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Síndrome de Otelo

Definição

A ilusão da infidelidade de um cônjuge ou parceiro.

A síndrome de Otelo afeta homens e, menos frequentemente, mulheres.

É caracterizada por recorrentes acusações de infidelidade, procura por evidências, interrogatórios repetidos do parceiro, testes de fidelidade do seu parceiro, e às vezes perseguindo.

A síndrome de Otelo pode aparecer, por si só ou no decurso da paranóide, da esquizofrenia, alcoolismo ou dependência de cocaína.

Como em Otelo, na peça de Shakespeare, a síndrome pode ser altamente perigoso e resultar em rompimento de um casamento, homicídio e até suicídio.

A síndrome de Otelo foi nomeado pelo psiquiatra Inglês John Todd (1914-1987) em um artigo que ele publicou com K. Dewhurst intitulado "A Síndrome de Otelo: um estudo na psicopatologia da sexual ciúme "(Journal of distúrbio nervoso e mental, 1955, 122: 367).

Todd também foi o primeiro a citar a síndrome de Alice no País das Maravilhas.

A síndrome de Otelo é também conhecido como o ciúme, a síndrome delirante erótico, inveja, ciúme mórbido, psicose, ou ciúme sexual.

Fonte: www.medterms.com

Síndrome de Otelo

Ciúme Patológico ou Síndrome de Otelo

Ciúme Patológico é um ciúme, como o próprio nome diz, doentio.

É normal pessoas sentirem ciúmes de pessoas queridas.

Mas algumas pessoas sofrem de um quadro clínico chamado Ciúme Patológico.

Essa pessoas fazem as coisas mais absurdas com sua vítimas (namorados, namoradas, noivos, noivas, maridos, mulheres, amantes):

Telefonam inúmeras vezes por dia e não aceitam que a pessoa não possa ou não queira atender sempre.

Implicam com roupas, decotes, make up, penteados, perfumes.

Interrogam sobre o passado muitas vezes para pegar contradições.

Contratam detetives.

Seguem.

Passam horas parados na porta da vítima para ver se surpreendem visitas secretas ou saídas não informadas.

Checam contas telefônicas.

Interrogam porteiros para saber se a pessoa saiu ou recebeu visitas.

Perguntam a mesma coisa muitas vezes e de várias maneiras para fazer a pessoa entrar em contradição.

Provocam horas e horas de debates e discussões sobre a quantidade de amor não retribuído que demonstram para a vítima.

Fazem juras de amor sem aceitar o quanto são egoístas.

Andam ao lado da pessoa na rua, observando para onde ela dirige o olhar.

Ameaçam, agridem, podem chegar a matar a vítima.

Ameaçam se suicidar.

Causas

Álcool

Drogas (principalmente Cocaína)

Anfetaminas ou anorexígenos (remédios para emagrecer)

Psicose (por exemplo Esquizofrenia)

Psicopatia (alguns Psicopatas, quando além da Psicopatia demonstram Ciúme Patológico, são extremamente perigosos)

Personalidades inseguras.

TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

Mas a maioria dos ciumentos patológicos são pessoas normais, sem nenhuma doença psicótica, sem drogas, sem álcool, sem Psicopatias. São simplesmente ciumentos. E a vida do marido, mulher, namorado, namorada é simplesmente um inferno.

Tratamento

Bom, primeiro precisa ver se o ciumento ao teu lado quer se tratar. A maioria não aceita que tenha nenhum problema.

Se ele (ou ela) não aceitar a necessidade de tratamento, prepare-se para viver num inferno.

Lembra do filme da Julia Roberts, Dormindo com o Inimigo ?

Ou da pobre Desdêmona, do filme Otelo (de Shakespeare), com Kenneth Brannagh ?

Caso aceite tratamento, é prudente duvidar se ele quer mesmo se tratar ou se está apenas ganhando tempo para o novo acesso de ciúmes.

Claro que se a causa do ciúme daquela pessoa é álcool ou drogas, é importante eliminar a causa.

Quando o ciumento quer mesmo se tratar, nem sempre somente psicoterapia ajuda.

Mesmo para os ciumentos "normais" (isto é, não psicóticos), dose baixas de neurolépticos podem ajudar muito.

