Belinchón, Gortázar, Martinez-Palmer, Flores y García-Alonso, 1996, para um aprofundamento de cada uma dessas posições).

Vale reforçar ainda que o consenso, no estudo da linguagem no autismo, restringe-se à descrição de características linguísticas gerais, existindo, porém, diferenças (desacordos) no tocante às tentativas de explicação, quer seja desse tipo de características, quer seja daquelas de natureza específica. Nesse sentido, algumas linhas de investigação sobre o objeto em foco vão ser referidas, atendo-se, contudo, ao propósito restrito de ilustrar a polêmica mencionada.

Dentre as explicações neuro-psicológicas, algumas sustentam que o déficit linguístico desses sujeitos dependeria de déficits de natureza cognitiva, os quais, por sua vez, estariam ligados a alterações neurológicas, de vários tipos. Uma dessas alterações seria, por exemplo, o déficit nos neurotransmissores, o qual teria participação na dificuldade da criança de enviar sinais para a mãe, comprometendo, assim, desde cedo, seu desenvolvimento.

Entretanto, com base em alguns autores, (dentre eles, Lasnik-Penot, op. cit.), pode-se dizer que ocorre, nesse ponto, uma confusão entre fatores neurológicos e fatores interacionais, uma vez que foi também observado na mãe do autista uma dificuldade de dar respostas verbais ao comportamento do bebê, ou seja de atribuir significado a esse comportamento. Nesse sentido, mais do que uma confusão se instala um círculo vicioso, pois não se poderia determinar qual das duas dificuldades (da mãe e do bebê) seria a causa ou a consequência da outra.

Assumindo um marco teórico psicolinguístico, Belinchón y outros (1996) localizam a explicação de algumas dificuldades linguísticas do autista num conjunto de processos cognitivos baseados num conhecimento da língua, processos estes que constituem, de um lado, uma competência linguística ou gramatical e, de outro lado, uma competência pragmática ou conceitual.

Por sua vez, autores como Nadel y Fontaine (1989) destacam, como fator decisivo para a aquisição da linguagem, a chamada Competência Comunicativa cujo desenvolvimento dependeria, fundamentalmente, da ocorrência da imitação compartilhada ou sincrônica entre a criança e seu parceiro.

Essa autora entende a imitação sincrônica como um modo de convidar o outro a interagir, através da mensagem "eu estou interessado em você"; a imitação subsequente usada pelo modelo inicial para responder à mensagem original significa: "eu também estou interessado em você". Desse modo, levanta-se a hipótese de que alguma dificuldade nesse tipo de sincronia imitativa estaria relacionada com o comprometimento da competência comunicativa do sujeito autista.

Stone, Ousley y Littleford (1997) também consideram a imitação como elemento que se relaciona com comprometimentos na linguagem autista. Destacam, entretanto, a imitação motora, realizada pela criança, de movimentos corporais do modelo, situando-se num quadro explicativo diferente do mencionado acima.

Os resultados desse estudo indicam que uma deficiência nesse tipo de habilidade imitativa mantém forte correlação com os baixos resultados do sujeito autista no que concerne à linguagem expressiva.

A noção de interesse compartilhado e de comprometimento nesse interesse aparece num outro grupo de investigação, como fator explicativo da dificuldade linguística do autista (Baron-Cohen 1991 e1994, citado em Roazzi y Dias, 1998), embora constitua também uma perspectiva diferente da proposta por Nadel y Fontaine (op. cit.), fazendo parte do modelo da chamada Teoria da Mente. Nesse modelo, destaca-se a atenção compartilhada, como por exemplo, a conjugação do olhar da criança e da outra pessoa sobre um mesmo objeto. "O fato de compartilhar o foco de interesse com uma outra pessoa envolve uma representação do outro como dotado de interesse em relação a um objeto/evento" (...) "significando que a criança representa alguém como capaz de ter experiências internas e nesse caso específico ‘ser interessado em algo.’ " (Roazzi y Dias, 1998)

Por fim, numa perspectiva bem diferente das referidas até agora, situa-se Lasnik-Penot (1991 e 1997) que se baseia na leitura que Lacan realizou da Psicanálise freudiana. Lacan concebe o chamado "estádio do espelho" como uma vivência decisiva para a constituição do psiquismo infantil. Utilizando a metáfora do espelho esse autor propõe que, nesse momento, estabelece-se um tipo de relação entre mãe e criança, de modo que esta se apreende através de sua imagem refletida por aquela e se reconhece nesse espelho (mãe ou outro adulto).

Ocorre então a constituição/delimitação da imagem do próprio corpo da criança, o que é crucial para o desenvolvimento das várias dimensões psíquicas, sendo fundamental, nesse processo, o funcionamento da língua (na concepção estruturalista lacaneana) através da fala da mãe. Os autores (dentre eles, Lasnik-Penot, op. cit.) propõem que alguns aspectos na relação mãe/filho podem interferir, nesse momento, colocando um obstáculo para a formação da imagem na criança e comprometendo, desse modo, a constituição de sua linguagem, ou melhor de seu psiquismo como um todo, como no caso do autismo.

Como se pode ver, a polêmica esboçada nestas reflexões iniciais aponta para o desafio de se confrontar com o "enigma da criança autista".

Confronto que já demandou um investimento grande por parte daqueles que se sentiram desafiados.

Entretanto, está apenas no seu começo a tentativa de trilhar o caminho de decifração do enigma:

Um enigma que envolve a singularidade dessa criança de rosto inteligente, aparência física normal e capacidade mnemônica, muitas vezes, notável!

Glória Carvalho

Telma Avelar

Bibliografia

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JOHNSON, C. y DORMAN, B. What is Autism? Doc. on line: http://www.autism- society.org/autism.html#contents.
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Fonte: www.proext.ufpe.br

Autismo

O que é?

É uma alteração "cerebral" / "comportamental" que afeta a capacidade da pessoa comunicar, de estabelecer relacionamentos e de responder apropriadamente ao ambiente que a rodeia.

Algumas crianças, apesar de autistas, apresentam inteligência e fala intactas, algumas apresentam também retardo mental, mutismo ou importantes atrasos no desenvolvimento da linguagem.

Alguns parecem fechados e distantes e outros parecem presos a comportamentos restritos e rígidos padrões de comportamento.

O autismo é mais conhecido como um problema que se manifesta por um alheamento da criança ou adulto acerca do seu mundo exterior encontrando-se centrado em si mesmo ou seja existem perturbações das relações afetivas com o meio.

A maioria das crianças não fala e, quando falam, é comum a ecolalia (repetição de sons ou palavras), inversão pronominal etc..

O comportamento delas é constituido por atos repetitivos e estereotipados; não suportam mudanças de ambiente e preferem um contexto inanimado.

O termo autismo se refere ás características de isolamento e auto-concentração das crianças.

