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Doenças Tropicais

 

 

Doenças tropicais são doenças que são predominantes ou exclusivas para as regiões tropicais e subtropicais.

As doenças são mais prevalentes em climas temperados, em parte devido à ocorrência de uma estação fria, que controla a população de insetos, forçando hibernação.

Os insetos como mosquitos e moscas são, de longe, portador da doença a mais comum, ou vetor. Esses insetos podem transportar um parasita bactéria ou vírus que é contagiosa para humanos e animais.

Na maioria das vezes a doença é transmitida por uma "mordida" do inseto, que faz com que a transmissão do agente infeccioso através da troca de sangue por via subcutânea. As vacinas não estão disponíveis para qualquer uma das doenças listadas aqui.

A exploração humana da floresta tropical, o desmatamento, aumento da imigração e as viagens aéreas internacionais e aumento do turismo para outras regiões tropicais levou a um aumento da incidência de tais doenças.

Doenças Tropicais Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR)

Em 1975, o United Nations Children's Fund, o Programa das Nações Unidas, o Banco Mundial ea Organização Mundial da Saúde instituiu o Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) para focar as doenças infecciosas negligenciadas que afetam desproporcionalmente as populações pobres e marginalizadas em desenvolvimento de regiões da África, Ásia, América Central e América do Sul.

A carteira atual da doença TDR inclui as seguintes entradas:

A doença de Chagas (também chamada tripanossomíase americana) é uma doença parasitária que ocorre nas Américas, especialmente na América do Sul. O agente patogênico é um protozoário flagelado chamado Trypanosoma cruzi.

Africano tripanossomíase ou doença do sono, é uma doença parasitária, causada pelo protozoário chamado trypansomes. Os dois responsáveis pela tripanossomíase Africano são Trypanosoma brucei gambiense e Trypanosoma brucei rhodesiense.These parasitas são transmitidos pela mosca tsé-tsé

Leishmaniose causada por protozoários parasitas do gênero Leishmania e transmitida pela picada de certas espécies de flebotomíneos.

Lepra (ou da doença de Hansen) é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae. A hanseníase é uma doença granulomatosa principalmente dos nervos periféricos e na mucosa do trato respiratório superior, lesões de pele são o principal sintoma externo.

Esquerda não tratada, a lepra pode ser progressiva, causando danos permanentes à pele, nervos, membros e olhos. Contrariamente ao conceito popular, a hanseníase não causa as partes do corpo para simplesmente cair, e difere da tzaraath, a doença descrita nas escrituras hebraicas e sido traduzido para o Inglês como a lepra.

A filariose linfática é uma doença parasitária causada por parasitas como fio, sem-fins filarial chamados vermes nematóides, todos transmitidos por mosquitos. Loa loa é outro parasita filarial transmitida pela mosca veado. 120 milhões de pessoas estão infectadas no mundo. É realizado por mais de metade da população nas áreas endêmicas mais grave.

O sintoma mais visível é a elefantíase: um espessamento da pele e dos tecidos subjacentes.

A malária causada por protozoários parasitas transmitidos por mosquitos Anopheles fêmea, pois eles são os alimentadores de sangue. A doença é causada por espécies do gênero Plasmodium. A malária infecta 3-500 pessoas a cada ano, matando mais de 1 milhão.

A oncocercose ou cegueira dos rios é a segunda principal causa infecciosa mundo da cegueira. É causada por Onchocerca volvulus, um verme parasita. É transmitida através da picada de uma mosca preta. Os worms se espalham pelo organismo, e quando eles morrem, eles causam coceira intensa e uma resposta do sistema imunológico forte que pode destruir os tecidos próximos, como o olho. Cerca de 18 milhões de pessoas estão atualmente infectadas com este parasita. Cerca de 300.000 foram irreversivelmente cego por ela.

A esquistossomose também conhecido como da bilhar ou febre do caracol, é uma doença parasitária causada por várias espécies de planária em áreas com caramujos de água doce, que podem transportar o parasita. A forma mais comum de transmissão é por água ou nadar em lagos, lagoas e outros corpos de água contendo os caracóis e do parasita. Mais de 200 milhões de pessoas no mundo estão infectadas pela esquistossomose.

Tuberculose (abreviado como TB), é uma infecção bacteriana dos pulmões ou outros tecidos, que é altamente prevalente no mundo, com mortalidade superior a 50% se não tratada. É uma doença contagiosa, transmitida por aerossóis expectorante de tosse, espirro, fala, beijo, ou cuspir. Mais de um terço da população mundial tenha sido infectada pela bactéria da tuberculose.

Doenças Tropicais outras doenças tropicais negligenciadas

Adicional doenças tropicais negligenciadas incluem:

Doença Agente causador
Ancilóstomo Ancylostoma duodenale e Necator americanus
Tricuríase Trichuris trichiura
Treponematoses Treponema pallidum pertenue, Treponema pallidum endemicum, Treponema pallidum carateum, Treponema pallidum pallidum
úlcera de Buruli Mycobacterium ulcerans
Homem Africano tripanossomíase Trypanosoma brucei, Trypanosoma gambiense
Dracunculíase Dracunculus medinensis
Leptospirose Leptospira
Estrongiloidíase Strongyloides stercoralis
Transmitidas por Alimentos trematodiases Trematoda
Neurocisticercose Taenia solium
Sarna Sarcoptes scabiei
Infecções por Flavivirus Vírus da febre amarela, vírus do Nilo, vírus da dengue, vírus da encefalite Tick-borne

Algumas doenças tropicais são muito raros, mas podem ocorrer em epidemias súbitas, como a febre hemorrágica Ebola, febre de Lassa e do vírus de Marburg.

Existem centenas de diferentes doenças tropicais que são menos conhecidas ou raras, mas que, no entanto, têm importância para a saúde pública.

Relação de Doenças Tropicais do clima

Os chamados "exóticos" doenças nos trópicos têm sido observadas tanto por viajantes, exploradores, etc, bem como pelos médicos. Uma razão óbvia é que o atual clima quente durante todo o ano e ao maior volume de chuvas afetam diretamente a formação de criadouros, o maior número e variedade de reservatórios naturais e doenças dos animais que podem ser transmitidas aos seres humanos (zoonoses), a maior número de possíveis insetos vetores de doenças. É possível também que as temperaturas mais altas podem favorecer a replicação de agentes patogênicos ambos os organismos biológicos dentro e fora.

Fatores sócio-econômicos podem ser também em operação, já que a maioria das nações mais pobres do mundo estão nos trópicos. Os países tropicais como o Brasil, que têm melhorado a sua situação sócio-económica e investiu em higiene, saúde pública e ao combate às doenças transmissíveis tenham alcançado resultados impressionantes em relação à eliminação ou diminuição de muitas doenças tropicais endêmicas no seu território.

As alterações climáticas, o aquecimento global provocado pelo efeito estufa, eo conseqüente aumento nas temperaturas globais, estão causando doenças tropicais e vetores para espalhar a altitudes mais elevadas em regiões montanhosas e latitudes mais elevadas para que foram previamente poupados, como o sul dos Estados Unidos, região do Mediterrâneo, etc.

Por exemplo, nas florestas de Monteverde de Costa Rica, o aquecimento global habilitado quitridiomicose, uma doença tropical, a florescer e, portanto, em vigor populações declínio dos anfíbios do sapo arlequim de Monteverde. Aqui, o aquecimento global elevou a alturas de formação de nuvens orográficas, e consequentemente, a cobertura de nuvens que possam facilitar as condições ótimas para o crescimento do patógeno implicado, dendrobatidis B..

Prevenção e tratamento de doenças tropicais

Algumas das estratégias para o controle de doenças tropicais incluem:

Drenagem de zonas húmidas para reduzir as populações de insetos e outros vetores.

A aplicação de inseticidas e / ou repelentes de insetos) para superfícies estratégicas tais como: roupas, pele, construções, habitat de insetos e mosquiteiros.

O uso de um mosquiteiro sobre a cama (também conhecido como "rede de cama") para reduzir a transmissão noturna, já que certas espécies de mosquitos tropicais alimentam-se principalmente à noite.

O uso de poços de água e / ou filtragem de água, filtros de água ou de tratamento de água com comprimidos de água para produzir água livre de parasitas.

Desenvolvimento e utilização de vacinas para promover a imunidade da doença.

Profilaxia farmacológica pré-exposição (para prevenir a doença antes da exposição ao ambiente e / ou vetores).

Profilaxia farmacológica pós-exposição (para prevenir a doença após a exposição ao ambiente e / ou vetores).

O tratamento farmacológico (para tratar a doença após a infecção ou infestação).

Ajudar com o desenvolvimento econômico em regiões endêmicas. Por exemplo, fornecendo microcréditos para permitir que os investimentos em agricultura mais eficiente e produtiva. Este, por sua vez, pode ajudar a agricultura de subsistência para se tornar mais rentável, e estes lucros podem ser usadas pelas populações locais para a prevenção da doença e tratamento, com o benefício adicional de reduzir a taxa de pobreza.

Fonte: www.news-medical.net

Doenças Tropicais

A doença tropical tem uma correlação intrínseca não só com o ecossistema, mas também com a condição social da população. Decorrente da pobreza, também é o abandono do tratamento pelos doentes as estatísticas mostram que o abandono ao tratamento atinge grandes proporções no país, estimativas indicam dados entre 17% e 25%.

As principais causas de abandono podem ser atribuídas desde a um tempo longo de tratamento, à deficiência no sistema de atendimento aos doentes, à falsa impressão de cura após algumas semanas de tratamento e a fatores individuais (alcoolismo, etc...).

Além dos fatores sociais, existem os problemas técnicos, políticos e administrativos, que são comuns a qualquer programa de saúde pública. Resolver os problemas implica em ações com uso de tecnologia apropriada, estrutura sanitária básica, enfoque epidemiológico, decisão política e participação da sociedade.

Novos paradigmas, têm, portanto, que serem estabelecidos para o combate às doenças tropicais.

Situação atual

A pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos no combate às doenças tropicais é considerada um nicho de mercado de pouco interesse por parte das empresas estrangeiras. Embora se verifique a existência de capacitação técnico-científica no país para o desenvolvimento e produção de medicamentos e seus insumos, o que se constata é que os grupos trabalham isoladamente, de forma desarticulada e não integrada.

Conseqüentemente, embora haja investimentos na área, os recursos são dispersos, o que dificulta potencialidade de nossa biodiversidade está distante de uma exploração efetiva, e os entraves existentes para aprovação e registro de novas drogas desestimulam o desenvolvimento de novos produtos. As deficiências na operacionalização das unidades vinculadas ao SUS (Sistema Único de Saúde) prejudicam o acesso da população aos medicamentos.

As novas tecnologias de comunicação vêm abrindo, entretanto, a possibilidade de integração com o ambiente externo, tanto ao nível nacional quanto internacional.

Diarréia

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a diarréia provoca a morte de uma pessoa a cada 10 segundos em todo o mundo. Normalmente está associada à desnutrição protéico-calórica e a problemas de subdesenvolvimento decorrente da falta de higiene e sistemas de tratamento para água e esgoto.