Fonte: www.mentalhelp.com

Síndrome de Otelo

A Síndrome de Otelo – quando o ciúme se torna patológico

Dentre as mais diferenciadas emoções humanas, o ciúme é uma emoção extremamente comum (Kingham & Gordon, 2004). Uma das definições mais aceitas para o entendimento desse tema é a de que ele é um "complexo de pensamentos, sentimentos e ações que se seguem ás ameaças para a existência ou a qualidade de um relacionamento, enquanto estas ameaças são geradas pela percepção de uma real ou potencial atração entre um parceiro e um (talvez imaginário) rival" (White, 1981c, p.129).

Todos nós cultivamos certo grau de ciúme (Almeida, 2007). Afinal, quem ama cuida. Mas, como este desvelo pode variar na interpretação de uma pessoa para a outra, de forma análoga, o ciúme também o variará. Portanto, desenvolve-se quando sentimos que nosso parceiro não está tão estreitamente conectado conosco como gostaríamos (Rosset, 2004). Dessa forma, o ciúme surge quando um relacionamento diádico valorizado é ameaçado devido á interferência de um rival e pode envolver sentimentos como medo, suspeição, desconfiança, angústia, ansiedade, raiva, rejeição, indignação, constrangimento e solidão, dentre outras, dependendo de cada pessoa (Daly & Wilson, 1983; Haslam & Bornstein, 1996; Knobloch, Solomon, Haunani & Michael, 2001; Parrott, 2001). Assim, segundo Ramos (2000) é possível se ter ciúme até mesmo em relacionamentos platônicos, em que se há um amor unilateral não correspondido.

Vemos na literatura inúmeros casos emblemáticos para a questão do ciúme. Um dos mais conhecidos é o romance "Otelo - O Mouro de Veneza" de William Shakespeare. Em sua obra, o autor considera o ciúme como o "monstro dos olhos verdes". Nesta história, o protagonista Otelo, envenenado de ciúme pelo astucioso Iago, deixa-se levar por um ciúme doentio do seu melhor amigo com sua esposa, acaba matando a honesta, terna e doce Desdêmona. No âmbito do ciúme, não é preciso acusar sem provas e nem mesmo concluir sem os fatos a exemplo do Mouro de Veneza. Podemos nos pautar na realidade e colecionarmos fatos na medida do possível, que nos conduzam a uma decisão baseada em fatos concretos que enxergamos na realidade.

O conceito de ciúme mórbido ou patológico, também chamado de Síndrome de Otelo, em referência ao romance shakeasperiano escrita em 1964 compreende várias emoções e pensamentos irracionais e perturbadores, além de comportamentos inaceitáveis ou bizarros (Leong et al, 1994). Envolveria muito medo de perder o parceiro(a) para um(a) rival, desconfiança excessiva e infundada, gerando significativo prejuízo no funcionamento pessoal e interpessoal (Todd & Dewhurst, 1955). Estes casos estão cada vez mais acorrendo para á clinica em busca de suporte para sua conturbada dinâmica. é provável que o aumento do número de casos nos consultórios relacione-se ao desassossego provocado pelo ciúme, bem como o desejo de aplacá-los, em nome de uma vida psíquica mais saudável.

Nesta variação excessiva do ciúme há a possibilidade de algumas pessoas interpretarem conclusivamente evidências de infidelidade a partir de ocorrências irrelevantes, se recusam a mudar suas crenças mesmo frente a informações conflitantes, e tendem a acusar o parceiro de infidelidade com muitas outras pessoas (Torres, Ramos-Cerqueira & Dias, 1999; Vauhkonen, 1968).

Então, de um mecanismo protecionista para preservar a qualidade e o bom andamento dos relacionamentos amorosos, o ciúme passa a se tornar patológico quando ultrapassa os limites do bom senso, sendo de difícil controle e compreensão. Dessa forma, o ciúme patológico é aquele que, sobretudo, estaria fundamentado em falsas crenças (idéias sobrevalorizadas ou delírios), que não são abaladas por qualquer argumentação racional. Estas pessoas geralmente são diagnosticadas como portadoras de um ciúme patológico.