O autista possui uma incapacidade inata para estabelecer relações afetivas, bem como para responder aos estímulos do meio.

É universalmente reconhecida a grande dificuldade que os autistas têm em relação á expressão das emoções.

Características comuns do autista

Tem dificuldade em estabelecer contato com os olhos
Parece surdo, apesar de não o ser
Pode começar a desenvolver a linguagem mas repentinamente ela é completamente interrompida
Age como se não tomasse conhecimento do que acontece com os outros
Por vezes ataca e fere outras pessoas mesmo que não existam motivos para isso
Costuma estar inacessível perante as tentativas de comunicação das outras pessoas
Não explora o ambiente e as novidades e costuma restringir-se e fixar-se em poucas coisas
Apresenta certos gestos repetitivos e imotivados como balançar as mãos ou balançar-se
Cheira, morde ou lambe os brinquedos e ou roupas
Mostra-se insensível aos ferimentos podendo inclusive ferir-se intencionalmente

Tratamentos

Poucos são os tratamentos atualmente existentes uma vez que os resultados são muito pequenos e morosos.

Os tratamentos passam por uma estimulação constante e por um apoio constante como forma de estimular e fazer com que a criança interaja com o ambiente, com as pessoas e com outras crianças.

Frequentemente usa-se a hipoterapia, a musicoterapia, a terapia da fala, a natação, o contato com animais, o apoio em casa e com especialistas e muitas outras abordagens.

Infelizmente estas abordagens não resolvem as causas por detrás do autismo.

Há que resolver as causas por detrás do autismo e para isso há que compreender quais elas são.

Causas

A observação e trabalho com crianças autistas (bem como com crianças disléxicas, hiperativas e outras) mostra que as crianças autistas têm uma compressão demasiado grande em termos de cabeça.

Isto pode equivaler a ter a cabeça colocada num torno.

O sofrimento que se consegue sentir na cabeça destas crianças costuma ser imenso.

E é muito desse sofrimento que provoca a compressão que se costuma sentir na sua cabeça.

A maneira como reagimos ás emoções é comprimindo o corpo. Veja como exemplo a raiva e o seu efeito no corpo.

Sabendo que a fáscia pode criar compressões de até 140 Kgs por centímetro quadrado, pode-se imaginar o que isso representa na cabeça da criança autista.

Com tamanha compressão é mais do que óbvio que a criança ou adulto não consegue interagir com o meio pois está demasiado absorvido com a sua dor e com o seu desconforto.

As raivas da criança e a sua incapacidade de atuação encontram aqui as explicações.

Ninguém consegue estar bem nem interagir com o meio se está demasiado desconfortável.

Mais; os trabalhos e investigação do Dr. Upledger (criador da CranioSacral Therapy) mostraram que as tensões e compressões a nível das meninges existem nas crianças autistas e que estas precisam de sessões semanais (1 a 3) durante todo o seu crescimento até cerca dos 18 anos por forma a que o sistema crânio sacral funcione nas melhores condições uma vez que é este sistema que é o responsável por todo o ambiente fisiológico no qual todo o sistema nervoso vive, funciona e se desenvolve.

As tensões ao nível das meninges afetam todo o funcionamento não só do sistema crânio sacral mas de todo o sistema nervoso central pelo que há que libertar as tensões existentes nas meninges por forma a que o sistema crânio sacral e o sistema nervoso possam funcionar o melhor possível.

Pela minha experiência com estas e outras situações o que posso dizer é que de fato a tensão a nível da cabeça e a nível das meninges é demasiado grande o que explica o desconforto, irritação, agressividade, depressão, problemas de aprendizagem, desordens de atenção, défice de atenção, dislexia, hiperatividade, autismo, etc. que as crianças apresentam.

Tratamentos

A solução para estes problemas passa por terapias que corrijam estas tensões, alterações e disfunções existentes.

Para o efeito pode-se utilizar a Terapia Craneo Sacral ou a Libertação Miofascial.

Eu pessoalmente uso (usei) mais a Libertação Miofascial em virtude de ser mais rápida e eficaz e em virtude de trabalhar todo o corpo e de desmemorizar os tecidos.

Com a Libertação Miofascial consigo muito mais e muito mais rapidamente resultados nas diversas situações que me aparecem no meu dia a dia.

No entanto, eu estou a utilizar outras abordagens por forma a acelerar os resultados e por forma a trabalhar as causas que estão por detrás destes problemas.

Hoje sei que a Libertação Miofascial não me dá todas as respostas e hoje estou a usar outras abordagens muito mais rápidas e eficazes.

O que hoje aplico é algo muito mais rápido e eficaz do que a Libertação Miofascial.

é assim que eu estou em trabalho de investigação para ver outras causas e outras soluções para que de fato os resultados surjam o mais rápido possível e para que a criança não tenha de andar a fazer várias sessões semanais até aos 18 anos.

Até ter resultados concretos e fiáveis vou continuando a fazer o meu trabalho o melhor que sei e o melhor que posso.

De tudo isto, facilmente se compreende que o autismo é uma situação complicada e que não se resolve facilmente.

Os tratamentos acarretam uma despesa muito grande para os pais, sobrecarregando-os quando eles já estão demasiado sobrecarregados com o problema do filho.

Assim seria desejável que existissem apoios (financeiros, investigação, etc.) vindos de pessoas que o pudessem prestar por forma a se conseguir dar um pouco de mais qualidade de vida não só ás crianças como aos seus pais.

No caso do autismo, o tratamento deve sempre começar por os pais se submeterem a tratamento primeiro, para que fiquem mais relaxados e não transmitam o seu stress e tensões acumuladas ao longo dos anos aos seus filhos, impedindo-os dessa forma de fazerem os progressos que precisam.

No caso da Hiperatividade e mesmo da Dislexia ou de Problemas de Aprendizagem ou outros, quase sempre as crianças beneficiam imenso quando os seus pais recebem tratamento primeiro ou em simultâneo.

Fonte: jcsantiago.info

Autismo

Autismo é uma síndrome comportamental com etiologias diferentes, na qual o processo de desenvolvimento infantil encontra-se profundamente distorcido (Gillbert, 1990; Rutter, 1996).

A primeira descrição dessa síndrome foi apresentada por Leo Kanner, em 1943, com base em onze casos de crianças que ele acompanhava e que possuíam algumas características em comum: incapacidade de se relacionarem com outras pessoas; severos distúrbios de linguagem (sendo esta pouco comunicativa) e uma preocupação obsessiva pelo que é imutável (sameness). Esse conjunto de características foi denominado por ele de autismo infantil precoce (Kanner, 1943).

O diagnóstico e subclassificações do autismo estiveram sob o amplo rótulo de ‘esquizofrenia infantil’ por muitas décadas. Entretanto, segundo Rutter (1985), já havia nos anos 70, um reconhecimento de que seria necessário distinguir-se entre as severas desordens mentais, surgidas na infância, e as psicoses cujo aparecimento se faz mais tarde.