Crianças pobres são as mais atingidas, inclusive no Brasil, apresentando de 50 a 60 dias de diarréia por ano. A morte de crianças devido à diarréia é superior às mortes por pneumonia e às doenças evitáveis por vacina. No Brasil, um país endemicamente parasitado, onde as condições sanitárias são precárias em várias regiões, o exame protoparasitológico tem muita importância no diagnóstico da diarréia. Ela pode ser classificada como de origem osmótica, secretora, motora ou exsudativa (disenteria). Na diarréia osmótica é preciso ter um elemento osmoticamente ativo no interior do intestino, que atraia água para a luz intestinal.

No caso de diarréia secretora, o exemplo clássico está relacionado com o cólera, em que há um estimulo do complexo adenilatociclase e conseqüentemente um aumento nas perdas hidroeletrolíticas. A diarréia motora é causada por uma alteração na coordenação da musculatura lisa intestinal, enquanto na diarréia exsudativa, que corresponde à disenteria, o paciente pode perder sangue, muco e pus. Nesse último grupo, podem ser incluídas as diarréias infecciosas, que afetam o cólon intestinal, e as invasivas, como as salmoneloses e shigueloses.

O antidiarreico ideal deve inibir a hipersecreção intestinal, agir rapidamente, não causar constipação e o mais importante, não ter efeito sobre o sistema nervoso central. Um fármaco inovador é oracecadotril (Tiorfan), uma nova droga que ativada no tubo digestivo por esterases, age no tubo digestivo por esterases insulares, age no mecanismo básico da diarréia, ou seja, evita a hipersecreção de eletrólitos e água para o tubo digestivo.

A droga ativa o receptor delta (d) e não o receptor mi (m), como fazem os opióides, que podem causar bacteremias. Com isso, ela não produz um dos mais sérios inconvenientes no tratamento da diarréia, que é a diminuição da mortalidade com favorecimento de crescimento bacteriano, o que pode agravar muito a diarréia.

A droga age no principal mecanismo da maior parte dos casos de diarréia, o mecanismo secretor. Não revela qualquer efeito sobre a motilidade gastrointestinal, o sistema nervoso central, o sistema respiratório ou o sistema endócrino. A substância é uma pró-droga absorvida oralmente. É rapidamente convertida em composto ativo e uma hora após a administração já se tem o maior pico de atividade. O racecadotril (Tiorfan) não atravessa a barreira hematoencefálica e a dose usual é de 100 mg três vezes ao dia.

Febre amarela

Doença infecciosa aguda, causada por um vírus RNA, arbovírus do grupo B, ou seja, vírus transmitidos por artrópodes (Arthropod Borne Viruses) do gênero Flavivírus, família Togaviridae, com transmissão através de vetores alados.

É basicamente uma antroposoonose, isto é, uma doença de animais silvestres, que acomete o homem acidentalmente.

Diferencia-se em dois padrões epidemiológicos: o urbano e o silvestre. O primeiro deve-se a ação de um mosquito de hábitos urbanos, o Aedes aegypti, que transmite a doença de pessoas doentes a uma população sensível, e volta a causar temor pela possibilidade de reemergência, devido a intensa proliferação do mosquito nos grande centros urbanos atualmente.

O ciclo silvestre, por sua vez é mantido pelas fêmeas de mosquitos antropofílicos (especialmente do gênero Haemagogos) as quais necessitam de sangue para amadurecer seus ovos: têm atividade diurna ma copa das árvores, ocorrendo a infecção do homem ao invadir o ecossistema viral. Após um período de incubação média de três a seis dias, surgem os primeiros sintomas, febre alta, cefaléia, congestão conjuntival, dores musculares e calafrios.

Algumas horas depois podem ocorrer manifestações digestivas, tais como: náuseas, vômitos e diarréia, correspondendo à fase em que o vírus está circulando no sangue (Período de Infecção), evoluindo em dois a três dias à cura espontânea (período de Remissão).

Formas graves da Febre Amarela podem surgir um ou dois dias após a cura aparente, observando-se aumento da febre e dos vômitos, prostração e icterícia (Período de Intoxicação).

Em seguida surgem outros sintomas de gravidade da doença, tais como: hematêmese (vômito negro), melena (fezes enegrecidas), petéquias (pontos vermelhos) e esquimoses (manchas roxas) em várias regiões da superfície corporal, desidratação, agitação, delírio, parada renal, torpor, coma e morte (em cerca de 50% dos casos). O diagnóstico é essencialmente clínico, sendo que nas formas graves, somente é obtido post-mortem.

Não existe tratamento específico, portanto utiliza-se de medicação sintomática, preferencialmente o Paracetamol, evitando-se os salicilatos (Ácido Acetil Salicílico e derivados), em função do risco de hemorragias. Pacientes com formas graves da doença necessitam de cuidados de Terapia Intensiva. Na prevenção da Febre Amarela fundamental é a aplicação da vacina Anti-Amarílica, na dose de 0,5 ml por via subcutânea, com reforço a cada dez anos. Não se recomenda a aplicação em gestantes e portadores de imunodeficiência (inclusive pelo Vírus da Imunodeficiência Humana).

Dengue

O dengue existia no Estado do Rio de Janeiro até a década de 1940, quando o combate ao mosquito da febre amarela, o mesmo que transmite dengue, acabou com a doença. Esta voltou, junto com o mosquito, no final da década de 1980.

No início dos anos 90, houve a introdução de um segundo tipo do vírus do dengue (o sorotipo 2, até então tínhamos somente o sorotipo 1), aumentando o risco do número de casos de dengue hemorrágico. Os sintomas na forma hemorrágica evoluem rapidamente para sangramentos internos e nas mucosas, podendo ocorrer choques que levam à morte. Ocorrem geralmente quando a pessoa, que já teve a doença por um dos tipos de vírus (existem 4, chamados sorotipos), ao qual passa a ser imune, contrai a infecção por um outro tipo.

Malária

Doença infecciosa, febril, não contagiosa, sub aguda, aguda e algumas vezes crônicas, causada por protozoários do gênero Plasmodium, principalmente as espécies vivax e falciparum, transmitida através da picada das fêmeas dos mosquitos do gênero Anopheles. Dentre todos os anofelinos transmissores de malária (cerca de 200 espécies), o Anopheles darlingi destaca-se como a espécie mais importante. Distribui-se por toda a Amazônia, onde atinge anualmente uma parcela expressiva da população, sendo frequentemente i aparecimento de formas graves, inclusive com elevada mortalidade. O período de incubação pode variar de nove a quarenta dias, os sintomas são mais graves nos indivíduos primo-infectados.

O quadro clínico caracteriza-se por : cefaléia, mialgias, prostração, perda do apetite, mal-estar geral e calafrios seguidos de febre de início súbito, elevada (acima de 40ºC) e intermitente, que ao cessar desencadeia intensa sudorese. Nas formas graves o paciente apresenta também vômitos, diarréias, cianose de extremidades, pele fria e pegajosa. Pode haver diminuição do volume urinário nas 24 horas evoluindo para Insuficiência Renal Aguda.

Complicação frequente nos casos graves é o Edema Pulmonar e a Síndrome de Angústia Respiratória do Adulto, além de sangramentos digestivos, subcutâneos e de outras localizações, que em geral leva, à morte. O diagnóstico é clínico-epidemiológico e laboratorial, através da detecção de plasmódios no sangue periférico (esfregaço ou gota espessa), além da utilização de métodos imunoenzimáticos ou de radioimunoensaio nos casos de maior dificuldade diagnostica.

O tratamento é feito com drogas antimaláricas com o uso de Cloroquina e Primaquina para P.vivax e Quinino associado a antimicrobianos e mas recentemente derivados da Artemisina, no tratamento de malária pelo P.falciparum. Os pacientes graves necessitam de cuidados em Unidade de Terapia Intensiva.

Medidas de proteção individual, com o uso de repelentes nas áreas expostas do corpo e a instalação de telas nas portas e janelas das habitações, são inviabilizadas pelas condições climáticas regionais (calor e umidade excessivos). No momento não se dispõe de vacinas para uso clínico.

Leishmaniose tegumentar americana - (LTA)

É uma doença infecciosa, de evolução que tende a cronicidade, não contagiosa, causada por diferentes espécies de protozoários do gênero Leishmania e transmitida por insetos hematófagos genericamente designados flebótomos. Trata-se de uma zoonose, pois tem como reservatórios animais silvestres picados pelos flebotomíneos.

O homem é infectado acidentalmente quando invade o ecossistema do protozoário, em atividades de extrativismo ou na implantação de projetos agrícolas em áreas recentemente desmatadas. É endêmica na Região Amazônica, com significativa incidência. É caracterizada pelo polimorfismo lesional, comprometendo a pele, comumente manifestando-se como uma lesão ulcerada, única ou múltipla, medindo entre 3 a 12 cm de diâmetro, com bordos elevados, "em moldura de quadro", base granulosa e sangrenta, frequentemente associada à infecção bacteriana secundária.

Dependendo das espécies de Leishmania e de fatores imunogenéticos do hospedeiro podem ocorrer lesões mucosas e cartilaginosas, que geralmente inicia-se na mucosa nasal, surgindo coriza e sangramento nasal, evoluindo para perfuração do septo e destruição da fossa nasal, mucosa, cartilagem e nos casos mais severos compromete o assoalho da boca, língua, laringe, traquéia e brônquios, com mutilações graves, podendo afetar as funções vitais levando ao óbito.

O diagnóstico é clínico, baseado nas características das lesões cutâneas e laboratorial através dos seguintes exames: raspado da borda na úlcera, isolamento do parasita em cultura, isolamento do parasita em animais de laboratório ("hamster"), Intradermoreação de Montenegro, imunofluorescência indireta e exame anátomo-patológico da lesão.

No tratamento da Leishmaniose Cutâneo-Mucosa as drogas de primeira escolha continuam sendo os antimoniais pentavalentes, ou seja, meglumina antimoniais pentavalentes, ou seja, meglumina antimoniato e stibogluconato de sódio.

Em caso de insucesso com estas substâncias pode-se utilizar outras drogas como Anfotericina B e Pentamidina. Todas são de administração injetável, com várias aplicações, dificultando a adesão dos pacientes. Fatores imunogenéticos podem retardar consideravelmente a cicatrização das lesões. As condições eco-epidemiológicas da Amazônia não permitem a instituição de medidas profiláticas adequadas. Não existe vacina disponível para uso clínico.

Vacinas contra a malária-perspectivas

Para a Dra. Ruth Nussenzweig, pesquisadora da Universidade de Nova York - EUA, uma vacina contra a fase pré-eritrocítica do parasita seria hoje imuno profilática, evitando todos os sintomas da doença.

Ö problema de desenvolver uma vacina contra malária ficou ainda maior, pois encontramos grande resistência do falciparum à cloroquina, e há indícios de que Pvivax já começa a desenvolver a mesma resistência, o que é muito grave para a saúde pública: a comprovação de que seria possível desenvolver uma vacina contra a doença foi conseguida há muitos anos em laboratórios, com roedores infectados por parasitas atenuados por raios gama.