O ciúme patológico pode ser diagnosticado ainda que o parceiro considerado infiel realmente o seja ou o tenha sido (Kingham & Gordon, 2004; Soyka, Naber & Völcker, 1991). Dessa forma, segundo Kebleris e Carvalho (2006) o diagnóstico desta psicopatologia não está na avaliação dos fatos em si, mas sim na leitura realizada pelo indivíduo que acredita ter sido traído pelo parceiro.

O termo ciúme patológico engloba uma ampla gama de manifestações (de reativas a delirantes) e diagnósticos psiquiátricos. Inclui os casos de ciúme sintomático, ou seja, quando é parte de outro transtorno mental (ex.: alcoolismo, demência, esquizofrenia). Nessas circunstâncias, o foco do tratamento seria o processo principal subjacente.

Ocorre, freqüentemente, que o parceiro infiel coloca o outro em dúvida de suas próprias percepções e memórias (Hintz, 2003). Conseqüentemente, o que mais incomoda ao indivíduo ciumento é seu parceiro negar a existência de outra pessoa e fazer com que acredite que ele está imaginando coisas e que sempre foi fiel.

Há casos que, após o parceiro ciumento descobrir que de fato foi traído, irritar-se mais com a mentira, fazendo-o acreditar que ele próprio estava errado ou ainda mesmo doente por imaginar coisas do que a própria infidelidade. Dessa forma, a infidelidade pode não ser a pior coisa que o parceiro faça ao outro, ela é apenas uma das mais perturbadoras e desorientadoras porque é capaz de destruir um relacionamento, não necessariamente pelo ato sexual, aliadas as mentiras e segredos que passam a distanciar o casal.

Muitos são os comportamentos que revelam que uma pessoa pode estar se excedendo em seu ciúme, se acaso, não esteja tão claro pára a própria pessoa.

Comportamentos tais como examinar bolsos, carteiras, recibos, contas, roupas íntimas e lençóis, ouvir telefonemas, abrir correspondências, seguir o cônjuge ou mesmo contratar detetives particulares para fazer isso costumam não aliviar e ainda agravar sentimentos de remorso e inferioridade das pessoas que padecem de ciúme excessivo. Um exemplo disso é caso que Wright (1994) descreveu de uma paciente que chegava a marcar o orgão masculino do marido com caneta para conferir a presença desse sinal no final do dia.

O ciúme é de grande interesse da psiquiatria, sobretudo para a forense e também para a psicologia, a partir do momento que sua manifestação é patológica e destrói a harmonia do relacionamento (Gillard, citado por Todd, Mackie & Dewhurst, 1971; Torres, Ramos-Cerqueira & Dias, 1999; Rassol, 1996). Ainda que de grande importância para ser estudado, outro fator complicador deste estudo é a vagueza e a indistinção do limite entre o ciúme normal e o patológico (White & Mullen, 1989).

De acordo com os autores Kingham & Gordon (2004), o ciúme patológico é um conjunto de pensamentos e emoções irracionais, junto com comportamentos extremos ou inaceitáveis, em que o tema dominante é a preocupação com a infidelidade do parceiro sexual sem base em evidências concretas. Bishay, Petersen e Tarrier (1989) e Tarrie et al (1990) propuseram que pessoas com ciúme patológico tendem a fazer distorções sistemáticas e erros em suas interpretações e percepções de eventos e informações, então um evento precipitador dá chance á suspeitas inconsistentes e provocam o ciúme patológico.

O ciúme patológico pode ser diagnosticado ainda que o parceiro considerado infiel realmente o seja ou tenha sido (Kingham & Gordon, 2004; Soyka, Naber & Völcker, 1991). Uma das dificuldades para se diagnosticar o ciúme patológico é a possibilidade de haver outra psicopatologia dominante. Dentre as co-morbidades mais comuns relatadas está o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), sugerido por alguns autores (Tarrier et al (1990); Dolan & Bishay (1996); Parker & Barret (1997); Gangdev (1997); Torres, Ramos-Cerqueira & Dias, 1999; Michael, Mirza, Babu & Vithayathil, 1995; Cobb & Marks, 1979).