Considerando que uma séria anormalidade no processo de desenvolvimento per se está presente desde cedo na vida da criança (evidência dessa desordem deve ser aparente nos primeiros 36 meses de vida de acordo com o DSM-IV/APA (1994)), o termo ‘transtornos invasivos do desenvolvimento’ tem sido adotado, desde a década de 80.

Diferentes sistemas diagnósticos (DSM-IV/APA, 1994; CID-10/WHO, 1992) têm baseado seus critérios em problemas apresentados em três domínios (tríade de prejuízos), tais quais observados por Kanner (1943), que são:

a) prejuízo qualitativo na interação social
b)
prejuízo qualitativo na comunicação verbal e não-verbal, e no brinquedo imaginativo e,
c)
comportamento e interesses restritivos e repetitivos.

Taxas de prevalência obtidas a partir de estudos epidemiológicos variam de aproximadamente 2-3 até 16 em cada 10.000 crianças (Wing, 1996). A prevalência de crianças com autismo típico, no Reino Unido, por exemplo, é de 4-5 em cada 10.000 crianças (Wing & Gould, 1979).

Contudo, esta taxa aumenta para 15-20 em cada 10.000 se crianças do tipo autistic-like forem incluídas, isto é, aquelas crianças que mostram características autistas no que se refere à ‘tríade’ de comprometimentos (social, comunicação, e atividades restritas/repetitivas). No Brasil, apesar de não haver dados estatísticos, calcula-se que existam, aproximadamente, 600 mil pessoas afetadas pela síndrome do autismo (Associação Brasileira de Autismo, 1997), se considerarmos somente a forma típica da síndrome.

A prevalência é quatro vezes maior em meninos do que em meninas (Rutter, 1985; Wing, 1981) e há alguma evidência de que as meninas tendem a ser mais severamente afetadas (Wing, 1996). Entretanto, isso pode ser devido à tendência de meninas com autismo apresentarem QI mais baixo do que os meninos, pelo menos nos estudos de Lord e sua equipe (Lord & Schopler, 1985).

O estudo na área do autismo infantil, desde as primeiras considerações feitas por Kanner (1943) até as mais recentes reformulações em termos de classificação e compreensão dessa síndrome (Rutter, 1996), tem sido permeado por controvérsias quanto a sua etiologia. Historicamente, reivindicações a respeito da natureza do déficit considerado ‘primário’ (inato x ambiental) têm constituído os principais postulados das teorias psicológicas sobre o autismo. Algumas destas teorias serão apresentadas a seguir, iniciando-se com uma breve revisão sobre as abordagens psicanalíticas aplicadas ao estudo do autismo, seguidas pelas teorias afetivas, sócio-cognitivas, neuropsicológicas e de processamento da informação.  

Teorias Psicanalíticas

Existem diferentes postulados teóricos dentro da abordagem psicanalítica que se propõem a explicar o autismo. Maratos (1996), ao analisar as contribuições dessa escola de pensamento, concluiu que a preocupação da maioria dos psicanalistas tem sido mais a de descrever o funcionamento mental, os estados afetivos e o modo como essas crianças se relacionam com as pessoas do que com questões etiológicas.

Especulações a respeito da gênese do autismo surgiram com a tese inicial de Kanner (1943) de que crianças autistas sofriam de uma inabilidade inata de se relacionarem emocionalmente com outras pessoas:

"Nós devemos, então, assumir que estas crianças tenham vindo ao mundo com uma inabilidade inata de formar o usual, biologicamente determinado, contato afetivo com outras pessoas, da mesma forma que outras crianças vêm ao mundo com deficiências físicas ou intelectuais inatas." (p. 250)

Apesar de seu artigo ter incluído observações a respeito da falta de afetividade nas famílias das onze crianças que ele acompanhou em sua clínica, sua posição foi a de que dificilmente se poderia atribuir todo o quadro apresentado pela criança ao tipo de relacionamento com os seus pais, dado o intenso isolamento social da criança, desde o começo de sua vida.

Entretanto, essas mesmas observações levaram à hipótese de que haveria uma ligação entre autismo e depressão materna (Kanner & Eisenberg, 1956). O mecanismo que embasa essa noção é o de que a depressão interfere na capacidade materna para cuidar e envolver-se emocionalmente com o seu bebê. Dessa forma, nas duas décadas que se seguiram à publicação seminal de Kanner, o autismo foi atribuído a causas psicogênicas, formuladas a partir de observações clínicas e da abordagem psicanalítica.

Melanie Klein foi a pioneira no reconhecimento e tratamento da psicose em crianças. Apesar dessa autora não distinguir os quadros autistas da esquizofrenia infantil, reconheceu a presença, nas crianças com autismo, de características qualitativamente diferentes de outras crianças consideradas psicóticas (Klein, 1965).

Para a autora, o autismo era explicado em termos de inibição do desenvolvimento, cuja angústia decorria do intenso conflito entre instinto de vida e de morte. Supunha, tal como Kanner (1943), que tal inibição seria de origem constitucional a qual, em combinação com as defesas primitivas e excessivas do ego, resultaria no quadro autista. O bloqueio da relação com a realidade e do desenvolvimento da fantasia, que culminaria com um deficit na capacidade de simbolizar, seria então, central à síndrome.

Margaret Mahler, por sua vez, identificou diferentes fases no processo do desenvolvimento psicológico do bebê (Mahler, 1968, 1975), sendo a primeira, a do narcisismo primário na qual uma fase ‘autística normal’ marcaria as duas primeiras semanas de vida do bebê. Essa fase se caracterizaria por um estado de desorientação alucinatória primitiva (narcisismo primário absoluto), ocorrendo uma falta de consciência do agente materno.

Na fase seguinte do narcisimo primário (onipotência alucinatória condicional) haveria uma consciência de que a satisfação das necessidades viria de algum lugar externo ao eu. A partir do segundo mês de vida, essa consciência, inicialmente ‘turva’ torna-se difusa, marcando o início da fase de simbiose normal – o bebê funciona como se ele e sua mãe fossem uma unidade dual. É dentro desse quadro de total dependência psicológica e sociobiológica da mãe que o ego rudimentar do bebê pequeno começa um processo de diferenciação. Por volta dos seis meses de idade, teria início a fase de separação-individuação que levará à organização do indivíduo.

Mahler (1968) desenvolveu suas idéias sobre os autismos infantis a partir de sua teoria evolutiva, explicando o autismo como sendo um subgrupo das psicoses infantis e uma regressão ou fixação a uma fase inicial do desenvolvimento de não-diferenciação perceptiva, na qual os sintomas que mais se destacam são as dificuldades em integrar sensações vindas do mundo externo e interno, e em perceber a mãe na qualidade de representante do mundo exterior.