Posteriormente, conseguiu-se bons resultados em macacos, e no início da década de 70 começaram os experimentos em humanos.

"Os resultados foram gratificantes, pois boa parte conseguiu ficar completamente imune contra Plasmodium falciparum e outro grupo infectado pelo P.vivax atenuado pelos raios gama ficou protegido contra o parasita.

No ano passado nos EUA e na Bélgica com o apoio da SmithKline Beecham demonstramos ser possível imunizar voluntários humanos com uma proteína híbrida que possui parte da proteína da superfície do vírus da hepatite B e parte da proteína circunsposta da malária falciparum. Houve proteção completa de cerca de sete indivíduos.

Hoje, estamos produzindo vacina sintética que está sendo ensaiada em voluntários humanos na Universidade de Maryland"", anima-se a doutora. Esta vacina, que contém alguns dos adjuvantes usados pelo exército americano e pela SmithKline Beecham, apresenta resultados preliminares que indicam que estes voluntários estão desenvolvendo alta imunidade, em níveis idênticos aos alcançados pela proteína híbrida.

Segundo a pesquisadora, "ainda é cedo para falarmos em uma vacina, pois os experimentos em humanos são demorados. Foi necessário esperar cerca de cinco anos para experimentar em humanos a primeira vacina conseguida em Maryland e teremos que esperar mais cinco para testar as novas vacinas, mas as perspectivas são boas".

Fonte: www.imt.usp.br

Doenças Tropicais

Essa denominação ainda é pertinente porque, nos trópicos, os fatores climáticos favorecem a proliferação de insetos, os principais transmissores dessas doenças.

Atualmente, essas doenças estão bastante relacionadas a fatores socioeconômicos, pois se manifestam mais nos países pobres que em sua maioria se localizam nas regiões tropicais e não têm condições de implantar medidas efetivas de controle, prevenção e tratamento.

Por isso, as doenças tropicais continuam sendo um problema grave de saúde pública, especialmente se considerarmos o alto índice de mortalidade associado a elas.

Além dos fatores sociais, existem os problemas técnicos, políticos e administrativos, que são comuns a qualquer programa de saúde pública.

Resolver os problemas implica em ações com uso de tecnologia apropriada, estrutura sanitária básica, enfoque epidemiológico, decisão política e participação da sociedade.

Novos paradigmas, têm, portanto, que serem estabelecidos para o combate às doenças tropicais.

Fonte: www.imtsp.usp.br

Doenças Tropicais

Conheça mais sobre estas doenças infecciosas, chamadas também de "tropicais"

Dengue

Transmissão:

A doença é transmitida ao homem pelo sangue, através da picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti contaminado com um dos quatro subtipos de vírus da dengue

Prevenção:

Como ainda não há vacina, a melhor forma é afastar o mosquito, que se reproduz em água limpa e parada. Para isto, deve-se cobrir caixas-d´água e piscinas, esvaziar pneus e não deixar acumular água em vasos de plantas

Sintomas:

Os sintomas da dengue clássica se parecem com os de uma gripe: dor no corpo, na cabeça, nas articulações e olhos, além de febre. Raramente há óbito nesta forma da doença. Já a hemorrágica, junte-se aos sintomas acima possíveis sangramentos, que podem levar a óbito

Tratamentos:

Repouso, reposição de líquidos e medicamentos para alívio dos sintomas. A procura por um médico é essencial desde o aparecimento dos primeiros sintomas

A dengue é um dos principais problemas de saúde pública do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que até 100 milhões de pessoas se infectam anualmente. No Brasil, a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) teve registros de 93.463 casos entre janeiro e setembro de 2004, contra 329.844 no mesmo período no ano anterior. O estado com maior número de casos foi Minas Gerais, com 19.225.

Malária

Transmissão:

Causada por protozoários do gênero Plasmodium, é transmitida através da picada da fêmea do mosquito do gênero Anopheles

Prevenção:

Ainda não há vacina, embora esteja sendo pesquisada no mundo todo. Repelente e roupas que cubram o corpo todo podem ajudar a se manter livre do mosquito

Sintomas:

Febre, dor no corpo, desânimo, perda do apetite e mal-estar. Nas formas mais graves, podem haver vômitos, diarréias e pele fria. O óbito pode ocorrer por edema pulmonar e sangramentos

Tratamentos:

Há medicamentos específicos contra o protozoário

Segundo a OMS, é a doença infecciosa que mais causa problemas no mundo, só superada em número de mortes pela AIDS. No Brasil, está distribuída por toda a região amazônica. Na década de 40, cerca de 6 milhões de brasileiros por ano contraíram a doença. Campanhas de controle foram feitas, mas na década de 70, com a exploração da floresta, novamente alcançou níveis altos, com 450.000 a 500.000 casos anuais. Em 1999, foram mais de 600.000 casos e, segundo a SVS, em 2002, o número baixou para 349.000.

Febre amarela

Transmissão:

Há duas formas desta doença causada por um vírus. A silvestre é transmitida na maioria das vezes pela fêmea do mosquito do gênero Haemagogos. Só atinge o homem acidentalmente, já que ele não é fonte de alimento do mosquito. Já a forma urbana, pelo Aedes aegypti, o mesmo transmissor da dengue. Segundo a SVS, a doença urbana já foi erradicada. A silvestre, por outro lado, tem importância entre macacos nas florestas tropicais, por isso não há maneira de erradicá-la

Prevenção:

A vacina antiamarílica é a única forma eficaz para prevenir a febre amarela. É importante informar-se sobre focos da doença ao viajar para que a vacina possa ser tomada com antecedência. A lista dos municípios está disponível no site da SVS e também nos terminais e aeroportos das principais cidades do país, onde há vacinação

Sintomas:

Dor no corpo, vômito, febre e pele amarelada. Pode também causar hemorragias e lesões no fígado e até no rim, podendo levar à morte nestes casos mais avançados.

Tratamentos:

Não há tratamento específico, apenas antitérmicos e hidratação. Procurar um médico é fundamental para a prescrição de medicamentos e conduta de tratamento.

A febre amarela foi um problema de saúde pública no Rio de Janeiro e Belém durante as primeiras décadas do século XX, mas foi vencida graças à campanha de vacinação promovida pelo sanitarista Oswaldo Cruz. Segundo o Ministério da Saúde, foram confirmados cinco casos (três no Amazonas e dois no Pará) em 2004, dos quais dois foram óbitos.

Doença de Chagas

Transmissão:

O protozoário Trypanosoma cruzi é transmitido ao homem e outros animais pelo inseto "barbeiro" que, após se alimentar do sangue, defeca eliminando o parasita e o colocando em contato com a ferida na pele da vítima, de onde vai para a corrente sangüínea. É transmissível também de mãe para filho, através da placenta, e ainda por transfusão de sangue

Prevenção:

Ainda não há vacina. A única maneira de evitar a doença é afastando o vetor, através de inseticidas próprios e melhorando as casas, a fim de que o inseto não tenha onde se esconder

Sintomas:

Aparecem ao longo da vida. Dificuldade para trabalhar, mal-estar, problemas neurológicos, no coração e no sistema digestivo. Os sintomas podem se agravar e levar à morte

Tratamentos:

Não há tratamento específico para a doença, os remédios direcionados apenas diminuem a quantidade de protozoários no sangue. Cada sintoma deve ser tratado individualmente

O Trypanosoma cruzi foi descoberto às margens do Rio São Francisco pelo médico Carlos Chagas, em 1909, e ganhou este em nome em homenagem a Oswaldo Cruz, a quem Chagas admirava.

Fonte: www.universia.com.br

Doenças Tropicais

Nada como viajar... No entanto, há que o fazer tomando em conta certos cuidados, que, ao não se verificarem, poderão tornar a sua viagem, de lazer ou de negócios, não tão agradável, quanto seria de desejar...

Os climas tropicais têm como uma das características, serem zonas endémicas de algumas enfermidades, que veremos adiante. É fundamental ter sempre presente que, na maior parte das vezes, a prevenção é mesmo a melhor solução .

Malária

É uma doença infecciosa que afecta praticamente todos os países tropicais, transmitida ao homem pela picada de um mosquito infectado com o parasita - Plasmodium

O período entre a picada do mosquito e o aparecimento dos sintomas varia geralmente de 7 a 30 dias

O quadro clínico é variável, no entanto é comum aparecer:

Febre intermitente;
Calafrios;
Suores abundantes;
Dores musculares;
Dores de cabeça;
Alterações Gastrointestinais;
Náuseas, vómitos e diarreias.

O diagnóstico é feito conjugando o quadro clínico e a análise laboratorial identificando o parasita da malária

A doença pode evoluir para formas graves, e até mesmo mortais

Não havendo uma vacina eficaz, torna-se necessário que todos os viajantes tomem consciência do risco que correm e conheçam as medidas preventivas:

Evitar as picadas de insecto;
Tomar os medicamentos recomendados.

A Malária é responsável por 1 a 1,5 milhões de mortes por ano , segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde)

Prevenção

Evitar as picadas de insectos

Os insectos representam 85% de todos os organismos vivos à face da terra. São atraídos pelo odor corporal, pela cor das roupas, ou simplesmente pelos movimentos.

Deste modo, e para uma melhor protecção individual:

Evite sair entre o entardecer e nascer do sol
Prefira roupas de cores claras (os mosquitos são atraídos por cores escuras)
Use sempre vestuário com mangas compridas, calças, meias e sapatos fechados, a partir do entardecer
Não use perfumes ou "aftershaves" sobretudo à noite (os cheiros fortes atraem os mosquitos)
Proteja as zonas expostas (rosto, pescoço, pulsos tornozelos) com repelente de insectos que contenha Deet numa concentração superior a 30%, para adultos, renovando regularmente a sua aplicação - leia e siga com atenção as recomendações de utilização
Evite actividades junto a cursos de água, lagos; ribeiros, zonas pantanosas e húmidas (zonas preferidas pelos mosquitos)
Durma sempre em edifícios bem conservados, em quarto com porta e janelas fechadas e de preferência climatizado
Pulv erize o quarto com insecticida após o arejamento matinal e mantenha as janelas fechadas
Utilize difusores de insecticida (eléctricos ou a pilhas)
Considere a hipótese de uso da rede mosquiteira impregnada com insecticida quando não dormirem ambientes climatizados

Medicamentos

Toda a medicação tem efeitos secundários e não existe nenhum tratamento perfeito. A malária é mais perigosa e mortal do que qualquer medicação preventiva ou curativa, a qual tem salvo milhares de vidas ao longo dos anos

A prevenção pode implicar a ingestão de medicação antes, durante e depois da estad a

Os tratamentos baseiam-se em recomendações da Organização Mundial de Saúde e dependem de:

Local de viagem
Tipo de viagem (estadia b reve, de longa duração ou estad as repetidas
Estado de saúde do viajante
Idade do viajante

Torna-se fundamental o cumprimento das regras de ingestão dos medicamentos (quantidades e horários) para que possam atingir a eficácia desejada.