Um estudo realizado por Cobb & Marks (1979) analisou quatro sujeitos com ciúme patológico acompanhado por rituais compulsivos. Neste estudo os autores chegaram á conclusão de que o ciúme patológico pode se diferenciar do TOC na medida em que ele sempre envolve duas pessoas. Ainda assim, o ciúme patológico pode surgir decorrente ao abuso de certas substâncias, transtornos mentais, transtornos de personalidade, neuroses e psicoses (Kingham & Gordon, 2004).

Alguns autores chegam a equiparar o ciúme patológico a um estado de delírio (Enoch & Trethowan, citado por Kingham & Gordon, 2004). O fundamento do delírio nesta psicopatologia é limitado á desconfiança ao cônjuge, sendo que outros sintomas (delirantes) não são colocados. Neste delírio, pacientes com ciúme patológico têm a tendência a serem violentos com o cônjuge e em alguns casos podem chegar a cometer crimes (Mukai, 2003).

Mukai (2003) ressalta ainda que o delírio no ciúme patológico não deve ser equiparado ao delírio da esquizofrenia, pois é um delírio limitado aos pensamentos de infidelidade. No caso do ciúme patológico os delírios são passíveis de possuir crenças equivalentes não-delirantes em indivíduos sadios, ou seja, o delírio e o não-delírio são muito similares, pondo em questão a distinção entre normal e patológico.

No que tange o ciúme patológico, geralmente, não há fatos reais e, se existem freqüentemente superam o valor do acontecimento. Indubitavelmente, a definição para o ciúme patológico deve incluir, uma inexplicável suspeita associada á fidelidade do parceiro que modifica os pensamentos, sentimentos e o comportamento do paciente. Como esta suspeita não é confirmada por qualquer prova real e não somente prejudica a vida da pessoa que sofre deste transtorno, como também afeta o parceiro e o relacionamento. Há tentativas para confirmar estas suspeitas são comuns e pode envolver a interpretação da correspondência do parceiro, a checagem dos seus trajetos e a contratação de detetives particulares. Então, freqüentemente, a pessoa enciumada interroga constantemente seu parceiro sobre os eventos que ocorreram em seu dia e sobre os supostos episódios de infidelidade.

A evitação de situações que provocam ciúme também é comum. Discussões e acusações também acontecem e podem resultar em violência verbal ou física.

Dessa forma, a partir de uma emoção considerada normal, o ciúme pode se manifestar de uma forma explosiva, intensa. O indivíduo exagera em suas atitudes que expressam ciúme, não tem uma perspectiva de haver um fim, apesar de comprovar que suas suspeitas não são reais, gerando ansiedade, depressão, raiva, culpa, insegurança e desejo por retaliação. A aparição de ciúme excessivo com um sentimento de posse sobre o cônjuge e um temor de perdê-lo, originados pela existência de uma insegurança pessoal, leva a uma diminuição do respeito á pessoa amada. Desta maneira, o ciúme demonstra um sinal de instabilidade emocional acentuada, confundindo amor com posse (Hintz, 2003).

Os autores Easton, Schipper e Shackelford (no prelo) se questionam a respeito da relatividade que pode haver entre os perigos implicados pelo ciúme mórbido e o ciúme sexual, apontando para os dados de Daly & Wilson (1988) que nos mostram que o maior preditor de homicídios é o ciúme sexual até então.

Nas palavras de Mira y López: "Na realidade, o ser ciumento trava uma batalha consigo próprio, e não contra quem ama ou contra quem cobiça o bem amado. é no próprio núcleo do amor "ciumento" que se engendra a inquietação e cresce a biotoxina que o envenena" (Myra y López, 1998, p. 174). "O indivíduo ciumento permanece ambivalente entre o amor e a desconfiança de seu parceiro, tomando-se perturbado, com labilidade afetiva e obcecado por triangulações" (Hintz, 2003, p.48). Pessoas ciumentas podem se tornar obsessivas com detalhes de seus rivais (Guerrero & Afifi, 1999). Tipicamente a pessoa ciumenta precisa de constante reafirmação de seu amor-próprio. Em geral, esta desconfia de seu próprio valor e, por isso, tende a julgar que não é tão importante e nem bastante amada.