Posição semelhante foi desenvolvida por Tustin (1981), que também reconhecia uma fase autista normal no desenvolvimento infantil, sendo a diferença entre esta e o autismo patológico, uma questão de grau. Para ela, o autismo seria uma reação traumática à experiência de separação materna, que envolveria o predomínio de sensações desorganizadas, levando a um colapso depressivo.

Depreende-se dos conceitos acima, a noção de que a ‘retirada’ do bebê para um mundo próprio seria uma conseqüência da falha na modulação das pulsões instintivas, na organização das suas reações formativas e defesas, o que impediria o desenvolvimento de uma verdadeira relação objetal.

O autismo foi ainda compreendido como sendo, por exemplo:

a) uma reação autônoma da criança à ‘rejeição materna’ cuja raiva leva a interpretação do mundo à imagem da sua cólera e à reação de desesperança (Bettelheim, 1967)
b)
uma cisão do ego precoce, ocasionando uma desorganização dos processos adaptativos e integrativos como falha na superação da posição paranóide (Klein, 1965)
c)
um sintoma dos pais em que a mãe é vista como um vazio de manifestações espontâneas de sentimentos (Kaufman, Frank, Friend, Heims & Weiss, 1962)
d)
uma forma de ausência completa de fronteira psíquica decorrente de uma falta de diferenciação entre o animado e o inanimado (Mazet & Lebovici, 1991); e
e)
conseqüência de severas dificuldades em formar representações ícones entre as primeiras representações mentais e áreas somáticas (Aulagnier, 1981, citada por Maratos, 1996).

Concebe-se a criança autista como vivendo em um estado mental caracterizado por insuficiente diferenciação entre estímulos vindos de dentro ou de fora do corpo e incapacidade para construir representações emocionais. Dessa forma, todo estímulo (social e não-social) seria experienciado como sendo fragmentado, impedindo a possibilidade de formação de uma experiência contínua, seja quando só ou na presença de outros.

O conceito de ‘desmantelamento do ego’ de Meltzer (Meltzer, Bremer, Hoxter, Weddell & Wittenberg, 1975) ilustra este processo no qual a atenção da criança à função total de um objeto é suspensa, sendo concentrada em partes do objeto que são mais atrativas para ela em um dado momento. Esse desmantelo, no qual o processo de senso de integridade e continuidade é interrompido, leva ao predomínio de emoções primitivas e muitas vezes dolorosas.

O autismo seria então uma defesa contra o desmantelamento do ego. Estes autores chamam a atenção para a necessidade de se mobilizar a atenção nestas crianças de modo a possibilitar uma relação coerente com os objetos e com o seu próprio self.

A questão do problema de bombardeamento de sensações no autismo foi abordada por Tustin (1981, 1990), que propôs a noção de ‘colapso depressivo crônico’ ao compreender os estados autistas como uma reação a uma incapacidade de filtrar as experiências sensoriais, na qual a função do ‘tampão’ ou ‘concha’ autística seria mais a de proteção do que compensatória (i.e. de reação contra a ansiedade), diferindo, dessa forma, de Mahler e Meltzer.

A controvérsia sobre a existência de uma distorção no desenvolvimento do bebê devido a fatores intrínsecos orgânicos (constitucionais ou adquiridos), ou ainda, ambientais, tem sido tratada de forma linear e reducionista.

Entretanto, a noção de que o autismo tem causação múltipla não é nova (Meltzer, 1975), sendo essa tendência uma tônica nos anos 90. Alvarez (1992) chama a atenção para a necessidade de um modelo de feedback interacional que contemple tanto a natureza quanto os cuidados dispensados ao bebê e faz a ressalva de que, a despeito de alguma disfunção neurológica inicial, sempre haverá uma forma particular de deficit psicológico resultante da interação com o ambiente.

Complementando essa idéia, Maratos (1996) afirma que ainda que causas orgânicas sejam identificadas, um dos aspectos básicos da abordagem terapêutica não será fundamentalmente alterada, qual seja, a análise dos processos mentais. Por outro lado, Alvarez (1992) e Tustin (1994) reconhecem que a etiologia psicogênica possa ser aplicável a apenas uma parcela das crianças com autismo e reafirmam a necessidade de se levar em conta a associação de fatores neuroquímicos com o funcionamento emocional.

Um último tópico que merece ser abordado é a noção de patogenia parental. Alvarez (1992) e Maratos (1996) mostraram-se bastante críticas em relação à noção do autismo como sendo um transtorno decorrente de problemas na qualidade da maternagem. Ressaltaram que Bettelheim (1967), o principal proponente dessa tese, não recebeu apoio de grande parte dos psicanalistas ao conceber o autismo como uma defesa contra uma mãe deprimida e fria. Para esse autor, os pais de crianças autistas não forneciam as condições emocionais necessárias para que a criança saísse do seu isolamento, embora salientasse que esse não seria o único fator implicado no autismo. Tais idéias constituíam a base das recomendações de comunidades terapêuticas nas quais as crianças eram afastadas do convívio familiar.

Um dos grandes problemas de tais especulações é a confusão entre a reação dos pais ao perfil único de comportamento do filho (a ) e a causalidade parental da síndrome (Rutter, 1994; Trevarthen, 1996). De fato, essa observação não é inédita, pois já na década de 60, Escalona (1968, citado por Ajuriaguerra, 1983) chamava a atenção para esta controvérsia – se autismo seria decorrente de um relacionamento materno inadequado ou de deficiências inatas – concluindo que tais discussões eram estéreis, uma vez que o autismo seria o resultado de uma falta de experiências vitais na infância, cuja origem pode ter suas raízes em fatores intrínsecos, extrínsecos, ou em ambos.

De qualquer forma, estudos atuais que tanto investigaram características de personalidade de famílias de crianças autistas (Bolton e cols., 1994) quanto à associação entre deficits sociais e privação emocional (Rutter & Lord, 1994) também não corroboraram a tese de Bettelheim. Apesar de haver evidência de maior presença de transtornos de humor e de obsessivo-compulsivos em familiares de indivíduos autistas (comparados a familiares de indivíduos que apresentam atrasos de desenvolvimento mas sem autismo - Bolton e cols., 1994), tais achados não são suficientes para que relações causais entre esses tipos de transtornos, a qualidade de relacionamento pais-criança e autismo sejam estabelecidas. Ao invés disso, os autores sugeriram que transtornos obsessivo-compulsivos, por exemplo, podem estar associados a uma suscetibilidade para o autismo.  