O que fazer perante a doença?

Após uma estadia num país tropical, sempre que surja febre inexplicável (temperatura superior ou igual a 37.2°) acompanhada ou não de outros sintomas, deve contactar-nos de imediato

Fora do horário normal de funcionamento da UCS, deve dirigir-se a um serviço de urgência onde deve alertar para o facto de ter estado num país tropical. No entanto, contacte logo que possível a sua equipa de saúde

Se ainda se encontrar num país tropical, deve procurar com urgência um médico que após confirmação do diagnóstico prescreverá o tratamento adequado.

Diarreia

A vulgarmente designada diarreia do viajante é uma das situações mais frequentes nas estadias em países tropicais

Geralmente associada às más condições de higiene alimentar, é na maioria dos casos provocada por infecção bacteriana

Dura normalmente poucos dias e raramente é perigosa

O tratamento baseia-se na re-hidratação e dieta

Os anti-diarreicos podem diminuir o número de dejecções diarreicas mas podem causar complicações, no caso de infecção séria. Só os deve tomar quando tiver a certeza de que se trata de uma diarreia benigna

A prevenção passa essencialmente pela higiene alimentar.

Prevenção (Cuidados alimentares e outros)

Bebidas

Informe-se do estado da água que bebe.
Beba sempre água engarrafada (verifique a integridade do selo), fervida ou tratada com purificadores de água.
Gelo, só feito com água engarrafada.
Não beba sumos naturais de fruta ( normalmente são acrescentados com água).
Beba café e chá feitos com água engarrafada.
Use água engarrafada para lavar os dentes e a cara.

Comidas

Evite:

O marisco (fonte de infecção comum)
Saladas e vegetais não cozinhados
Leite e derivados
Gelados de proveniência desconhecida
Alimentos crus ou mal passados

Prefira sempre alimentos com elevados tempos de cozedura e consuma-os logo de seguida

Coma apenas fruta descascada na altura de consumir

Não deixe alimentos destapados no quarto: atraem mosquitos e correm perigo de contaminação

Lave as mãos com frequência e antes das refeições

E não se esqueça, em relação a qualquer alimento: cozinhe-o, descasque-o, ferva-o, ou... esqueça-o!!!

Sinais de Alarme

2 a 3 dejecções diarreicas por hora.
Febre elevada
Presença de sangue ou muco nas fezes
Desidratação grave (língua seca, olhos encovados)
Se tiver diarreia numa zona geográfica onde se verificou a presença de cólera, consulte sempre um médico com urgência

Importante:

Deve manter uma ingestão abundante de líquidos, com a certeza de que não estão contaminados, mesmo antes da consulta.

O que fazer perante a doença?

Dietas para Gastroenterites

Nas primeiras horas de perturbação intestinal, considere uma paragem alimentar.

Gradualmente ingira líquidos (pequenas porções de cada vez):

Água fervida ou mineral
Água de arroz (1 litro de água com três colheres de arroz, ferver até reduzir para metade)
Bebida de cola, sem gás
Chá preto fraco

Conforme a evolução, inicie a ingestão de alimentos sólidos:

Torradas sem gordura
Maçã ou pêra cozida
Arroz cozido
Carne magra cozida
Papas de arroz
Grelhados
Cenoura cozida

Evite enquanto não houver recuperação total:

Leite ou derivados
Vegetais
Fruta crua
Gorduras

Fonte: www.flytap.com

Doenças Tropicais

Tradicionalmente, as doenças tropicais eram consideradas uma espécie de tributo obrigatório que os habitantes dos trópicos pagavam por viver numa região de clima privilegiado.

Essas doenças adquiriam características epidêmicas e acometiam milhões de pessoas que viviam em determinadas áreas.

Malária, doença de Chagas, febre amarela, leishmaniose, dengue estão entre as enfermidades que costumam ser rotuladas de doenças tropicais.

Na maior parte das vezes, o microorganismo é transmitido por insetos que encontram nos trópicos seu habitat ideal.

Exceção feita à febre amarela, não existem vacinas para essas doenças, mas há tratamento que será tão mais eficaz quanto mais precocemente começar.

Problema grave de saúde pública

DrauzioO que são doenças tropicais? Essa designação ainda é empregada atualmente?

Stefan Cunha Ujvari – Na época em que os ingleses estiveram empenhados em colonizar regiões nos trópicos, principalmente na África, Sudeste Asiático e Índia, entraram em contato com uma série de doenças desconhecidas no continente europeu e que receberam o nome de doenças tropicais ou doenças dos trópicos.

Essa denominação ainda é pertinente porque, nos trópicos, fatores climáticos e de umidade favorecem a proliferação de insetos, os principais transmissores dessas doenças.

Hoje, elas estão bastante relacionadas a fatores socioeconômicos, pois se manifestam mais nos países pobres que em sua maioria se localizam nas regiões tropicais e não têm condições de implantar medidas efetivas de controle, prevenção e tratamento.

Por isso, as doenças tropicais continuam sendo um problema grave de saúde pública, especialmente se considerarmos o alto índice de mortalidade associado a elas.

Malária

Drauzio Particularmente no Brasil, qual é a situação da malária atualmente?

Stefan Cunha Ujvari –A situação da malária é estável, mas essa estabilidade não é animadora porque na década de 1990, em média, foram notificados 500 mil novos casos por ano. Acredito, porém, que esse número seja muito maior, se computarmos os casos que não são notificados quando o tratamento não é administrado em serviços públicos.

A malária estava relativamente bem controlada nas décadas de 1950/1960, mas reapareceu nas décadas de 1970/1980 com a ocupação populacional desordenada que ocorreu na periferia da Amazônia Legal. Estradas foram abertas, sistemas de irrigação instalados e houve a corrida do ouro em Rondônia, no noroeste amazônico. Tudo isso fez com que o número de casos aumentasse consideravelmente e atingisse o pico de 500 mil novos casos notificados por ano.

Não se consegue controlar a malária no habitat do mosquito transmissor da doença que vive na floresta tropical. O que se pode fazer é implementar medidas de controle na periferia especialmente da floresta amazônica. Certos cuidados como drenar áreas alagadas para impedir a formação de criadores de mosquitos, colocar telas nas janelas para que eles não entrem nas casas, estão voltados para combater o mosquito nas regiões peridomiciliares.

Além disso, pessoas que viajam para esses lugares e adentram a floresta – hoje o ecoturismo tornou-se uma opção importante de lazer – deveriam entrar em contato com um órgão especializado em doenças tropicais para obter informações a respeito do que fazer antes de viajar. Em São Paulo, no Hospital das Clínicas, existe o Ambulatório do Viajante que, de acordo com a região a ser visitada, orienta sobre a necessidade de tomar vacina contra a febre amarela ou remédios profiláticos para a malária, por exemplo.

Drauzio Não existe vacina contra a malária, mas há remédios que podem ser tomados como profilaxia. Em que casos eles devem ser utilizados por uma pessoa que vá viajar para o Amazonas?

Stefan Cunha Ujvari – Há muito se tenta desenvolver uma vacina para a malária, mas até agora sem sucesso e os remédios que existem precisam ser usados com muito critério porque induzem tolerância. Da mesma forma que os insetos, principalmente os mosquitos, desenvolveram resistência aos inseticidas criados na primeira metade do século XX e as bactérias, resistência a certos medicamentos, o agente da malária também fica resistente. Por isso, o remédio não é vendido em farmácias.

Só os órgãos do governo podem fornecê-lo depois de analisar as condições da região à qual a pessoa se dirige. Se ela vai fazer turismo numa embarcação, saindo de Manaus, navegando pelos rios e volta, não há tanto risco e não se recomenda o uso do medicamento. Para viajar tranqüila, porém, deve entrar em contato com os órgãos capazes de orientá-la. Repito, em São Paulo, o centro de referência é o Ambulatório dos Viajantes no Hospital das Clínicas. As orientações podem ser obtidas pessoalmente ou por telefone e levam em conta o itinerário programado.Se for necessário tomar o remédio, basta um comprimido uma vez por semana para prevenir a doença.

DrauzioQuais são os principais sintomas da malária?

Stefan Cunha Ujvari – A febre provocada pela malária é uma das mais altas que existem. Quando a pessoa é picada pelo mosquito, o agente entra na corrente sangüínea e passa por um período relativamente curto de incubação em que amadurece no fígado. Depois, entra nas hemáceas, nos glóbulos vermelhos, onde se multiplica até que elas se rompem.

Nesse momento, ocorre liberação grande número de parasitas na corrente sangüínea o que provoca febre de 40º ou mais, de início abrupto, acompanhada por tremor e dores musculares intensas.

Interessante notar que algumas enfermidades das hemáceas, alvo principal do agente da malária, o plasmodium, funcionam como proteção contra a malária.

A anemia falciforme, por exemplo, muito comum na África onde surgiu a doença, é uma delas. Por quê? Porque quando o parasita penetra na hemácea já doente, ela se rompe e não o deixa proliferar. Isso fez com que o número de casos de anemia falciforme crescesse muito na África, pois houve uma espécie de seleção natural.

Voltando aos sintomas da malária, as pessoas que moram na periferia da floresta amazônica, os garimpeiros de Rondônia, por exemplo, quando procuram um órgão especializado para tratamento, já sabem que estão com a doença porque reconhecem os sintomas dada a alta freqüência em que ela ocorre naquelas regiões.

DrauzioA febre da malária tem um ritmo bastante característico. Você poderia descrevê-lo?

Stefan Cunha Ujvari – A febre pode ocorrer a cada três dias (febre terçã) ou a cada quatro dias (febre quartã) porque o ritmo depende do ciclo dos agentes, o Plasmodium vivax e o Plasmodium falciparum. O que amadurece e prolifera mais rápido provoca o rompimento da hemácea a cada três dias e o outro, de ciclo mais lento, a cada quatro dias.

A malária é uma doença grave com índice de mortalidade importante se o tratamento não for adequado e precoce, especialmente se o agente for o Plasmodium falciparum. É uma doença endêmica no Brasil, já que 500 mil novos casos por ano não representam um número desprezível.

Dengue e febre amarela

DrauzioVamos falar da dengue, doença tropical que inferniza a vida do homem na cidade grande.

Stefan Cunha Ujvari – É interessante perceber que a história da humanidade caminha junto com a dos microorganismos. Estudos a respeito do material genético do vírus da dengue demonstraram que a população viral aumentou muito na natureza nos últimos 200 anos, coincidentemente com a pós-revolução industrial e a urbanização do homem. O lixo orgânico que passou a ser acumulado em volta das casas nas cidades funcionou como recipiente para a água da chuva e favoreceu a proliferação do mosquito transmissor do vírus, o Aedes aegypti.

No entanto, na década de 1960 ele havia sido erradicado na América do Sul. No Brasil, foi extinto graças às medidas adotadas por Osvaldo Cruz no começo do século XX para acabar com a febre amarela que também é transmitida por esse mosquito. Sem ele por perto, o vírus da dengue e o da febre amarela urbana desapareceram.