Principalmente para o ciumento irrealístico o maior sofrimento é em decorrência da incerteza quanto á traição. Consoante Ramos (2000) mais importante que a confirmação da infidelidade em si é a incerteza que consome a mente destas pessoas, porque em casos de ciúme extremo decorrentes de disfunção perceptiva, mesmo que não haja provas evidentes da infidelidade do parceiro, o ciumento toma alguns indícios como se fossem provas irrefutáveis, cuja validade ou falsidade é indiferente para o seu grau de sofrimento.

Toda relação amorosa, a princípio, pressupõe um grau de ciúmes saudável, por assim dizer. Nesse sentido, uma total apatia, segundo o que raciocinam muitos casais, pode revelar desinteresse, pesadelo mais indesejável que alguém ciumento. O problema é quando esse ciúme passa da dose ideal e esboça contornos paranóicos. Contudo, todos os parceiros deveriam considerar que a fidelidade é algo que se faz pela relação, e assim, não deve ser um limite imposto pelos parceiros. Como o ciúme é um fenômeno que sinaliza a infidelidade devemos repensar sobre o nosso próprio ciúme. Infelizmente, quando mal direcionado, o ciúme causa tristeza nas pessoas envolvidas. O ciúme pode corroer a mente de uma pessoa a ponto dela se tornar um escravo do próprio sentimento negativo.

Quantos casais já cometeram loucuras e crimes por ciúme? Quantos casais na história ou na literatura, a exemplo de Otelo, já bateram, morreram, mataram ou enlouqueceram por amor e ciúme? Muitas vezes, os crimes foram cometidos por parceiros que estavam tão cegos de ciúme, que acabaram matando o outro injustamente, sem que nada posteriormente fosse provado como verdadeiro e aí foram duas vidas que se perderam. E daí, muitas vezes o arrependimento, se chega e quando chega, é muito tardio e já não importa mais.

Thiago de Almeida

Referências

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Fonte: br.monografias.com

Síndrome de Otelo

Síndrome de Otelo – Ciúme Patológico e Delirante

As idéias prevalentes ou sobrevaloradas (Dalgalarrondo, 2008) são idéias predominantes sobre outros pensamentos e de grande importância afetiva para o indivíduo que as produz; idéias que, ao contrário das obsessivas, são aceitas pelo sujeito, já que fazem sentido para ele. As idéias delirantes, ou delírios, por sua vez, são juízos patologicamente falsos. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR, 2002), o Transtorno Delirante Paranóico do tipo ciumento é o delírio centrado na convicção, sem motivo justo ou evidente, de que está sendo traído pelo cônjuge ou parceiro romântico.

A crença é injustificada e se baseia em inferências incorretas sustentadas por pequenas “evidências” (por exemplo, manchas nos lençóis) as quais são acumuladas e utilizadas para a justificativa do delírio. O sujeito pode tomar medidas extremas para evitar a suposta infidelidade. Segundo Dalgalarrondo (2008), nos delírios de Ciúmes e de Infidelidade, o indivíduo descobre-se traído pelo parceiro de forma cruel, acusando-o de manter relações íntimas com outras pessoas. Geralmente, o sujeito que apresenta esse delírio é extremamente dependente de forma emocional da pessoa amada. O ciúme, quando desproporcional e profundo em indivíduos com alto grau de possessividade e insegurança, pode ser difícil de distinguir do delírio de ciúme. Nessa perspectiva, o ciúme patológico pode ser tanto um verdadeiro delírio, como também uma idéia prevalente. Pessoas acometidas pelas intensas atividades de delírio do tipo ciumento, muitas vezes, violentam fisicamente ou mesmo cometem homicídio contra o “traidor”.

Otelo, o Mouro de Veneza

Otelo, o Mouro de Veneza é uma famosa obra de William Shakespeare na qual são abordados temas de grande relevância até os dias de hoje, dentre eles, o ciúme.

Para que haja maior compreensão da síntese da peça, alguns personagens serão mencionados brevemente:

Otelo: um honesto nobre e general mouro a serviço do Estado de Veneza

Desdêmona: uma linda e doce jovem, e esposa de Otelo

Cássio: tenente de Otelo

Iago: um invejoso e alferes de Otelo

Brabâncio: um senador e pai de Desdêmona

Rodrigo: soldado veneziano (apaixonado por Desdêmona)

Emília: esposa de Iago.