Teorias Afetivas

A tese de Kanner de que crianças com autismo sofreriam de uma inabilidade inata de se relacionarem emocionalmente com outras pessoas foi retomada e estendida por Hobson (1993a, 1993b). A teoria afetiva sugere que o autismo se origina de uma disfunção primária do sistema afetivo, qual seja, uma inabilidade inata básica para interagir emocionalmente com os outros, o que levaria a uma falha no reconhecimento de estados mentais e a um prejuízo na habilidade para abstrair e simbolizar. Os deficits no reconhecimento da emoção e na habilidade de utilizar a linguagem de acordo com o contexto social, seriam então, conseqüências da disfunção afetiva básica, a qual impediria a criança de viver a experiência social intersubjetiva. Tal experiência está associada à capacidade (inata) de perceber e responder à linguagem corporal (por exemplo, expressão facial, vocal e gestual) e de inferir emoções a partir dessa linguagem.

Em outras palavras, os bebês viriam ao mundo naturalmente equipados com a capacidade para extrair significado afetivo da fisionomia e das atitudes das pessoas, o que as possibilitaria desenvolver o conceito de ‘pessoas com mentes’. Esse processo de desenvolvimento foi denominado por Trevarthen (1979) de ‘intersubjetividade primária’, isto é, a capacidade inata do ser humano para estabelecer relações afetivas recíprocas, habilidade essa que o capacita a distinguir pessoas de ‘coisas’ e de compreender os estados mentais do self e dos outros.

De acordo com Hobson, a experiência de intersubjetividade permite a diferenciação progressiva do self através da transformação de formas primitivas de experiências do self em ‘consciência’ do mesmo. Há uma compreensão crescente não somente do próprio self como fonte de atitudes e sentimentos em relação ao mundo como também da natureza dos ‘selves’ dos outros tão similar e ao mesmo tempo tão distinto do dela.

O autor explica o processo de distinção entre pensamento e realidade concreta a partir da percepção da criança de que diferentes pessoas conferem significados diferentes aos mesmos eventos do ambiente (Hobson, 1993a):

"Eu acredito que esta triangulação envolvendo o self, o outro e um objeto de atitude é vitalmente importante como contexto no qual a criança passa a distinguir ‘pensamento’ de ‘coisa’ (ou inicialmente, ‘atitude’ de ‘coisas’), e apreende como é possível conferir novos significados à realidade aparente, como no brinquedo simbólico-criativo." (p.215)

Hobson e equipe, numa série de experimentos empregando grupos de controle, testaram a hipótese de que indivíduos com autismo apresentam deficits no processamento da informação afetiva. Em um desses estudos (Hobson, 1986), crianças com e sem autismo foram testadas na sua habilidade em combinar desenhos e fotografias de expressões faciais com as imagens correspondentes em fitas de videotapes.

As crianças com autismo demonstraram grandes dificuldades nessa tarefa, sugerindo um deficit na capacidade de reconhecimento de diferentes emoções. Em um outro estudo, os achados foram que as crianças autistas tenderam a classificar pilhas de fotografias a partir de características não-faciais (por exemplo, pelas roupas), enquanto crianças sem autismo o fizeram com base nas expressões afetivas (Weeks & Hobson, 1987), e também mostraram comprometimento na capacidade de combinar expressões faciais com gestos e postura congruentes (Hobson, 1986).

Uma outra teoria afetiva (Mundy & Sigman, 1989) enfatiza, tal qual Kanner (1943) e Hobson (1986) o fizeram, as possíveis bases biológicas da síndrome do autismo: "Num sentido muito real, o modelo que aqui apresentamos brevemente está de acordo com a hipótese original de Kanner" (p.16). Entretanto, de forma diversa desse último, não postula uma primazia de um sistema (afetivo) sobre o outro (cognitivo) e sim, chama a atenção para o papel de ambos no desenvolvimento social infantil. Para os autores, o comportamento de ‘atenção compartilhada’ (isto é, a capacidade de dividir a experiência com objetos/eventos com o parceiro) ilustra o processo integrado de fatores afetivos e cognitivos, uma posição já defendida por Hermelin e O’Connor (1970) ao nomearam tal processo de sistema lógico-afetivo.

Para Mundy e Sigman (1989), o desenvolvimento da cognição social ocorre a partir de ‘esquemas de ação social’, os quais emergem no contexto de interações face-a-face. Esses esquemas consistem em relacionar a representação do afeto experienciado pelo próprio self com o de outras pessoas. A experiência interna de outros e a concomitante expressão afetiva apresentada por eles seriam contrastados com a própria experiência da criança.

Esse processo, segundo os autores, é rudimentar durante o primeiro semestre de vida do bebê, envolvendo somente representações de primeira ordem.

Semelhante ao que Bruner (1983) já dissera a respeito da importância dos primeiros ‘jogos sociais’ entre o cuidador e o bebê para o desenvolvimento sócio-emocional da criança, esses autores salientam que as trocas afetivas repetidas no contexto de interação, em relação a um terceiro referente (objetos ou eventos) funcionam como a base para a comunicação não-verbal triádica – uma habilidade que emerge no segundo semestre de vida e contribui para a expansão das habilidades sócio-cognitivas do bebê. Embora essa teoria se assemelhe à de Hobson, a diferença básica seria uma ênfase maior no processo de comparação da experiência do próprio afeto com o do outro e não a percepção do afeto per se.

Baseados em investigações experimentais do comportamento de atenção compartilhada e de expressão da emoção, Mundy, Sigman e Kasari (1993) sugeriram que, desde muito cedo na sua vida, as crianças com autismo demonstram respostas afetivas atípicas diante de estimulação social, mais especificamente, distúrbios na auto-regulação de estímulos (Dawson & Levy, 1989) – uma posição anteriormente discutida por C. Hutt e colaboradores (Hutt & Hutt, 1968) e mais tarde expandida por Ornitz e Ritvo (1976) – e pela ruptura do desenvolvimento cognitivo de habilidades representacionais.

Tais teorias apresentam uma característica comum: a atribuição dos deficits sociais em autismo a dificuldades em modular tanto a informação sensorial quanto a experiência perceptiva. Dessa forma, o ‘retraimento’ autista tem sido explicado em termos de um estado de excitação crônico (Hutt & Hutt, 1968) ou flutuações nesses estados (Ornitz & Ritvo, 1976) que conduzem à evitação do olhar, reações negativas e retraimento da interação social, como mecanismos para controlar o excesso de estimulação.   

Teoria da Mente

Paralelamente à noção de deficit inato na capacidade de entrar em sintonia afetiva com os outros no autismo, proposta pelas teorias afetivas, surgiram as explicações de danos na capacidade de meta-representar, ou mais especificamente, na habilidade de desenvolver uma teoria da mente, como fator explicativo da síndrome do autismo.

Teoria da mente significa a capacidade para atribuir estados mentais a outras pessoas e predizer o comportamento das mesmas em função destas atribuições (Premack & Woodruff, 1978). O termo ‘teoria’ foi empregado por esses autores porque esse processo envolve um sistema de inferências sobre estados que não são diretamente observáveis e que podem ser usados para predizer o comportamento de outros.