Acontece que na década de 1970 o controle foi relaxado e o Aedes aegypti entrou novamente no país e de casa em casa, de cidade em cidade, se espalhou pelo Brasil inteiro. Seu retorno foi facilitado pelo acúmulo de lixo, desta vez lixo industrial, que coletava água da chuva. O habitat estava preparado e o vírus, que veio nas embarcações procedentes do Sudeste Asiático e da Oceania, voltou a ameaçar a população urbana.

Casos de dengue reapareceram no início da década de 1990 e gradativamente foram aumentando até que, em 2002, ano da pior epidemia, 700 mil novos casos foram registrados.

No momento, estamos cercados pela malária que se dissemina na periferia da floresta amazônica e pela dengue, nas regiões urbanas, nas cidades próximas ao litoral.

Drauzio O problema é que o Aedes aegypti, além de transmissor da dengue, transmite também a febre amarela.

Stefan Cunha Ujvari – Esse mosquito também pode transmitir o vírus da febre amarela, doença que se manifesta principalmente na periferia da floresta amazônica. Nos últimos anos, porém, focos dessa doença surgiram em outros locais e o interesse maior das pessoas pelo ecoturismo pode explicar o fato.

É provável que picadas pelo mosquito na floresta, tenham voltado doentes para as cidades e infectaram os Aedes aegypti. Em 1999, houve uma epidemia pequena de febre amarela urbana na Chapada dos Veadeiros e, em 2001, uma no noroeste de Minas Gerais. Isso sugere que a febre amarela urbana, doença extinta no Brasil desde a década de 1940, pode estar voltando.

Sintomas da dengue e da febre amarela

DrauzioQual a diferença entre os sintomas da dengue e da febre amarela?

Stefan Cunha Ujvari – Os sintomas iniciais são muito parecidos. A dengue provoca febre elevada e dor no corpo intensa porque o vírus age sobre a musculatura, especialmente sobre a musculatura responsável pelo movimento dos olhos. Por isso, a dor atrás dos olhos é muito forte. Esses sintomas, porém, são inespecíficos. O sinal de alerta para o diagnóstico é dado pela inexistência de um de foco infeccioso que justifique a febre e pelo fato de o paciente vir de uma área onde exista a doença.

Apesar dos sintomas da febre amarela serem praticamente os mesmos, numa minoria de casos, o paciente caminha para uma piora importante. O vírus acomete o fígado que inflama e o indivíduo adquire coloração amarelada, principalmente no branco dos olhos. É a icterícia e daí vem o nome da doença.

DrauzioÉ pequena a porcentagem dos que desenvolvem icterícia?

Stefan Cunha Ujvari – É pequena. A grande maioria dos casos passa como um quadro viral que acaba evoluindo bem. A minoria que desenvolve icterícia apresenta distúrbios de coagulação e sangramentos. A febre amarela é uma doença viral que pode não admite descuidos porque pode apresentar complicações bastante graves.

Drauzio Não existem remédios específicos para o vírus da dengue e da febre amarela?

Stefan Cunha Ujvari - Não há remédios. O controle dessas doenças é feito nas áreas urbanas. De cinco anos para cá as medidas estão sendo largamente divulgadas. Por exemplo, praticamente todos sabem do risco que correm quando deixam recipientes que acumulam a água da chuva nos arredores das casas.

Para a febre amarela, entretanto, existe vacina. Ela é eficaz desde que seja tomada com antecedência, isto é, 30 dias antes da viagem. Muita gente entra em contato com o Ambulatório do Viajante na véspera da partida. Aí, já é tarde para a prevenção da doença.

Doença de Chagas

Drauzio Quais as principais características da doença de Chagas?

Stefan Cunha Ujvari – O barbeiro, um besouro pequenininho, é o agente transmissor da doença de Chagas. O protozoário responsável pela doença não é transmitido diretamente pela picada, mas pelas fezes do inseto que entram no ferimento quando a pessoa coça o local picado.

Drauzio Qual é a prevalência da doença de Chagas no Brasil?

Stefan Cunha Ujvari – A incidência da doença de Chagas, no Brasil, esteve alta na década de 1970, em torno de 100 mil novos casos por ano. Hoje em dia, após o controle a incidência é bem pequena. A maioria das pessoas que procuram assistência vem do interior, onde não existe rede confiável de notificação. Além disso, a doença é crônica e durante aproximadamente dez anos os sintomas não se manifestam. Quando o caso complica, reflete uma situação que ocorreu muitos anos atrás.

Drauzio A profilaxia da doença é complicada porque implica o controle permanente dos fatores de risco.

Stefan Cunha Ujvari – Além do combate contínuo aos barbeiros que transmitem a doença de Chagas é preciso que as casas não tenham frestas onde eles possam alojar-se o que não é fácil se considerarmos o nível socioeconômico dos habitantes dessas regiões.

Leishmaniose

Drauzio Vamos falar um pouco sobre a leishmaniose. Quais as características gerais da doença?

Stefan Cunha Ujvari – O agente transmissor do protozoário que provoca a leishmaniose é o flebótomo chamado Lutzomyia spp que se distribui pelas regiões centro-oeste e nordeste e alcança o sul, principalmente o Paraná.

Há duas formas de leishmaniose. A tegumentar, causada pela Leishmania braziliensis, L. amazonensis e L. guyanensis (as duas últimas restritas à região amazônica) acomete só a pele. A pessoa tem uma ferida que não cicatriza e descobre que está com a doença quando vai ao médico e faz uma biópsia. A outra é a leishmaniose visceral, causada pela Leishmania chagasi, em que há comprometimento do fígado e do baço.

Em 1997, houve um surto dessa doença em São Luís do Maranhão, Teresina e Fortaleza que coincidiu com o fenômeno El Niño e uma seca terrível que obrigou a população do interior a migrar para a periferia dessas cidades, levando consigo os cachorros, animais que funcionam como reservatório do parasita. O mosquito pica o cachorro e infecta o homem.

Drauzio Existe tratamento para a leishmaniose?

Stefan Cunha Ujvari – Existe um remédio específico para a leishmaniose, sob a forma de injeção que o paciente deve tomar durante 21 dias. É importante destacar que, nas regiões de risco, lesão na pele que não cicatriza merece atenção especial, porque a forma mais leve da enfermidade não dá febre, mal-estar, nem o doente fica acamado. Em alguns casos, pode aparecer comprometimento da região do septo nasal. O nariz sangra e descasca, às vezes, há colabamento e o odor é fétido. O otorrinolaringologista é o médico indicado para diagnosticar o problema e conduzir o tratamento.

Nas formas mais graves, a pessoa tem febre, mal-estar, emagrece e o baçoaumenta de tamanho. Não se trata de uma doença que evolua rapidamente, é um pouco mais crônica. Por isso, se a febre custa a passar, as pessoas precisam investigar a causa do problema, porque uma das características da leishmaniose é provocar febre de duração bastante prolongada.

Fonte: www.drauziovarella.com.br

Doenças Tropicais

A ORGANIZAÇÃO Mundial da Saúde (OMS) inclui em seu sítio para “tropical diseases” oito doenças que ocorrem exclusiva ou especialmente nos trópicos, e esclarece que, na prática, a designação se refere a doenças infecciosas que proliferam em condições climáticas quentes e úmidas.

Algumas dessas doenças são causadas por protozoários como a malária, as leishmaníases, a doença de Chagas e a doença do sono. Outras são causadas por vermes como as esquistossomíases, a oncocercíase e as filaríases linfáticas. Uma é viral, a dengue.

A nomenclatura dessas doenças com a terminação em “íase”, como acima, é de aceitação parcial entre os parasitologistas brasileiros que muitas vezes preferem a terminação “ose”. Usaremos “ose”, uma vez que os dicionários Houaiss e Aurélio registram ambas as formas.

As oito doenças tropicais da OMS são transmitidas ao homem de maneiras variadas, mas sempre por um vetor que geralmente é um inseto hematófago. As esquistossomoses não têm vetores, mas têm hospedeiros intermediários, caramujos, que, na água, liberam as formas infectantes para o homem.

A designação “doenças tropicais” não foi invenção da OMS, pois já constava do vocabulário médico desde o século XIX. Surgiu sem data fixa e foi se consolidando à medida que microrganismos eram reconhecidos como causadores de doenças e tinham seus mecanismos de transmissão elucidados.

A expansão colonizadora da Inglaterra, da França e sócios menores, entre os quais os Estados Unidos, expandindo-se para o Caribe e o Pacífico, havia descortinado um mundo novo repleto de riquezas exploráveis, mas também de doenças desconhecidas ou quase desconhecidas. Como a maioria das novas colônias se situava nos trópicos, essas doenças curiosas e exóticas foram apelidadas de “tropicais”.

Para aglutinar os conhecimentos em torno da patologia dos trópicos, foram criadas sociedades médicas: The Society of Tropical Medicine of Philadelphia, depois transformada em American Society of Tropical Medicine, em 1903, e The Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene, em 1909.

Patrick Manson, o responsável pela “mosquito theory” de transmissão de doenças infecciosas, e que em 1899 havia fundado a London School of Hygiene and Tropical Medicine, foi o primeiro presidente da Royal Society. Essas instituições sacramentaram a designação “doenças tropicais” na terminologia médica.

Doenças Tropicais
Afrânio Peixoto (1876-1947)

Doenças Tropicais
Patrick Manson (1844-1922)

Muitos cientistas, especialmente dos trópicos, contestaram desde o início a designação de “doenças tropicais”, pela conotação implícita de que elas estariam vinculadas a alguma maldição ou fatalidade biogeográfica. Inflexíveis, concordavam com Afrânio Peixoto que, em seu primeiro curso como catedrático de Higiene da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, poucos anos depois da criação da Royal Society, proclamaria enfaticamente que “doenças climáticas não existem”. Há, nos bastidores da argumentação de Peixoto e de muitos de seus contemporâneos, uma manifesta objeção à visão de que o “clima tropical”, não as precárias condições de vida e econômicas das populações tropicais, fosse o responsável pelas “doenças tropicais”. A primeira metade do século XX assiste ao acirramento de posições conflitantes, médicas e leigas, sobre as raízes das “doenças tropicais”.

Essas posições se cristalizavam em duas visões antagônicas sobre as doenças tropicais:

a) “são doenças de populações colonizadas, exploradas, miseráveis, que por acaso se concentram nos trópicos”;

b) “são doenças de regiões insalubres, caniculares, sujas e propícias a todas as formas de doenças estranhas ao mundo civilizado”.

Nas doenças tropicais, há certamente um forte componente de subdesenvolvimento, conseqüência tardia do colonialismo, mas há também certa fatalidade tropical, conseqüência da heterogeneidade das evoluções geológica e biológica.