A obra inicia-se com Iago e Rodrigo tramando, secretamente, uma maneira de impedir a realização do casamento de Otelo e Desdêmona. Assim, o plano consistia no pai desta, Brabâncio, ficar à parte das relações íntimas de sua filha com o mouro, uma vez que era esperado que ele desaprovasse sua escolha, sobretudo por motivo de racismo. Brabâncio vai até o casal, visando matar o genro e o acusa de praticar feitiçarias para casar com sua linda e amada filha, que tão disputada era por vários jovens; porém, após conversar com Desdêmona, não só desiste de praticar o ato, como também passa a desconsiderá-la como filha, pondo um fim na relação de ambos. No entanto, ele alerta o genro dizendo que sua filha é infiel, já que enganou o próprio pai; no entanto, Otelo afirma confiar na fidelidade de sua esposa. Otelo era ingênuo, acreditava nas palavras dos outros com tamanha facilidade, principalmente nas de seu alferes, chamando-o de “honesto Iago”. Este, por sua vez, arquitetava planos contra o general mouro por ser invejoso e por não tê-lo promovido como seu tenente. O ocupante do posto invejado por Iago foi Cássio, jovem atraente e também ingênuo, e grande amigo de Otelo. Iago conseguia ser discreto diante dos olhos de seu general, e se aproveitava de sua ingenuidade fingindo ser honesto e leal a ele, o que aumentava sua credibilidade.

Com a finalidade de destruir a vida de Otelo e de Cássio, e percebendo que a melhor forma de atacar seria através do ciúme, começou a agir: assim, o alferes preparou friamente cada ocasião, insinuando uma relação amorosa entre Cássio e Desdêmona. Por mais que Desdêmona mostrasse seu amor pelo marido e implorasse que confiasse em sua palavra - que era verdadeira - em nada acreditava, pois estava convicto da traição. Iniciou-se, assim, as agressões tanto físicas quanto verbais; nesta última, chamando-a de rameira, causando infelicidade na esposa.

O alferes conseguiu o que almejava: introduzir as “sementes” do ciúme.

Nessa perspectiva, Iago aprontou várias situações, o que resultou em tragédia: Otelo, com seu ciúme doentio, e com a certeza de que sua mulher o traía constantemente com seu tenente, planejou, junto com seu aliado, a morte do “casal”; então, assassinou a doce e terna jovem. Depois, contudo, ficou sabendo, pela esposa de Iago, de que tudo isso foi planejado por seu marido.

Desolado, arrependeu-se amargamente de ter feito o que fez com sua doce mulher, e agrediu o invejoso. Na mesma noite do homicídio, após tanto lamentar-se, apunhalou-se e morreu.

Síndrome de Otelo

“O ciúme é o monstro de olhos verdes que zomba da carne com que se alimenta.” (Shakespeare).

O ciúme é conhecido como o medo da perda de um objeto amado. Um ciúme que gera pertubações, sofrimentos e torturas não é normal. O ciumento acumula sinais como se acumulasse provas materiais de defesa contra o outro; o que mais o incomoda é seu parceiro negar existência de outra pessoa na relação e tentar fazer com que acredite que são imaginações infundadas e que sempre lhe foi fiel. A partir da obra shakespeareana, a Síndrome de Otelo ficou bastante conhecida no campo do ciúme patológico devido aos delírios paranóicos ciumentos e às conseqüências que tal sintoma leva. Otelo, a partir das insinuações, feitas por Iago, de que Desdêmona estaria o traindo com seu grande amigo, passou a desconfiar da fidelidade da jovem com muita facilidade, através de “evidências” que, na realidade, não chegavam a ser motivos de tamanha desconfiança.

Uma das situações que Iago planejou foi a seguinte: Otelo, havia dado um lenço de linho de presente a sua esposa; aliás, foi o primeiro mimo e Iago bem sabia.