Para alguns teóricos do desenvolvimento (por exemplo, Wellman, 1990; Harris, 1994) essa capacidade constituir-se-ia no desenvolvimento de um sistema de inferências incorporado de um conjunto de princípios relacionado a um tipo de senso comum acerca de processos explicativos do comportamento humano, ou seja, uma psicologia popular do comportamento (Horgan & Woodward, 1990). O impulso inicial para essa habilidade seria inato, porém o processo em si seria aprendido, através da interação com os cuidadores e com outras pessoas, durante o qual a criança vai incorporando informações da psicologia popular disponível na sua cultura.

Tem sido sugerido por alguns teóricos (Harris, 1994; Wellman, 1994) que uma teoria da mente operante se refletiria na capacidade da criança em atribuir a si própria ou a outrem, estados mentais como desejos, crenças e intenções - habilidade já presente ao redor dos três anos de idade. Nessa época, a criança estaria apta a distinguir estados mentais de físicos, bem como aparência (e ‘faz-de-conta’) de realidade. Em princípio a criança faria comentários a respeito dos seus próprios estados mentais para depois comentar a respeito do de outras pessoas e, dessa forma, predizer o comportamento das mesmas. Então, pode se dizer que o conceito subjacente ao desenvolvimento da teoria da mente é o da representação – expressão de um objeto ou evento através de categorias alheias a esses mesmos objetos/eventos (Perner, 1991).

A capacidade de representar passa por diferentes estágios ao longo do desenvolvimento. Durante o primeiro ano de vida ocorreria o estabelecimento de representações de nível primário, que se caracteriza pela apreensão do mundo circundante de forma sensorial, isto é, haveria a percepção apenas do objeto ou referente presente (Perner, 1991). Esse período corresponde ao estágio sensório-motor de Piaget (1966) e ao de representação primária-perceptual de Leslie (1987). Para este último, nessa etapa existe uma relação direta e transparente com o mundo, na qual representar constitui-se numa descrição literal da situação resultante da percepção (modelo presente).

No segundo ano de vida, a criança evolui para um estágio (representação secundária para Perner, 1991) no qual passa a diferenciar o real do faz-de-conta, não necessitando mais da presença do objeto para representá-lo. Esse estágio corresponderia ao início da capacidade simbólica para Piaget (1966) e da meta-representação para Leslie (1987) a qual se tornaria ‘opaca’, isto é, seria destacada da realidade e transformada, através da manipulação da própria percepção. Em outras palavras, a representação de uma percepção não seria mais uma representação do mundo de uma forma direta (transparente), mas representações das representações (daí meta-representação). Essa suspensão das relações de referência com o mundo é denominada por Leslie como decouple (Leslie, 1987).

Ao dividir as construções de situações imaginárias com os outros, isto é, ao compreender o ‘faz-de-conta’ nos outros, estabelece-se uma forma elementar de compreender o estado mental dos outros (suas crenças, desejos e intenções) – os rudimentos de uma teoria da mente. Nesse ponto da discussão é imperativo que se faça uma distinção entre o conceito de meta-representação de Leslie e Perner. Para este último, a meta-representação implica um processo mais avançado que a representação da representação – necessitaria a compreensão do próprio ato representacional (Perner, 1991). O desenvolvimento de uma teoria da mente envolveria, então, não apenas uma representação interna a respeito das coisas mas também a capacidade de refletir sobre essas representações (Dennet, 1978).

A compreensão da criança a respeito das crenças dos outros foi primeiro investigada, experimentalmente, por Wimmer e Perner (1983) utilizando-se de um teste baseado numa estória de bonecos na qual um personagem mantém uma crença falsa (diferente) daquela da criança. Crianças que passavam nesse teste demonstravam capacidade para predizer o comportamento do personagem baseado na crença (falsa) do mesmo.

Baron-Cohen e equipe (Baron-Cohen, Leslie & Frith, 1985) adaptaram esse experimento, criando o teste da Sally-Ann para investigar o possível comprometimento de crianças com autismo na habilidade de usar o contexto social para compreender o que outras pessoas pensam e acreditam. Para os autores, um dos aspectos fundamentais da teoria da mente é a compreensão do papel da crença na determinação de uma ação, ou seja, aquilo que a pessoa acredita pode ser mais relevante no desencadeamento de um dado comportamento do que quaisquer circunstâncias reais. Dessa forma, a consideração de falsas crenças seria tão importante na determinação de um comportamento quanto as reais.

Nessa tarefa, uma boneca (Sally) coloca o seu brinquedo numa caixa e sai da sala. Enquanto isso, outra boneca (Ann) tira o brinquedo da caixa em que Sally o havia colocado e deposita-o em outra caixa. Pergunta-se à criança em qual das caixas Sally provavelmente vai procurar o brinquedo quando retornar à sala. As crianças com autismo, ao contrário das crianças com desenvolvimento normal e com deficiência mental, mostraram dificuldades em perceber que Sally não tinha nenhuma informação a respeito da mudança de caixa, e tenderam a responder que Sally procuraria o brinquedo na caixa em que Ann o havia colocado.

Em outras palavras, essas crianças demonstraram dificuldades em compreender o que Sally pensava e em predizer o seu comportamento com base no seu pensamento. Tais resultados foram replicados, subseqüentemente, (Prior, Dahlstrom, & Squires, 1990; Ozonoff, Pennington & Rogers, 1991), exceto para as crianças com níveis mais altos de funcionamento global, e para aquelas com síndrome de Asperger, levando à conclusão de que crianças com autismo apresentam um atraso ou desvio no desenvolvimento da capacidade de desenvolver uma teoria da mente (Baron-Cohen, 1991). Esse comprometimento acarretaria deficits no comportamento social como um todo e na linguagem.

Os deficits de linguagem seriam uma conseqüência da incapacidade dessas crianças para se comunicarem com outras pessoas a respeito de estados mentais assim como os distúrbios no comportamento social refletiriam a dificuldade em dar um sentido ao que as pessoas pensam e ao modo como se comportam.

Baron-Cohen (1995), expandindo os modelos de Wellman e Leslie, propôs um outro modelo para explicar o desenvolvimento do sistema representacional, denominado de sistema de leitura da mente (mindreading).

Adotando uma perspectiva evolucionista, sustenta que a função desse sistema seria estabelecer ligações entre as propriedades do mundo, através de quatro mecanismos básicos e interatuantes: detector de intencionalidade (ID); detector de direcionamento do olhar (EDD), mecanismo de atenção compartilhada (SAM) e mecanismo de teoria da mente (ToMM).