Propomos analisar essa dualidade, fazendo antes a ressalva de que todas as doenças humanas, em princípio, são tropicais, uma vez que a espécie humana se originou nos trópicos, e, com ela, suas doenças. São exceção aquelas doenças que a humanidade foi adquirindo, ao longo de sua história (algumas recentemente) de companheiros de jornada como cães, gatos, roedores, aves e mesmo de parentes próximos, os primatas.

A malária é um bom começo para a análise. Os microrganismos que a causam são protozoários parasitas dos glóbulos vermelhos do sangue distribuídos em quatro espécies do gênero Plasmodium. Dentre todos os animais da terra, essas quatro espécies parasitam apenas o homem, a quem são transmitidas por um mosquito que as leva de um homem doente a um homem sadio (por pouco tempo). Esse mosquito hematófago, arquiinimigo da humanidade, chama-se Anopheles, surgiu na terra milhões de anos antes das espécies humanas de plasmódio e conta com um contingente de milhares de espécies espalhadas por todo o mundo.

Por sua vez, as quatro espécies de plasmódio acompanham o homem desde que, juntos, Homo sapiens e Plasmodium spp., saíram da África para povoar a Terra. Em cada canto da Terra, gélido, temperado ou tropical, a dupla contou com a cumplicidade de uma já existente espécie de Anopheles para se perpetuar e proliferar. A tríade Homem-Plasmódio-Anopheles ocupou o mundo. Nenhum recanto habitado pelo homem pôde evitar a malária, exceto as regiões polares.

A malária tornou-se flagelo universal. Nenhuma nação antiga ou moderna lhe escapou. A própria Europa foi vitimada pela malária a partir de sua invasão pelo Homo sapiens há mais de 50 mil anos, e dela continuou vítima pelo século XX adentro, independentemente de religiões e regimes sociais. Uma doença universal, pandêmica, não restrita aos trópicos, como o foram a varíola e a peste.

Segundo a definição da OMS, contudo, a malária está listada entre as doenças tropicais. E, de fato, hoje é assim considerada. Se examinarmos a distribuição mundial da malária contemporânea, veremos que ela prevalece e apresenta maior incidência em países situados entre os trópicos, isto é, entre as latitudes 27º23’ Norte e Sul. Fazem exceção os países do Oriente Médio, particularmente o Afeganistão, o norte da Índia e algumas regiões do sul da China onde a malária é residual; mas, sem dúvida, a malária hoje se concentra nos trópicos.

Uma primeira conclusão se impõe diante desses fatos: se a malária já foi universal, pandêmica, certamente ela não esteve ou está presa a uma fatalidade biogeográfica tropical. Ela poderia vicejar e vicejou em qualquer lugar do mundo, tropical ou não. Se hoje ela tende a se concentrar nos trópicos é por alguma outra razão.

A razão, em verdade, é o subdesenvolvimento e a conseqüente miséria das populações tropicais.

Atentando para esse fato, agências como o Unicef, o Banco Mundial e a própria OMS lançaram há pouco mais de 30 anos um programa especial, Special Program for Research and Training in Tropical Diseases (TDR), cujo foco seriam as doenças infecciosas que acometem desproporcionalmente as “populações pobres e marginalizadas” do mundo. Ato imediato, o TDR adicionou a tuberculose e a lepra às moléstias tropicais clássicas da OMS.

Outras foram adicionadas em vários momentos à lista de Neglected Tropical Diseases (NTD) da OMS: tracoma, úlcera de Buruli, dracunculose, dengue, pian. Totalizam quatorze essas doenças negligenciadas, mas paradoxalmente, à medida que as condições de saúde das populações subdesenvolvidas melhoram, esse número tende a crescer. Isso porque em vias de erradicação há só uma doença, a dracunculose, enquanto outras, até então ignoradas pela importância das moléstias maiores, vão ganhando visibilidade no cenário sanitário mundial.

A tuberculose ilustra e compõe bem o quadro de doenças de populações tropicais pobres. Ela sempre foi doença universal, causada por uma bactéria e transmitida pelo contágio direto inter-humano. Tanto quanto a malária, não poupou nenhuma época histórica e nenhuma população da Terra. Ao lado de pobres e despossuídos, recrutou entre suas vítimas os filhos das nobrezas e das artes da belle époque européia e dos esplendores imperiais do Oriente. Porém, nas últimas décadas, a tuberculose tem se especializado em populações pobres, desprovidas de infra-estrutura, pessoal técnico e recursos para a saúde, com especial predileção pelos atingidos pela Aids.

A prevalência global da tuberculose ainda é alta: mais de nove milhões de novos casos por ano. Em números absolutos de casos novos, a China, a Índia e a Rússia ainda são os países que pagam maior tributo à doença, mas em relação à incidência por número de habitantes, os países tropicais, particularmente os africanos, detêm a liderança.

Uma ostensiva “overall poverty” está presente nos países onde a malária e a tuberculose proliferam. Por terem sido, até ontem, doenças universais, elas não condicionam sua prevalência contemporânea a peculiaridades climáticas dos trópicos.

A rigor, os países tropicais são muito heterogêneos e geograficamente têm pouco em comum. Estendem-se das alturas andinas às planícies da África, de pantanais a desertos, de florestas equatoriais e do mundo aquático da Oceania ao semi-árido, às caatingas e savanas do Brasil e da África. No âmbito climático, o que o mundo tropical tem mesmo em comum é apenas um inverno moderado, resultante das isotermas que compartilham.

No que se refere ao aspecto social, os trópicos também são heterogêneos: etnias e religiões as mais variadas, autóctones ou importadas. Nada peculiar ou privativo dos trópicos.

Comum de fato aos trópicos é a “overall poverty”. Dos 50 países com menor PIB do mundo, todos são tropicais, como o são os países com renda per capita inferior a US$ 2,5 mil por ano. Com uma ou outra exceção, como o Afeganistão, são tropicais também os países em que pelo menos 50% da população estão abaixo da linha da miséria, e os países em que 60% a 80% dos habitantes vivem com menos de US$ 1 por dia. Não estranha que nos países tropicais a desigualdade na distribuição de renda seja das maiores do mundo, mas estranha que o índice de satisfação com a vida seja alto em alguns desses países, o que nos conforta um pouco.

Não possuindo recursos, e os poucos havidos sendo mal utilizados, os países tropicais pobres investem parcimoniosamente em saúde. Os indicadores de saúde tabulados pela OMS mostram que os piores índices de mortalidade infantil, de médicos, enfermeiras e leitos hospitalares por habitantes encontram-se entre os países tropicais. Deve-se concluir daí que, de fato, “doenças climáticas” não existem, e que todo mal vem da miséria ou da indolência prevalente nos trópicos?

Não, certamente não. O componente econômico pode ser o mais importante, mas não está ausente do triste cenário das doenças tropicais um constante componente de fatalidade biogeográfica. Examinemos alguns exemplos.

A tripanossomose africana ou doença do sono, tropical por excelência, é causada por duas subespécies, especializadas no homem, do grande grupo do Trypanosoma brucei. A doença tem certo polimorfismo clínico, mas sua forma predominante e mais grave é a que, depois de um longo período de silêncio subclínico, se manifesta com severo comprometimento do sistema nervoso central, paralisias, letargia, obnubilação progressiva e morte.

Daí seu nome inicial de “letargia dos negros”, que passou a “doença do sono” à medida que colonizadores brancos a foram adquirindo. Hoje há tratamento, mas é caro e de complicada ministração. Nos séculos XIX e XX, milhões de africanos foram vítimas da doença que, em 1990, admitia-se infectar entre 300 e 500 mil pessoas.

A doença ocorre sob a forma de surtos epidêmicos itinerantes e nunca incidiu fora da África, em qualquer outro lugar do mundo, tropical ou não. A tripanossomose ocupa uma larga faixa do território africano, que abriga cerca de 70 milhões de pessoas e que se estende do Oceano Índico ao Atlântico, e do deserto do Saara ao Kalahari, poupando apenas os extremos norte e sul do continente. E por que isso? Porque a doença é transmitida por uma voraz mosca hematófaga que só vive e prolifera dentro desses limites geográficos. Essa faixa territorial é conhecida como o “cinturão da tsé-tsé” (“tsetse belt”), e fica compreendida, mais ou menos, entre os 20º Norte e Sul.

Existem várias espécies de tsé-tsé (gênero Glossina) que disseminam tripanossomas distintos entre mamíferos silvestres, répteis e aves.

Podem transmitir doenças de importância econômica entre animais domésticos: bovinos, ovinos, caprinos e eqüinos. O porco é uma vítima preferencial da tsé-tsé e também abriga tripanossomas, incluindo os humanos.

Os tripanossomas do homem, Trypanosoma brucei gambiense e T. b. rhodesiense, são transmitidos por tsé-tsés do grupo palpalis ou do grupo morsitans, respectivamente. As glossinas do grupo palpalis proliferam em matas ancilares ou matas arbustivas sempre na proximidade de coleções de água, e normalmente se alimentam do sangue de grandes répteis, como os crocodilos.

As glossinas do grupo morsitans preferem as savanas e picam preferencialmente ruminantes silvestres. Porém, nem uma nem outra se cria fora do “tsetse belt”.

Apesar do intenso tráfico de escravos, nem a glossina nem a tripanossomose africana se instalaram no Novo Mundo. Inúmeras outras moscas sim, incluindo a mosca comum e a varejeira, mas a Glossina jamais.

Nem se expandiu para o lado do Oriente, apesar do comércio imemorial entre a África, a Índia e o Oriente Médio. Essa absoluta fidelidade geográfica da Glossina à África explica a fatalidade tropical da doença do sono, que é realmente uma doença tropical; ou melhor, africana estrita.

A oncocercose é outra doença fiel, mas não tanto, à África. Essa doença essencialmente tropical é causada por um verme nematóide, a Onchocerca volvulus, que se localiza na derme do homem.

Ali, vermes machos pequenos (aproximadamente de 4 cm) e generosas fêmeas (aproximadamente de 50 cm) se enrolam e formam novelos que se expressam em nódulos ou tumorações dérmicas, nem sempre supurativas, mas sempre antiestéticas. Esses nódulos têm marcada preferência pelas partes expostas da pele, especialmente face e couro cabeludo, mas em populações desnudas ou seminuas os nódulos ou oncocercomas estão por toda parte.

Os vermes se reproduzem nos recônditos da derme onde as fêmeas parem larvas chamadas microfilárias (aproximadamente de 0,5 cm). Essas trafegam pelo subcutâneo e podem chegar aos humores das câmaras oculares, córnea e retina. Provocam reação inflamatória que freqüentemente leva à cegueira. Na África Equatorial, cerca de 18 milhões de pessoas albergam a oncocerca, das quais 250 mil estão cegas.

O sofrimento e a solidariedade humana para o problema são tão grandes que os jardins da OMS em Genebra exibem uma escultura em tamanho natural de uma criança conduzindo um velho cego oncocercótico. São mesmo tão grandes, que o laboratório fabricante da Ivermectina, droga ativa contra as filárias, resolveu doar gratuitamente o medicamento para os programas de combate à oncocercose.