Porém, o alferes induziu sua esposa, Emilia - a qual trabalhava para Desdêmona -, a roubar o lenço e diz ao general mouro que Desdêmona havia presenteado seu amante com o objeto, deixando Otelo enciumado. Ele pergunta à esposa sobre o lenço e, ela, sem imaginar que estava com Cássio, não soube explicar o desaparecimento do lenço. Nesse tempo, Iago foi até os aposentos de Cássio para deixar o objeto, para que Otelo o encontrasse. Após isso, Iago fez com que Otelo se escondesse para ouvir sua conversa com o suposto “amante”. A conversa foi em relação a uma meretriz amante de Cássio; mas, como Otelo ouviu uma parte do diálogo, imaginou que a mulher sobre qual o tenente falava era sua amada esposa.

Essa foi uma das ocasiões tramadas por Iago que culminou no assassinato de Desdêmona, a qual nunca deu motivos para tanta desconfiança. Em várias cenas, ainda no início da desconfiança, Otelo agrediu verbalmente e, mais adiante, fisicamente. No início da obra, tinha a convicção de que a amada era somente sua e de mais ninguém. Suas suspeitas o devoraram, intensificando o ciúme de modo a tornar-se patológico; através de pequenas “evidências” e ocorrências irrelevantes, sem ter visto algo que realmente justificasse a desconfiança, cometeu homicídio contra Desdêmona. Otelo preferiu perder o objeto de que fará luto a sofrer os tormentos do ciúme; é um dos aspectos que caracterizam um delírio do tipo ciumento.

Freud situa três “camadas de ciúme” anormalmente reforçado:

ciúme concorrencial ou normal: se compõe da tristeza, da dor de saber ou de crer que o objeto de amor está perdido, da ofensa narcísica e dos sentimentos hostis em relação ao rival. Este tipo de ciúme é considerado como racional, “dominado pelo eu consciente demonstrando ter raízes profundas no inconsciente” (Lachaud, 2001).

ciúme projetado: há uma colocação em jogo de um processo inconsciente, a projeção de um desejo de trair recalcado.

ciúme delirante: os objetos de fantasia são homossexuais, ocupando um lugar como uma das formas clássicas da paranóia. Nessa camada, o desejo de infidelidade está voltado para um parceiro do mesmo sexo que o sujeito. Como tentativa de defesa desse impulso homossexual, no homem, equivale a afirmação “Eu não o amo, é ela que o ama!”.

Em minha visão, a partir às contribuições freudianas, o ciúme de Otelo se encaixa nos dois últimos. Em relação ao ciúme projetado, houve um retorno dele, de sua própria traição, mas contra a lei; projetou suas idéias de infidelidade. Ele foi infiel somente à lei, uma vez que, por amor à Desdêmona, se converteu ao cristianismo. Quanto ao ciúme delirante, há um tema de homossexualidade, uma vez que sentia por Cássio uma paixão fraterna. Antes de tudo, eles eram grandes amigos, senão os melhores. À medida que as desconfianças cresceram, Otelo não tinha dúvidas de que a esposa amava o jovem e atraente Cássio, passando a odiá-lo.

Há, no ciúme, uma verificação que nenhuma prova jamais poderá satisfazer. No ciúme delirante, não há prova de defesa; tudo conspira para acusar o outro. O ciumento quer saber, nem que seja contra a verdade. Encontrar o que ele busca não o tranqüilizaria. No ciúme dito "normal", todavia, o ciumento busca a confissão. Em outras palavras, o ciúme se nutre de interpretações; é onipresente.

Como Shakespeare cita na obra, “As almas ciumentas não são ciumentas porque há uma causa, mas sim porque são ciumentas. Este é um monstro gerado em si mesmo e de si mesmo nascido.”

Silvia de Andrade Neves Dias Brites

REFERÊNCIAS

Cromberg, R.U. (2002). Paranóia - Clínica Psicanalítica.
Dalgalarrondo, P. (2000). Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed.
DSM-IV-TR (2002). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. (tradução) Claudia Dornelles. 4.ed. Texto revisado. São Paulo, Artmed
Lachaud, D. (2001). Ciúmes. Rio de Janeiro : Companhia de Freud, c2001.