Os dois primeiros permitem que a criança construa imagens sobre pessoas e aja segundo uma intenção, estabelecendo dessa forma, representações entre o agente da ação e o objeto referente desta ação (representação diádica), sem contudo haver a compreensão de que ambos estão compartilhando uma mesma intenção (representação triádica). Esse último processo só se viabiliza através do recebimento de informações sobre o estado perceptual do agente (fornecidas pelo ID e EDD), as quais são então associadas ao seu próprio, através do mecanismo de atenção compartilhada.

O autor enfatiza o papel dos sentidos (visão, tato e audição) no mecanismo de atenção compartilhada - em especial a importância do olhar na interpretação de ações ambíguas no que se refere a estados mentais – o qual constitui-se nos fundamentos da teoria da mente (ToMM). Esse último dispositivo habilitaria a criança a interpretar o comportamento não somente em termos volitivos e perceptuais, mas também em termos epistêmicos (pensamento, conhecimento, crença, etc.) e sua relação com a ação, utilizando-se do referencial de opacidade ou decouple, descrito por Leslie (1987).

Essa teoria afirma que os mecanismos de ID e EDD estariam relativamente intactos nas crianças com autismo, enquanto os dispositivos SAM e ToMM estariam deficitários. Ou seja, aqueles comportamentos sociais que não envolvem meta-representação, como por exemplo, os afiliativos (abraçar, beijar) e instrumentais (busca de assistência) podem apresentar-se relativamente sem comprometimento, o que não ocorreria com aqueles envolvendo a atribuição de estados mentais a outrem.

Teorias Neuropsicológicas e de Processamento da Informação

Os estudos atuais a respeito do deficit cognitivo em autismo inspiraram-se no trabalho pioneiro de Hermelin e O’Connor (1970), que foram os primeiros a testarem, cientificamente, como as crianças autistas processavam a informação sensorial na resolução de testes de habilidades de memória e motoras.

Eles concluíram que essas crianças mostravam deficits cognitivos específicos, tais como: problemas na percepção de ordem e significado, os quais não poderiam ser explicados por deficiência mental; dificuldades em usar input sensorial interno para fazer discriminações na ausência de feedback de respostas motoras; e tendência a armazenar a informação visual, utilizando um código visual, enquanto as crianças com desenvolvimento normal usavam códigos verbais e/ou auditivos. Particularmente surpreendentes foram as respostas dessas crianças aos estímulos auditivos - a intensa resposta fisiológica a sons contrastava com a passividade geralmente demonstrada por essas crianças em situações envolvendo tais estímulos.

Resultados semelhantes foram descritos em outros estudos e teorias a respeito dos deficits perceptivos em crianças com autismo os quais, apesar de adotarem diferentes terminologias e interpretações, descreveram o mesmo fenômeno: a resposta atípica de crianças autistas a estímulos sociais e não-sociais.

Alguns exemplos desses conceitos são: hiperseletividade sensorial (Schreibman & Lovaas, 1974); otimização da estimulação sensorial (Hutt & Hutt, 1968; Zentall & Zentall, 1983); input sensorial e modulação da atenção (Ornitz & Ritvo, 1976).   

Função Executiva

Acredita-se que a capacidade de planejamento e desenvolvimento de estratégias para atingir metas está ligada ao funcionamento dos lobos cerebrais frontais (Duncan, 1986). Essa habilidade envolve flexibilidade de comportamento, integração de detalhes isolados num todo coerente e o manejo de múltiplas fontes de informação, coordenados com o uso de conhecimento adquirido (Kelly, Borrill & Maddell, 1996).

A hipótese de comprometimento da função executiva como deficit subjacente ao autismo surgiu em função da semelhança entre o comportamento de indivíduos com disfunção cortical pré-frontal e aqueles com autismo: inflexibilidade, perseveração, primazia do detalhe e dificuldade de inibição de respostas. Essas características foram subseqüentemente comprovadas pelos resultados do desempenho de indivíduos com autismo em testes destinados a medir funções executivas, como por exemplo, o Wisconsin Card Sorting Test (Heaton, 1981).

Entretanto, uma das limitações desses testes é que eles não possibilitam a decomposição de funções cognitivas complexas em unidades elementares, o que permitiria a identificação de comprometimento em funções específicas e a investigação da associação entre essas funções e diferentes patologias (Ozonoff, Pennington & Rogers, 1991).

Hughes e Russel (1993) demonstraram que o grupo de crianças autistas, comparado aos grupos de controle, apresentaram um deficit maior na capacidade de planejamento para atingir uma meta. Eles utilizaram um experimento no qual a criança deveria aprender a obter bolinhas de gude de dentro de uma caixa, utilizando-se de uma entre duas diferentes estratégias. As crianças com autismo falharam em aprender a forma correta para obter esse fim, demonstrando maior insistência na estratégia incorreta.

Do mesmo modo, McEvoy, Rogers e Pennington (1993) demonstraram que o grupo de crianças pré-escolares com autismo, comparado aos grupos de controle, apresentou a mesma tendência de perseveração na estratégia incorreta em uma tarefa de reversão espacial. Além disso, a performance nesta tarefa correlacionou-se com a habilidade no comportamento de atenção compartilhada, isto é, a capacidade de dirigir a atenção do parceiro para um objeto ou evento de interesse, espontaneamente. Isso sugere que tal habilidade pode estar relacionada à maturação dos lobos frontais, e que ambas as habilidades desenvolvem-se no mesmo período, isto é, no segundo semestre de vida do bebê.

Preocupados em fornecer uma descrição mais detalhada acerca das disfunções executivas implicadas no autismo, Ozonoff, Strayer, McMahon e Filloux (1994), utilizaram-se do paradigma do processamento da informação num estudo comparando grupos de crianças e adolescentes com autismo, com síndrome de La Tourette e com desenvolvimento típico. Os achados foram que o grupo de autistas obteve um desempenho comparável ao grupo de controle em tarefas que exigiam processamento global/local (atenção ao detalhe ou ao todo) e inibição de respostas a estímulos neutros. Em contrapartida, o desempenho desse grupo nas tarefas que requeriam flexibilidade cognitiva (mudança de foco de atenção de um padrão de estímulo para outro) apresentou-se significativamente mais comprometido do que os outros dois grupos, reforçando a noção de disfunção executiva na síndrome do autismo.  

Coerência Central

Diferenças no sistema de processamento da informação em crianças com autismo é também a base de outra recente teoria em autismo (Frith, 1989). A falta da tendência natural em juntar partes de informações para formar um ‘todo’ provido de significado (coerência central) é uma das características mais marcantes no autismo. O interessante dessa teoria é que busca explicar não somente os deficits mas também as habilidades as quais podem estar não somente preservadas mas inclusive mostrarem-se superiores em indivíduos com autismo, estas últimas recebendo menor atenção na literatura.