A doença é chamada também de cegueira dos rios (“river blindness”), porque se restringe às populações das margens de rios e riachos de águas limpas e correntes onde se criam seus vetores. Esses são moscas do gênero Simulium, a mosca negra (“black fly”) dos ingleses ou o popular borrachudo brasileiro, onde as filárias ingeridas com o sangue de pacientes migram para a tromba e se transformam em larvas prontas para infectar novos indivíduos.

Da África, trazida por migrantes escravos ou outros, a doença veio para o Novo Mundo, onde encontrou simulídeos permissivos e prosperou em regiões equatoriais e supraequatoriais, como Equador, Colômbia, Venezuela, América Central e sul do México. No Brasil, restringe-se a populações nativas e indígenas da Amazônia, particularmente Roraima.

No Novo Mundo, a doença fica na casa dos milhares, e, em geral, não leva à cegueira, provavelmente porque é menor a afinidade pela retina e córnea das filárias desse lado do Atlântico. Considerando a enorme população, a larga distribuição e a voracidade dos simulídeos no Brasil, estranha que a doença não seja mais freqüente e nem ocorra do Nordeste ao Sul do país, onde abundam simulídeos e para onde o tráfico escravagista foi intenso.

Será que a oncocercose é mais especificamente uma doença equatorial, isto é, um subtipo de doença tropical? Talvez fatores climáticos de temperatura e umidade das regiões equatoriais do Novo Mundo e da África sejam os únicos a permitir o desenvolvimento das filárias nos simulídeos ou apenas nessas regiões proliferem simulídeos capazes de transmitir a doença. Seja como for, a oncocercose é, e sempre foi, uma doença restrita aos trópicos, o que sublinha o fatalismo biogeográfico das doenças tropicais.

As filarioses linfáticas são igualmente restritas aos trópicos. São causadas pelos vermes nematóides Wuchereria bancrofti e Brugya malayi, espalhados por todo o mundo tropical, o último restringindo-se ao sudeste asiático.

Machos sempre pequenos (aproximadamente de 4 cm) e fêmeas avantajadas (aproximadamente de 9 cm) vivem e acasalam-se em nódulos linfáticos de homens e mulheres, mas de nenhuma outra espécie animal. As fêmeas parem larvas, microfilárias, que caem na circulação sangüínea.

Os vermes, sendo numerosos em conseqüência de infecções sucessivas, podem obstruir a drenagem dos vasos linfáticos levando ao acúmulo de linfa a montante.

O comprometimento da drenagem linfática leva ao ingurgitamento das regiões comprometidas, geralmente membros inferiores e escroto, gerando as chamadas elefantíases. As filarioses são relatadas no alto Nilo desde a Antigüidade, e a estátua de pelo menos um faraó exibe sinais de elefantíase da perna. Escrotos enormemente inflacionados são comuns em estatuetas africanas de 1.500 anos e em pacientes contemporâneos.

Mais de 120 milhões de pessoas estão infectadas pelas filárias em todo o mundo, incluindo cerca de 50 mil no Brasil, e aproximadamente 40 milhões de indivíduos estão incapacitados ou deformados pelas elefantíases.

Estima-se que mais de um bilhão de pessoas estejam sob risco de contrair uma das filárias que são transmitidas de homem a homem por mosquitos comuns, isto é, os onipresentes e cosmopolitas pernilongos.

O Aedes da dengue e os Anopheles da malária também podem transmitir as filárias, mas não são os mais importantes. O mais importante é mesmo o pernilongo comum do gênero Culex. As microfilárias sugadas com o sangue de indivíduos infectados se desenvolvem nesses mosquitos e são transmitidas a pacientes em potencial.

Todavia, são necessárias infecções múltiplas para que a doença se manifeste. Os agentes usados no tratamento das filarioses, os mesmos da oncocercose, são doados gratuitamente pelos laboratórios produtores, exemplo raro, mas dignificante, da indústria farmacêutica. As filarioses estão sob a pressão de programas intensivos de controle globais e locais, e sua incidência tende a diminuir em todo o mundo.

Um fato chama a atenção nas filarioses. Seus vetores, os pernilongos, estão em toda parte do mundo e picam todo tipo de gente, nobres e pobres, párias e papas, desde tempos imemoriais, mas as filarioses só ocorreram e ocorrem nos trópicos. Existirá aí alguma fatalidade biogeográfica, temperatura, umidade? Não há duvidas de que exista, mas exatamente qual, não se sabe.

As duas esquistossomoses principais acometem 200 milhões de pessoas, metade das quais na África e as restantes no Oriente Médio e na América do Sul, especialmente no Brasil e na Venezuela.

Três esquistossomoses mais brandas e de menor importância estão restritas ao sudeste asiático, incluindo China e Japão. Todas são causadas por vermes e veiculadas por caramujos.

Os vermes adultos vivem nas veias intestinais ou vesicais, e seus ovos são eliminados, respectivamente, com as fezes ou urina dos pacientes. O Schistosoma mansoni vive nas veias intestinais (sistema porta), e os ovos que não chegam à luz do intestino podem refluir para o fígado, onde provocam focos de inflamação que cicatrizam como fibroses, levando eventualmente à cirrose hepática e às suas graves conseqüências.

O Schistosoma haematobium vive nas veias do plexo vesical, e seus ovos podem provocar fibroses e pequenas hemorragias urinárias, cuja cronicidade pode causar anemias de gravidade clínica variável. A esquistossomose mansoni do Brasil foi importada da África com o tráfico negreiro, instalando-se no litoral nordeste e leste com focos dispersos por todo o país. Nos anos 1950 chegou a acometer mais de seis milhões de brasileiros.

A esquistossomose haematóbica nunca se instalou no Brasil, apesar do tráfico negreiro, prevalecendo em toda a África Equatorial e Subequatorial com ramificações pelo vale do Nilo, Argélia, Tunísia e Arábia Saudita. Dos ovos dos vermes depositados em coleções de água doce, emergem larvas (miracídios) que invadem caramujos do gênero Biomphalaria no Brasil e na África, e de caramujos do gênero Bulinus na África.

Nos caramujos as larvas se multiplicam e originam novas larvas (cercárias) que abandonam seus caramujos e saem nadando à procura do homem que usa essas coleções de água para todas as finalidades, sobretudo na África. O S. haematobium nunca se estabeleceu no Novo Mundo porque nunca se adaptou à Biomphalaria, nem no Brasil nem na África, requerendo exclusivamente determinadas espécies de Bulinus para proliferar que, por sua vez, não se adaptaram às Américas.

Por sua vez, o S. mansoni trazido da África pelos escravos encontrou aqui numerosas espécies de Biomphalaria onde puderam proliferar. As esquistossomoses são um exemplo convincente de fatalismo geográfico, particularmente a haematóbica que, apesar do intenso tráfego milenar e atual entre todas as regiões geográficas, se recusa a deixar a África, quando muito fazendo algumas incursões a Madagascar e ao Oriente Próximo.

As leishmanioses são causadas por diferentes espécies de Leishmania, protozoários intracelulares do homem e de animais domésticos e silvestres. As leishmanioses cutâneas da Amazônia são exemplo inquestionável de “maldição tropical”.

As demais leishmanioses incidem não só na região tropical, mas também um pouco mais ao norte, incluindo países mediterrâneos. A rigor, não mereceriam a qualificação de tropicais nem de doenças de populações marginalizadas, pois ocorrem em muitas regiões do mundo desenvolvido como a Península Ibérica e a Itália, a Grécia e a Turquia. A mais grave das leishmanioses, causada pela Leishmania donovani, é a visceral ou calazar (kala-azar, febre negra), descrita pela primeira vez na Índia, mas presente também na África e na América Latina.

Apresenta cerca de 500 mil casos novos por ano em todo o mundo. A doença, de evolução crônica e debilitante, resulta da proliferação das leishmânias nos macrófagos do baço, fígado e da medula óssea.

É doença de difícil diagnóstico e, quando não tratada, mortal. A Índia, o Brasil, a Etiópia e o Sudão, além dos países do norte da África, são os que pagam maior tributo à doença. Já foi importante na China, mas hoje lá está sob controle. Na presente década, o Brasil vem apresentando cerca de três mil casos novos por ano. Números não terrivelmente assustadores se comparados aos 600 mil casos novos da malária ou 100 mil da tuberculose.

Outras leishmânias causam ulcerações cutâneas e cutâneo-mucosas, antiestéticas e deformantes, mas raramente letais. Entre elas se encontram leishmânias do Velho Mundo, particularmente do Oriente, benignas como a Leishmania tropica, e dezenas de espécies do novo mundo, sendo proeminente a L. braziliensis identificada por Gaspar Viana, agressiva e deformante pelas lesões que causa nas mucosas bucal e faríngea, incluindo destruição das cartilagens nasais.

Segundo estimativas da OMS, o mundo apresenta cerca de um milhão de casos novos por ano; o Brasil, 30 mil. As leishmanioses do Novo Mundo não são póscolombianas, ou seja, não foram importadas do Velho Mundo. São autóctones e aqui provavelmente prevalecem desde a chegada do Homo sapiens há 30-10 mil anos a julgar pelas lesões típicas encontradas em múmias Incas e em estatuetas datadas de mais de 2.000 anos a.C.

As leishmânias são transmitidas ao homem por um grupo de minúsculas moscas, conhecidas como “sandflies” pelos anglófonos e por uma série de nomes regionais onde quer que vicejem. Todas pertencem ao grupo dos flebotomíneos.

No Velho Mundo são do gênero Phlebotomus; no Novo, do gênero Lutzomyia.

Os flebótomos são hematófagos vorazes e se alimentam de toda sorte de vertebrados: anfíbios, répteis, aves e mamíferos, disseminando entre eles tripanossomas e leishmânias.

Diferentes espécies de flebótomos vão buscar as leishmânias humanas em diferentes hospedeiros: as leishmânias viscerais, especialmente no homem infectado ou no cão. Em verdade, na maior parte do mundo, o próprio homem doente é o reservatório da leishmaniose visceral, mas no Brasil o cão ainda tem um papel muito importante como reservatório.

No caso das leishmanioses cutâneas brasileiras, os principais reservatórios são os abundantes roedores silvestres, ubíquos na floresta amazônica e em áreas recémdesflorestadas.

A leishmaniose visceral, de incidência domiciliar ou peridomiciliar, é passível de controle.

A China nos deu o exemplo: com o tratamento em massa, borrifação com inseticidas e a eliminação de cães, ela conseguiu, a partir de 1950, reduzir a prevalência do calazar de 500 mil casos para não mais de duas centenas.

Já as leishmanioses cutâneo-mucosas, particularmente as amazônicas, parecem ser de controle muito mais difícil, quase impossível. As lutzomyias estão por toda a parte na floresta e picam de dia e de noite suas vítimas preferidas, os oni-presentes roedores que são reservatórios inesgotáveis de leishmânias.

Quando o homem se intromete nesse ciclo, nesse oceano de lutzomyias e leishmânias, corre o risco de ser picado por uma e infectado pela outra. O risco é maior em áreas recém- colonizadas em que a devastação e fuga de roedores fazem do homem uma fonte de alimento mais importante do que o habitual para as lutzomyias.