Fonte: www.ufrgs.br

Síndrome de Otelo

"Os ciumentos não precisam de motivo para ter ciúme. São ciumentos porque são. O ciúme é um monstro que se gera em si mesmo e de si nasce". William Shakespeare

Pode-se afirmar que toda a relação amorosa, a princípio, pressupõe um grau de ciúmes saudável. A ausência, tanto quanto o seu excesso pode prejudicar o relacionamento. No caso do ciúme normal, a honestidade e o tranquilizar do companheiro são importantes. É natural sentir medo quando as relações afetivas que valorizamos estão ameaçadas. As pessoas sentem-se inseguras perante a perda, têm medo de serem excluídas da vida da outra pessoa. O ciúme é um sentimento humano que pode interferir, em maior ou menor grau, na dinâmica do relacionamento, mais frequentemente no conjugal, é uma emoção humana bastante comum, senão universal, sendo difícil fazer a distinção entre ciúme normal e patológico. O Ciúme Patológico ou Síndrome de Otelo é definido como a percepção do indivíduo face a ameaça ou perda de valores no relacionamento para um rival real ou imaginário, como pensamentos infundados de falsa fidelidade (Marazziti, 2003).

Engloba um conjunto de emoções desencadeadas por sentimentos de ameaça à estabilidade ou qualidade de um relacionamento íntimo valorizado. No que diz respeito ao ciúme, a linha divisória entre imaginação, fantasia, crença e certeza, frequentemente torna-se vaga e imprecisa. No ciúme as dúvidas podem se transformar em ideias supervalorizadas ou delirantes (Ballone, 2004).

Nas muitas definições de ciúme, há três aspectos comuns: Ser uma reação frente a uma ameaça percebida; Existir um rival real ou imaginário; Eliminar os riscos da perda do objeto amado.

É um sentimento que gera angústia, raiva, desconfiança, insegurança, baixa auto-estima e tensão nos parceiros, podendo alcançar formas doentias, afetando a saúde mental, até episódios de violência (agressões físicas, homicídios e suicídios), contribuindo de forma significativamente prejudicial para a relação afetiva. O indivíduo ciumento vive um amor possessivo, por medo ou ameaça de perder a pessoa amada.

Existem dois aspectos centrais do ciúme (Buss, 2000): o risco de perder o parceiro e a presença de uma terceira pessoa, sendo que o comportamento do ciumento é motivado no sentido de contrariar essa ameaça. Neste sentido, o ciúme consiste numa emoção negativa, uma vez que causa dor psicológica, e em excesso pode transformar as relações em “pesadelos infernais”.

O ciúme patológico é uma perturbação afetiva grave, que desgasta e destrói as relações e os sentimentos, onde o indivíduo se sente ameaçado constantemente (Cavalcante, 1997). Nestas situações, o relacionamento tem por base o sentido de posse e poder, não dando espaço para a confiança e o amor se instalarem, tornando-se angustiantes e com intensa carga emocional negativa. No ciúme patológico existe um grande desejo de controlar os sentimentos e o comportamento do parceiro, há também preocupações excessivas sobre relacionamentos anteriores, ou seja, ciúme do passado dos parceiros, podendo ocorrer daí pensamentos repetitivos e imagens intrusivas; envolve várias emoções, pensamentos irracionais e perturbadores, dúvidas e ruminações sobre provas inconclusivas, ideias obsessivas, ou delirantes sobre a infidelidade, busca de evidências que confirmem a suspeita, e comportamentos inaceitáveis ou bizarros.

Esta perturbação manifesta-se através de sentimentos como: ansiedade, culpa, raiva, sentimento de inferioridade, depressão, remorsos, humilhação, insegurança, vergonha, rejeição, rituais de verificação, desejo de vingança, angústia, sentimento de posse, baixa auto-estima, medo intenso de perder o parceiro, desconfiança excessiva e infundada, contribuindo para o negativo funcionamento pessoal e interpessoal da pessoa ciumenta (Cavalcante, 1997; Torres et al., 1999). O ciúme patológico pode levar a comportamentos compulsivos, como os de o (ex.: interrogatórios, inúmeros telefonemas, visitas surpresas, vasculhar bolsos, carteira, telemóvel, agendas, ouvir telefonemas, seguir o parceiro, abrir correspondências, etc.), caracterizados por dúvidas e ruminações sobre provas inconclusivas, na busca constante de evidências que confirmem ou afastem a suspeita (Torres et al.,1999).

Fonte: www.anadurao.pt

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