A tendência em ver partes, ao invés de uma figura inteira, e em preferir uma seqüência randômica, ao invés de uma provida de significado (contexto), pode explicar a performance superior de crianças com autismo: a) nas escalas de Weshler que envolvem reunião e classificação de imagens por séries, em especial no subteste de Cubos (Happé, 1994); b) nas tarefas de localização de figuras ocultas (Shah & Frith, 1993) e c) nas tarefas de memorização de uma série de palavras sem-sentido ao invés daquelas com significado, comparadas aos grupos de controle (Hermelin & O’Connor, 1970). Evidentemente, há semelhanças entre essa teoria e a de disfunção executiva. Porém, a teoria da coerência central prediz comprometimento somente naquelas funções executivas que estão associadas à integração de um estímulo dentro de um contexto.  

Conclusão

As contribuições e limitações das abordagens aqui apresentadas merecem destaque, neste ponto de discussão, iniciando-se pela psicanalítica. Os avanços nos estudos sobre as capacidades sociais do bebê contribuíram para expansões e reformulações das teorias evolutivas psicanalíticas. A noção de um recém-nascido passivo e pouco receptivo às experiências do ambiente foi substituída por fartas evidências sobre a percepção alerta e busca ativa do bebê por outro ser humano (Messer, 1994), conduzindo a sérios questionamentos sobre a existência de uma fase ‘autística normal’ (Mahler, 1975) ou esquizo-paranóide (Klein, 1932/1989), posições essas que, segundo Maratos (1996) e Alvarez (1992) estão sendo revistas.

Por outro lado, o estudo na área do autismo também representa uma grande contribuição à psicologia do desenvolvimento ao lançar luzes sobre o papel da interação dos processos constitucionais e ambientais no desenvolvimento humano (as reflexões e reformulações aplicam-se também às teorias piagetianas do desenvolvimento social, pois alertam para uma competência social do bebê mais precoce do que aquela postulada por Piaget). Por fim, embora críticas sejam feitas às interpretações psicanalíticas quanto à gênese do autismo e a alguns aspectos do tratamento (ver Alvarez, 1992 e Maratos, 1996) e as observações realizadas pelos seus proponentes têm sido confirmadas em estudos contemporâneos e muito contribuíram para a disseminação do conhecimento sobre as características clínicas dessa síndrome.

Quanto às teorias afetivas, suas limitações repousam evidentemente no estabelecimento de prioridades causais na determinação do autismo. Críticas têm sido feitas ao argumento de que os deficits sociais decorreriam de problemas no sistema afetivo cujas bases seriam inatas, pois seriam pré-existentes à capacidade de meta-representar.

A evidência para esse argumento estaria nas dificuldades da criança autista quanto à expressão de comportamentos sócio-comunicativos não-verbais e afetivos, ainda no primeiro ano de vida da criança (ver Bosa, 1998). Contudo, segundo os teóricos da mente, tais habilidades já poderiam ser consideradas indicadores precoces da capacidade de desenvolver uma teoria da mente (Baron-Cohen, 1995). Dessa forma, disfunções na área da comunicação e do reconhecimento e expressão da emoção poderiam ser explicados tanto por fatores afetivos quanto cognitivos. De qualquer forma, um dos grandes méritos das teorias afetivas foi o de chamarem a atenção para a falha dos teóricos da mente em considerar o componente afetivo na representação de estados mentais.

Sobre a teoria da mente aplicada ao estudo do autismo, Bailey, Philips e Rutter (1996) ressaltam que as pesquisas nessa área possibilitaram um grande impulso no conhecimento dos mecanismos cognitivos envolvidos nessa síndrome, cujos resultados têm se mostrado suficientemente robustos nas replicações.

Entretanto, chamam eles a atenção para os pontos nevrálgicos que ainda persistem, tais como:

a) explicações a respeito da pequena percentagem de crianças autistas que ‘passam’ nos testes da teoria da mente, mas que a despeito disto apresentam deficits sociais na sua vida cotidiana
b)
a relação entre teoria da mente e comportamentos estereotipados ou ainda, ‘ilhas’ de habilidades.

A respeito do papel do deficit na função executiva na origem do autismo, o estabelecimento de uma relação causal é controverso, sendo que uma relação recíproca entre ambos não pode ser descartada (McEvoy e cols., 1993). Além disso, contra a corroboração da noção de que o deficit na função executiva seria primário no autismo, estão os estudos demonstrando que problemas nessa área não são específicos dessa patologia, sendo também encontrados em outros transtornos, tais como nos de Deficit de Atenção e Hiperatividade - TDAH (Chelune, Ferguson, Koon & Dickey, 1986).

Finalmente, sobre a teoria da coerência central, pode-se dizer que esta encontra-se num estágio muito inicial e que diversas questões precisam ser examinadas, tais como:

a) a sobreposição com a teoria da função executiva, considerando-se que ambas apontam a existência de um deficit na capacidade de integrar partes em um todo, como central à síndrome (Kelly e cols., 1996)
b)
a investigação de crianças situadas em diferentes pontos do espectro autista e daquelas com outras patologias, através de estudos comparativos. Além do mais, essa teoria não explica, de forma direta, como o deficit de coerência central se relaciona com as dificuldades no comportamento social. Por outro lado, as teorias de processamento da informação têm um papel fundamental em termos de intervenção, uma vez que o conhecimento a respeito das formas particulares com que crianças com autismo apreendem o mundo circundante tem revertido em estratégias de ação, por exemplo, na prática psicopedagógica com essas crianças.

Em suma, tem havido uma expansão considerável de pesquisas sobre os aspectos sociais e cognitivos na área do autismo. Entretanto, uma interpretação única e final do conhecimento acumulado ao longo dos anos permanece impossível por várias razões. Primeiro, os diferentes achados ainda não cobrem toda a extensão de diferenças individuais ao longo do espectro, embora tenham contribuído para desmistificar, em parte, a idéia caricaturizada de um indivíduo com autismo. São necessários mais estudos que investiguem não somente as deficiências mas também as competências sociais destes indivíduos.

Pensa-se que o conhecimento acerca dessas diferenças possa ter implicações para a identificação precoce da síndrome, visto que as crianças autistas mais ‘competentes’ são as que mais demoram a receber tal diagnóstico. Segundo, a questão do diagnóstico diferencial ainda apresenta-se controverso. Finalmente, esse campo tem sido dominado pela polêmica em torno de prioridades causais (afetivas, cognitivas, biológicas) na determinação da síndrome. Ainda que a interação desses diferentes processos tenha sido proposta e reconhecida em termos teóricos, a sua operacionalização ainda constitui um grande desafio aos futuros estudos.

Esforços devem ser concentrados na desafiadora tarefa de integrar-se os achados das diferentes áreas a fim de compreender-se os mecanismos através dos quais diferentes facetas do comportamento combinam-se para formar o intrigante perfil que caracteriza o autismo.   

Cleonice Bosa

Maria Callias

Referências 

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Fonte: www.puppin.net

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