Não há como evitar. É a inelutável maldição da “rain forest”. Não se pode pulverizar toda a floresta nem exterminar os roedores e outros reservatórios. A agressão à natureza traria danos maiores que a própria doença. Há que esperar por uma eficaz vacina, que ainda não está a caminho, para neutralizar a maldição tropical.

A associação dos fatores “pobreza” e “trópico”, mais do que qualquer fator isoladamente, foi sempre cruel para com a humanidade, conspirando para fazer um inferno da vida de milhões de seres humanos.

Isso se expressa muito claramente em um índice, o Disability-Adjusted Life Years (Daly), concebido pela OMS para avaliar o impacto de uma doença (disease burden), aferido pelos índices de morte prematura e doença debilitante nas populações. Em resumo, o Daly mede o tempo de vida perdido, seja com morte prematura, seja com doença debilitante, pela população global (ou regional, conforme o desejado).

Uma unidade Daly é igual a um ano de vida.

As Daly para as “doenças tropicais” listadas pela OMS são: malária, 46,5 milhões de anos perdidos pela humanidade; tuberculose, 35 milhões; filarioses, 5,8 milhões; leishmanioses, 2 milhões; esquistossomoses, 1,7 milhão; doença do sono, 1,5 milhão; doença de Chagas, 667 mil; dengue, 616 mil; oncocercose, 484 mil; lepra, 199 mil.

Com relação ao número de mortes por ano, a situação também é lamentável: tuberculose, 1,5 milhão; malária, 1,2 milhão; leishmaniose visceral, 51 mil; doença do sono, 48 mil; dengue, 19 mil; esquistossomoses, 15 mil; e doença de Chagas, 14 mil. Para completar, enquanto a expectativa de vida no Japão se situa em oito décadas, em muitos países da África Tropical varia em torno de quatro.

O que, porém, está se tornando cada vez mais evidente é que o “fatalismo tropical” pode ser revertido significativamente pelo desenvolvimento econômico e sanitário em geral, ou pelo aporte pontual de recursos específicos.

O controle da tripanossomose americana ou doença de Chagas no Brasil é um claro exemplo de como isso é possível. A doença de Chagas é causada pelo Trypanosoma cruzi, que só ocorre no Novo Mundo, e que está separado de seus parentes causadores da doença do sono há pelo menos 100 milhões de anos, quando a África e a América do Sul se afastaram.

O concomitante divórcio de faunas e floras sublinhou a disjunção continental de tripanossomas e vetores. Os ancestrais das glossinas (tsé-tsés) sobreviveram na África, enquanto os ancestrais dos triatomíneos colonizaram a América do Sul. Não poderia haver um caso de mais clara “fatalidade biogeográfica” tropical. A afortunada Europa não herdou nem um nem outro dos ancestrais.

Os triatomíneos, comumente chamados de “barbeiros”, são hemípteros hematófagos com espécies distribuídas em três gêneros principais: Triatoma, Panstrongylus e Rhodnius que proliferam em diferentes biomas das Américas do Norte, Central e do Sul. Espécies de barbeiros podem ser encontradas desde tocas e furnas terrestres até copas de árvores, especialmente palmeiras. Barbeiros se alimentam do sangue dos mais variados mamíferos, desde tatus até primatas, sendo generalistas em relação a vítimas.

Marsupiais e tatus devem ter sido os hospedeiros originais do T. cruzi que, a partir deles e graças à promiscuidade hematófaga dos barbeiros, se disseminou entre as várias ordens de mamíferos da América do Sul e, posteriormente, da América do Norte. O homem deve ter sido incluído na promíscua lista de vítimas dos barbeiros assim que chegou às Américas, há 30-10 mil anos.

Mas só se tornou um alimentador regular e constante de barbeiros quando os levou para sua casa e os domesticou junto com mamíferos infectados pelo T. cruzi. Conjetura-se que isso tenha ocorrido nas populações pré-colombianas dos Andes que criavam em suas casas, para comer, o porquinho da índia (Cavia spp.) de quem os barbeiros (Triatoma spp.) também se alimentavam.

A partir daí, os barbeiros, particularmente o Triatoma infestans, adaptaram- se tão bem ao domicílio humano e a seus moradores (homens, cães e outros animais) que passaram a preferir o homem para seus repastos sangüíneos e a morar e procriar na casa do homem.

Adoraram os longos, escuros e cálidos túneis das casas de pau-a-pique ou taipa, que se erguiam por todo o território brasileiro. À noite, o T. infestans emergia desses túneis para picar o homem, de preferência na tenra região palpebral ou rosto em geral, daí o nome de barbeiro, que lhe damos, ou beijoqueiro (kissing bug), que lhes dão os anglófonos.

Ao se alimentar, o barbeiro defeca no rosto que o alimenta. Em suas fezes estão tripanossomas infectantes que, percorrendo o orifício da picada, chegam às células subjacentes que invadem e onde se multiplicam. Células abarrotadas de tripanossomas arrebentam e os liberam para o sistema circulatório por onde chegam a outras células. Barbeiros se infectam ingerindo sangue com tripanossomas circulantes. No homem, os tripanossomas têm preferência por neurônios do sistema nervoso autônomo e por células musculares do coração.

A destruição progressiva dessas células responde pelos sintomas da doença crônica: lesões do sistema motor do coração com arritmias, bloqueios e paradas cardíacas; lesões das fibras cardíacas com diminuição de seu poder contrátil e insuficiência cardíaca; lesões dos neurônios dos esfíncteres do esôfago e cólon sigmóide que apresentam progressiva dificuldade de abertura, ocasionando a formação de megaesôfago e megacólon.

A morte pode ocorrer já na fase aguda ou em qualquer momento da fase crônica, mas em geral a doença se estende por muitos anos.

O tratamento medicamentoso é complicado, pouco eficiente na fase crônica da doença e com muitos riscos e efeitos colaterais.

A doença de Chagas e a malária eram as mais graves endemias brasileiras.

Até os anos 1970, cerca de 20 milhões de brasileiros estavam infectados pelo T.cruzi e até 1980 havia pelo menos 120 mil casos novos da doença por ano.

Doenças Tropicais
Em 6 de outubro de 1999, a Dra. Gro Harlem Brundtland, diretora-geral da Organização Mundial de Saúde, inaugurou na sede da OMS, em Genebra (Suíça), um monumento por ocasião do 25º aniversário do programa de luta contra a oncocercose no continene africano

Já sabíamos que o controle da doença era possível porque São Paulo havia reduzido o número de casos novos com a borrifação de inseticidas em domicílios infestados por barbeiros. Na década de 1980, o Brasil, juntamente com países do Cone Sul e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), adotou um programa intensivo de combate ao barbeiro domiciliar (Southern Cone Chagas Initiative). O sucesso desse programa foi absoluto.

No Brasil, após poucos anos de borrifações sistemáticas e bem planejadas, o número de casos novos caiu praticamente a zero. A doença de Chagas transmitida pelos barbeiros domiciliados (Triatoma e Pastrongylus) provou ser controlável.

Esporadicamente ocorrem ainda casos de transmissão domiciliar, mas resultam de focos residuais em vias de extinção graças a uma vigilância sanitária permanente.

Infelizmente, muitos países da América Latina não empreenderam programas semelhantes. A Bolívia, por exemplo, ainda apresenta uma incidência de mais de 80 mil casos por ano. Nos países situados acima do Equador, os principais transmissores do T. cruzi para o homem e para o cão são barbeiros do gênero Rhodnius e o Triatoma dimidiata, doméstico.

Estratégias para o controle da transmissão, ainda que diferentes das adotadas pelos países do Cone Sul, são claramente possíveis, e os países da América Central já se organizaram para enfrentá-lo dentro de um programa regional: Central America Chagas Initiative.

No Brasil, como em toda a parte, incluindo os Estados Unidos, o T. cruzi continua presente em mamíferos e barbeiros silvestres, e nem a parceria nem os parceiros se extinguirão nos próximos milhões de anos.

Dessa forma, a qualquer momento podem surgir, e têm surgido no Brasil, focos de doença de Chagas em pequenas comunidades instaladas em áreas densamente povoadas por mamíferos e barbeiros infectados.

A Amazônia é o cenário propício para tais eventos. Além disso, têm espocado aqui e ali focos de infecção chagásica por causa da ingestão de sucos de frutos (açaí) e cana-de-açúcar acidentalmente triturados com barbeiros infectados com tripanossomas de animais silvestres. Esses surtos de infecção oral costumam acometer dezenas de pessoas de uma só vez, mas são sempre limitados.

Episódios de ambos os tipos podem ocorrer a qualquer momento; porém, doença de Chagas em escala nacional como dantes, nunca mais.

E por que não, se a fatalidade biogeográfica tropical de barbeiros e tripanossomas não foi alterada e os dois vilões continuam em cena e impunes como sempre? Porque, como dissemos, o desenvolvimento neutraliza essa fatalidade e o desenvolvimento sanitário já atingiu o Brasil. As casas de taipa diminuíram, e as que restaram são regularmente borrifadas com inseticidas providos pelos serviços de saúde.

Recursos financeiros são disponibilizados e a vigilância sanitária está presente. O desenvolvimento é, sem dúvida, o melhor antídoto à fatalidade tropical.

Doenças Tropicais
Em Honduras, no Equador, um especialista segura barbeiro do gênero Triatoma dimidiata

Sob esse prisma, as duas posições conflitantes sobre as raízes das “doenças tropicais” do início do século XX em realidade não são antagônicas, mas se complementam: fatalidade biogeográfica e subdesenvolvimento são os genitores das “doenças tropicais”. Aliás, há doenças que, não fosse o subdesenvolvimento, não mais existiriam atualmente. Há vários exemplos dessas doenças, que a OMS agrupa sob o rol de doenças negligenciadas.

O pian ou bouba (yaws, do inglês) são treponematoses da pele e, como a própria sífilis, são facilmente tratáveis com penicilina: só sobreexistem porque as populações afetadas não têm acesso a serviços de saúde. A úlcera de Buruli, rara ou não diagnosticada no Novo Mundo, é causada por uma micobatéria que provoca extensas lesões cutâneas geralmente dos membros inferiores em populações ribeirinhas ou de áreas alagadiças.

O tracoma, infecção clamidial ocular, que eventualmente ocorre também no Brasil, vitimiza 80 milhões de pobres, dos quais seis milhões já estão cegos. Isso sem falar nas verminoses intestinais, menos alarmantes, mas ainda bastante prevalentes em países subdesenvolvidos ao lado do cólera e das genéricas diarréias infantis.

Essas doenças todas, conforme o gosto, poderiam ser chamadas de tropicais ou de doenças do subdesenvolvimento, mas o nome eclético de doenças negligenciadas adotado pela OMS abrange todas sem singularizar os trópicos como fator causal. É mais adequado assim.

ERNEY PLESSMANN CAMARGO

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Fonte: www.scielo.br

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